domingo, 6 de junho de 2021

Pinhal

Manso, como convém a quem se quer instalar sem perturbações nem constrangimentos, o pinheiro cresce arredondado, na companhia de outros iguais ou com diferenças muito ténues. Não dá nas vistas, é apenas mais um do conjunto que, ao longe, forma uma bonita e vistosa mancha verde, convidativa, repleta de sinais de unanimidade, guardada pelo moinho, vigilante, que lá do cimo tudo controla e mantém na linha.

Lá ao longe, do outro lado, o bravo que "em verde e oiro se agita" domina o horizonte, atento ao vento e ao que se passa em volta, balança, ondeia, barafusta, contraria, discorda, refila, contesta, grita, gesticula. Está isolado mas isso não o impede de sentir a injustiça do vento que o fustiga, do sol que o atinge em cheio, da ausência de chapéu que o proteja, da violência da chuva que o encharca do cocuruto às raízes. Mas resiste, resiste sempre, à espera que outros cresçam, o apanhem e acompanhem.

Um dia, quem sabe, talvez os mansos deixem de estar acomodados no sossego e os bravos se reproduzam e se tornem os suficientes para que o pinhal seja mais forte, do alto da sua razão.

sábado, 5 de junho de 2021

Livros

Ler é um acto que exercito, diariamente, há muitos, muitos anos. Poucas ou muitas, há sempre algumas páginas que preenchem o meu dia a dia e me desafiam. Também o vício de comprar me acompanha, não com a mesma regularidade, felizmente para a carteira. Ainda assim, já não conseguirei ler todos os livros que comigo habitam.

Há algum tempo - talvez um mês, por aí - participei num encontro via Meet, com pessoas das minhas relações mas não das que conhecem a casa e a frequentam. Era o tablet que servia de suporte à conversa e, a meio, surgiu no ecrã o aviso, vermelho, de que a bateria carecia de carregamento. No escritório, a única tomada livre estava longe e o carregador não lhe chegava.

Mudei de sala e, quando assentava novos arraiais, um dos participantes, mais perspicaz, atento ou curioso, comentou:

- Ena, pá, tantos livros. São verdadeiros? 

Não imaginava que pudesse haver falsos mas, pelos vistos, será hoje possível apresentar um móvel a fazer de conta, para encher o "olho" da câmara e dar um ar importante. Respondi que sim, eram verdadeiros, e apenas uma parte dos que existiam cá em casa. 

Apercebi-me dos sorrisos e arrependi-me de imediato. Há coisas que é preferível ignorar e não comentar. 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Jardim

De novo a rega automática montada, para garantir que a gota abastece as plantas e as fortalece, sem a presença ou intervenção humana.

No início não queria funcionar. À primeira vista, tudo parecia em condições, não se descortinando qualquer falha no equipamento ou na montagem. Todavia, o sistema queixava-se de qualquer coisa estranha, que o incomodava e o fazia negar-se a funcionar bem.

O material tem sempre razão ... o filtro estava sujo da inactividade e, como não conseguia lavar-se sozinho, pedia ajuda.

Lavou-se, limpou-se, montou-se ... já se pode ir passear, que a vida das plantas fica garantida, mesmo que o S. Pedro, por excepção, envie muito calor para o Oeste.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Lagoa

Há tubos, bóias, jangadas, operários, uma draga em pedaços, a ser montada como se de um Lego se tratasse, uma azáfama grande, mesmo em dia santo. O tempo urge e é inclemente.

A curiosidade sobre o sítio onde irão ser despejadas as areias dragadas é grande mas, por enquanto, o local permanece no "segredo dos deuses" ou inacessível ao cidadão mal informado sobre os corredores do poder.

Nos últimos anos, a dragagem da Lagoa tem sido recorrente mas o assoreamento continua sem fim à vista. Os técnicos, que sabem disto a sério, dizem que não há cura definitiva e que apenas se consegue mitigar os danos inexoráveis do tempo; os conhecedores da Lagoa afirmam, com o saber empírico da experiência e do conhecimento diário daquelas águas, que a solução passa pela abertura de um canal profundo, da Aberta até ao Braço da Barrosa, para que o efeito das marés atinja toda a extensão da Lagoa.

A ver vamos! Este ano, uma vez mais, haverá constrangimentos para os habituais "clientes" da praia da Lagoa. A mim, que sou "cliente" fiel da do Mar, não me deverá fazer diferença. Egoísta!!!

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Tempo

" Nascemos únicos e morremos cópias"

Não me lembro se ouvi ou li, mas espero que o autor me perdoe a ousadia de utilizar sem referir a fonte e sem autorização. A idade já me dá direito a estes luxos, que não devem ser copiados e que merecem sempre reparo.

A manhã de hoje teve "conversa de velhos", a propósito dos pequenos títeres que a pandemia trouxe, permitindo que gente sem o mínimo de condições e com propensão para farsante, abra a boca e, como não entra mosca, deite cá para fora asneira da grossa.

