sexta-feira, 9 de abril de 2021

Justiça

Quase sete anos depois, com a leitura de uma resma de folhas A4 que demorou mais de três horas, a "montanha pariu um rato".

Dir-se-á que é o tempo da justiça e o estado de direito a funcionar mas, para um leigo, ainda por cima com dificuldades no entendimento do "direitez", é triste ver o resultado, depois de todo este tempo na praça pública. 

Ficará para a história o falhanço da acusação e, como sempre, a culpa será apenas da interpretação e nunca da incompetência. O Ministério Público, depois deste atestado, vai por certo recorrer e procurar salvar a face com esse recurso. O Juiz teve o seu "tempo de antena", leu o "romance" de muitas centenas de páginas, que agora será escalpelizado e analisado por Departamentos superiores.

Veremos os desenvolvimentos futuros, com muitas dúvidas de que tudo se concluirá ainda na vida dos intervenientes.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Miséria

A morada era um carro, velho, coberto por uns panos grandes, seguros por elásticos, que se encontrava estacionado junto a um, também velho, pinheiro manso.

Vieram as obras de requalificação das ruas e aquela foi uma das contempladas, decerto por fazer parte do plano previsto, reforçado agora por ter passado a ser um dos principais acessos ao enorme restaurante Mcdonalds, que por ali se instalou recentemente.

Abandonou o poiso e acomodou-se a algumas centenas de metros, agora numa carrinha grande, mais nova e mais discreta. Mesmo assim,  havia um pano por cima para assegurar, julgo, algum conforto, e fazer de cortina ao "quarto", protegendo as intimidades. Aqui, ainda mantinha a vista para o restaurante e, de lá, também era visível.

Partiu de novo, obrigado ou convidado a sair. Não o descortinei durante alguns dias e pensei que alguém lhe tinha resolvido o problema e arranjado um espaço para habitar. Surgiu-me hoje, de novo, num outro local, sem vista para o restaurante mas com porta para a rua e para o trânsito.

A carrinha está bem estacionada, não podendo ser legalmente removida nem multada. O "inquilino" por lá vive, sem quaisquer condições de salubridade e higiene. 

Será teimosia do próprio ou toda a gente assobia para o lado, como eu?

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Caminhada

O "grupo" voltou hoje às caminhadas, com as cautelas devidas, "mascarados", a distância determinada mas não medida, as vozes bem altas, para nos fazermos ouvir. 

A conversa fluiu e os cinco quilómetros foram percorridos sem esforço e quase sem se dar por eles. O barulho dos carros, tão incomodativo no passado, passou hoje despercebido, tal a ansiedade do reencontro e a satisfação pelo regresso dos hábitos, bem sumidos pelo tempo decorrido sem quilómetros calcorreados em conjunto.

As notícias parecem ser animadoras, muito embora isso já tivesse acontecido noutros tempos e, depois, tudo regrediu e obrigou a reduzir o espaço de liberdade e a circunscrevê-lo à "casinha" e pouco mais.

O tempo ajuda e o azul do céu reforça o efeito da esperança, como se verde fosse. 

Talvez consigamos, desta vez, colocar o "bicho" em sentido e obrigá-lo a depor as armas. 

terça-feira, 6 de abril de 2021

Embirração

Há muitos anos, num colóquio sobre rádio, ouvi um conselho de Joaquim Furtado, dirigido a todos aqueles que faziam ou pretendiam fazer rádio:

"Se não tem nada para dizer ou não sabe o que há-de dizer, cale-se. Ponha música!"

Quase todos os dias isto me vem à lembrança quando vejo os telejornais das várias televisões, os quais, na maior parte do tempo, poderiam ser substituídos por música, que toda a gente ficava a ganhar e eram reduzidas as exibições de braços com agulhas.

Hoje vou seguir o conselho, embora o blogue não seja rádio, não tenha a pretensão de dar notícias e quem "rabisca" as palavras não pretenda ser outra coisa que não um "diaristazito", que tenta escrever sem erros. As imagens abaixo são da ópera La Traviata, representada em Março de 1958 no Teatro de S. Carlos, tendo Maria Callas como primeira figura. Claro que não recordo nada disto (nessa altura nem sonhava que havia S. Carlos quanto mais ópera), mas tenho uma vaga ideia das eleições de Humberto Delgado, que aconteceram em Junho do mesmo ano e deram a vitória ao candidato que ficou em segundo lugar.



segunda-feira, 5 de abril de 2021

Visita

Já por lá não passava há bastante tempo. Um mês, dois, talvez perto dos três, aconteceu a última vez. (rimou mas não foi de propósito)

Fui à Rua Almirante Cândido dos Reis, que toda a gente conhece por Rua das Montras, e a "montra" tinha uma boa exposição. A esplanada estava cheia e havia uma "reunião" de quatro conhecidos, em amena cavaqueira, bem no meio do caminho com, soube-o depois, dois deles a aguardar mesa vaga para voltarem a deliciar-se no poiso habitual e tão ausente nos últimos tempos.

