sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Organização

Há muitos, muitos anos, tive nas mãos um postal, dirigido por uma repartição pública a um cidadão, que dizia o seguinte:

A fim de tratar de assunto do seu interesse, queira comparecer com urgência nesta Repartição, fazendo-se acompanhar deste postal.

O texto impresso trazia uma nota manuscrita com a seguinte mensagem: Devolver a esferográfica que, nesta data, retirou do balcão e levou.

Não mais esqueci o preciosismo e a organização revelados no postal. O visado compareceu, devolveu a esferográfica, sem pagar qualquer coima. Teve sorte, ficou a reprimenda.

Mais de meio século depois, a organização continua a primar pelo rigor, pela determinação e pelo cumprimento das regras, mesmo que sejam ilógicas, insensatas e inconsequentes.

  • Vacinação 
Recebido SMS com marcação para as 14H07, um rigor que indicia tudo pensado ao minuto, sem lugar para falhas. Chegada ao local, a pessoa depara-se com uma fila enorme e um "organizador" a proclamar, do alto do seu poder majestático:

- Fila única. A hora não interessa nada. Quem chega primeiro, entra. Seja covid, covid mais gripe ou só gripe.

  • Centro de Saúde
Ninguém à espera. Dedução: talvez os doentes não tenham ouvido os pedidos e continuem a dirigir-se às urgências do hospital.

Atendimento.

- O que sente?

- Dói-me a cabeça, tenho alguma tosse ...

- Não diga mais. Só às seis horas. Se não tivesse dito isso, era atendido. Assim, volte às seis.

 Organização sempre presente e acima de tudo. Os problemas alguém resolverá ...

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Sinónimos

A tasca era o centro de convívio, exclusivamente para homens, e na qual as mulheres só entravam, excepcionalmente, quando já noite fora e por força dos copos entornados, os maridos não conseguiam ter trambelhos para voltar ao ninho.

Todas tinham aspecto mais ou menos parecido, com duas ou três mesas no interior, entre a parede de fora e o balcão, comprido, que ocupava sempre toda a largura da loja. A entrada de quem trabalhava fazia-se por uma pequena "porta", sempre lá ao fundo, meia disfarçada que quase se não dava por ela.

Atrás do balcão, para além do taberneiro, que a todos servia, solícito mas sem grandes conversas, estavam as pipas, a grande ao meio e, em escada, mais três ou quatro de cada lado. O tonel maior era mais motivo decorativo do que utilitário. O vinho distribuía-se pelos mais pequenos e nem todos eram utilizados. A pipa grande ostentava, pendurado, um azulejo com bordadura "bordaliana" que, ao centro, tinha uma inscrição, em bonitas letras pretas:

"O que está não fia! O que fia não está!"

Quando passava, o Carlinhos mirava com toda a atenção o que se passava no interior da tasca. E o que via: o taberneiro numa roda viva a servir copos cheios de vinho tinto, que os homens, sôfregos, despejavam pela garganta abaixo. Nas mesas jogavam-se cartas e dominó, discutia-se muito, faziam-se silêncios, bebia-se de novo, voltava-se à discussão.

O azulejo intrigava. "O que está não fia?". Mas não se via por ali nenhum tecido, muito menos um tear. E aquilo confundia-o e perturbava-o o desconhecimento. Imaginava fundos falsos, gavetas enormes, talvez até algum sótão escondido. Um dia espreitou e, sorte, o taberneiro estava só. Entrou, cheio de coragem.

- Bom dia, Sr. António.

- Bom dia, Carlinhos. Olha que isto ainda não é para a tua idade. 

- Eu sei e não quero vinho nenhum. Só queria que me explicasse como se fia aqui, se não vejo nem tecido nem tear? 

A gargalhada foi imediata e exuberante. Exasperou-se o Carlinhos, ansioso pela resposta.

- Este "fia" não é do "fiar" que tu conheces. Também se diz quando alguém quer comprar qualquer coisa e não tem dinheiro para pagar. Pede fiado, comprometendo-se a pagar mais tarde.

- ???

- Ora eu não tenho dinheiro que me permita esperar pelo pagamento que, em alguns casos, não chega a aparecer. Tenho de receber logo, para poder pagar a quem me vende o vinho. Daí o aviso. 

- Percebi e aprendi hoje, na taberna, que uma palavra tem, muitas vezes, mais do que um significado. Obrigado, Sr. António. Vou ler mais! 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

1º de Dezembro

O feriado de hoje comemora a restauração da independência, após sessenta anos de domínio espanhol, com três reis de nome Filipe. Os conhecimentos de História não são de molde a tecer grandes comentários sobre um acontecimento tão marcante, e muito menos para analisar as suas causas e consequências.

Fica apenas o registo do dia em que D. João IV foi aclamado Rei e deu início à IV Dinastia, a qual viria a durar até ao reinado de D. Manuel II. Em 5 de Outubro de 1910 acabaria, finalmente, o direito sucessório da governação e as lutas que, em seu nome, foram desencadeadas. E foram muitas.

