segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Expressões

As expressões, tal como as pessoas, mudam com o tempo, mesmo que mantenham a mesma terminologia.

- Fui à lenha e vim com os bofes à boca!

Foi o que aconteceu hoje. Mas não fui ao pinhal ou a qualquer outro sítio onde haja árvores. Fui ao comerciante, um "rapaz" da minha idade, que a compra, manda cortar e rachar, e a guarda nos barracões, enormes, que tem no quintal.

Conversámos, recordando tempos passados e antevendo um futuro que se afigura ser (é mesmo) mais curto do que o passado, contrariando o que sabíamos, de ciência certa, quando brincávamos na mesma escola e antevíamos uma vida cheia, sem fim nem no horizonte.

Carregávamos o carro quando a chuva nos visitou. Apressámos o trabalho e a conversa acabou. O corpo (já) não suporta água caída do céu, ao contrário do que acontecia em miúdos, e já vai sendo difícil falar e trabalhar ao mesmo tempo, quando o que se está a fazer  exige algum esforço físico.

Ainda bem que a bagageira do carro não é um atrelado e muito menos a carroçaria de um camião. Acho que demoraríamos toda a vida e mais seis meses a concluir o trabalho.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Hino da Alegria

Iniciou-se hoje, por toda a Europa, a vacinação contra esse malfadado invasor que nos transtornou a vida sem pedir licença nem respeitar ninguém. Por enquanto, apenas contempla os profissionais de saúde mas, em breve, contemplar-nos-á a todos.

A esperança é enorme e a alegria imensa.

sábado, 26 de dezembro de 2020

Natal e futuro

Não foi igual, foi o possível.

Já passou. Vamos esperar que a vacina ajude e que, para o ano, cá estejamos para conviver, festejar e lembrar um 2020 que traiu todas as previsões "catedráticas" e "astrológicas", foi cheio de surpresas atípicas e desconcertantes, massacrou toda a gente e vai figurar na memória futura.

As vacinas já chegaram e amanhã iniciar-se-á a vacinação da "linha da frente" dos profissionais de saúde. Vamos esperar que toda a logística corra bem, que não haja oportunismos nem habilidades, que quem manda, ordene sem peias nem medos.

António Costa dizia, na sua mensagem de Natal, que "só não erra quem não faz", verdade antiga que tem implícita a preocupação de errar o mínimo. Neste assunto, tão melindroso, a máxima aplica-se inteiramente.

A partir de amanhã, prosseguindo uma saga que já se arrasta há semanas, as televisões ilustrarão todas as notícias com um braço nu, a ser espetado por uma agulha, com a imagem bem nítida e aproximada, para que não haja dúvidas do espetanço.

Uma imagem vale mais que mil palavras, mas há nexessidade?

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Palavras bonitas

NADA / NATAL

Este lume que já não nos aquece
Este medo do nada que nos contem
Esta névoa de nata em vez de neve
E a nossa vida cada vez mais ontem

Este Sol que não rompe sob os cactos
Estes mortos de novo hoje tão perto
É no búzio dos crânios exumados
que melhor nós ouvimos o deserto

Estas folhas de plátano  Estas mãos
que o fogo vai torcendo lentamente
Esta cinza no fim de uma oração
Este sino  Este céu sobrevivente

Mas soa a meia-noite  E logo o nada
deixa de estar em tudo como estava

Obra Poética
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Palavras bonitas

ECLIPSE

Pela primeira vez
Não vieste ao poema,
Sol do eterno retorno
Da inspiração.
E foi esta prosaica desolação
Num quarto de hospital
A ouvir versos profanos
Na lembrança.
Pobre dessa fiança
Tutelar.
Sem te poder louvar
Devidamente,
Menino Jesus eternamente
Oculto e manifesto,
Aqui lavro o protesto
De poeta traído
Que descrê
Da própria vocação,
Perdida a graça da iluminação
De quem sonha o que vê.

Diário XVI (24/12/1991)
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1995)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Palavras bonitas

CANÇÃO

Clara uma canção
Rente à noite calada
Cismo sem atenção
Com a alma velada

A vida encontrei-a
Tão desencontrada
Embora a lua cheia 
E a noite extasiada

A vida mostrou-se
Caminho de nada
Embora brilhasse
Lua sobre a estrada

Como se a beleza
Da lua ou do mar
Nada mais quisesse
Que o próprio brilhar

Por esta razão
Sem riso nem pranto
Neste sem sentido
Se rompe o encanto

Ilhas
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2004)

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Palavras bonitas

ALGUMAS IMAGENS DO INVERNO

Chega mais cedo;
conheço-lhe os passos:
já muita vez aqueceu as mãos
ao lume das minhas.
Vai demorar-se;
sacudir a lama, remendar
os sapatos, tirar o sal
que se juntou em redor dos lábios.
Entre o silêncio e o falar
não há senão
espaço para anoitecer.
Tão pesadas, as folhas do ar.

