segunda-feira, 24 de abril de 2023

Prémio Camões

Chico Buarque recebe hoje o Prémio Camões, que lhe foi atribuído em 2019 e cujo diploma não obteve a assinatura do "boneco" que estava Presidente do Brasil. Chico era um estorvo para o regabofe que o tal e os que o acompanhavam pretendiam levar a cabo.

São do romance "Estorvo" as palavras que se seguem e que aprovam Chico Buarque também como um grande escritor, a par do músico excepcional que é.

"(...) Fazia tempo que não vinha aqui de noite, e quando vi à distância a nova iluminação do condomínio, pensei que fosse uma filmagem. Um aparato de holofotes azula os paralelepípedos, devassa as árvores por baixo das copas e ofusca a vista de quem chega. Não localizo o vigia que pede para eu me identificar. É mais um vigia, são várias vozes que repetem o meu nome como um eco na guarita. A resposta também chega em série, e tenho que ouvir "não consta da lista", "não consta da lista", "não consta da lista". Depois ouço uma risada que vai e volta, e uma cigarra emaranha-se nos meus cabelos. Não sei de que lista estão falando, só quero deixar uma mala na casa 16, e devo ter algum problema porque as vozes vão-se alterando. Perguntam o que trago naquela mala, e antes que eu possa responder, uma silhueta arranca a alça da minha mão. Apesar do tranco, fico agradecido; a mala encontrou seu destino e estou afinal solto dela. Penso que estou solto de tudo, que a cidade me espera, mas quando ensaio a retirada, umas garras penetram meu braço e arrastam-me de volta ao foco de luz. Um camarada de jaquetão bege vem-me abraçar, depois desce as mãos pelas minhas costas, apalpa as minhas nádegas, virilhas, coxas, atrás do joelho, e está revistando meu tornozelo quando chega um carro grande e preto com vidros fumés. Abre-se um centímetro na janela da frente, e o homem que está na direcção fala um nome comprido de mulher. A guarita acha que está bom e acciona o portão electrónico, mas o carro não dá a partida. Uma voz de mulher pergunta se não quero subir. Procuro a mulher no clarão da guarita, mas a voz vem da treva do fundo do carro preto. Todos os vigias baixam da guarita para atender à voz, falam "positivo madame", em seguida o chauffeur sai do carro e abre a porta de trás para eu entrar.(...)"  

Estorvo
Chico Buarque
Publicações Dom Quixote (1991)

domingo, 23 de abril de 2023

Dia Mundial do Livro

Há muitos anos que, diariamente, comemoro o livro como objecto essencial para o meu bem-estar. Pouco ou muito, todos os dias leio (n)um livro e disso retiro sempre prazer, mesmo quando acontece a leitura não me ser agradável. Raramente coloco um livro de lado sem chegar ao fim.

Não atribuo grande importância às comemorações do dia disto e daquilo, que são, na maior parte das vezes, meras acções de marketing destinadas a promover o gasto, mesmo que o objecto acabe por não ser consumido. O importante é comprar!

O livro é um caso especial. Pela importância que teve, tem e irá continuar a ter no desenvolvimento do saber e por parecer que se encontra em vias de extinção e a ser cada vez mais decorativo e menos folheado. O livro é, como definiu António Lobo Antunes, "o ouvido que se encosta à terra para escutar o mundo". 

Os meus continuam por aqui, amontoados e a ocuparem cada vez mais espaço, obrigando a retirar os da frente para alcançar os escondidos lá atrás, e a ter um cuidado extremo na "catalogação", para que seja possível saber onde param. A lógica da arrumação ajuda mas é a base de dados que garante a descoberta sempre que necessário.

E para quê, perguntam os mais novos. Hoje lêem-se livros no PC, no tablet e até no telemóvel, sem peso a segurar e a transportar e sem ocupação de espaço em casa.


sábado, 22 de abril de 2023

Flores murchas


De acordo com a informação prestada pelo autor - o meu amigo ADS - a flor tem grandes dificuldades em abrir as pétalas, fazendo-o apenas por volta do meio-dia. Talvez seja a demonstração do mal que causam as grandes noitadas, alimentadas por grandes comezainas e melhores beberragens. O que é estranho é isto acontecer na capital e a flor conseguir dormir toda a manhã, com aquele ruído ensurdecedor que a cidade emite bem antes de o sol raiar.

Até aqui, tudo dentro da normalidade a que está sujeita uma desgraçada de uma bela flor, que tem de viver naquela confusão de gente, trânsito, poluição. Todavia, consta, aqui pela província, que a coitada da flor também sofre muito com os "sabores" de Itália que perpassaram recentemente pela Luz e por Alvalade e lhe trouxeram muita preguiça. Ou será desgosto?

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Incertezas

A notícia sobre o seu desaparecimento foi reproduzida aqui, admitindo-se que o Fofinho, dado o tempo decorrido, já se tivesse fartado da má vida e regressado a casa.