- Aqui quem manda sou eu!

E vamo-nos calando, os velhos porque já lhes falta a paciência e sobra-lhes a dificuldade em serem ouvidos, e um bom punhado dos mais novos, porque sim. A opinião (ainda) é livre e o direito à asneira está a querer prevalecer em detrimento da busca do melhor caminho, da boa solução, do que interessa a todos. Grita-se muito, comenta-se muito, gosta-se muito e ... cala-se (já) muito.

Nascemos únicos ...

A pouco e pouco vamo-nos dobrando ao que não se deve dizer, que é feio, ao que não se pode fazer, que fica mal, à escolha da mesma rua, porque toda a gente a escolhe.

... e morremos cópias.

Assim, vamo-nos tornando presas fáceis de um qualquer "gritador", que não terá dificuldade em arranjar um modelo de chapéu para servir na maioria das cabeças.

... Sei que não vou por aí!

terça-feira, 1 de junho de 2021

Fia-te na virgem ...

Trinta dias tem Novembro,
Abril, Junho e Setembro.
De vinte e oito (ou 29) há só um
E o resto é de trinta e um!

A cantilena, aprendida muito cedo, ensina a forma de decorar a duração dos meses, evitando o desconforto de sermos surpreendidos pela ignorância ou traídos pelo esquecimento, como tantas vezes se vê por aí.

Junho chegou ao Oeste, cinzento, com o borriço do costume, para que não haja tentações de encher as praias e sujeitar-se ao risco de surgir um polícia, com a fita métrica, a tirar as dúvidas sobre a distância, ou a policiar o início do areal, que determina a zona de colocar a máscara no bolso.

Ao que dizem (sim, sou antigo mas não desse tempo), na década de 40 do século passado, havia brigadas de costumes que circulavam pelas praias medindo os fatos de banho, certificando que o seu tamanho não ultrapassava a moral vigente, bem guardada e reprimida.

Conto começar a época balnear assim que o S.Pedro resolva determinar que o Oeste também é merecedor de algum sol e calor (pouco). Não vale a pena pedir água quentinha ou mesmo morninha, que essa, já se sabe, está sempre ausente destas paragens e em férias pelos Algarves ou pelas Caraíbas.

Espero encontrar amigos, ler, conversar, andar, mergulhar, com os cuidados recomendados e sem necessidade da companhia de qualquer polícia, munido de fita métrica ou de outro qualquer instrumento persuasivo. Se não tiverem mais nada para fazer, dediquem-se à pesca! A Foz é um bom lugar!

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Outros tempos?!

Que país existiria hoje se, como se fantasia neste livro, o Botas tivesse morrido em 1940, trinta anos antes da "despedida" efectiva.

(...) Na entrada dos Armazéns do Chiado, um cavalheiro de chapéu proíbe a aproximação de um mendigo com uma cuspidela para a calçada e diz "Tenha paciência". Rebeca, que já se cansou dos elogios dos estrangeiros à magnífica luz de Lisboa, nunca ouviu ninguém falar dos roncos da cidade. Uma cacafonia de escarros, ganidos, buzinas de automóveis, atropelamentos, gaivotas esganiçadas que cagam as praças, pregões de gente descalça e tão desprovida de vocabulário como de meios para comer uma refeição quente por dia. Os homens açambarcam as ruas, esperam nas esquinas, acotovelam-se nas praças. Quando Rebeca tentou beber um chá na Pastelaria Suíça, disseram-lhe que não serviam senhoras desacompanhadas. As poucas mulheres que se apresentam em público carregam sempre alguma coisa - canastras de peixe e bilhas de água na cabeça, as compras da patroa, os filhos no colo, os chapéus finos das bem casadas, as ordens do pai ou do marido. Até a flauta do amolador parece a Rebeca um hino à resignação da tristezazinha portuguesa. Detesta diminutivos e o som dos lábios dos carroceiros a incitar as mulas, esse trapejar de cuspo que os homens também usam para chamá-la na rua. Despreza a minoria de ricos que desdenha a pedinchice da multidão de pobres. Não suporta os atrasos, os almoços de três horas e quatro garrafas de tinto, o vossa excelência, o nepotismo magnânimo, que não beneficia apenas o filho do arquitecto como ainda arranja um biscate ao sobrinho do caseiro.

A família desce pelas escadinhas da Rua de Santa Justa, dirige-se ao mercado da Praça da Figueira. Rebeca sabe que Paixão Leal escolheu a rota que foge ao Rossio, evitando os peregrinos que, desde o mais recente ataque dos terroristas judeus, acodem à Igreja de S. Domingos. O engenho explosivo deflagrou durante a missa, matando oito pessoas e ferindo dezenas. Movidos pela morbidez e ciosos de um milagre, os curiosos querem saber onde tombaram os mortos e ver a cratera da bomba, na qual acreditam ver a silhueta de Nossa Senhora esboçada a negro pelas chamas da fachada.(...)

