segunda-feira, 5 de abril de 2021

Visita

Já por lá não passava há bastante tempo. Um mês, dois, talvez perto dos três, aconteceu a última vez. (rimou mas não foi de propósito)

Fui à Rua Almirante Cândido dos Reis, que toda a gente conhece por Rua das Montras, e a "montra" tinha uma boa exposição. A esplanada estava cheia e havia uma "reunião" de quatro conhecidos, em amena cavaqueira, bem no meio do caminho com, soube-o depois, dois deles a aguardar mesa vaga para voltarem a deliciar-se no poiso habitual e tão ausente nos últimos tempos.

Juntei-me à conversa e por ali estive, quinze, vinte minutos, talvez meia-hora, a falar sobre a cidade, eleições autárquicas, obras, governo, crise, Marcelo e Costa, o tudo e o nada, como convém nestas "tertúlias". Falámos ao mesmo tempo, depressa, gesticulámos muito, que a ânsia de mostrar que ainda sabemos conversar é enorme. Depois, bem, depois fomos cada um à sua vida, mais frescos, mais limpos e mais fortes.

Passaram inúmeras pessoas, o sorriso apenas nos olhos que a máscara não permite mais. Sentia-se o prazer, a boa disposição - quero que me vejam - uma satisfação imensa por parecer que o normal está em vias de regressar, como todos ansiamos.

domingo, 4 de abril de 2021

Páscoa

Uma rosa de uma roseira com mais de 40 anos e um jasmim, que esteve quase morto e surge agora a dar uns pequenos passos rumo à florescência normal.

Assim vai o jardim em mais um Domingo de Páscoa confinado.

sábado, 3 de abril de 2021

Palavras bonitas

ANJO INCOLOR 
 
Abri o livro na altura
em que o Anjo me sorria
e em vez de mel prometia
amor, descanso e ternura.

Falava como que a sós.
E as palavras flutuavam.
Eram pombas que poisavam
no fio da sua voz.

Escutei-o de olhos no chão
como se fosse o culpado,
como se o mundo enredado
estivesse na minha mão.

Abri o peito e mostrei-lhe
a areia, a pedra britada,
os planos da grande estrada
onde o Anjo se ajoelhe.

Ele fitou-me, de frente,
de olhos frios como brasas.
E abrindo e fechando as asas
rasgou o céu, lentamente.

Sobre a folha imaculada
por longo tempo nevou.
Sentei-me à beira da estrada
mas o Anjo não voltou.

Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975) 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

quinta-feira, 1 de abril de 2021

IRS

Cumpri a obrigação de contribuinte cordato, fiel e legalista. 

Fi-lo na noite de ontem, ainda antes de o Dia das Mentiras se iniciar, embora fosse o dia 1 de Abril o determinado pelo Governo para o início das entregas. Espero que esta minha atitude não venha a ser declarada inconstitucional, porque foi eivada das melhores intenções e no pressuposto de facilitar a vida a quem cabe mandar processar os reembolsos.

Com receio das aglomerações e cumprindo o distanciamento, experimentei, a página abriu e ... foi rápido. Até já sei que vou receber, e quanto. Só desconheço quando. Tomando por certa a conversa de quem manda, vai ser muito em breve e mais cedo do que no ano passado. Dirão uns: "chico espertice"; acrescentarão outros: "pressa de velho"; determinarão, por fim, os mais sapientes e ocupados: "não tem mais nada para fazer, entretém-se".

Talvez todos tenham razão. Contudo, o lema aprendido há muitos, muitos anos, comanda sempre:

"Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje."

quarta-feira, 31 de março de 2021

Vida(s)

Não sei, em concreto, onde vive. Ali para os lados do quartel, mas ao certo, certo, não consigo dizer. O antigo "bairro da lata", como era conhecido nos anos sessenta do século passado, é hoje o Bairro de S. Cristovão. Já não tem barracas, as ruas estão alcatroadas e têm nome, e está agora a sofrer uma intervenção municipal que tornará a sua entrada mais atraente para os que lá vivem e para os que por lá passam. Bem perto do Bairro fica o pinhal, antigo, onde fiz algumas simulações de combate quando a instrução militar me passou pelo corpo. Um pouco mais à frente (ou antes, dependendo do sentido), a ESAD, que aproveitou as instalações do antigo Hospital de Santo Isidoro, recuperou-as e ampliou-as, e fez uma escola de artes, hoje pólo conceituado e atractivo para muitos jovens artistas, que todos os anos trazem à cidade a sua irreverência e a sua especificidade de intervir. 

