"Lagarto pintado, quem te pintou(Não) foi um velho que aqui passou."
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
quarta-feira, 25 de agosto de 2021
terça-feira, 24 de agosto de 2021
Evidências
O creme de barbear é verde, perguntou o meu interlocutor de todas as manhãs, olhando-me de frente, bem nos olhos e com um ar de dúvida sobre o que estava a ver. Verbalizou o pensamento e o espanto que me assaltavam, eu que tinha ido à prateleira do supermercado e trazido aquela embalagem sem me preocupar sequer em ler o que ela tinha escrito. As letras não eram muito grandes e os óculos estavam em casa, onde são absolutamente necessários para ler as pequeninas.
Peguei na embalagem e lá estava a explicação: gel de barbear e não creme nem espuma. Experimentei espalhar pela cara o bocadinho de massa verde que permanecia no dedo e, milagre, passou de imediato a espuma branca, explodindo por todo o lado e deixando a mão com uma quantidade enorme. Amanhã vou ter mais cuidado a carregar, para não haver desperdício. É feio.
O interlocutor do espelho ainda não tinha recuperado da surpresa. Ele, que se lembrava bem dos primórdios, do pincel sobre o sabão, da lâmina larga que exigia muito cuidado ao ser colocada na gillette, do salto para a bisnaga de creme mantendo a actividade do pincel, via agora este gel verdinho e fresco a espalhar-se pela cara toda com grande facilidade.
Matreiro e com o segundo sentido sempre na ponta da língua, não resistiu:
- Não percebo para que guardas aí o pincel. Podes deitá-lo fora. Já não serve para nada ...
Claro que ele tem razão, mas prefiro manter aquilo que me foi útil durante tantos anos. E o tubo do creme Palmolive ainda tem algum. Nunca se sabe se o gel não acaba de repente.
segunda-feira, 23 de agosto de 2021
domingo, 22 de agosto de 2021
Repetição
O esplêndido dia de praia de ontem terminou com uma combinação de grupo, para executar na manhã de hoje.
- O primeiro banho de amanhã vai ser nas rochas. É maré vazia por volta das nove e meia e vai dar.
Cada um foi à sua vida, ainda a digerir a beleza do mar, a doçura das ondas, a ausência do vento, o calor abençoado do sol. Ninguém se lembrou de ligar ao S. Pedro, participando-lhe a decisão, obtendo a sua anuência e a necessária e fundamental colaboração. Resultado desta má programação: não houve passeio na praia, muito menos banho (o mar não se via) e nem sequer a areia foi pisada.
O Sol não apareceu, o vento regressou, o nevoeiro "poisou" e tapou o mar, houve pinguinhos para molhar o cabelo. Como sempre na Foz, não há planos que resistam vinte e quatro horas. Dois dias seguidos bons é quase tão raro como ganhar o Euromilhões.
Mas não se perdeu tudo. Abrigados da nortada pela parede da antiga discoteca, que foi depois restaurante e agora só tem no interior as mesas e as cadeiras, permanecendo fechada há anos, discorreu-se sobre o antigamente, as figuras e os figurões da cidade, o como e o porquê de quando éramos novos, com apelos à memória a cada momento.
- Lembras-te? Como é que ele se chamava? Era jeitoso ...
A conclusão, brilhante, foi de que tudo desse tempo teve muita piada e agora já não há nada disso!
Porque será que os velhos não conseguem manter uma conversa que não descambe, inevitavelmente, no "nosso tempo"?
Valeram as anedotas, algumas bem picantes, sempre antecedidas das desculpas devidas às senhoras presentes, porque nenhum dos participantes é malcriado e há "estórias" que têm mesmo de ser contadas com pormenor ...
sábado, 21 de agosto de 2021
Raridade
Espectacular.
Céu azul, vento de férias, mar chão, calor quanto baste, água aí pelos quinze graus, para não escaldar.
