segunda-feira, 25 de maio de 2020

Quotidiano

Segunda é dia de feira ... mas não foi.
Fui lá acima, enganado, iludido pelas informações que me tinham chegado de que o mercado semanal iria reabrir hoje. 
Não reabriu e, afinal, as notícias que me tinham chegado eram, como tantas outras que por aí circulam, falsas.
Dos feirantes nem rasto e o que eu precisava de adquirir fica para outras núpcias. Talvez para a semana, se as redes sociais não se enganarem de novo.
Nem tudo foi mau! Fui de carro e ainda bem, porque a ladeira é a pique e a idade não perdoa.
Mau estará para toda aquela gente que há mais de dois meses não vende nada ali nem nos outros locais onde exerce a sua actividade. 

domingo, 24 de maio de 2020

Maria Velho da Costa

Faleceu ontem mais uma das "Três Marias" - Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. As três ficarão na história da literatura portuguesa  e na da luta pela libertação das mulheres.
Resta Maria Teresa Horta e toda a obra de alta qualidade que as três produziram.

(...) Diz-me o advogado que evite reflexões políticas ou comentários à minha circunstância.
Mas quando começa a minha circunstância? 
Era assim que deviam escrever no antigamente, sob a Inquisição, as polícias políticas, sob espia, um censor empoleirado no ombro, como um corvo. Mas talvez seja sempre assim, este acto contra o tédio e a insignificância, um acto a três: o autor, a surpreendente voz do escrito e o censor que é aquele que vai ler. Vertiginoso.
Sara dizia que era a minha profunda segurança que me permitia clamar no deserto, correr riscos. Até a segurança do meu nome, que suscita a deferência.
Faz vento. Oxalá estivesse na Torre do Bugio à escuta do clemente rimance do mar, que tudo sara.
Sara. Não mais musa. E muito menos linda. Haverá gusanos desafiando a cal? Queria ser enterrada debaixo de um cedro, a variedade Cedrus altlantica, que ascende em cone e tem flores machas, dizia. Aleixo nem sequer tentou, porque é muito desprendido com o corpo dos mortos; tê-la-ia incinerado, se fosse prática que a igreja aprovasse. (...)

Maria Velho da Costa
Missa in Albis
Dom Quixote (1988)

sábado, 23 de maio de 2020

Quotidiano

Logo pela manhã o jardim ofereceu-me este par de rosas, nascidas do mesmo pé ... e tão diferentes.


Depois, a Foz revelou-me que o sinal é verde e que o mar quer que o visite sempre.


Para terminar em beleza, o meu neto Duarte, que fará 8 anos no próximo mês, presenteou-me com esta maravilha de trabalho, feito no âmbito da sua actividade escolar:

Num dia de muito calor,
os irmãos foram passear
a uma floresta cheia de cor
e a um rio se refrescar.

A primavera começou:
- Eu sou a melhor estação do ano, 
porque tenho mais cor e amor,
os meninos podem flores apanhar
e às suas mães levar.

O verão brincou:
- Pois é, pois é,
mas é na praia que se molha o pé,
e perlim, pim, pim
vai mais uma bola de berlim.

O outono rabujou:
- Eu é que sou o melhor,
basta olhar ao meu redor,
nas folhas secas podem correr
e as castanhas assadas vou comer.

O inverno terminou:
- Ai, sim?
Para os bonecos de neve fazer,
neve tem de haver,
à lareira um chocolate quente
e assim ninguém bate o dente.

Vamos agora mais além,
gritaram os irmãos em bom som,
ninguém é melhor que ninguém
porque cada um tem o seu dom.

Já ganhei o dia!!!

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Quotidiano

Custa a acreditar que o país de Caetano, Chico, Bethânia, Elis, Machado de Assis, Rubem Fonseca, Jorge Amado e tantos outros, que apresenta um duo tão carinhoso como o que aqui fica hoje, tenha um coiso na presidência, que só diz asneiras por uma boca cheia de favas, que enoja e arrepia, ao mesmo tempo.
E se o vírus chega cá? Aquilo transmite-se muito a quem tem memória curta ou não a tem, de todo.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Matraquilhos

