sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Crise

Recado para o país, surgido das imediações do Palácio de Belém, na noite em que o Conselho de Estado está reunido para aconselhar o Presidente da República.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Data

Um papel sem data não vale nada ...

Jovem escriturário numa grande (à época) casa agrícola da região oeste, marquei no cartório notarial a escritura de venda de uma pequena courela que, sendo da casa, se encontrava encravada entre dois talhos que lhe não pertenciam, não tendo qualquer hipótese de exploração com um mínimo de rentabilidade.

No dia aprazado para o "solene" acto e de acordo com as indicações que tinha, deixei um recado, em papel grande e com letra de imprensa, na mesa que a isso estava destinada. Dizia mais ou menos o seguinte:

"Senhor F..., agradeço que esteja no cartório notarial às 12H00, para assinar a escritura da Lameira. Obrigado. O"

Fui à minha vida, verificar se estava tudo em condições e tratar de alguma imponderável de última hora que surgisse.

A pontualidade era uma norma da casa, cumprida escrupulosamente por toda a gente, do empregado mais humilde ao patrão, que detestava atrasos e ficava de "cabelos em pé" quando alguém se atrasava, incluindo ele próprio. Estranhou-se, por isso, que às 12H00, o outorgante mais importante não estivesse ainda presente.

Cinco, dez, quinze minutos e nada! O notário já desesperava e o ajudante do dito via a sua hora de almoço comprometida.

Os telemóveis ainda nem em projecto existiam e o telefone do cartório não era para uso público.

Embaraçado e sem saber o que fazer, pedi ao notário para, violando a regra, me deixar telefonar para a quinta. 

O último dos cinco números mal tinha acabado de regressar à posição inicial do disco e a voz surgia do outro lado:

- Sim!?
- Senhor F..., estamos todos à sua espera ...
- De mim, para quê?
- Para a escritura da Lameira, respondi, percebendo que qualquer coisa não tinha corrido bem.
- Deixei um papel escrito, em cima da mesa da sala ...
- Vi e li. Não tinha data, não adivinhava que era para hoje. Vou já para aí!

Passaram mais de quarenta anos. Ainda hoje, em qualquer situação, coloco sempre, mas sempre, a data. Para não ter surpresas ...

sábado, 15 de setembro de 2012

Palavras bonitas

No dia em que milhares de pessoas manifestaram o seu repúdio pelas "folhas de excel" que nos governam, é bom recordar palavras antigas, de um tempo que se quer antigo e sem retorno.

DE PORTA EM PORTA

- Quem? O infinito?
Diz-lhe que entre.
Faz bem ao infinito
estar entre gente.

- Uma esmola? Coxeia?
Ao que ele chegou!
Podes dar-lhe a bengala
que era do avô.

- Dinheiro? Isso não!
Já sei, pobrezinho,
que em vez de pão
ia comprar vinho ...

- Teima? Que topete!
Quem se julga ele
se um tigre acabou
nesta sala em tapete?

- Para ir ver a mãe?
Essa é muito forte!
Ela não tem mãe
e não é do Norte ...

- Vítima de quê?
O dito está dito.
Se não tinha estofo
quem o mandou ser infinito?
Tomai lá uma antologia
Alexandre O'Neill
Círculo de Leitores (1986)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Crise

Ao contrário do que dizem por aí as vozes desestabilizadoras da tranquilidade do País, o Presidente da República não fala por birrinha, por ter inveja da voz pausada do Ministro Gaspar e muito menos por não ter nada para dizer, mas simplesmente por estar afónico em resultado dos inúmeros banhos tomados nas águas cálidas da Praia da Coelha.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Crise

Mia Couto, em entrevista à Visão de hoje:

"Das várias vezes que tenho vindo a Portugal sempre me falam da crise. Mas agora as pessoas incorporaram esse sentimento - como se a crise fosse uma casa e já estivessem a morar nela, o que me perturbou. Há um olhar melancólico, que herdei, de quem está aqui empurrado contra o oceano e tem de fazer opções impossíveis: se é terra, se é mar ... Mas havia também um gosto de subverter essa melancolia com a pequena graça, a piada, as anedotas, o riso. Não o vejo, agora, tão presente."