Não acontece muitas vezes mas, nestes dias, a Foz é única. Até a "aberta" estava diferente. O "empreiteiro" da areia trabalhou a noite toda e deu nova aparência à paisagem, para surpreender quem visita.
sexta-feira, 20 de agosto de 2021
Loja
Decidida, vestida de forma fresca, como convém estar para o calor que ainda faz quase no final da tarde, não deverá ser quarentona, mas andará perto. Ao seu lado, com algumas dificuldades em acompanhar o ritmo da passada, um marido, namorado, amigo colorido ou similar, seguramente sexagenário. Leva os medicamentos que foram adquirir na farmácia de onde saíram.
Ela determina, alto e sem admissão de réplica, naquele sotaque açucarado que só há no português do Brasil:
- Agora vou na loja. "'cê" espera no carro. Não devo "demorá".
- Não pode ficar para amanhã?
O comando abriu o carro. Ela sentou-se ao volante e ele "pendurou-se". O motor ouviu-se e o Renault seguiu viagem.
Não soube onde era a loja, mas fiquei curioso ...
quinta-feira, 19 de agosto de 2021
Há ...
... mas são verdes!
Há fruta no Parque, ou melhor, à saída, logo a seguir ao roseiral, no espaço arbóreo que por ali há.
Para cumprimento das regras sanitárias, há que levar máscara e manter o distanciamento à volta das pessoas, evitando a propagação do vírus que há tanto tempo connosco permanece e incomoda a todos, até à Polícia, a quem cabe, há muito, a inestimável tarefa de cuidar dos cidadãos.
À entrada para os espectáculos, há necessidade de exibir o bilhete electrónico. Quem os tem, chama-lhes seus. Já estão esgotados há muito tempo e não há sítio nenhum onde ainda estejam à venda. Ah! Olha a admiração, tem gente que não assiste a um espectáculo, de borla, há quase dois anos.
Também há cinema na Praça da Universidade, da qual só sobrou a Sénior. Um dia, quem sabe, a Universidade voltará à Praça e todos lembrarão que, há muitos anos, houve por ali um estabelecimento universitário do ensino privado que lhe deu o nome, houve muitos alunos que lá obtiveram o canudo e de alguns já não se ouve falar há muito.
Há, seguramente, muitas mais notícias da terrinha, que cada vez mais se preocupa com o progresso e a cultura, seguindo de perto os concelhos vizinhos de Óbidos e Alcobaça, nos quais há tradição para as coisas que giram à volta do saber.
Em Óbidos, ou mais concretamente na Amoreira, há mais um espaço cultural dedicado aos livros e o seu nome faz jus à finalidade de divulgar a Língua Portuguesa. A preocupação deve ter sido tornar o espaço apelativo para a multidão de turistas que, todos os anos, visitam a Amoreira, e também a todos os que por lá residem e não estão familiarizados com as expressões actualmente na moda. À biblioteca, que foi hoje inaugurada, foi dado o nome de Little Free Library, nome que tresanda à inspiração em Aquilino, Eça, Camões, Pessoa, para só citar alguns.
Há por aí tanta gente a fazer, a dizer e a escrever asneiras, que mais um não deve fazer diferença às pessoas, poucas, que isto leram até ao fim.
quarta-feira, 18 de agosto de 2021
Palavras perdidas
- No rés-do-chão era o consultório de uma parteira que fazia abortos.
- Desmanchos. Nesse tempo eram desmanchos. Abortar era completamente proibido ...
Hoje ninguém utiliza o termo desmancho e o mais provável é haver uma quantidade enorme de pessoas que nem sabe o que significa. A língua é viva, transforma-se, cria, muda, elimina.
