quarta-feira, 21 de março de 2012

Palavras bonitas

P A I S A G E M

Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exaltação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

Poesia
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2005)

F O L H I N H A

Murchou a flor aberta ao sol do tempo.
Assim tinha de ser, neste renovo
Quotidiano.
Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume.
O gume
Do cansaço
Vai ceifando,
E o braço
Doutro sonho
Semeando.
É essa a eternidade:
A permanente rendição da vida.

Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume,
E o lume
De não sei que ilusão a arder no cume
De não sei que expressão nunca atingida.

Orfeu Rebelde
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1922)

R I C O C H E T E

Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?

Que paralelas partidas
Nos articulam os braços
Em formas interrompidas
Para encarnar um espaço?

Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
Por onde o Firmamento
E a Terra se unem na lua?

Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
Que num soluço suspenso
Chora flores dentro de nós?

Que sereia é o poente,
Metade não sei de quê
A pentear-se com o pente
Do olhar finito que o vê?

Que medida é o tamanho
De estar sentado ou de pé?
Que contraste torna estranho
Um corpo à alma que é?

O Sol nas noites e o luar nos dias
Natália Correia
Círculo de Leitores (1993)

D U N A S

É o mar do deserto, ondulação
Sem fim das dunas,
Onde dormir, onde estender o corpo
Sobre outro corpo, o peito vasto,
As pernas finas, longas,
As nádegas rijas, colinas
Sucessivas onde o vento
Demora os dedos, e as cabras
Passam, e o pastor
Sonha oásis perto,
E o verde das palmeiras se levanta
Até à nossa boca, até à nossa alma
Com sede de outras dunas,
Onde o corpo do amor
Seja por fim um gole de água.

O sal da língua
Eugénio de Andrade
APEL (2001)

sábado, 10 de março de 2012

Estórias

MOTE, EM NOTÍCIA

O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, acusa José Sócrates de deslealdade política, no prefácio de mais um livro dos seus discursos. A acusação, feita em termos bastante violentos, é justificada por o antigo Primeiro-Ministro não ter dado conhecimento antecipado ao PR do conteúdo do PEC IV. Os factos passaram-se há mais de um ano, o PR não fez qualquer comentário público a tão grave desconsideração e não demitiu o então chefe do Governo.

GLOSA, EM FICÇÃO

No silêncio desconfortável do Palácio de Belém, na longa noite de insónia às voltas na mesma cama, Aníbal inicia um curioso diálogo com Maria:

- Há muitos anos, quando eu era chefe de turma na escola secundária de Boliqueime, um rapaz chamado José qualquer coisa - olha, não me lembro do apelido, tinha a ver com filosofia, Grécia, não, Grécia, Grécia, não, nós não somos gregos nem queremos ser como eles ...

- Deixa-te de entretantos e vai aos finalmente, para ver se me dá o sono ...

- ... Segismundo, Séneca, Scarlatti, que confusão, bem, não interessa, o rapaz, dizia eu, fez uma redacção e entregou-a ao professor sem ma mostrar, a mim, que era o chefe da turma.

- E tu, que fizeste?

- Nada. Aguardei que o tempo me fizesse justiça. E assim foi!
 
- ?!?!

- Pois! Passado muito tempo, voltei a encontrá-lo e escrevi no quadro:

- " Mamã, este menino bateu-me!"

- Ó Aníbal, que dizes tu? Dorme, que o teu mal é sono.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Aniversário

A minha irmã fez hoje anos. Não digo quantos, mas asseguro que são pouco mais de 30 ..., bem conservados!
A "rede" proporciona-nos um manancial de coisas boas (e também algumas más). O som não é famoso, mas a voz e a música estão lá para serem digeridos por quem tem tempo ..., com a curiosidade de a gravação ter sido efectuada no já longínquo ano de 1949.


sexta-feira, 2 de março de 2012

Palavras bonitas

CLARO-ESCURO

Dia da vida,
Noite da morte ...
O verso
e o reverso
da medalha.
E não há desespero que nos valha,
nem crença,
nem descrença,
nem filosofia.
Esta brutalidade, e nada mais:
Sol e sombra - o binómio dos mortais.
Só que o sol vem primeiro,
e a sombra depois ...
E à luz do sol é tudo o que sabemos:
Juventude,
beleza,
poesia,
e amor
- Amargo fruto que na sepultura,
em vez de apodrecer, ganha doçura.