Era uma loja de ferragens no topo da Praça da Fruta, onde se vendia de tudo, da complicada ferramenta (para a época) ao simples parafuso, com e sem porca, de cabeça chata ou de tremoço.
O Sr. Galinha era um homem já bem entrado (hoje seria um idoso) e muito gago. A sua gaguez pode um dia destes também ter por aqui lugar, mas hoje não é disso que se trata.
A tasca do António Henriques, junto à Praça de Touros, tinha vários jogos de matraquilhos , num espaço situado ao fundo e aonde se chegava depois de atravessar a taberna e um pequeno quintal. Por isso, os três ou quatro "estádios" raramente tinham controlo arbitral do dono ou da dona, que tinha o nariz bem empinadinho. Marido e mulher ocupavam-se a servir os copos "de três" e a aviar as sandes de queijo ou de presunto, os pastelinhos de bacalhau e uns croquetes de carne, cujo cheiro se sentia à distância. Havia também carapaus fritos e secos, berbigões da Foz e ovos cozidos. Como facilmente se compreende, estes comes e bebes passavam-nos completamente ao lado.
O Sr. Galinha vendia 10 anilhas por 25 tostões e, coincidência, as anilhas eram exactamente do tamanho das moedas de 10 tostões, necessárias para abrir cada jogo de matraquilhos e obter as bolas que o permitiam concretizar.
Não será preciso grande esforço para se perceber o que acontecia: com 25 tostões obtinham-se "moedas" para efectuar 10 encontros e, por isso, antes de se entrar no António Henriques era obrigatório ir ao Galinha adquirir os "ingressos".
Para que tudo corresse pelo melhor e não houvesse suspeitas, colocava-se uma moeda, verdadeira, bem visível num dos topos da mesa, para que o "fiscal", se descesse ao campo, visse e não desconfiasse. A dona, tinha a certeza de ser enganada, dadas as surpresas que ia encontrando no "mealheiro",  e aparecia por lá mal se conseguia libertar dos avios da tasca. Consequência imediata: a moeda verdadeira era utilizada para o último jogo do dia, ficando as anilhas sobrantes, se existissem, para o dia seguinte.
Nunca fomos apanhados em flagrante delito mas que os donos muito desconfiaram de nós, não tenho qualquer dúvida.


P.S. - No dia de hoje, Quinta-Feira da Espiga, não se jogavam matraquilhos.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Mirones no Parque


                                     

Ninguém na cidade ignora onde é, toda a gente o conhece e não tem qualquer dificuldade em indicar o caminho que a ele leva. Pode haver, e há, outros parques na cidade: das merendas, de jogos, jardins, a Mata Rainha D. Leonor, mas o Parque nem de nome precisa, embora o tenha (Parque D. Carlos I).

O Parque é um paraíso. 
A sua beleza é de tal modo ofuscante que muitos de nós nem reparam nisso. É tão natural olhar o lago, ver os pavilhões que em breve serão hotel, passear pelas áleas e visitar o Museu de José Malhoa, espreitar o ténis, tropeçar com os pombos e (agora) com os pavões, sentir os pássaros a chilrear nas árvores enormes, dar pão aos peixes, ser afectado pelos poléns, usufruir de tudo que achamos tão natural e tão nosso.
Tempos houve em que uma ida ao parque significava brincar com os amigos, andar de bicicleta alugada, ir à ilha, fazer corridas até ao busto do Bordalo, jogar ao ring com as colegas, roubar um beijo fugaz e conseguir, de vez em quando, uma companhia para sentar num daqueles bancos de madeira, vermelhos, bem enquadrados entre dois plátanos "gordos", que garantiam a privacidade e a detecção de qualquer intruso inoportuno. O entusiasmo e a pressa faziam com que se descurasse a parte de trás, protegida pela sebe de buxo e que, por isso, parecia não permitir que alguém importunasse.
Não era verdade. Por vezes, apareciam por ali uns mirones que se regalavam a espreitar o que os jovens sentados e distraídos estavam a fazer. Quando eram detectados, usavam a argumentação bacoca sobre a moral e os bons costumes, a falta de educação, as parvoíces que se imaginam para quem só podia ser ... parvo.
Nunca os esqueci. A maior parte já por cá não está mas, de vez em quando, ainda me cruzo com um, já trôpego, mas a quem não consigo olhar sem sentir asco por coisas passadas há mais de meio século. 

terça-feira, 19 de maio de 2020

Mundo

Com o confinamento a chegar ao fim, espera-se, talvez valha a pena repararmos no que se passa à nossa volta, sem lamechas e apenas com a certeza de que, aqui ou na China, no sertão ou no deserto, nos trópicos ou no gelo, não passamos de uns apêndices de um mundo que pertence a todos e onde todos temos lugar. 
É bom lembrar, sendo embora lugar comum, que há por aí muita gente que se esquece disto e do respeito que a todos é devido.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Mercearia e Fanqueiro

