terça-feira, 11 de agosto de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) No Bairro Alto, a lua vislumbra-se entre edifícios altos que, ininterruptamente, rasgam o céu. Em certas ruas, mais amplas, é até possível decifrá-la, solitária, sem estrelas à volta, que nas cidades com gente e luz em excesso não se dá conta do brilho dos outros astros. Os pequenos pontos que, em terras de ruralidade, dão graça ao céu negro não se permitem ver nas urbes, sempre bastante alumiadas. Nuvens também não as há. A noite é de lua cheia.

Nas vielas que encobrem a ténue luz municipal apenas se avistam sombras que passam apressadas. Outras, menos atrasadas para os seus boémios encontros, seguem com mais vagar. Todas, porém, transportam um copo na mão, quase sempre de cerveja, aqui e acolá um gin tónico, escolha de uma personalidade mais excêntrica. Talvez o diretor criativo de uma agência de publicidade ou uma atriz. Por vezes, arrisca-se um copo de vinho. Que elegante! As delicadas mãos que o seguram deverão ser de uma pintora. Ou de um dramaturgo, quem sabe. De uma cardiologista, não? Cabe o mundo no Bairro Alto. Cabe todo o álcool do mundo no Bairro Alto. E cabe ainda quase todo o ódio do mundo no Bairro Alto.

Não só a lua cheia se fez convidada naquela amena noite na capital. Um grupo de jovens carecas vestidos de preto e munidos de tacos de basebol, soqueiras e navalhas movimenta-se, ruidosamente e em matilha, rua abaixo, rua acima, estacando apenas quando o depósito de combustível acende a luz da reserva. Aí, enchem-no com cerveja, desaparecendo a luz do tanque vazio, permanecendo acesa aquela que sinaliza o ódio que vive confortavelmente nos seus corações.

Ouvem-se ao longe. As botas que calçam fazem estremecer a já matraqueada calçada alfacinha. Quem os vê aproximar muda de faixa. Os que não têm tempo para o fazer encostam-se à parede, fingindo nada ver e até apreciar a marcha. Alguns impropérios - bastante tímidos - são arremessados, mas ao longe, com pouca se não nenhuma eficácia. O bando de jovens carecas não lhes dá importância, ignoram, procuram caça grossa, não um grupo de bêbados com ar de quem habita as melhores casas da Estrela e da Lapa.

Betos!

Grita um dos carecas, revelando os seus bonitos e saudáveis dentes, orgulhoso de verbalizar perante o grupo informação que destapa o seu conhecimento relativo à demografia lisboeta. Como se exige a um feroz nacionalista nascido na capital. Outro, de discurso não tão elevado, ou pouco importado com a riqueza lexical àquela hora da noite, prefere identificar o alvo, excluindo o resto da existência humana:

Hoje é só pretos! (...)"

Foi o preto
Ângelo Delgado
Oficina do Livro (2026)

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