Orfeu Rebelde
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1992)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Quotidiano

No princípio da noite de sexta-feira aconteceu o "abraço ao hospital".
Não consegui participar.
O regresso da capital foi tardio e havia bilhetes para o CCC, onde Eunice Munoz e Maria José Paschoal iriam representar O cerco a Leningrado, de José Sanchis Sinisterra.
Por estranho que possa parecer, há alguma similitude entre os dois acontecimentos: na peça, Natália e Teresa são duas mulheres que vivem num velho teatro, lutando contra a sua anunciada demolição; no "abraço ao hospital", cerca de 3.000 pessoas (segundo me contaram), tentam fazer-se ouvir, protestando contra o anunciado propósito de transferir valências hospitalares importantes, das Caldas da Rainha para Torres Vedras.
A pouco e pouco, a cidade percorre o caminho, trágico, da "demolição", como o velho teatro de Leningrado.
Quando olharmos com atenção, a cerâmica já terá desaparecido, o comércio seguiu-lhe as pisadas, o comboio deixou de vir, o hospital perdeu as valências, o CCC manterá o ar condicionado avariado (ou desligado?), as ruas continuarão sujas, pouco iluminadas e esburacadas, as obras da lagoa terão chegado ao fim sem resolver o problema, não aparecerá a criança que grite "o rei vai nu"...
Valha-me o meu neto mais velho, que já lê correctamente!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Tributo a Zeca Afonso

Já lá vão 25 anos, um quarto de século, cinco lustres, uma geração ...
Zeca continua a inspirar novos músicos, novos sons, novas utopias.
A qualidade é eterna ... e a paciência, uma virtude.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Livros (lidos ou em vias disso)

Em 1986 José Saramago romanceou uma hipotética fractura nos Pirenéus, que colocou a Península Ibérica a navegar no Atlântico, num afastamento inesperado, surpreendente e contínuo, do continente europeu.

Já pouco recordava do livro, que devo ter lido à pressa, mas havia qualquer coisa que me ordenava voltar a ele. Vou a meio e acabei de degustar ( a Natália Correia dizia aos subalimentados do sonho que a poesia era para comer) o discurso aos portugueses feito pelo primeiro-ministro criado pelo Nobel.

"(...) Portugueses, durante os últimos dias, com súbita intensificação nas últimas vinte e quatro horas, tem vindo o nosso país a ser alvo de pressões, que sem exagero poderei classificar de inadmissíveis, provenientes de quase todos os países europeus onde, como é sabido, se têm verificado sérias alterações da ordem pública, que se viram subitamente agravadas, sem qualquer responsabilidade nossa, pela descida à rua de grandes massas de manifestantes que, de maneira entusiástica, quiseram exprimir a sua solidariedade com os países e povos da península, o que veio evidenciar uma grave contradição em que se debatem os governos da Europa, a que já não pertencemos, diante dos profundos movimentos sociais e culturais desses países, que vêem na aventura histórica em que nos achamos lançados a promessa de um futuro mais feliz e, para tudo dizer em poucas palavras, a esperança de um rejuvenescimento da humanidade. Ora, esses governos, em vez de nos apoiarem, como seria demonstração de elementar humanidade e duma consciência cultural efectivamente europeia, decidiram tornar-nos em bodes expiatórios das suas dificuldades internas, intimando-nos absurdamente a deter a deriva da península, ainda que, com mais propriedade e respeito pelos factos, lhe devessem ter chamado navegação. Esta atitude é tanto mais lamentável quanto é sabido que em cada hora que passa nos afastamos setecentos e cinquenta metros do que são agora as costas ocidentais da Europa, sendo os governos europeus, que no passado nunca verdadeiramente mostraram querer-nos consigo, vêm agora intimar-nos a fazer o que no fundo não desejam e, ainda por cima, sabem não nos ser possível."(...)

A jangada de pedra
José Saramago
Caminho (1994)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Whitney Houston

Mais uma grande voz para recordar ...
Partiu ontem, sem sequer chegar ao meio século.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Notícias

  • O Presidente da República não ganha para as despesas.

  • Vamos passar a trabalhar no 5 de Outubro, para não nos lembrarmos da República.

  • A pedido expresso (recebido via mail do além) de Miguel de Vasconcelos, o 1º de Dezembro deixa de ser feriado.
Sugestões:

  • O Governo poderia trocar o 1º de Dezembro pelo Dia de Reis. Matavam-se dois coelhos com uma só cajadada - ficávamos como Espanha e comemorávamos o Gaspar !!!

  • Cavaco devia exigir que o Governo decretasse a alteração dos dias para 48 horas. Melhorava a produtividade, as reformas já chegariam para as despesas, diminuiria o consumo da energia, por haver luz solar durante 24 horas e o mandato do PR acabaria mais depressa.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Palavras bonitas

Por cousas que nam têm cura
hei por mor desaventura
qualquer dia que me vem,
nem desejo nenhum bem
por nam ver quam pouco dura.
Ditoso de quem viver
livre, fora d'esperança,
digo eu sem no saber.
coitado de quem alcança
ganhá-la para a perder.
Pois tudo tam pouco dura,
seguro que nam segura
nam no quero de ninguém
nem desejo nenhum bem
com despreços de mestura. 
 
Rosa do Mundo
João de Meneses (1514 ?)
Assírio & Alvim (2001)