quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Palavras bonitas

EIS-NOS AQUI

Eis-nos aqui, sentados à lareira
Do desespero.
O borralho ideal vai-se apagando,
Enquanto o vento da realidade
Sopra lá fora.
É esta a nossa hora
De amor
Ou de traição?
Porque fechamos todas as portas
Do coração,
Entanguidos de frio e de terror?
Se o temporal entrasse,
Talvez a labareda se ateasse
E nos desse calor ...

Cântico do Homem
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1974)

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Mensagem para 2009

Do meu cantinho, quero pedir-te que sejas um bom ano, melhor que o teu antecessor.
Mas se acaso te portares pior, não magoes muito ... a Casa agradece!

domingo, 21 de dezembro de 2008

Palavras bonitas

Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.
E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!
Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida ...
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.
Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
Ó calor destas mãos nos meus dedos tão frios!
Acende-se de novo o Presépio nas almas.
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.

Obra Poética 1948-1988
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)

Terminando um ciclo de 32 anos sem interrupção, o Natal da Casa deslocaliza-se, sem qualquer outro motivo que não seja a passagem do testemunho, natural, de acordo com as leis inexoráveis do tempo.
Neste ano, festejaremos na casa do meu "grego", que regressa para uma visita "de médico".
BOM NATAL PARA TODOS.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Palavras bonitas

XXVI

E se de repente rompesse das ondas
uma deusa verde
com algas nos seios,
olhos de espuma,
graça de peixe
e uma estrela-do-mar
nos cabelos de sol
molhados de música?

Ah! não me espantava.

O que me espanta
é este mar sujo, negro, vil,
sem imaginação de ninfas.

Poeta Militante - 1º Volume
José Gomes Ferreira
Moraes Editores (1977)

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Inverno


Apesar da chuva e do frio que ontem "deliciaram" os nossos ossos, ainda foi possível, pelos olhos da dona da Casa, ver a luz da Foz, as ondas nas rochas da Junceira e o arco-íris a mergulhar na fronteira "onde a terra acaba e o mar começa."

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

SKYPE

Como é habitual, o período que medeia entre a chegada a casa e o jantar ( frugal, como convém a quem procura diminuir o peso que a "velha" coluna transporta) é dedicado ao contacto com os da Casa que por cá não estão.
Do longe se faz tão perto ... e eis-nos a conversar, olhos nos olhos, quebrando as distâncias e diminuindo as saudades, num triângulo, enorme, que tem um vértice na Grécia, outro em Lisboa e o último por aqui, onde tudo começou, numa ligação perfeitamente assegurada, em som e imagem, pelo Skype.
No rodapé, uma informação em letras pequenas: 14.181.806 pessoas online.
Tomei nota do número, para o qual eu e os meus contribuíamos, mas que pecava por defeito. Era certo e sabido que, tal como na minha, na maioria das conversas os participantes eram bem mais do que os dois computadores que eram levados em conta.
Um "mar" de gente à conversa, no mundo inteiro ... sobre tudo!!
E a pergunta surge: quantas preocupações se evitam com esta maravilha?

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Crise (5)

Nos recentes desenvolvimentos da crise financeira têm aparecido vozes importantes, daquelas que fazem e têm opinião sobre tudo e sobre nada, a pedir a "cabeça" do Governador do Banco de Portugal e a justificar os acontecimentos no BCP e no BPN com a legislação fraca ou inexistente.

Pretenderão legitimar o "criminoso" mandando prender o "polícia"?

Bem a propósito, três quadras de António Aleixo (1899-1949), poeta popular algarvio, quase analfabeto.

Vem da serra um infeliz
vender sêmea por farinha:
Passado tempo já diz:
- Esta rua é toda minha.

Deixam-me sempre confuso
as tuas palavras boas,
por não te ver fazer uso
dessa moral que apregoas.

És um rapaz instruído,
És um doutor; em resumo:
És um limão, que espremido,
Não dá caroços nem sumo.

Este livro que vos deixo
António Aleixo
Vitalino Martins Aleixo (1975)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Barack Obama

Adormeci convencido de que iria haver mudança histórica que, uma vez mais, tenho o privilégio de (vi)ver.
Acordei com a rádio a noticiar: Obama eleito Presidente dos United States of America.
O sonho de Martin Luther King, a perseverança de Nelson Mandela, o querer de muitos, a esperança de inúmeros, a expectativa de quase todos, concentrada numa cabeça que, à partida, parece arejada e consistente, contrastando com a de um cowboy insolente, beligerante, demagogo e mentiroso.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Crise (4)

O que se aguardava há muito, aconteceu ...
Depois de alguns anos fora da legalidade, do mercado, do razoável, da realidade, do decoro, da concorrência fazendo dos outros lorpas, comprando a dez para vender por cinco, caiu sem estrondo nem ferimentos.
A queda estava anunciada e a "Protecção Civil" tinha desencadeado os mecanismos de "alerta vermelho", preparando o colchão com a "espuma" de todos nós!
Só nos resta aguardar que a CGD faça a digestão do BPN tão bem como fez do BNU e que os "sais de frutos" não nos saiam muito caros ...
Espera-se, ainda, que o Decreto que há-de aprovar a nacionalização anunciada contemple a quantidade de maços de cigarros que os futuros detidos terão direito a receber ...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Preocupação

Afiei o lápis e peguei numa das muitas folhas que pairam sobre a secretária.
(adoro escrever com um lápis bem afiado)
Comecei a escrever sobre uma figura que faz parte das memórias da minha juventude.
A ideia era interessante, estava estruturada na "pinha" e o "figurão" reunia todas as "qualidades" para uma estória bem temperada.
Rasguei e deitei para o lixo.
Não tenho esse direito ... há coisas que não se partilham, por respeito.
Sem a partilha da estória, fica um apontamento da realidade de hoje, no trabalho, ouvida da boca de um pai, perto dos 70, ainda preocupado com a situação do filho quarentão:
" Não me leve a mal e entenda: gosto de dormir sossegado para acordar tranquilo".