Poesia
Eugénio de Andrade
Fundação Eugénio de Andrade (2000)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Palavras bonitas

 O JOGO DO CHINQUILHO

Renasce neste largo a minha infância
a minha vida tem aqui nova nascente
e jorra de repente com o ímpeto do início
O tempo não passou ou só a consciência
que provisoriamente sinto de voltar alguns anos atrás
a sensação que sei de reflectir sobre esse tempo
de ser um espectador de sucessivos sucedidos dias
de não viver apenas não viver sem sequer saber que vivo
num espaço demarcado onde as coisas e os homens
eram tanto que eram simplesmente
só essa consciência e sensação me fazem suspeitar
de que passou o tempo que nunca passou
O adro o fim da tarde o jogo do chinquilho
o ruído das malhas os paulitos
o sol poente sobre si redondo como simples
malha atirada por alguém pelo espaço do dia
e prestes a cair no mar como nas tábuas
o gesto perdulário e impensado de jogar
a malha como quem num gesto joga a vida
as silhuetas hirtas dos que assistem
de boné ou barrete na cabeça e mãos nos bolsos
tudo se passa aqui ali há trinta e cinco anos
como se aqui ninguém houvesse envelhecido
nem sofrido ou morrido ou suportado
toda a imensa fome requerida para produzir um rico
como se aqui ninguém tivesse demandado
longe de aqui o seu país noutros países
Tudo é o mesmo adro a mesma tarde o mesmo jogo
Até este café onde sentado olho e penso por olhar
é afinal o mesmo onde bebi a meias com meu pai
a primeira cerveja uma cerveja vinda
através do calor do dia de verão
nesse cesto de vime nesse poço mergulhado
É o mesmo o sabor que sempre sinto nesta boca
há muitos anos já mordendo o vinho o pão a vida
o sabor das mulheres das raparigas
inacessíveis sempre como um absoluto
sempre impossível tido no entanto por possível
o sabor da derrota ou o sabor da terra
sensível dia a dia nos meus dedos
e um dia susceptível de me encher a boca para sempre
Envelheci eu sei e só ganhei
o que perdi. Sou de uma adulta idade
E entretanto tudo a noite rodeou e o jogo acabou
e pelo céu do tempo houve um homem que passou
ou uma certa malha arremessada por acaso à vida
e viva na precária trajectória antes de caída.

Todos os Poemas
Rui Belo
Assírio & Alvim (2000)

domingo, 20 de dezembro de 2020

Renas

Os progressos que o mundo tem conhecido são inegáveis e impossíveis de descrever num grande livro, quanto mais em meia dúzia de linhas mal alinhavadas como estas. Mas, ainda assim, pouca gente se lembrará que os comboios já foram a carvão, que os automóveis tinham direcção assistida "a braço" e que viajar de avião não foi sempre seguro e confortável, de tal forma que ninguém questiona a sua utilização e necessidade.

Porém, mas ou todavia, qualquer destas palavras serviria para abrir o parágrafo; deixemo-nos de floreados e vamos ao que importa: ninguém se preocupa ou disso dá mostra pública com a situação do Pai Natal e das renas, ambos sacrificados e sem benefício algum dos progressos que são comuns, hoje, a qualquer situação, profissão ou mecanismo.

De facto, desde o início do século XIX que o Pai Natal cumpre a sua função utilizando um trenó puxado por renas, num trabalho ciclópico que apenas os fusos horários atenuam um pouco. Sair da Lapónia, correr o mundo inteiro entregando prendas, sem o conforto de um bom banco almofadado, sem um GPS que indique o caminho e avise das condições metereológicas, sem ar condicionado que proteja do frio e diminua o calor, é um trabalho heróico. E, nas pobres das renas, coitadas, o sofrimento ainda é maior. Presas, açoitadas, sem comer e sem beber, ninguém as protege ou lhe faz justiça, reconhecendo o seu esforço e, no mínimo, remunerando-as em função do seu desempenho. Tudo isto agravado por ser hoje possível, sem qualquer dificuldade e com toda a eficiência, utilizar um drone, vindo da Lapónia ou de qualquer outro canto do mundo e fazê-lo chegar ao destino, sem falhas, perdas ou enganos.

Pensei: vou desencadear uma petição online para forçar a resolução urgente deste problema urgente e candente. Terei, seguramente, muitos milhares de cidadãos preocupados a subscreverem-na e talvez até o PAN proponha, na Assembleia da República, uma Lei que salvaguarde e regule os direitos, liberdades e garantias das pobres renas. Num ápice, concluí: estás perturbado ou o vinho que não bebeste ao almoço toldou-te o raciocínio. O Pai Natal não existe e as renas estão lá no seu habitat, protegidas por quem com isso se preocupa.

A imaginação é insuperável e, mantendo as tradições, ajuda-nos a viver, simplesmente.

sábado, 19 de dezembro de 2020

Espírito de Natal

O Natal é uma época onde enaltecemos o espírito de solidariedade, a necessidade de todos e cada um poderem ter uma mesa farta ou, pelo menos, composta. Fazemos votos que a sociedade seja capaz de acabar com as diferenças abissais que (ainda) existem, que a felicidade contemple todos, que o ano novo traga tudo de bom. E, neste ano, acrescentamos o voto que este malvado vírus desapareça.

E contribuímos, manifestamos a nossa angústia por não fazermos mais, condoemo-nos pela miséria que perpassa debaixo dos nossos olhos, disponibilizamos todo o nosso esforço para uma sociedade melhor e mais justa.

Depois ... bem, depois, seguir-se-á mais um ano em que o trabalho nos ocupa e preocupa, a família exige uma atenção permanente e o pouco tempo que sobra é aproveitado para descansar um pouco, por não ser possível aguentar as agruras do dia a dia sem um pouco de relaxamento. 

Não tarda nada e o Verão aí está. Surgem as férias, a praia fica ainda mais bonita, o sol brilha e, afinal, tudo passou num instante. Nem demos por isso e já estamos a chegar outra vez ao Natal. E é tão difícil esta época. Não houve tempo para nada e continua a haver gente que não sabe nem nunca soube o que são prendas, ou presentes, que o Pai Natal lhes tenha trazido.

Hoje, o meu neto mais novo, do alto da sapiência que lhe advém dos seus quatro anos, questionou-me:

- Ó vô, o Pai Natal consegue ir a todas as casas no dia 24?

Claro que lhe respondi que sim e omiti que continua a haver muitas onde ele nem à porta chega. Para quê complicar. Tem muito tempo para entender.