Deus Pátria Família
Hugo Gonçalves
Companhia das Letras

domingo, 30 de maio de 2021

Vacina II

Já cá canta!

A partir de hoje, faço parte do grupo que contribui para a estatística da imunidade. Por antecipação em relação à data prevista, desloquei-me há pouco ao pavilhão de vacinação e recebi a segunda dose Pfizer, que estava marcada para amanhã.

Por um telefonema, simpático, foi questionada a minha disponibilidade para ir hoje, por terem pouca afluência e, naquele instante concreto, não haver ninguém à espera.

Lá fui e, ao contrário do que tinha acontecido na primeira vez, correu tudo "sobre rodas". Mal tive tempo de trocar meia dúzia de larachas com três amigos que já lá estavam e, entretanto, foram chamados para os respectivos gabinetes.

Quarenta minutos depois de ter entrado, estava na rua, a admirar o verde (este ano, o verde está sempre presente) da Mata Rainha D. Leonor e a saborear o ventinho oestino que, excepção à regra, não está confinado nem leva a vacina.

sábado, 29 de maio de 2021

Hora de fechar

As autoridades estão com imensa dificuldade em fazer com que as pessoas, cansadas de confinamento e de casa, saiam das esplanadas, bares e restaurantes, quando chega a hora legal para a folia terminar.

Os ingleses, que vieram para assistir à final da Liga dos Campeões de futebol, aproveitam, naturalmente, para se dessendentarem com as nossas cervejas, boas e baratas, compensando dessa forma a desidratação que o nosso sol lhes causa. A polícia não percebe estas necessidades e satisfações e quer que aquela gente se vá encerrar num quarto de hotel, quando a noite ainda é uma criança e se está tão bem junto ao rio. Francamente ...

Sem qualquer dúvida e mesmo antes de o jogo se disputar, o campeão europeu deste ano será inglês. Manchester City ou Chelsea, um dos dois vencerá, nem que seja necessário recorrer às grandes penalidades. 

Será um jogo disputado no estádio azul do Dragão, por duas equipas que usam habitualmente o azul nas suas camisolas. Se o tivessem marcado para a tarde, ficaria tudo, tudo azul, que até é uma cor bonita!

sexta-feira, 28 de maio de 2021

28 de Maio

Conheci-o em 1974, quando cumpria o serviço militar obrigatório. Nunca mais o vi e já por cá não deve estar, que os anos não contam só para mim. Teria, nessa altura, talvez 50 anos, idade que, para os jovens dessa altura, significava ser já um "velho do caraças".

Era um "cabo chico", lento de raciocínio, sempre pronto a fazer continência nem que, para isso, tivesse de ir buscar a boina ao cabide (a continência não se concretiza com a cabeça descoberta). Repetia, vezes sem conta, interrompendo conversas ou quando conseguia espaço para "botar faladura", a frase que lhe enchia a alma: eu estou com o MFA; sou militar das Forças Armadas!

Martelava a máquina de escrever Messa apenas com os dois indicadores e usando uma força tal que o papel tinha dificuldade em resistir. Estava sempre disponível, tinha sentido de humor e ficava visivelmente satisfeito quando conseguia ser útil, na vertigem dessa época. Na maior parte das vezes não percebia o que estava a acontecer, mas queria que o soubessem participativo e disponível para os novos tempos.

A mulher era telefonista num banco que, tal como a profissão, já não existe. Mal chegava, logo pela manhã, o "nosso cabo" levantava o auscultador do telefone e gritava para o telefonista, como se fosse necessário gritar para ele o ouvir, estando no último piso do edifício.

- Liga-me ao número ....

Aguardava a ligação e mal ouvia a voz esperada e conhecida, dizia:

- Olha, já cheguei. Até logo.

A cena repetia-se à saída para o almoço,

- Olha, vou almoçar. Até logo.

e de novo à chegada, já com a barriguinha cheia.

- Olha, já cheguei. Almocei .... Até logo.

Quando chegava a hora da saída, perguntava para a "geral":

- Alguém precisa de ajuda? Então até amanhã.

Mas antes, ainda tornava ao telefone, para informar que

- Olha, vou sair. Até já.

Era um homem muito preocupado com os novos tempos e com o que lhe poderia acontecer, embora não causasse preocupação a ninguém e contasse apenas para algumas tarefas básicas. Por tudo e por nada repetia que nunca tinha feito nada de mal, nem sequer tinha ido à guerra. Cumpria todas as ordens, sem discussão. Fora sempre assim e assim iria morrer, dizia.

-  Não diga a ninguém, peço-lhe pela sua saúde, mas eu vivo sempre a pensar que podem correr comigo. Eu não sei fazer mais nada e a idade já não dá para aprender.

- Descanse, homem, ninguém lhe faz mal.

- A minha mulher é neta do Gomes da Costa ...

- O do 28 de Maio?

- Sim. O da revolução de Braga que abriu as portas ao Botas. Mas fique sabendo que ele, depois, arrependeu-se e até chegou a ser do contra.