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Privatizações e parcerias

De acordo com fontes geralmente bem informadas, o Governo encarregou o Ministro Miguel Relvas de, em conjunto com o consultor para as privatizações, constituir um grupo de trabalho para estudar a possibilidade de concessionar o Sol à iniciativa privada.
O concurso, cujas regras deverão ser publicadas, em inglês, no Diário da República, será aberto a investidores privados de todo o mundo, incluindo o governo chinês. 
A ideia é fruto de um estudo aprofundado de Miguel Relvas, justificando-se, desta forma, a fase de "hibernação" que o Ministro tem vivido nos últimos tempos. 
Nesse estudo, é demonstrado ser previsível que a iniciativa privada tenha capacidade para, empacotando o Sol, vendê-lo não só no mercado nacional, no inverno e nos dias em que o nevoeiro visita a Foz do Arelho, como também exportá-lo para todo o mundo, alegrando as gentes que raramente o vêem e sentem, e contribuindo para que a nossa balança de pagamentos passe a ser altamente positiva.
Espera-se que a "troika" concorde com esta medida e não impeça o desenvolvimento e o crescimento do país.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Cobras

- Hoje vamos às cobras, gritou o Júlio.
A pequenada abriu os olhos de admiração e de ignorância. Que raio queria ele dizer?
O Júlio era de poucas falas; na aula, o professor estava constantemente a referir que precisava de trazer o saca-rolhas para lhe arrancar um pouco mais do que um monossílabo e, agora, de repente e em voz bem alta, desafiava, ou antes, ordenava à turba que hoje íamos às cobras.
Que coisa mais esquisita, pensavam os "capitães da areia", aborrecidos com a possibilidade de não haver a futebolada do costume mas, ao mesmo tempo, com uma vontade louca de ver esclarecida a aventura que se perspectivava.
- Não é agora, esclareceu o Júlio, percebendo o desgosto e as dúvidas de todos.
- Logo à tarde, quando acabar a escola, vamos acabar com elas!
- 'Tás maluco! Falas de quê, questionou o Eduardo, sempre tão bem comportadinho, a pensar na explicação a dar à mãe por chegar tarde a casa, em alternativa a perder a aventura.
- Ontem, quando saí da escola, fui lá e vi-as. Eram duas, passeavam no restolho, grandes, enrolando-se e esticando-se, a deslizar, em curvas seguidas, com uma pele azul ou cinzenta, não consegui ver bem. Andavam depressa, mesmo sem pernas.
- Tiveste foi medo, foi o que foi, gracejou o Tóino, para quem as aventuras no campo não tinham segredos. Era o campeão da fisga, o que mais corria e saltava, o que conhecia os pássaros estivessem eles poisados ou a voar. Sempre descalço, as plantas dos pés passavam por qualquer folha ...sem o mínimo esgar de dor.
O Júlio tinha descoberto duas cobras na encosta fronteira à escola e queria matá-las à vista de toda a malta. Para além de peçonhentas e perigosas - olhem se o Tóino as pisa - comiam os ovos das perdizes e, dizia-se, até os perdigotos.
Toda a gente concordou: as cobras, se por ali andavam, tinham que ser mortas.
- E como as matamos nós, questionou o João.
- Eu trago a pressão de ar do meu pai - ele só lhe pega ao domingo e sai cedo para o trabalho, tal como a minha mãe - voluntarizou-se o Manel -, e o Tóino dispara. Se tem boa pontaria com a fisga, também a terá com a espingarda.
- Não é preciso espingarda nenhuma! Ainda alguém ouvia os tiros e fazia queixa à professora. Vamos matá-las com uma cana verde!
O pasmo foi geral. Cana verde para matar cobras, que nos morderiam pela certa? O Eduardo tinha razão, 'tava maluco, o Júlio!
- É fácil e vocês não têm que mexer uma palha. Eu faço o trabalho sozinho, só quero a vossa companhia, para verificarem que não minto.
O Júlio passou à explicação do projecto de assassinato das cobras, maduramente pensado na noite anterior, e narrou-o com uma desenvoltura que constratava, e muito, com o habitual mutismo na sala de aula.
- Vamos ao caniçal e cortamos duas canas, duas, não mais, bem grossas e compridas; com a minha navalha, faço um corte a meio de cada uma, rasgando a cana até metade e criando duas abas sobrepostas, que se manterão seguras, por o rasgo não chegar ao fim. A "arma" fica pronta a ser utilizada: basta apontar à cabeça e bater-lhe com força. A cana assim cortada não parte e a chibatada é bem forte. As bichas vão dar ao rabo e podem, se não tivermos cuidado, dar-nos a chibatada a nós. Confiem em mim. Estudei bem a lição! As duas que vi nunca mais comerão ovos de perdiz ou de qualquer outra ave, nem morderão os pés do Tóino.
E assim foi ... duas cobras morreram nesse final de tarde, às mãos da cana do Júlio (uma chegou).
Levava um arame no bolso e prendeu-as pela cabeça e, enrolando-as, colocou-as no saco de serapilheira que tinha escondido na mala. Tudo pensado, não havia dúvida!
- Vou enterrá-las no pomar da quinta.
A surpresa estava guardada para o dia seguinte. No intervalo, o Júlio foi à sebe e arrastou as cobras pelo pátio. 
Acabou o recreio para as meninas da outra sala, que fugiram a sete pés, refugiando-se junto da professora, a quem contaram o que estava a acontecer.