A partir dessa data, a "cor" do sangue deixou de ser condição para exercer o mando, embora se mantenha, ainda, com bastante influência para abrir portas.

O berço não é determinante ... mas ajuda muito.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Como homem da lavoura, Lisboa deveria fascinar-me. Seria como sair da caverna e bater à porta da civilização, largando atrás milênios vencidos, marcados pelo nós das adversidades. No entanto, a ostentação dos ricos, as fachadas suntuosas dos casarões diziam-me que seus cofres enchiam-se com as moedas produzidas por nossa labuta.

Diante do desalento social que nos imprimia a pobreza, o avô aceitou finalmente que o neto, só após sepultá-lo, tentasse a sorte em Lisboa, com a finalidade de livrar-se das agruras do arado, das estações ingratas. E obedeci, fiz o sacrifício de permanecer ao seu lado na terra natal.

- Acato sua fantasia, Mateus. Mas o Infante não passa de um fantasma que invadiu seu coração.

Finalmente chegara a Lisboa, aventurei-me a molhar as mãos nas águas do Tejo, esperando que as tágides, as ninfas de Camões, espraiassem benefícios para este lavrador. Mas de nada valeu. Seguia desprotegido a andar pelos becos, a identificar uma e outra colina da cidade, a pôr-me diante do Castelo de São Jorge, visto do Mirador de São Pedro. A conhecer a Baixa, sobretudo o Paço. Para ver de perto os janotas lisboetas, os pobres cujos andrajos clamavam por ajuda. Aturdidos como eu pela fome e pelo frio, enquanto os ricos recém-instalados nos bairros do Alto, no Chiado, na adjacência do Príncipe Real, exibiam os últimos modelos de Paris.

Que infortúnio ser quem éramos. Condenados ao cotidiano insalubre, desprovidos de prazeres, desprezados pela nobreza e pela burguesia que se fortificavam à medida que empobrecíamos.

A memória soçobrava, não ficava de pé. Eu duvidava se de facto estava em Lisboa, ainda não atracara no Cais do Sodré, que identificava. Assim, havendo saído há semanas da aldeia, das trilhas das ovelhas nos montes, fugido das pressões históricas da estrada real, das vilas e das cidades, cruzando rios de barcaça devido aos remadores que venciam as águas transportando passageiros e mercadorias, eu conseguira chegar a Lisboa.(...)" 

Um dia chegarei a Sagres
Nélida Piñon

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Deficiência auditiva

É imperioso e não me posso descuidar. 

Vou marcar uma consulta para um otorrinolaringologista, com a maior urgência. Não vai ser fácil, tal a procura que, nesta altura, deve existir para essa especialidade. Os ouvidos são uma fonte de preocupação e essa não deve ser apenas minha. Ou têm cera ou já estão velhos, ou adoeceram de repente e estão com visões auditivas.

Parece-me ouvir coisas sem nexo, que não devem nem podem corresponder à realidade. Devo estar no mundo da Lua, porque não me embebedo nem tomo aditivos. Temo, até, que dos ouvidos passe à "moleirinha" e dê lugar a um desequilíbrio mental que redunde em internamento em Rilhafoles. Não é possível ter ouvido o que me pareceu. 

Espero, ansiosamente, que o médico dos ouvidos faça jus àquela especialidade tão musical e me garanta que não ouvi um "caramelo" a gritar "Deus, Pátria e Família" e trabalho, num congresso de um partido político. Acredito que ele me vai dizer que tudo não passou de um ruído de fundo, trazido pela 5G e sem qualquer significado, que a velhice valorizou e, afinal, não passa de uma balela. 

domingo, 28 de novembro de 2021

Farsa?

Juntava-se um magote e um gritava, com a bola debaixo do braço:

- Vamos jogar à bola?

Num qualquer campo improvisado, quatro pedras marcavam as balizas, os dois melhores do grupo escolhiam, alternadamente, os jogadores para as duas equipas. Não havia árbitro nem necessidade dele. Toda a gente se entendia a decidir se a bola tinha passado alta de mais e, por isso, não era golo, ou se aquela entrada mais dura ou a mão na bola eram merecedoras da marcação do livre. O número de jogadores variava consoante o número de "magotantes", com uma regra de ouro: se o número fosse par, as duas equipas ficavam com o mesmo número de jogadores; se fosse ímpar, um dos jogadores, determinado antes do começo, jogava uma parte em cada equipa. Era da "lei" que a igualdade de condições estava garantida e o resultado determinado pela habilidade de cada um e do conjunto de todos.

- Muda aos cinco e acaba aos dez!