Quase me perdi em divagações, quando o que pretendia era escrever duas linhas sobre ela. Terá quarenta, cinquenta anos, talvez menos. Mais não, que se assim acontecesse, atiraria para a minha geração e estaria no "arquivo". Tem problemas, visíveis, de álcool e outras adições, traz sempre um saco às costas, com um conteúdo que desconheço e nem faço a menor ideia qual seja. Já a encontrei sentada no estacionamento do supermercado, a dormitar e quase de certeza a sonhar. Hoje vinha andando, meia trôpega, com os olhos a quase saírem das órbitas e a olharem, perdidos, o infinito. A pele, acobreada, tem rugas bem marcadas do "castigo" que carrega. O corpo não é gingão mas abana como se a ventania o fustigasse sempre. Terá família? Recusará ajuda? Como sobrevive?

Lembro-me disso sempre que a vejo. E que faço? Nada! "Alguém" tem obrigação ... 

terça-feira, 30 de março de 2021

Encomenda

A compra foi feita há quase um mês. No correio electrónico de confirmação era dito que, face às circunstâncias que se vivem, a entrega só aconteceria no dia 30 de Março, entre as oito e as catorze horas. Sem problema, disse para mim. As obras vão demorar algum tempo e, nessa altura, ainda estarão a decorrer. A aplicação da placa é das últimas coisas a fazer.

Há três dias, uma mensagem confirmou a entrega entre as oito e as catorze, referindo que "em caso de ausência poderá ser cobrado valor para novo agendamento". Sem problema, pensei de novo. Nesta fase, não há obrigações que não possam ser alteradas ou adiadas, isto se existirem. Haverá alguém em casa, para evitar novo agendamento.

A manhã corre, sem novidades a não ser a do sol, que se esqueceu de aparecer. Deve ter ficado em casa a aguardar alguma encomenda ... Findo o almoço, o "postigo" chama para o café. Não hão-de chegar nestes dez minutos ... O telefone toca. Um número esquisito, começado por 300. Atendo uma senhora, com um português do Brasil bem acentuado.

- É o sinhô Orlando? Vou graváre a chamada.

- Sim, sou eu. E quem é a senhora? Vai gravar o quê?

- É sobre sua encomenda. Não vai chegá na hora, mas vamo entregá até às dezesseis. Pode sê?

- Sim, claro. Obrigado. 

- Obrigado nois.

Ainda aguardo, mas deve estar a chegar. Uma organização destas não falha! 

segunda-feira, 29 de março de 2021

Quotidiano

Como toda a gente, não tenho um passado imaculado e fiz muitas asneiras, algumas que recordo, muitas outras que caíram no arquivo impenetrável por vontade própria, auto-defesa ou mesmo esquecimento puro. Ainda hoje, com todo o saber da experiência feito, é raro o dia que não cometa erros, faça coisas indevidas ou das quais me arrependo mais tarde. 

Por isso, cada vez tenho mais dificuldade em suportar os que se consideram infalíveis, têm sempre a solução na ponta da língua e, cúmulo, dominam todos os temas. E também aqueles que, perante a evidência do erro cometido, procuram os argumentos mais incríveis que o justifiquem e lhe dêem, até, credibilidade. E ainda aqueles outros que, do alto da sua "sapiência", tentam mostrar à saciedade e à sociedade que a "divina providência" lhes facultou os recursos, únicos, para "pregarem" a forma e o conteúdo da vida dos outros, como se só a cabeça deles funcionasse e apenas os seus olhos vissem as cores do quotidiano, do passado e do futuro.

Quando isto me acontece e me surgem estes seres sobredotados a indicarem o caminho, o "computador" apela à memória e traz à tona o Cântico Negro, de José Régio:

(...) Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí.

domingo, 28 de março de 2021

Livros lidos (ou em vias disso)

Chegou na quarta-feira passada, com a assinatura do autor, prémio por ter sido adquirido em pré-venda. Passou à frente dos que estão na fila por a chegada ter coincidido com o final de Tahirir, de Alexandra Lucas Coelho, e por o autor ser um dos meus preferidos da actual geração de escritores portugueses.

