quarta-feira, 4 de maio de 2022

Batatas

- Os fetos estão cada vez maiores. Podemos apanhá-los e ir fazer a cama às batatas.

Era assim: apanhavam-se os fetos, sempre os maiores, e fazia-se a "cama" para as batatas no espaço da casa que pudesse estar desocupado dois ou três meses. O soalho era coberto com os fetos e, por cima, colocavam-se as batatas novas, bem espalhadas para que não ficassem sobrepostas, cobrindo-se com uma nova camada de fetos. As portadas eram fechadas, para que a luz do sol não entrasse. O objectivo era impedir que as batatas grelassem para, assim, durarem o tempo necessário a serem consumidas. Eram retiradas, à medida das necessidades, com cuidado, para que os fetos não destapassem as que ainda ficavam a aguardar a sua vez de serem consumidas. Não havia, nem podia haver, desperdício. Com a comida não se brinca ...

Os velhos lembram-se de cada coisa. Alguém, com dez réis de testa actualizados, conversa a ligar fetos a batatas, a grelos e ao desperdício. Gente tonta. Qual é a necessidade? Está tudo ali, com saquinho, na primeira prateleira. É só puxar e pagar na caixa. Com cartão, claro!

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Rotina

Apesar de mais de dois anos passados em pandemia, complementada, nos últimos dois meses, pela entrada, no nosso quotidiano, da invasão da Rússia à Ucrânia, o calendário cumpriu-se e o mês de Maio chegou na altura devida. Abriu as portas ao regresso, tão esperado, do Verão, que nos há-de trazer vitamina D e bons mergulhos para aclarar as ideias, disso tão necessitadas.

Desde o início da pandemia que tem havido, diariamente, qualquer coisa por aqui, na maior parte das vezes insignificante, noutras talvez com algum interesse.

Não vou deixar que "postar" passe a ser uma obrigação, um dever, um objectivo. Já não tenho idade para isso, nem para encarar a vida como um cumprimento de ordens, situação a que nunca me submeti com agrado, embora tivesse acontecido muitas vezes. Agora já é tarde e nada a isso me obriga. Até me pagam o ordenado sem pedirem, muito menos exigirem, nada em troca.

A porta do "diário" vai continuar aberta, vou copiar os Diários, de Miguel Torga - que presunção!!! - e escrever sempre que me apeteça, quando me aprouver, desde que queira, agora ou logo, já ou amanhã, nesta semana ou na outra, sem obrigações, horários, vínculos ou rotinas. 

Teimoso, como sempre, inteiro, como convém.

domingo, 1 de maio de 2022

Maio maduro

"Sempre no mês do trigo se cantará"

Para que a borracha não apague o passado nem o deixemos voltar, mesmo pretensamente actualizado.

sábado, 30 de abril de 2022

Palavras bonitas

A VAGA

Como toiro arremete
Mas sacode a crina
Como cavalgada

Seu próprio cavalo
Como cavaleiro
Força e chicoteia
Porém é mulher
Deitada na areia
Ou é bailarina
Que sem pés passeia

Mar
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (Abril/2001)

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Vida

 Para que a mão seja poupada e porque me apetece, hoje apenas música para os (meus) ouvidos).

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Papel

 O papel? Falta o papel! Qual papel? O papel, claro!

Já não sei quem fazia graça com isto, para brincar com a burocracia, mas hoje veio-me à memória não a frase batida do Sérgio Godinho, mas a história do papel que falta e é imprescindível. Devolvemos por falta do papel da prescrição do RX.

E com toda a razão: não fui eu que quis fazer o RX nem me cabe o papel de elaborar o respectivo papel.

O médico prescreveu, a técnica efectuou, a secretaria cobrou e guardou toda a documentação para memória futura. Recebeu o "carcanhol", emitiu os recibos. Mas falta o papel. Sem papel não há palhaços, como no circo.

Vou pedir o papel? Não vou? Indeciso. Vou lá ficar a aguardar que descubram o original ou processem uma segunda via. Entre dentes, talvez sugiram que o velho é chato. Não se lembrou na altura. Ele é que precisa.

Não vou! Fica para descontar no IRS. Dinheiro gasto não faz falta a ninguém!

quarta-feira, 27 de abril de 2022

A Mesa

Não é uma humilhação porque só é humilhado quem deixa e só humilha quem não presta.