Pelo que parece, assim não aconteceu. O Bairro tem cartazes colados em inúmeros sítios, ressaltando até uma segunda impressão, já sem o nome em escrita manual, para que se torne mais fácil a toda a gente, incluindo os pitosgas, entender a mensagem e colaborar na procura.

Pobre bichano. Deve estar sofrendo muito ou, pelo contrário, arranjou uma nova família de acolhimento que o apaparica de tal forma que já nem à rua vem, para não correr o risco de se cruzar com os antigos donos e regressar ao cativeiro.

Outra hipótese a equacionar será a possibilidade de o gatinho ter querido a sua alforria e ter apanhado o comboio para bem longe, onde ninguém o condicione nem obrigue, usufruindo da liberdade que lhe é intrínseca e que os humanos cerceiam quase sempre. 

As incertezas fazem parte do dia a dia de cada um de nós e tornam a vida muito menos sensaborona do que seria se tudo fosse claro e com resposta antecipada e um problema tão banal como o desaparecimento de um gato pode, afinal, colocar tantas alternativas e incertezas quantas a imaginação conseguir levar a cabo. 

E nem sequer foi consultada a Inteligência Artificial, que nos mostraria milhares de hipóteses, sem contudo fazer aparecer o Fofinho.

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Birrinhas

Ainda não é desta. Marcelo mantém as suas dúvidas sobre a eutanásia e torna a devolver o diploma ao Parlamento, sem o promulgar. Refere algumas indicações de pormenor, retiradas da sua sábia cartola.

- Os meninos não fazem o ditado sem erros, como querem que vos dê positiva. Vou enviar informação escrita aos encarregados de educação.

Parece que as dúvidas constitucionais estão todas sanadas. Subsistem as existenciais e a vontade de marcar terreno. Os dias vão passando, dando razão aos que dizem que, no país, só há dois tipos de problemas: aqueles que o tempo resolve e os outros, que nem o tempo consegue resolver.

O Governo, invejoso, não quer enviar o parecer jurídico à Comissão Parlamentar de Inquérito da TAP. Esse douto parecer, se existe, suportou a porta de saída da senhora CEO e, de acordo com outras opiniões ilustres, é fundamental para a análise da Comissão.

Sururu armado, com uns a dizerem que o menino se portou mal, outros a afirmarem que o menino não tem de indicar a matéria e os sítios onde estuda, devendo apenas responder às questões do teste.

Por este caminho, ainda chega ao poder alguém, escolhido por uma qualquer divindade, que tem as certezas absolutas sobre tudo e não admitirá discussão.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Figos

A figueira é uma árvore que se pode ver em todas as regiões do país, embora o seu fruto não tenha a mesma qualidade em todos os sítios. Há zonas onde o figo, seja moscatel ou pingo-de-mel, é doce, fresco, muito saboroso. Outras há em que é bem melhor saboreá-lo passado ou seco, para que as papilas gustativas não sofram nenhuma desilusão. 

Todos são produzidos por árvores que, tendo por particularidade a ausência de flor, desenvolvem o seu verde em cômoros, pequenos espaços, no meio de outras, com cereal semeado em volta, dispensando as habituais tarefas de cuidar, da poda à pulverização, do adubo ao remexer da terra. Estão lá e pronto. Cumprem a sua função de dar figos a quem deles gosta e de servir de poiso aos pássaros.

Na minha juventude, aprendia-se e dizia-se, quando acontecia uma qualquer queda, que se tinha plantado uma figueira no local onde se dera o trambolhão.

- Vai com atenção e vê lá se a figueira que aí plantaste já deu figos ...

Ontem, António Costa plantou uma figueira na visita que fez aos hipermercados, à procura do IVA 0%. Cedeu ao popularucho, ao chamamento das câmaras e dos microfones, aos mirones opinativos ou deslumbrados com a imagem, numa arruada perfeitamente escusada e que talvez se devesse ter estendido às mercearias de bairro. Seria a festa completa e a queda bem mais eloquente.

Daqui a uns tempos, alguém lhe irá perguntar se a figueira plantada já deu figos ou se a estrada está arranjada para dar passagem aos pretendentes sabões ...

terça-feira, 18 de abril de 2023

Palavras bonitas

Em 1995, numa incursão extemporânea pelas "teatrices", escrevi um texto, que foi levado à cena e se chamava "O julgamento do Zé". Abria com um poema de Joaquim Pessoa e hoje fui à procura do livro de onde o "roubei". Está desaparecido ou ausentou-se e não regressou.

Joaquim Pessoa também se ausentou ontem, aos 75 anos. Fica o registo de um poema, grande, muito bonito e assertivo.


segunda-feira, 17 de abril de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

A leitura da biografia de Natália Correia - O dever de deslumbrar, de Filipa Martins - já leva dois terços e não está ainda concluída por ser interrompida por outros livros que se alcandoram e insinuam, fazendo lembrar tempos idos, quando a mesa de cabeceira tinha dois ou três a serem "consumidos" em simultâneo.

