O meu pai dizia. com frequência que:
- É bom chegar a velho mas não é bom ser velho.
Tinha toda a razão, acrescento eu. Faria hoje 99 anos.
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
O meu pai dizia. com frequência que:
- É bom chegar a velho mas não é bom ser velho.
Tinha toda a razão, acrescento eu. Faria hoje 99 anos.
Da sabedoria popular:
Bem prega Frei Tomás. Faz sempre como ele diz, nunca como ele faz
Quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita
Não basta à mulher de César ser séria, é preciso parecê-lo
Cão que ladra não morde
Livrar de cão que não ladra e de homem que não fala
Fui à minha vizinha, envergonhei-me. Vim para casa, remediei-me
Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal
No poupar é que está o ganho
Quem muito dorme pouco aprende
Quem vê caras não vê corações
De Peter Drucker:
Gerir é fazer certas as coisas; liderar é fazer as coisas certas
A caminho do barbeiro, não encontro ninguém conhecido. Passam por mim meia dúzia de pessoas, bem mais novas e apressadas. No parque de estacionamento havia lugares "à fartazana". A actividade da cidade ainda está muito longe do normal. Muitas lojas do pequeno comércio ainda permanecem fechadas e isso causa algum desconforto ao passar, lembrando o Fulano, o Sicrano, o Beltrano que, à vista, estão "mortos".
O meu amigo C. está a funcionar "ao postigo" e falou comigo à porta. Ninguém entra para comprar nem para dois dedos de conversa. Estávamos nisto, enquanto eu aguardava a minha hora marcada e o barbeiro despachava o freguês anterior e desinfectava tudo, quando apareceu um cliente. Queria ver canas de pesca, embora a actividade de pescador amador ainda esteja interdita.
- Tem alguma ideia?, perguntou o C.
- Queria ver ...
- Não pode entrar. A polícia passa muitas vezes e, se estiver lá dentro, aplica-me uma multa. Vou trazendo para aqui, para ver se gosta ...
O barbeiro, que fica em frente da loja do C., chamou-me. Estava na hora de me sentar na cadeira e de cortar a guedelha.
Já mais leve, voltei à conversa com o C.
- Vendeste a cana ao homem?
- Não. Talvez volte quando a pesca voltar a ser permitida. Hoje até nem foi muito mau. Vendi um saco, entreguei quatro cofres (para as armas) e tive algumas promessas...
O dia está a acabar. As poucas pessoas que (ainda) andam na rua, vão recolhendo à casinha. Espera-se um amanhã melhor, mas não vai ser fácil ...
Faz hoje um ano que coloquei aqui o primeiro texto sobre o "bicho". Também passam hoje 47 anos do levantamento do "meu" RI5, que serviu de prólogo ao 25 de Abril. Uma poeta que muito admiro - Natália Correia - deixou-nos também neste dia, há 28 anos.
Porém, como a vida não é feita de passado e sim das portas abertas para o futuro, o meu neto GRANDE, que ainda não tem 15 anos, fez isto, apenas com um telemóvel.
De acordo com as regras do confinamento, o café de hoje foi ao postigo, sem pecado e com chávena própria, que nos copos de papel o sabor é muito, muito diferente.
Uma maravilha ... e soube tão bem!
Um dia de sol tão bonito, a cheirar a Primavera, merece uma voz maravilhosa e uma música a condizer.
Razões que a razão desconhece fazem com que uma grande artista pareça "banida" dos holofotes e das rádios do seu (nosso) país, na certa por a sua qualidade não estar ao nível das piroseiras que, todos os dias, nos invadem a casa sem quaisquer escrúpulos.
O "Amor a Portugal", em cerca de cinco minutos, numa interpretação soberba de Dulce Pontes, acompanhada brilhantemente pela Banda da Armada.
Foi divulgado, pelo Primeiro-Ministro António Costa, o calendário que determina a forma como, se tudo correr bem, iremos voltar à vida (quase) normal. Aconteceu no final do dia de quinta-feira, deu origem a inúmeros comentários, apoios e críticas de quem sabe do assunto e disse-se até, "malevolamente", que o Presidente da República teria aproveitado a viagem a Roma para não falar ao país e se descartar da decisão, prevenindo a eventualidade de alguma coisa correr mal e haver necessidade de voltar atrás. António Costa chamaria a esses rumores pura especulação e Marcelo Rebelo de Sousa viria, mais tarde, garantir que tudo tinha sido combinado assim, para que o encontro com o Papa Francisco não saísse prejudicado e os quinze minutos de audiência fossem diminuídos.
Cá por mim, velho apressado, telefonei ao meu barbeiro no final do dia de ontem, para não o incomodar nos trabalhos de preparação da reabertura, que deveria estar a levar a cabo, criando as condições para segunda-feira.
- Vai reabrir na segunda, não é verdade?
- Claro! Finalmente ...
