terça-feira, 28 de março de 2023

Consciência

A experiência de vida ensina que, por muito má que a atitude se mostre, deverá pôr-se em equação a hipótese da existência de alguma coisa que traga, não a justificação, mas o motivo para que a perda das estribeiras aconteça.

E quem, por muito ponderado que seja e bem educado que tenha sido, pode atirar a primeira pedra?

Os que estudam, conhecem e entendem o comportamento humano - não é o meu caso, humilde ser sem atrevimentos nesse ramo do saber - conseguem explicar os motivos que levam um qualquer ser humano a perder a noção do certo e do errado, do bem e do mal e a comportar-se de forma tão violenta que culmina na morte do outro.

Não há nenhuma justificação para um indivíduo matar duas pessoas e ferir mais algumas, como hoje aconteceu no Centro Ismaelita de Lisboa. A primeira reacção, perante a notícia, é de condenação clara, com a esperança de que a Justiça, não ressuscitando os mortos, castigue exemplarmente o criminoso. Daí a pouco, alguns pormenores vão acordando outros pensamentos e abrindo caminhos para outras avenidas de culpa, que podem ter contribuído para a criação do cenário que levou à desgraça.

O assassino é um refugiado afegão, que fugiu da guerra no seu país, acompanhado da mulher e de três filhos menores. Na caminhada que o trouxe até à beira do Atlântico, perdeu a mulher na Grécia. Chegou a um país distante, desconhecido, com cultura e língua completamente diferente, onde foi instalado e passou a viver, com os filhos, do apoio que lhe era concedido.

Não justifica o acto, mas deve deixar muita gente de consciência intranquila e a pensar que não deverá ser pelo aumento das capacidades militares que se resolvem os problemas no mundo.

segunda-feira, 27 de março de 2023

Teatro

Comemora-se hoje, em todo o mundo, o Dia Mundial do Teatro.

O Teatro da Rainha, como sempre, assinala a data, repondo, no pequeno auditório do CCC, a peça "Discurso sobre o filho-da-puta", de Alberto Pimenta. Pelo país fora, há muitos outros espectáculos, com toda a gente que intervém, trabalha e gosta de teatro, a tentar cativar cada vez mais espectadores para esta actividade cultural antiquíssima, fundamental para o crescimento, o saber e a diversão de todos nós.

O ano de 2023 ficará para a história das comemorações bem sucedidas e com uma divulgação adequada, feita por ilustres representantes da nação, além-fronteiras e com três dias de antecedência.

Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa deslocaram-se à República Dominicana, onde participaram na 28ª Cimeira Ibero-Americana. No intervalo dos trabalhos e de alguns mergulhos nas águas cálidas caribenhas, resolveram antecipar as comemorações e levar à cena uma peça que bem podia ter como título "Cenas da vida conjugal", sem necessidade de aquisição de bilhetes e disponível para todo o mundo que tinha, naqueles momentos, a televisão ligada. Os que não estavam disponíveis ainda poderão ter acesso, graças às novas tecnologias play.

E foi bonito de ver como o teatro faz milagres, não com o "simples vestido preto" da saudosa Ivone Silva, mas sim com as camisinhas brancas e compridas, distribuídas pela organização da cimeira. A encenação foi impecável, os dois actores estiveram muito convictos do papel que desempenharam, o texto era adequado e assertivo.

As palmas batidas no mundo inteiro não puderam ser ouvidas pelos dois actores em cena, circunstância que os deve ter deixado um pouco tristes, sabendo-se que essa é a grande recompensa de quem pisa um palco.

domingo, 26 de março de 2023

Flores

Convive, de perto, com as roseiras, as hortênsias, uma fileira de framboesas, alguns jarros e meia dúzia de sardinheiras. A ginjeira, mais afastada, ocupa um espaço que já foi seu, dominando a parte final da "álea". Marca bem a sua qualidade de "habitante" mais antiga do jardim e, como a antiguidade é um posto, controla toda a área, exibindo a sua autoridade sem peias nem cedências.