Ver o Secretário-Geral das Nações Unidas sentado no topo de uma mesa com seis metros e, no outro topo, um "caramelo" que parece crer que é o dono do mundo, da razão e da mesa, não é agradável nem parece que vá servir para alguma coisa. 

António Guterres foi pressionado pela opinião pública e até por gente que já passou por altos cargos na ONU, para se deslocar à Rússia. Acabou por fazê-lo, embora me pareça que sempre soube que era o mesmo que chover no molhado e que nem o ditado do ratinho - acrescenta sempre um bocadinho, disse o rato. E fez chichi no mar - se aplicaria à situação. Sentar naquela mesa, ser obrigado a aumentar o volume da voz sem uma garrafa de água por perto, com os olhos e os ouvidos do anfitrião bem longe dali, deve ter sido um suplício e uma "refeição" de digestão difícil.

O outro estava longe, bem longe, e surdo, bem surdo.

terça-feira, 26 de abril de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) "Não há qualquer possibilidade, hipótese nenhuma, por mais remota e improvável e fugidia, de Petra Chissomo saber do Rafa e do pai e do carvalho vermelho. Ele olha para o Sininho, enroscado no tapete, as patas já tão magras, as costelas a emergirem. O cão tem os olhos fechados, mas há movimento nas orelhas, como quem estivesse a escutar a conversa e agora estranhasse o silêncio da pausa.

Olham-se. Petra Chissomo parece esperar, há qualquer coisa no ar que ainda não acabou, os gramas a mais dos assuntos inacabados. Não há qualquer possibilidade de ela saber o que ele precisa de lhe contar a seguir.

- Porque é que perguntas o que levou a Isabel com ela?

- Curiosidade. Se não sabes, não sabes. Se não queres dizer, não digas.

- Levou o pior de mim, aquela desilusão, a maior de todas.

A certeza de que escolheu mal, deve ter levado a raiva de não conseguir deixar-me.

- Qual desilusão? Disseste aquela.

- A que tu não podes saber e no entanto sabes.

- Eu? Não sei enquanto não disseres.

- Seja. Já que vai ser assim. Tenho de dizer, não é?

- Tens de dizer. Tens de fazer acontecer. Antes de seguirmos." (...)

Cuidado com o cão
Rodrigo Guedes de Carvalho
D. Quixote (2022)

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Liberdade

Para mim e para muitas outras pessoas, hoje é dia de festejar o aniversário e de lembrar sonhos que estão por cumprir, coisas que não se fizeram, tempos que já foram. 

Com esta idade, os sonhos já só acontecem a dormir. Os outros, se não se concretizaram, talvez já não aconteçam. Nesta noite, dei por mim a convidar a Liberdade para comigo almoçar, e, assim, comemorarmos o aniversário em conjunto. Apesar de ela ser bastante mais nova do que eu, tinha alguma esperança de que aceitasse e, até, ficasse satisfeita com a lembrança do idoso. 

- Nem pensar. Já me conheces há tempo suficiente para saberes que não quero nem devo privilegiar ninguém. Aliás, conheces bem a minha história e sabes que foi para acabar com os privilégios que vim ao mundo há 48 anos, trazida com orgulho por um punhado de portugueses corajosos.

- E achas que conseguiste? 

- Resposta difícil, tais são as incertezas e os escolhos que procuro contornar. Mas já muita coisa se alterou e o jardim tem um aspecto e uma vida completamente diferentes.

Compreendi as reticências da minha amiga, ou melhor, reconheci que a não devia ter convidado, uma vez que, apesar da nossa ligação fraternal, ela tem muito mais que fazer do que almoçar com um qualquer egoísta que a pretende só para si. Talvez até nem tenha tempo para almoçar, tal o trabalho imenso que a mantém atarefada e com uma preocupação constante de tentar evitar aqueles que, à sombra da sua benevolência, não hesitarão em matá-la à primeira oportunidade. Não lhe gabo a sorte e estarei por aqui para lhe dar a ajuda de que for capaz, considerando que as minhas limitações já vão sendo significativas.

Acordei! E veio-me à memória Sophia:

Esta é a madrugada que eu esperava 
O dia inicial inteiro e limpo 
Onde emergimos da noite e do silêncio 
E juntos habitamos a substância do tempo.
O nome das coisas
Sophia de Mello Breyer Andresen
Caminho (2004)

Viva o 25 de Abril, SEMPRE!