O aparo desapareceu, não se usa o apara-lápis e a caneta de tinta permanente pertence a alguns nostálgicos que ainda compram, procurando muito, um frasco de Parker Super Quink. Já ninguém trabalha de sol a sol e, por isso, não cresta, felizmente. A jorna foi promovida a ordenado, mesmo que o trabalho se mantenha em duas ou três jeiras de terra que, agora, produz morangos, beringelas ou courgettes durante todo o ano. Ainda há repolhos, couves-de-cortar, alfaces e feijão-verde, mas a rúcula e os brócolos estão a conquistar espaço.
Acabaram os contínuos e telefonistas também não existem mais. O taberneiro desapareceu e levou consigo o copo-de-três. Só alguns velhos ainda jogam à malha, ao dominó, à sueca e à bisca lambida. O sete-e-meio e a lerpa deram de frosques e nunca mais alguém os viu. Agora toma-se um drink e joga-se na consola e no ipad.
O barbeiro está em vias de extinção, substituído pela barber shop e a brilhantina eclipsou-se. Já ninguém manda pôr meias-solas ou sabe o que é uma galiqueira ou esquentamento. Todos levaram o caminho de nenhures, fazendo companhia ao garrotilho. A nora e os alcatruzes partiram em busca da cegonha, ou picota, deixando os poços à mercê das silvas, por já ninguém regar de pé-posto. Também já não há quem vá ao latoeiro comprar um cabaço para regar a horta e serão excepções os que sabem que o fogareiro tanto podia assar as sardinhas como cozer as batatas. Houvesse petróleo para o manter e álcool desnaturado para o acender ...
Tudo isto acontece porque estas palavras (e muitas outras) deixaram de ser impactantes para a sociedade e não tiveram a resiliência suficiente para se manterem à tona. Quem diria!
terça-feira, 17 de agosto de 2021
segunda-feira, 16 de agosto de 2021
Consulta
O Carlinhos teve, desde criança, o Manelinho como o seu melhor e dedicado amigo. Cresceram na mesma rua, brincaram juntos às escondidas, jogaram à bola e ao berlinde, subiram as mesmas árvores, espreitaram os mesmos ninhos, frequentaram a mesma turma na primária e tiveram igual sorte no liceu.
No final do sétimo ano, fizeram as suas escolhas e, enquanto o Carlinhos optou pela Medicina, no Porto, o Manelinho preferiu a Veterinária, em Lisboa. A amizade permaneceu intocável, ainda que os encontros fossem rareando e se limitassem a alguns fins de semana e às férias. À medida que os estudos evoluíam, as discussões aumentavam e nunca havia acordo.
- Eu estudo para salvar vidas humanas, tarefa dificílima mas de uma nobreza enorme, argumentava o Carlinhos.
- Sem comparação com a minha. Os animais não se queixam. É preciso entender, estudar, analisar, perceber o que se passa, sem ouvir sequer uma palavra, devolvia o Manelinho.
As diferenças e a valia de um ou do outro curso mantiveram-se durante os anos de formatura e prosseguiram quando ambos iniciaram as respectivas actividades profissionais. Discutiam a utilidade e a dificuldade sem nunca chegarem a acordo, preservando sempre a amizade como bem acima de qualquer discordância.
Um dia (há sempre um dia), Manelinho sentiu-se mal, com dores no corpo, náuseas, cansaço, suores frios, dificuldades na respiração. Resolveu telefonar ao amigo.
- Preciso de uma consulta, com urgência.
- Dentro de 10 minutos, no meu consultório.
Ainda não tinham passado os 10 minutos e o Carlinhos já tinha a bata vestida, o estetoscópio ao pescoço, o medidor da tensão arterial a postos e o Manelinho sentado à sua frente.
- Conta lá o que se passa.
- Não, isso não. Não te vou dizer nada. Examina, analisa, faz o que quiseres, mas vais descobrir por ti, sem uma palavra minha. É assim que eu faço com os meus doentes, que não sabem falar.
Carlinhos não se fez rogado. Auscultou, examinou, apalpou, mediu, espreitou, numa consulta longa, dedicada e atenta. No fim, pesaroso, decidiu:
- Nada a fazer. Abate-se!