Durante uma semana não houve recreio para os "capitães da areia".

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Palavras bonitas

O SORRISO

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Poesia
Eugénio de Andrade
Fund. Eugénio de Andrade (2005)

domingo, 8 de julho de 2012

Carta aberta ao Ministro Miguel Relvas

Senhor Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares
Excelência

De acordo com as notícias desta semana, verifiquei que V. Exª. contribuiu para que as estatísticas do nosso Portugal nos apresentassem condignamente junto dos países que nos fazem companhia na União Europeia.

Já lá vai o tempo em que éramos conhecidos pelo analfabetismo e pelas limitações culturais endémicas. Agora, somos um país com uma população desenvolta, determinada, culta e com habilitações ao nível dos melhores.

O referido anteriormente é apenas a constatação de factos e isso, por si só, não justificaria que me dirigisse a V. Exª.. A razão que me leva a abusar do seu precioso e ocupado tempo surgiu-me por me parecer que, figurando nós já em belíssimo lugar, poderemos ser ainda melhores e, quiçá, atingirmos o primeiro lugar nas estatísticas do nível académico. Para isso, basta que V. Exª. emita uma "cartita" para cada um dos trabalhadores portugueses com um currículo pelo menos idêntico ao que permitiu a V. Exª. a obtenção duma licenciatura, grau académico tão importante quão necessário (para as estatísticas, mas não só ...), transmitindo-lhes como conseguirão ultrapassar a burocracia e a necessidade, mesquinha, de estudar para poder aprender e prestar provas, mostrando aquilo que se sabe.

Para que as coisas possam ser feitas com o rigor que se impõe, V. Exª. poderá exigir a todos os interessados na "cartita", que respondam a um breve questionário destinado a aquilatar o nível de conhecimentos de cada um e o curso mais adequado ao seu perfil.

Naturalmente que, vindo de V. Exª., esperar-se-á um questionário exigente, selectivo e verdadeiro... mas os trabalhadores portugueses estão bastante habituados a dificuldades.

Estou certo que a sugestão lhe agradará e lhe trará o reconhecimento de muitos milhares de portugueses, que deixarão de o assobiar e que irão votar em si, mal a oportunidade se lhes depare.
Fico aguardando que uma pausa nos seus inúmeros afazeres lhe permita analisar e aceitar a minha sugestão, disponibilizando-me para ajudar na redacção da "cartita", se a mesma for escrita de acordo com o antigo acordo ortográfico.

Para o questionário, sugiro que contacte o jornal "Público", com quem V. Exª. mantém excelentes relações, e obtenha dele um daqueles inquéritos de Verão, que satisfará plenamente o fim em vista.

Para garantir que as cartas serão entregues aos destinatários e que não haverá aproveitamentos indevidos em todo o processo, talvez seja conveniente a nomeação de um grupo de trabalho chefiado por aquele seu amigo das secretas, que me parece estar sem emprego e que deve ter o perfil adequado para tal.

domingo, 24 de junho de 2012

Netos

O Duarte chegou!

Calmamente, como se esperava, o meu terceiro neto aguardou que o avião trouxesse o pai de regresso, permitiu que o avô saboreasse um almoço na sua futura casa, deixou os pais darem um passeiozito à Foz para descomprimir e, ao cair da noite, ei-lo neste mundo para fazer a felicidade de todos nós.

Veio no dia de S. João, sem arquinhos nem balões, mas com a festa a que tem direito e merece.

No final de um dia cheio de emoções, que amanheceu com a filha no hospital e o filho no avião, sabe bem receber uma notícia destas ... e o coração aguenta!