- Guarde uma hora para mim. O cabelo está enorme. Pode ser à sua escolha, não tenho preferência e a minha agenda tem o dia livre ...
- Só na quarta-feira. Segunda e terça já estão completas. E só pode ser às 17H30. Posso marcar? Já tenho outra chamada em espera.
- OK. Quarta-feira, às 17H30. Até lá.
Conclusão: o cabelo cresceu a muita gente e houve muitos mais apressados do que eu. Não devem ser só velhos!
De boca aberta, deitado na cadeira enervante da estomatologista, oiço a conversa que se vai desenrolando entre a técnica e a ajudante. São jovens e têm algumas recordações que me são familiares, criando-me a vontade de participar, mas não posso. A concentração e as alterações que o meu sistema nervoso produz assim que entro naquele consultório, impedem qualquer raciocínio ou frase, para além do "sim" ou do "não", do aceno, do esgar ou do gesto.
O rádio, sintonizado na Antena 2, emite um som meio esquisito, que desperta lembranças às conversadoras.
- Parece o amola-tesouras.
- A doutora lembra-se?
- Lembro-me bem. Era miúda e a minha mãe dava-lhe as facas para afiar.
- E o "pitrolino", recorda-se?
- Isso não. Nem sei o que é.
- Era o homem da carroça, que vendia o petróleo e o azeite, avulso.
- Já só me lembro do azeite engarrafado e petróleo acho que nem nunca vi ninguém comprar.
Silêncio. A concentração no dente é completa.
- Está quase. Deve estar cansado de ouvir estas conversas sem jeito nenhum.
A mão sai do cinto e faz sinal que não há cansaço. A médica continua a sua tarefa, fala dos discos de vinil que o pai ainda tem, diz que se habituou a ler livros digitais e já não quer o papel.
- Até comprei um "ipad" especial, um "kindle". É espectacular.
Acabou! Há que sair da cadeira, agradecer, pagar e desejar às duas a continuação de um bom dia. Mais uma vez, aquilo que para mim é ontem, afinal já nem faz parte do imaginário da grande maioria.
A ida ao dentista correu muito bem e volto lá na próxima semana, para acabar o tratamento ... e ouvir!
É comum a muita gente o reivindicar da experiência, do passado, a excelência dos seus atributos e a obra que realizaram, em contraste com a "incapacidade" das gerações mais novas, que nada sabem do que custa a vida e não conseguem fazer nada de jeito.
- Se fosse no meu tempo ...
E ficam perorando por um passado que já foi e não voltará, por muito que lhes custe. Águas passadas não movem moinhos e ninguém se lava duas vezes nas águas do mesmo rio. O passado é importante para conhecermos a história, a sua evolução, os progressos realizados, e para aprendermos com os erros cometidos. Analisando assim, compreendemos que, se não houvesse arrojo e audácia (isto lembrou-me o arrojo, audácia e desprezo pela vida que se ouvia no "poço da morte" das feiras), ainda estaríamos na idade da pedra ou lá muito perto.
O tempo de fazer, de pular, de arriscar, passa depressa e não adianta que os mais velhos tentem condicionar o progresso do mundo com argumentos falaciosos de "eu fiz e fui o maior ... da minha rua". Os olhos evoluem e aquilo que viram há trinta anos já mudou, pelas deficiências visuais próprias do avançar da idade e porque, felizmente, outros surgiram com muito mais capacidade e muito melhor visão.
Até os automóveis caminham a passos largos para dispensarem os condutores! Ora eu, que tirei a carta há mais de meio século e decorei o código de trás para a frente e vice-versa, não quero crer que se possa conduzir sem a caixa de velocidades e, muito menos, sem colocar as mãos no volante ... Isso vai ser muito perigoso ... ou não!
- Não posso fazer muita força. Este dedo deve estar partido.
- E não foi ao médico?
- Não tenho tempo ...
- Mas isso é perigoso, nunca mais cura e só piora.
- Um dia destes ... Há uns anos, estava a trabalhar na Áustria e caí. O braço esquerdo doeu-me muito, mas continuei. Passada uma semana, o braço estava inchado e não aguentava as dores. Fui ao hospital. O osso do pulso estava partido. Trataram-me, puseram uma tala e vim-me embora. No dia seguinte fui trabalhar. Era preciso!
Na maior parte das vezes, nem damos pelos sacrifícios dos outros e pelas dificuldades que têm para assegurar o dia a dia e os (poucos) proventos que auferem.
- Tenho de trabalhar. Não sei fazer outra coisa e sempre assim foi, desde miúdo. Criei um filho sozinho, desde os seis meses. Ensinei-lhe cedo que temos de ser honestos e trabalhar para quem nos dá emprego e nos paga.
Há muito tempo que não tinha esta experiência "auditiva". Aconteceu hoje e concluí, uma vez mais, que os meus problemas são ridículos quando comparados com situações destas. Apesar disto, está sempre bem disposto, com graça "malandreca" para aliviar a conversa.