sexta-feira, 2 de março de 2012

Palavras bonitas

CLARO-ESCURO

Dia da vida,
Noite da morte ...
O verso
e o reverso
da medalha.
E não há desespero que nos valha,
nem crença,
nem descrença,
nem filosofia.
Esta brutalidade, e nada mais:
Sol e sombra - o binómio dos mortais.
Só que o sol vem primeiro,
e a sombra depois ...
E à luz do sol é tudo o que sabemos:
Juventude,
beleza,
poesia,
e amor
- Amargo fruto que na sepultura,
em vez de apodrecer, ganha doçura.

Orfeu Rebelde
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1992)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Quotidiano

No princípio da noite de sexta-feira aconteceu o "abraço ao hospital".
Não consegui participar.
O regresso da capital foi tardio e havia bilhetes para o CCC, onde Eunice Munoz e Maria José Paschoal iriam representar O cerco a Leningrado, de José Sanchis Sinisterra.
Por estranho que possa parecer, há alguma similitude entre os dois acontecimentos: na peça, Natália e Teresa são duas mulheres que vivem num velho teatro, lutando contra a sua anunciada demolição; no "abraço ao hospital", cerca de 3.000 pessoas (segundo me contaram), tentam fazer-se ouvir, protestando contra o anunciado propósito de transferir valências hospitalares importantes, das Caldas da Rainha para Torres Vedras.
A pouco e pouco, a cidade percorre o caminho, trágico, da "demolição", como o velho teatro de Leningrado.
Quando olharmos com atenção, a cerâmica já terá desaparecido, o comércio seguiu-lhe as pisadas, o comboio deixou de vir, o hospital perdeu as valências, o CCC manterá o ar condicionado avariado (ou desligado?), as ruas continuarão sujas, pouco iluminadas e esburacadas, as obras da lagoa terão chegado ao fim sem resolver o problema, não aparecerá a criança que grite "o rei vai nu"...
Valha-me o meu neto mais velho, que já lê correctamente!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Tributo a Zeca Afonso

Já lá vão 25 anos, um quarto de século, cinco lustres, uma geração ...
Zeca continua a inspirar novos músicos, novos sons, novas utopias.
A qualidade é eterna ... e a paciência, uma virtude.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Livros (lidos ou em vias disso)

Em 1986 José Saramago romanceou uma hipotética fractura nos Pirenéus, que colocou a Península Ibérica a navegar no Atlântico, num afastamento inesperado, surpreendente e contínuo, do continente europeu.

Já pouco recordava do livro, que devo ter lido à pressa, mas havia qualquer coisa que me ordenava voltar a ele. Vou a meio e acabei de degustar ( a Natália Correia dizia aos subalimentados do sonho que a poesia era para comer) o discurso aos portugueses feito pelo primeiro-ministro criado pelo Nobel.

"(...) Portugueses, durante os últimos dias, com súbita intensificação nas últimas vinte e quatro horas, tem vindo o nosso país a ser alvo de pressões, que sem exagero poderei classificar de inadmissíveis, provenientes de quase todos os países europeus onde, como é sabido, se têm verificado sérias alterações da ordem pública, que se viram subitamente agravadas, sem qualquer responsabilidade nossa, pela descida à rua de grandes massas de manifestantes que, de maneira entusiástica, quiseram exprimir a sua solidariedade com os países e povos da península, o que veio evidenciar uma grave contradição em que se debatem os governos da Europa, a que já não pertencemos, diante dos profundos movimentos sociais e culturais desses países, que vêem na aventura histórica em que nos achamos lançados a promessa de um futuro mais feliz e, para tudo dizer em poucas palavras, a esperança de um rejuvenescimento da humanidade. Ora, esses governos, em vez de nos apoiarem, como seria demonstração de elementar humanidade e duma consciência cultural efectivamente europeia, decidiram tornar-nos em bodes expiatórios das suas dificuldades internas, intimando-nos absurdamente a deter a deriva da península, ainda que, com mais propriedade e respeito pelos factos, lhe devessem ter chamado navegação. Esta atitude é tanto mais lamentável quanto é sabido que em cada hora que passa nos afastamos setecentos e cinquenta metros do que são agora as costas ocidentais da Europa, sendo os governos europeus, que no passado nunca verdadeiramente mostraram querer-nos consigo, vêm agora intimar-nos a fazer o que no fundo não desejam e, ainda por cima, sabem não nos ser possível."(...)

A jangada de pedra
José Saramago
Caminho (1994)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Whitney Houston

Mais uma grande voz para recordar ...
Partiu ontem, sem sequer chegar ao meio século.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Notícias

  • O Presidente da República não ganha para as despesas.

  • Vamos passar a trabalhar no 5 de Outubro, para não nos lembrarmos da República.

  • A pedido expresso (recebido via mail do além) de Miguel de Vasconcelos, o 1º de Dezembro deixa de ser feriado.
Sugestões:

  • O Governo poderia trocar o 1º de Dezembro pelo Dia de Reis. Matavam-se dois coelhos com uma só cajadada - ficávamos como Espanha e comemorávamos o Gaspar !!!