Ontem, fazendo mais uma pausa na vida de Natália, comecei um livro de um autor brasileiro, que não conhecia. O livro é designado, na tira da capa, como o "romance de estreia do escritor-prodígio da literatura brasileira contemporânea", o que, por si só, desperta a curiosidade e a vontade de começar.

Ainda vai no princípio mas já deu para notar que o malfadado Acordo Ortográfico só por aqui é obrigatório e que, como sempre pensei, a riqueza da língua está nas suas variantes e não na formatação obrigatória que alguns iluminados quiseram. E é tão saboroso encontrar palavras novas e ir à procura do seu significado. O livro até traz um glosário, que serve de marcador e auxilia na compreensão.

"(...) Ryan Giggs recebeu outra bola enfiada nas costas do lateral adversário, e com a perna esquerda acertou mais um cruzamento na cabeça de Chicharito Hernández.

- Tomar no cu, neguim. Só faz gol assim! - Douglas defendia as cores do Barcelona, e tava puto.

 - Chora, não, maluco. Vira logo essa porra aí e vamo pró jogo.

Já tava pra terminar a partida. Com esse gol, o terceiro do atacante mexicano, o placar marcava cinco pro Manchester United, time de Murilo, quatro pro Braça. Biel marolava com os dois enquanto apertava um baseado. Os amigos já tavam pra lá de Bagdá. Não que apostar uma dose de vodca a cada gol sofrido fosse novidade na casa, muito pelo contrário, já era um clássico entre eles. Mas naquela noite a porteira tava aberta. Pra se ter uma ideia, na última partida Murilo derrotou Biel por oito a seis, quer dizer, já entrou embrasado pro duelo com Douglas, seu maior rival no Bomba Patch. Isso sem contar o primeiro jogo, que terminou com o placard magro de um a um e foi pros penâltis. O que é sempre pior, porque obriga o jogador a beber várias doses, alternando com o adversário.

Na hora que sofreu o quinto gol, Douglas achou melhor deixar por isso mesmo. Se fossem pros penâltis do jeito que tavam, o bagulho ia ficar esquisito. O problema é que Murilo não consegue ganhar e ficar na moral. Ele tem que gastar os outros até o limite. E o pior de tudo, o que deixa Douglas mais bolado: só ganha com a mesma jogada.

Já nos acréscimos, Murilo gastava a onda quando Douglas, com sangue no olho, meteu uma bola na direita pro Messi. O craque argentino invadiu a área na diagonal, limpou dois adversários e bateu cruzado. O goleiro do United nem saiu na foto. Cinco a cinco no final do segundo tempo. (...)" 

Via Ápia
Geovani Martins
Companhia das Letras (2023)

domingo, 16 de abril de 2023

Pendura

O encontro tinha sido combinado por uma razão qualquer que já caiu na gaveta do esquecimento. Devia tratar-se de alguma comemoração importante ou de discussão de um assunto premente para os três. Nessa altura, não havia telemóveis e muito menos grupos de conversa fiada. Foi decidido: no final daquele dia (quarta-feira ?), juntar-nos-íamos em Óbidos, antes de regressarmos a casa. O local era uma tasca bem perto do local de trabalho do L., que gabava muito os petiscos feitos pela dona e estava convencido de que iríamos gostar. Juntava-se o útil ao agradável, por as ocupações dos três dificultarem a cavaqueira de que tanto gostávamos.

A estrada que nos trazia de Peniche não era, ainda, o IP de hoje e era difícil fazer o trajecto em menos de meia hora. Ficou acordado que tentaríamos chegar por volta das seis, embora fosse difícil fazer previsões num trabalho que tinha muito de surpresa e nada de desligar a máquina quando chegava a hora. E as horas a mais ficavam sempre ausentes da folha de pagamento ...

Devemos ter cumprido o horário previsto e o carro levou-nos mesmo até à porta da tasca. Ainda era permitida a circulação automóvel na vila, embora a entrada na porta da dita requeresse alguma perícia. O L. já estava sentado à mesa, num reservado que a senhora da tasca nos facultou, para que o repasto fosse mais recatado e sem necessidade de cumprimentos constantes. Os três eram conhecidos na zona, sendo o L. o que mais gente cumprimentava. 

Quando entrámos, um personagem desconhecido acompanhou-nos, com grande descontracção e tomou lugar de imediato na mesa. Deduzimos que seria algum amigo do L., que não conhecíamos e que ele teria convidado. Comemos, bebemos, como se os quatro se conhecessem perfeitamente há muito. Quando nos preparávamos para iniciar a "importante" conversa, o "amigo" despediu-se:

- Tenho de ir. Já estou atrasado e a minha mulher fica preocupada. Obrigado e até à próxima.

 - É teu colega?, perguntámos ao L.

 - Não. Entrou convosco. Pensei que era vosso amigo.

- É preciso ter lata ...

Estava descoberto. A barriguinha dele já ia cheia, à borla. Dividimos a conta por três, embora tivessem sido quatro a morfar e o pendura talvez o que mais enfardou.

Trinta anos depois, o L. já partiu há muito, a recordação mantém-se fresca e o pendura continua por identificar.

sábado, 15 de abril de 2023