Juntei-me à conversa e por ali estive, quinze, vinte minutos, talvez meia-hora, a falar sobre a cidade, eleições autárquicas, obras, governo, crise, Marcelo e Costa, o tudo e o nada, como convém nestas "tertúlias". Falámos ao mesmo tempo, depressa, gesticulámos muito, que a ânsia de mostrar que ainda sabemos conversar é enorme. Depois, bem, depois fomos cada um à sua vida, mais frescos, mais limpos e mais fortes.

Passaram inúmeras pessoas, o sorriso apenas nos olhos que a máscara não permite mais. Sentia-se o prazer, a boa disposição - quero que me vejam - uma satisfação imensa por parecer que o normal está em vias de regressar, como todos ansiamos.

domingo, 4 de abril de 2021

Páscoa

Uma rosa de uma roseira com mais de 40 anos e um jasmim, que esteve quase morto e surge agora a dar uns pequenos passos rumo à florescência normal.

Assim vai o jardim em mais um Domingo de Páscoa confinado.

sábado, 3 de abril de 2021

Palavras bonitas

ANJO INCOLOR 
 
Abri o livro na altura
em que o Anjo me sorria
e em vez de mel prometia
amor, descanso e ternura.

Falava como que a sós.
E as palavras flutuavam.
Eram pombas que poisavam
no fio da sua voz.

Escutei-o de olhos no chão
como se fosse o culpado,
como se o mundo enredado
estivesse na minha mão.

Abri o peito e mostrei-lhe
a areia, a pedra britada,
os planos da grande estrada
onde o Anjo se ajoelhe.

Ele fitou-me, de frente,
de olhos frios como brasas.
E abrindo e fechando as asas
rasgou o céu, lentamente.

Sobre a folha imaculada
por longo tempo nevou.
Sentei-me à beira da estrada
mas o Anjo não voltou.

Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975) 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

quinta-feira, 1 de abril de 2021

IRS

Cumpri a obrigação de contribuinte cordato, fiel e legalista. 

Fi-lo na noite de ontem, ainda antes de o Dia das Mentiras se iniciar, embora fosse o dia 1 de Abril o determinado pelo Governo para o início das entregas. Espero que esta minha atitude não venha a ser declarada inconstitucional, porque foi eivada das melhores intenções e no pressuposto de facilitar a vida a quem cabe mandar processar os reembolsos.

Com receio das aglomerações e cumprindo o distanciamento, experimentei, a página abriu e ... foi rápido. Até já sei que vou receber, e quanto. Só desconheço quando. Tomando por certa a conversa de quem manda, vai ser muito em breve e mais cedo do que no ano passado. Dirão uns: "chico espertice"; acrescentarão outros: "pressa de velho"; determinarão, por fim, os mais sapientes e ocupados: "não tem mais nada para fazer, entretém-se".

Talvez todos tenham razão. Contudo, o lema aprendido há muitos, muitos anos, comanda sempre:

"Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje."

quarta-feira, 31 de março de 2021

Vida(s)

Não sei, em concreto, onde vive. Ali para os lados do quartel, mas ao certo, certo, não consigo dizer. O antigo "bairro da lata", como era conhecido nos anos sessenta do século passado, é hoje o Bairro de S. Cristovão. Já não tem barracas, as ruas estão alcatroadas e têm nome, e está agora a sofrer uma intervenção municipal que tornará a sua entrada mais atraente para os que lá vivem e para os que por lá passam. Bem perto do Bairro fica o pinhal, antigo, onde fiz algumas simulações de combate quando a instrução militar me passou pelo corpo. Um pouco mais à frente (ou antes, dependendo do sentido), a ESAD, que aproveitou as instalações do antigo Hospital de Santo Isidoro, recuperou-as e ampliou-as, e fez uma escola de artes, hoje pólo conceituado e atractivo para muitos jovens artistas, que todos os anos trazem à cidade a sua irreverência e a sua especificidade de intervir. 

Quase me perdi em divagações, quando o que pretendia era escrever duas linhas sobre ela. Terá quarenta, cinquenta anos, talvez menos. Mais não, que se assim acontecesse, atiraria para a minha geração e estaria no "arquivo". Tem problemas, visíveis, de álcool e outras adições, traz sempre um saco às costas, com um conteúdo que desconheço e nem faço a menor ideia qual seja. Já a encontrei sentada no estacionamento do supermercado, a dormitar e quase de certeza a sonhar. Hoje vinha andando, meia trôpega, com os olhos a quase saírem das órbitas e a olharem, perdidos, o infinito. A pele, acobreada, tem rugas bem marcadas do "castigo" que carrega. O corpo não é gingão mas abana como se a ventania o fustigasse sempre. Terá família? Recusará ajuda? Como sobrevive?

Lembro-me disso sempre que a vejo. E que faço? Nada! "Alguém" tem obrigação ...