  • Cavaco devia exigir que o Governo decretasse a alteração dos dias para 48 horas. Melhorava a produtividade, as reformas já chegariam para as despesas, diminuiria o consumo da energia, por haver luz solar durante 24 horas e o mandato do PR acabaria mais depressa.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Palavras bonitas

Por cousas que nam têm cura
hei por mor desaventura
qualquer dia que me vem,
nem desejo nenhum bem
por nam ver quam pouco dura.
Ditoso de quem viver
livre, fora d'esperança,
digo eu sem no saber.
coitado de quem alcança
ganhá-la para a perder.
Pois tudo tam pouco dura,
seguro que nam segura
nam no quero de ninguém
nem desejo nenhum bem
com despreços de mestura. 
 
Rosa do Mundo
João de Meneses (1514 ?)
Assírio & Alvim (2001)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Acordo ortográfico

O meu amigo E.R. eliminou a distância que separa a Encarnação das Caldas e enviou-me este maravilhoso texto, que não resisto a partilhar e a "arquivar" no blog, para que os meus netos, um dia, saibam que houve alguns que resistiram ...

Quando eu escrevo a palavra acção, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o C na pretensão de me ensinar a nova grafia.
De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa.
Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim.
São muitos anos de convívio.
Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes CCC's e PPP's me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância.
Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora:  - não te esqueças de mim!
Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí.
E agora as palavras já nem parecem as mesmas.
O que é ser proativo?
Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.
Depois há os intrusos, sobretudo o R, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato.
Caíram hifenes e entraram RRR's que andavam errantes.
É uma união de facto, e  para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem.
Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os EEE's passaram a ser gémeos, nenhum usa ( ^^^) chapéu.
E os meses perderam importância e dignidade; não havia motivo para terem privilégios. Assim, temos  janeiro, fevereiro, março, são tão importantes como peixe, flor, avião.
Não sei se estou a ser suscetível, mas sem P, algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham.
As palavras transformam-nos.
Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos.
Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do C não me faça perder a direção, nem me fracione, e nem quero tropeçar em algum objeto.
Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um C a atrapalhar.
Só não percebo porque é que temos que ser NÓS a alterar a escrita, se a LÍNGUA É NOSSA ...? ! ? ! 


Os ingleses não o fizeram, os franceses desde 1700 que não mexem na sua língua e porquê nós ?
Será que não pudemos, com a ajuda da troika, recuperar do deficit na nossa língua ?
 

Ou atão deichemos que os 35 por cento de anal fabetos fassão com que a nova ortografia imponha se bué depréça !

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Quotidiano

Hoje, no consultório do otorrino.
- Ladrões! Tiraram-me 62 euros da reforma, agora recebo 213. Mas lá na Assembleia continua a haver quem ganhe 5.000 e mais!
Podia lá ser! As dúvidas levantadas, apenas com os esgares dos rostos, forçaram a explicação mais pormenorizada.
- Pus uma pilha aos 43 anos e fui reformado por invalidez. Passado algum tempo, melhorei e consegui emprego no Estado, como pedreiro. 'tive lá 10 anos, a pilha não deu para mais. Tenho 40 anos de descontos e 65 de idade. Recebo duas reformas, uma da previdência e outra do Estado,  que somavam 495 euros. Roubaram-me 62 de uma delas.
A esposa põe "água na fervura".
- Deixa lá, haja saúde! O que vale é a horta, mas já me vai faltando a força ...
Pela consulta e pelos medicamentos despendi um valor quase igual ao que descontaram ao homem que zurziu o Governo com toda a energia que a pilha lhe permitiu, exprimindo a sua indignação aos circunstantes.
Já vai faltando a força à mulher, a pilha já não dá energia suficiente ao homem, a reforma abandona-os aos poucos, que país estamos a (des)construir?

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Ano Novo

Está a acabar!
Com a "troika", a diminuição do fogo de artifício na passagem, a redução do subsídio de Natal, a demissão de Sócrates, a ascensão de Passos, a passividade de Cavaco, o apuramento da selecção, "com tranquilidade", a dívida, o défice, as privatizações, o BPN, o Lima e o Loureiro, os chineses, os alemães, os franceses, os gregos, os irlandeses, (parece a cantilena da primária, com os Vândalos, os Suevos e os Alanos), está a dar as últimas, como acontece desde que existe o calendário com esta configuaração.
Vem aí o Novo, que será bom se se cumprirem os desejos de todos para todos, será assim assim para alguns, péssimo para muitos e óptimo para um número reduzido de vivaços. Trará o novo acordo ortográfico (vamos lá a ver se me habituo) e a crise, a sério. 
Cá estaremos para a enfrentar, com a ajuda daqueles que, durante estes anos de fartura, encheram o baú, para, agora, solidários, redistribuir. Das poupanças que essa gente cautelosa fez, beneficiará agora esse conjunto de gastadores que não pensaram no futuro e gastaram à tripa forra ...
Tal como antigamente, se não existisse gente que de nós tomasse conta, onde iríamos parar!
Bom Ano para todos! 
2012 vai ser ótimo!!!!