terça-feira, 21 de abril de 2009

Livros (lidos ou em vias disso)

Numa época em que tão maltratada é a nossa língua, um pequeno exemplo de como é possível, com a arte de quem sabe, pintar um retrato com o óleo das palavras:

"... Era o nosso mesmo quartel-mestre da véspera, com o seu quê de sargento e de arrais, brutamontes quando imóvel, desengonçado a andar, olhos pequenos e muito negros inseridos à verruma no rosto de largos planos, descerrando uma acuidade suspeitosa quando fitavam. Tinha uma larga e peluda manápula, dedos grossos, patorra comprida e achatada, quase barbatana, como é próprio dum lobo do mar. Primava pela barba turca, tão retinta que, depois de escanhoado, quedava a salpicar-lhe a tez uma escumilha de azeviche que nem vaporizada à pistola. Pois que fora marítimo quando moço, resultara daí conservar maneiras assimétricas e a brusquidão de quem medrara sobre o balancé dos saveiros e ao encontrão dos homens das companhas. Por outra, nada mais natural que a forma mal esfalcada do tronco e toda a sua rudeza primitiva espirrassem dos alinhavos brancos do latim e das letras que assimilara tão de afogadilho..."

Um escritor confessa-se
Aquilino Ribeiro
Bertrand (2008)

sábado, 11 de abril de 2009

Palavras bonitas

MÁQUINA DO MUNDO

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta da nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975)

P.S. - No rescaldo da visita à Turquia, a constatação, de novo, de que somos todos iguais, com as diferenças de cada um.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Férias

Vou pôr as baterias à carga e ver como vivem os turcos ...
Volto já, para as amêndoas !!!

sexta-feira, 27 de março de 2009

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Razões afins levarão um dia a que, no algarve, como alguém terá o cuidado de escrever, toda a praia que se preze, não é praia mas é beach, qualquer pescador fisherman, tanto faz prezar-se como não, e se de aldeamentos turísticos, em vez de aldeias, se trata, fiquemos sabendo que é mais aceite holiday's village, ou village de vacances, ou ferienorte. Chega-se ao cúmulo de não haver nome para loja de modas, porque ela é, numa espécie de português por adopção, boutique, e, necessariamente, fashion shop em inglês, menos necessariamente modes em francês, e francamente modedeschäft em alemão. Uma sapataria apresenta-se como shoes e não se fala mais nisso. E se o viajante pudesse catar, como quem cata piolhos, nomes de bares e buates, quando chegasse a sines ainda iria nas primeiras letras do alfabeto. Tão desprezado este na lusitana arrumação que do algarve se pode dizer, nestas épocas em que descem os civilizados à barbárie, ser ele a terra do português tal qual se cala. (...)"

A viagem do elefante
José Saramago
Caminho (2008)

quarta-feira, 25 de março de 2009

Assembleia da República

A Assembleia da República passa a ser, a partir de hoje, o Parlamento com a Sala Plenária mais moderna do mundo, na sequência de uma remodelação que custou cerca de 4 milhões de euros.
Para além do orgulho que sentimos por termos algo (para além do Cristiano Ronaldo) que é mais do mundo, estamos certos que o investimento tecnológico contará, entre as suas aplicações, com um corrector ortográfico/gramatical que irá ajudar os nossos deputados na redacção das leis, impedindo, desta forma, que o Procurador da República volte a sentir autoridade para lhes dar algumas "palmatoadas".

domingo, 22 de março de 2009

Premonição ou falta de rigor


O Expresso desta semana noticia que a Bordalo Pinheiro está quase vendida, informando que a Visabeira deverá "salvar da falência um dos ex-libris das Caldas da Rainha", o que transmite alguma esperança de continuarmos a ter, na cidade, o fabrico dos "bonecos" de Rafael Bordalo Pinheiro.
Contudo, a meio da notícia, ressalta uma nova fonte de preocupação, motivada pela frase " O presidente da Câmara Municipal de Óbidos, Fernando José da Costa, apenas sabe que estão a decorrer negociações."
Estará iminente a transferência de Fernando Costa para Óbidos? A Bordalo seguirá o exemplo da Janela e instalar-se-á no novo parque industrial de Óbidos?
Estou convicto que a gralha pousou no Expresso, talvez motivada pelo matraquear do marketing obidense.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Adágios

Do quotidiano:

  • "Bem prega Frei Tomás! Faz sempre como ele diz, nunca como ele faz!"

  • "Presunção e água benta, cada um toma a que quer!"

  • "Não peças a quem pediu nem sirvas a quem serviu."

segunda-feira, 2 de março de 2009

Palavras bonitas

DESPEDIDA

Volto-me e são brancos
os cavalos.
O trigo novo, a música
dos nomes, o tempo da flor,
tudo isso passou.
Mas a terra brilha
como quem não conhece a morte.
Volto-me, os pombos regressam.
Tu já não estavas
e só eu
os vi chegar.

Poesia
Eugénio de Andrade
Fund. Eugénio de Andrade (2005)

domingo, 1 de março de 2009

Fim de semana

Está a acabar mais um, já com cheiro à Primavera, que Março trará consigo lá mais para o final.

Na sexta, após algumas dificuldades para parquear o meio de transporte, e uma descida tão rápida quanto permitia o risco de queda pela Calçada do Lavra ( o elevador está parado), mais um concerto de Bethânia, com o Coliseu "cheinho que nem um ovo". Elegante, mística, crente, preocupada, delicada, uma Senhora!

No sábado, na mesa de uma "tasca" na Maiorga, perto de Alcobaça, um galo guizado saboreado na companhia de bons amigos. Ao final da tarde, a chegada do neto, que por aqui (en)cantou até se saberem as (boas) notícias desportivas da Grécia.

Para não perder o treino, mais uma semana vai começar ... com o tempo ...


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Palavras bonitas

PERSPECTIVA
 
Olho a sebe de versos que plantei
Ao longo do caminho dos meus dias:
Tristezas e alegrias Enlaçadas
Como irmãs vegetais. Silvas e alecrim ...
O pior e o melhor que havia em mim,
Num abraço de arbustos fraternais.
Nada quero mudar dessa harmonia
De agruras e doçuras misturadas.
Pasmo é de ver a estranha maravilha.
Poeta que partilha
O coração magoado
Por presentes e opostas emoções,
Contemplo, deslumbrado,
O renque de vivências do passado,
Longo poema sem contradições.

Câmara Ardente
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1995)