Faz questão de florir antes de todas as outras que lhe fazem companhia, e já vai dando possibilidades às abelhas de recolherem a matéria-prima que há-de ser transformada em mel e ir adoçar a boca a muita gente. E cada vez há mais gente a precisar de ter a boca doce ...

Chama-se glicínia. Por aqui vive há mais de três dezenas de anos e, de novo, já exibe os seus cachos bonitos e bem cheirosos, provando que a Primavera está instalada e a praia quase a chegar.

É muito bonita a minha glicínia!


sábado, 25 de março de 2023

Lirismo

"Numa sociedade democrática, as leis têm de ser cegas, claras e iguais para todos. A nossa obrigação é tentar fazer com que isso aconteça."

Há quase meio século que aprendi esta formulação, sempre presente nas palavras do consultor jurídico a quem, na altura, dava apoio. Era um lírico, digo sem receio de o ofender, por já cá não estar e porque, hoje, encontrar uma lei clara, concisa e sem segundas intenções é quase tão difícil como achar a agulha num palheiro.

Era o tempo do voluntarismo, da pressa de resolver, da tentativa de criar a sociedade mais justa e mais feliz para todos. Hoje, todos esses sonhos se eclipsaram, e as influências, as cunhas, os interesses, voltaram em força, fazem parte do dia a dia dos actualizados e fecham portas aos que, líricos, pensaram um dia que o homem se transformaria e que o elevador estaria disponível para todos os que pretendessem a ele aceder.

Dois exemplos:

1. Com pompa e circunstância, o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, visitou uma residência para estudantes, construída pelo esforço e empenhamento de privados, talvez com um pequeno apoio de moedas públicas, que pratica rendas entre os 700 e os 1.000 Euros mensais a cada um que para lá vá morar. Está bem de ver que, com estes preços, só não estuda quem é burro...

2. O arrastamento da decisão sobre o hipotético julgamento de José Sócrates, que evolui há quase uma dezena de anos, demonstra bem que os interesses, as habilidades, os jogos, e mais uma infinidade de vírgulas e pontos finais, conduzem a uma situação vergonhosa para a sociedade e para o acusado. 

Haja meios que o tempo vai conseguir resolver tudo e toda a gente ficará amplamente satisfeita e orgulhosa por viver num estado de direito, igual e acessível a todos.

sexta-feira, 24 de março de 2023

"Férias"

Tudo calmo, sem gritos nem ralhos. Ouvem-se os sons dos ecrãs controladores, onde são mostrados permanentemente vários indicadores, da tensão arterial ao ritmo cardíaco, passando por mais três ou quatro, de entendimento apenas acessível a quem sabe do ofício.

A diferença para o dia de ontem é enorme. Dos oito "convivas", três estavam baralhados, descompensados, sem saber onde estavam nem o que queriam, desconhecendo o dia da semana, o mês e também o ano. Tudo limpo, como se tivesse sido feito o reset. Gritavam, ralhavam, barafustavam, asneiravam, com todo o vernáculo conhecido há muito ... e a culpa era de quem os tentava ajudar.

A ciência e a persistência controlaram dois. O terceiro perdeu o controlo completo e partiu para a viagem que, de acordo com a versão de uma profissional sempre bem disposta e a quem as agruras pareciam não afectar, se acede com a Via Verde to the sky.

Em todas as experiências há dois lados, como acontece nas moedas: a cara, feliz, de quem começa a perceber que o dia vai ficar mais azul e terminará, ali, antes de o sol se pôr; a coroa, para os que tiveram acesso obrigatório à tal Via Verde, que garante transporte gratuito, sem identificador ou bilhete. Há uma terceira via, instável, que acolhe os que (ainda) estão na corda bamba e sem certezas para a direcção da queda. 

Ainda bem que correram comigo e regressei ao cantinho da Costa Mota, antes que as atenções que tive me alimentassem o sonho de por lá ficar.

quinta-feira, 23 de março de 2023

Intervalo

Nem sempre as canetas escrevem, umas por falta de tinta, outras por terem tinta a mais. Com as novas tecnologias acontece a mesma coisa e a culpa é delas.

quarta-feira, 22 de março de 2023

Palavras bonitas

Quem me ensinou a ler e a escrever e, por isso, eterna responsável pelas minhas irresponsabilidades nesses campos, de quando em vez lembra-se de espalhar as suas capacidades, agora utilizando esse grande rio de conhecimento que são as redes ditas sociais.