Está a justificar a ultrapassagem. É uma biografia romanceada de Rui Nabeiro, o homem de Campo Maior que hoje completa 90 anos. 

(...) Foi ao entregar a vasilha que a minha mãe me prometeu a nata. Eu conhecia já o desenvolvimento desse gesto, não era a primeira vez. Entrei em casa e sentei-me à mesa com as minhas irmãs, a pequena não estava ainda farta de brincadeira. Sopa de feijão com massa, a minha mãe sempre de pé, a ir de uma tarefa para outra, acabámos de comer em silêncio, as sombras engrossavam nos cantos. Mas a pequena ainda estava esperta, não pensava em sono, e a minha irmã Cremilde fazia-lhe a vontade, as suas vozes a desmontarem-se até serem risos e, sem esforço, a transformarem-se outra vez em vozes. Recolhida a loiça, quando fui buscar o caderno da escola e me sentei à mesa, arrumado ao candeeiro de petróleo, a minha mãe deu ordem às raparigas para irem para o quarto, não se importaram, sabiam que lá estariam mais soltas. O carvão do lápis, no papel, sob a luz do candeeiro, penumbra, era feito de sombra, escrevi letras com sombra. O tempo, a minha mãe e eu, todos os objectos de cozinha.

E, há poucos minutos, voltei a guardar o caderno, os trabalhos terminados, aptos para o olhar do professor e, imediatamente, os sons do alumínio e do esmalte, a vasilha de alumínio a verter o leite para o púcaro de esmalte. Apercebo-me ainda do momento em que arrumei o púcaro às brasas, a raspar o chão de cinzas, ao lado da cafeteira com água que está sempre encostada ao lume. Esse momento aconteceu e está ainda a acontecer, existiu o ponto em que tudo era nesse momento, e existe este ponto arrastado em que é um eco, imagem desfiada, composta por notícias em que só agora reparo.

Interrompendo um raciocínio, de repente, como se me quisesse apanhar desprevenido, o leite sopra um arrufo e lança-se; mas os meus reflexos são imediatos, inclino-me e puxo o púcaro. A minha mãe dá conta desse gesto. Tem tudo preparado, abre a lata do café. (...)

Almoço de Domingo
José Luís Peixoto
Quetzal (2021)

sábado, 27 de março de 2021

Dia Mundial do Teatro

Comemora-se hoje o Dia Mundial do Teatro apenas com as peças trazidas para o ecran, que funcionam por não ser possível outra usufruição. Sabe a sopa sem sal ou a torrada sem manteiga, mas é o possível. Há vários espectáculos que podem ser vistos a preços simbólicos e alguns, até, de forma gratuita. 

Mas o teatro precisa de público, do apagar das luzes, da entrada em cena, dos aplausos, do regresso dos actores ao palco, já "despidos". Hoje não pode haver nada disso. Acalenta-se a esperança de poder estar para breve o regresso ao teatro ao vivo, em sala ou em espaço aberto.

Para assinalar a data, fica um extracto da Farsa de Inês Pereira, escrita em 1523 por Gil Vicente, por muitos considerado o pai do teatro português. A grafia segue o acordo ortográfico da época e o conteúdo mantém a actualidade possível.

(...) Escudeiro

Antes que mais diga agora,
Deos vos salve, fresca rosa,
E vos dê por minha esposa,
Por molher e por senhora;
Que bem vejo
Nesse ar, nesse despejo,
Mui graciosa donzella,
Que vós sois, minha alma, aquella
Que eu busco e que desejo.

Obrou bem a natureza
Em vos dar tal condição,
Que amais a descrição
Muito mais que a riqueza.
Bem parece
Que a descrição merece
Gozar vossa fermosura,
Que he tal que da ventura
Outra tal não s'acontece.

Senhora, eu me contento
Recebervos como estais;
Se vós não vos contentais,
O vosso contentamento
Póde falecer no mais.
(...)
Autos e Farsas
Gil Vicente
Colecção dirigida por Vasco da Graça Moura