Ontem nem um jogo de bola aconteceu. Por força de um surto do malfadado vírus, a equipa da B.SAD só tinha nove jogadores disponíveis para o jogo com o Benfica, a contar para o Campeonato Nacional de futebol profissional. A maior parte dos jogadores eram da equipa B e dois deles eram guarda-redes. O simulacro começou com onze contra nove, arremedou-se a primeira parte, no regresso do intervalo só vieram sete e, dois ou três minutos depois do recomeço, um deles lesionou-se (ou fingiu) e acabou-se, finalmente, a farsa. Os regulamentos determinam que os jogos não podem continuar quando uma das equipas fica com menos de sete jogadores. E os regulamentos são para cumprir, diz quem sabe. 

Mudei de canal assim que vi o simulacro a iniciar-se com duas equipas desequilibradas não pela qualidade dos seus jogadores mas pela quantidade. Vi o Palmeiras, treinado pelo português Abel Ferreira, derrotar o Flamengo por 2-1 e dar ao treinador a vitória na segunda Taça dos Libertadores, em dois anos seguidos, porque gosto de futebol.

Por cá, aquele simulacro talvez tenha servido para testar a qualidade da relva, das botas ou das redes. De jogo não teve nada ...

Vergonhoso! 

sábado, 27 de novembro de 2021

Ómicron

(Décima quinta letra do alfabeto grego, utilizada para designar a nova variante do vírus)

Podiam ser diamantes ou exemplos da vida de Nelson Mandela. Podiam ser laranjas ou uvas, frutas que também por lá há, de alta qualidade. Mas não é nada disso. Parece que já se encontra entre nós uma nova variante do vírus que há dois anos nos acompanha e atormenta, e que terá vindo da África do Sul sem ter a devida autorização, sem ter sido convidada, sem visto nem passaporte e sem necessidade de atravessar o Mediterrâneo num qualquer bote de borracha para cá chegar.

Os cientistas ainda não têm posição definitiva sobre a perigosidade desta variante mas, pelo pânico plasmado (não fui eu que escrevi este "palavrão") na comunicação social, tudo indica que se aproximam, de novo, dias difíceis. 

Discute-se, agora, a vacinação das crianças e continua a assobiar-se para o lado em relação à caterva de negacionistas que, sempre de acordo com as notícias, parece ser a que ocupa mais camas nas enfermarias e nos cuidados intensivos.

Não tenho nada contra a liberdade de cada um, antes pelo contrário. Acho, até, que todos devemos poder fazer o que nos dá na real gana, sem dar satisfações a ninguém e muito menos às autoridades ... desde que não colidamos com o outro. E surge a pergunta: como se sentirá alguém a quem a sociedade facultou os meios necessários à sobrevivência depois de, ela mesmo, se ter recusado submeter-se à vacinação preconizada para o bem de todos?

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Indultos

"Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe"

O "Zé" sabe bem que o estabelecido na sapiência dos adágios corresponde, quase sempre, ao que a vida nos proporciona durante a passagem, efémera, que por ela realizamos.

Por muito boa que seja a coisa, não é provável que se mantenha igual para todo o sempre, sofrendo altos e baixos como as ondas do mar. Também, normalmente, o mal tem um fim, demorando mais ou menos, consoante a sorte de cada um.

Exemplo disso é o caso de João Rendeiro, coitado. Teve de fugir do país, está algures em parte incerta exercendo a sua função de consultor para sobreviver, usufruindo de praia, com água quentinha quase de certeza, que o homem já não tem idade para se banhar em águas parecidas com as do nosso Oeste. O ditado cumpre-se: a vida era óptima mas, por culpa de alguém que não o próprio, houve problemas e a justiça desatou a persegui-lo impiedosamente, embora nunca o tivesse conseguido "enjaular". Apesar dos recursos confeccionados por ilustres causídicos, o homem, de acordo com o que explicou em entrevista na inauguração da CNN Portugal, foi obrigado a fugir à (in)justiça que gente sem quaisquer escrúpulos lhe destinava. E lá abalou, imagina-se com que sacrifício, na esperança de reaver o bem e esperando que o mal acabe. Pesaroso, como aparecem sempre estas vítimas, lamentou não ter consigo a companheira, que por cá ficou por amor às três cadelinhas, que não sobreviveriam sem o seu conforto.

Perante os factos, não há argumentos e surge a dúvida: a companhia aérea impediu a viagem das 3 cadelinhas por falta de passaporte ou, no país de destino, só admitem cadelas?

Não há mal que nunca acabe ... e o indulto pode ser a solução. O PR referiu que, neste ano, o prazo para apresentar o pedido tinha terminado em Julho. Mas todos os anos há indultos. Pode muito bem acontecer em 2022 e o melhor é apresentar já o pedido, não esquecendo de invocar o bem-estar das cadelinhas, argumento na certa fundamental para uma decisão favorável.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Palavras bonitas

DISFARCES

Eu sou o tigre dos versos
a raposa da saudade
o leopardo adverso
nele buscando o inverso

da escrita no seu disfarce

Eu sou o lince dos verbos
a pantera em sua arte
o desespero do falcão
a águia do vento norte

no desvario da razão

Estranhezas
Maria Teresa Horta
D.Quixote (2018)