Num pequeno poema que publicou na sua página do Facebook, fazendo jus à sua capacidade de acompanhamento das novas tecnologias, a minha irmã mostrou que, quando quer, debita palavras assertivas e actuais e que o criador será, neste caso concreto, muito superior à criatura.

Dia da Poesia, diz a gente,
Outros mais, de hipocrisia
E de infâmia, mais certo,
Já que a "bomba inteligente"
Com sucesso (diz quem manda)
Varre as portas da Ucrânia
Aqui tão perto,
E mais além, noutra banda.

Dia da Poesia, utopia
Sem ter sorrisos nem Esperança
Crescendo, vendo só guerra,
Vivendo a dor que ela encerra
Nos olhos de uma criança.

Lurdes Sousa Santos
21.03.2023 

terça-feira, 21 de março de 2023

Saxofone

Hoje é dia de ouvir saxofone, aqui para criar ambiente, e lá fora, num dos espaços museológicos da sempre linda vila de Óbidos, para usufruir de algumas borboletas na barriga, postas a descoberto pela emoção que aparece sempre, mesmo sem ser convidada.

segunda-feira, 20 de março de 2023

Sabedoria

De acordo com o que diz quem sabe, a Primavera chega hoje, lá pela boquinha da noite, talvez para não dar muito nas vistas ou sujeitar-se a algum assalto maquiavélico de uma série de mãos empunhando um microfone, ainda que protegido por um cálice de espuma.

Ainda quem sabe também disserta sobre a crise bancária que não irá acontecer salvo se ... acontecer. O Credit Suisse já foi absorvido pela UBS, faliram meia dúzia de "banquecas" nos States, mas certo, certo, é que nada disso afectará a restante banca europeia, como, aliás, se tem verificado em outras ocasiões.

Faleceu Rui Nabeiro e continuando a ouvir quem sabe, foi um empresário extraordinário que, de uma empresa quase nula fez um grande império, de acordo com o presidente da CIP, que nos inunda com a sua enorme sabedoria e experiência.

Rui Nabeiro dizia que os seus trabalhadores eram a essência das suas empresas. Na sua longa vida, deu-lhes formação, tranquilidade, apoio, confiança e, fundamental, disponibilizou-lhes os seus ouvidos atentos, sempre que foi necessário. Se todos reconhecem este mérito, poder-se-á perguntar a razão pela qual a grande maioria não imita.

Agora que Rui Nabeiro já não pode transmitir, de viva voz, o segredo, talvez fosse útil a muitos que fizessem uma leitura do "Almoço de Domingo", que José Luís Peixoto escreveu, deixando no papel e para a posteridade, um testemunho enorme de inteligência e humildade.

Abram-se as portas à Primavera, para que a Prima Vera e todos os seus pares que por aqui vivem, deixem de vegetar e sintam que, ao menos, uma florzinha a abrir-se e a dar-lhes esperança de aparecer melhor fruto.

domingo, 19 de março de 2023

Dia do Pai

Se (ainda) por cá estivesse, o meu pai celebraria hoje 101 anos e apagaria as velas do bolo com a gana e a vontade que sempre o nortearam numa vida de duração significativa, com muito trabalho esgotante e, por vezes até, escravizante.

FOLHINHA

Murchou a flor aberta ao sol do tempo.
Assim tinha de ser, neste renovo
Quotidiano.
Outro ano, 
Outra flor, 
Outro perfume.
O gume
Do cansaço
Vai ceifando,
E o braço
Doutro sonho
Semeando.

É essa a eternidade:
A permanente rendição da vida.
Outro ano,
Outro flor,
Outro perfume,
E o lume
De não sei que ilusão a arder no cume
De não sei que expressão nunca atingida.

Miguel Torga
Orfeu Rebelde
Gráfica de Coimbra (1992)