O balcão ia de uma ponta à outra da primeira sala, aquela onde estava a faca do bacalhau, a balança Avery, a medidora do azeite, os frascos com os rebuçados, quatro, uns em cima dos outros, com as bocas viradas para o interior, não fosse alguém distrair-se e, inadvertidamente, sacar um ou dois. Todo ele era de madeira e o descrito ficava à esquerda, até à balança. Depois, a zona de atendimento e os papéis, pardo e vegetal, os cartuchos, o rolo da guita e o espaço para cortar as roupas, com uma tesoura enorme e um metro de madeira, quadrado, com as marcações "centimetrais" bem escavadas na madeira e que estava sempre à mão, para medir ou assustar.
O merceeiro entrava para o balcão através de uma pequena porta, com um tampo que, mal acontecia a passagem, era de imediato fechado. Tinha sempre o mesmo passo, o mesmo tom de voz, o mesmo sorriso. Os anos já eram bastantes, o coração dava-lhe sustos amiúde e o volume da barriguita era escondido sob o casaco de cotim, que mantinha sempre fechado.
As tulhas do feijão, encarnado ou branco apatalado e, de vez em quando, o frade, mais raro e mais caro, estavam nas costas do homem e tinham um corredor, de lata, que servia para encher o cartucho com 250, 500 gramas ou, mais raramente, um quilo daqueles vegetais. O cartucho, do tamanho adequado ao peso, era dobrado em cima e a guita que o atava ficava presa na dobra do papel e permitia o transporte sem risco de cair.
Por debaixo das prateleiras que continham as mais variadas coisas - colheres de pau e das normais, garfos, facas, copos, tigelas, pratos - estavam a manteiga, a banha de porco, o café, o colorau, a pimenta, o sal e muitos outros produtos que, na "fotografia" já não se conseguem vislumbrar direito.

- Cem gramas de café, meia quarta de banha, dois decilitros de azeite, e a minha mãe manda dizer que é "pra assentar".
- Está bem, desta vez. Diz-lhe que o livro já não tem folha ...

O livro era mais alto do que largo, um rectângulo onde havia uma folha para cada um dos "caloteiros". As dificuldades eram muitas e nem sempre a jorna chegava no final da semana. A mercearia esperava...
Do lado da porta de entrada era a montra do fanqueiro: ganga, cotim, chita, algodão, lenços de assoar e de cabeça, bonés, barretes, linhas, botões, meias, soquetes, ganchos e um infindável  sortido de bugigangas impossível de descrever e descortinar, mas que o merceeiro sabia onde estavam quase sem olhar.
Havia ainda uma outra secção, provida com uma balança decimal, onde estavam os produtos mais pesados e os que não podiam "conviver" directamente com os da alimentação. A medidora do petróleo, enfiada no bidon e o álcool desnaturado faziam companhia ao foskamónio, que começava a dar os primeiros passos na agricultura, ao adubo tradicional e ao enxofre, este também numa tulha e com um corredor próprio. Pairava também por aí a batata de semente, Arran-Banner, Arran-Consul ou Impéria, ensacada em sacos de serapilheira, com 50 Kg cada, nada que assustasse qualquer homem da época, bem habituado a fazer força sem ir ao ginásio.
Era uma imensidão de coisas e uma infinidade de conversas sobre tudo e sobre nada, das quais sobressaíam as anedotas do viajante do Café Sertão, contadas nas visitas semanais e reproduzidas em todas as tertúlias da noite até que, na semana seguinte, surgissem novas.
 

sábado, 16 de maio de 2020

Ilusão

E quando tudo indicava que as notícias continuariam a ser sobre o coronavírus, o planalto e o confinamento, a taxa de letalidade e a abertura das praias, eis que a visita à fábrica dos automóveis altera tudo, cai não cai, fica não fica, vai não vai, tem razão não tem, toda a gente sabia, ninguém sabia, aprovaram e não leram, votaram sim e queriam votar não, estava no papel, qual papel, o papel ... mas ninguém leu!
E Centeno foi treinador de futebol, de bestial a besta num minuto: os treinadores de bancada opinaram, o pequeno mundo agitou-se, as mesas redondas tentaram a quadratura, os prognósticos sucederam-se, era tudo evidente e já se esperava, claro como a água, só não via quem não queria ou era cego, o vírus eclipsou-se num instante.
A noite é boa conselheira, mesmo antes de dormir.
Foi um equívoco, um pequeno lapso, falta de informação atempada, tinha de ser, o prazo acabava no dia seguinte, toda a gente sabia, estava escrito no Orçamento, aprovado e promulgado, uma falha de informação, a auditoria é outra coisa, não invalida o compromisso, está tudo resolvido!
E eu sou parvo, ou quê?, como dizia Zé Mário Branco.