quarta-feira, 5 de julho de 2023

O tempo voa

O meu neto GRANDE fica hoje ainda maior. 

Para o ano passará a ser um adulto, com responsabilidades próprias, ele que já é responsável há tanto tempo.

Quando lhe dei o grande abraço a que tem sempre direito, ele respondeu, no seu tom de voz calmo e sereno e curvando-se para chegar à minha altura

- Obrigado, avô!

E eu, babado, quase me saltam as "caganitas" por o ver tão grande e o saber tão digno. 

terça-feira, 4 de julho de 2023

Feitiços

É natural da Guiné e por aqui vai vivendo (ou vegetando) há mais de 10 anos, num esforço enorme para subsistir, em conjunto com a mulher, e ir criando três filhos em idade escolar. O quarto, já adulto, emigrou para a Alemanha e por lá se mantém.

- De vez em quando manda 200, 300 Euros e ajuda muito.

Mantém uma pequena agricultura num quintal emprestado, enquanto o dono não inicia a construção. Planta tudo o que pode, das alfaces ao feijão, das batatas ao jindungo, cebolas e tomates. De manhã, antes de ir para a fábrica, é obrigatória a passagem pela lavoura. No regresso, a "teimosia" mantém-se e lá ajeita a terra, tira as ervas daninhas, dá uma regadela. A janta e a dormida podem esperar.

- Precisava de uma arca para guardar o jindungo. Tenho muita gente que compra e podia vender mais, se conseguisse mantê-lo no frio. A arca custa 500 Euros lá na casa que me falou. É muito!

Um homem passa, cumprimenta e pede-lhe para conversar. Afastam-se os dois e sussurram, com cara de caso, que parece grave.

- Conhece?

- Sim, de o ver por aí.

- Muito boa pessoa. A mulher fugiu-lhe e está a criar a filha sozinho. Foi mau-olhado ...

 - ???

- De certeza. Lá na Guiné, quando alguém quer enfeitiçar outro, lava umas pedras que lá existem e dá a água a beber à pessoa que quer enfeitiçar.

- Não acredito em nada disso ...

- Chi ... é verdade, sim senhor! 

Século XXI, sem dúvida. 

domingo, 2 de julho de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

A inscrição, desde o seu início, no Clube Tinta da China, tem-me proporcionado a leitura de muitos e bons livros antes de chegarem ao mercado normal. Surgem perto do final de cada mês, sem qualquer divulgação prévia, e o abrir da caixa, o desembrulhar - o livro vem cuidadosamente embrulhado -, a descoberta do segredo, proporcionam um misto de entusiasmo e curiosidade sempre intensos, que o guia de leitura ainda mais aguça. Depois, é acabar rapidamente o que se está lendo ou, até, suspender, para se iniciar a descoberta.

No final de Junho, a surpresa foi um novo livro de A.M.Pires Cabral, cuja leitura já vai a meio e que retrata a vida num quartel mais ou menos imaginado. A data da edição indicada é Agosto de 2023.

"(...) O Leitor deve ter reparado que na parte da história já contada veio a propósito falar mais que uma vez de alcunhas. Como ainda há muitas alcunhas por referir, talvez faça sentido introduzir aqui um parêntesis que, ao mesmo tempo que discorre sobre alcunhas, constitui um momento de descompressão que é bem-vindo, numa altura em que a história começa a ganhar intensidade, dramatismo e suspense.

<<Um regimento sem alcunhas é como um gato sem unhas>>, diz muitas vezes o Comandante do RA-7, quando vem a propósito. Aparentemente, quer ele dizer que as alcunhas são uma arma de defesa e ataque dum regimento, tal como as unhas o são dos gatos. Mas não se chega a perceber qual o fundamento da comparação e ele escusa-se a explicar. Talvez o Comandante quisesse antes significar que é tão natural haver alcunhas nos aquartelamentos militares como unhas nos gatos. Mas, cá para nós, o mais provável é que o aforismo encontrasse na rima a sua única razão de ser e que, além de rimarem, não há qualquer outro ponto de contacto entre unhas e alcunhas.

De qualquer maneira, o Comandante usa frequentemente o anexim. O Comandante, nos seus ócios, que não são muitos, gosta de reflectir sonolentamente sobre assuntos como este das alcunhas. Diz ele que pensar pequeno é um bom tirocínio para quando é preciso pensar grande.(...)"

O quartel ou as bochechas do general
A.M.Pires Cabral

P.S. - Ontem almocei com um grupo de amigos que, há mais de meio século, se apresentaram comigo, nuzinhos em pêlo, perante um conjunto de três oficiais do exército que a todos mandaram subir para a balança, anotaram os pesos, ordenaram o perfilar na craveira e registaram as alturas, questionaram sobre a existência de carta de condução e carimbaram um papel com a palavra "APTO". Já faltam "peças" no grupo, mas lembrei-me do livro porque, como nele, também todos tinham (e têm) alcunhas. 

sexta-feira, 30 de junho de 2023

Exemplos

O futebol jovem tem momentos altos nos últimos dias desta semana, com a realização, nesta cidade ventosa e alheia ao calor que se faz sentir no resto do país, de mais um torneio Footmania

O torneio envolve centenas de jovens atletas, integrados em equipas de todo o país e algumas do estrangeiro. A alegria dos miúdos é patente e a vontade de jogar, manifesta. Há convívio, competição, disputa, jogo e, no final, quem ganhe e quem perca, como sempre. A organização divulga valores importantes que presidem à realização, como promover o fair-play, defender a alimentação equilibrada e saudável, educar para a responsabilidade ecológica, proporcionar a partilha intelectual. E, percebe-se, tenta pôr isto em prática.

São quase nove e meia da manhã. O jogo vai começar daqui a pouco tempo. Os atletas fizeram o aquecimento, recolheram aos balneários para os últimos ajustamentos, os árbitros já aguardam no centro do campo e ei-los que surgem, cheios de genica e vontade de mostrarem as qualidades treinadas durante a semana, às vezes em condições bem adversas.

Um grupo de adultos, ruidoso, acampa na bancada. Vêm munidos de tambor, bandeiras, buzinas, camisolas do clube, para que não fiquem dúvidas sobre quem apoiam. Transportam duas geleiras que os mais incautos julgarão tratar-se de alimentação equilibrada para as refeições do dia.

O jogo começa ou, na leitura daquela gente, vai iniciar-se o combate. Os paizinhos e mãezinhas dos Ronaldos em potência começam o seu ruidoso apoio de claque mal educada, mas cheia de sabedoria dos segredos técnicos do jogo. Se os miúdos cumprirem as orientações dos infalíveis treinadores de bancada, a vitória não lhes escapa. E gritam muito, muito, com o vernáculo que, deverão pensar, não é conhecido nesta cidade de bonecos. 

Gritar, toda a gente sabe, dá cabo da garganta. À falta de chá de perpétuas roxas, nada melhor que uma cervejita fresquinha, saída da geleira que bem cumpriu a sua função. Pelo meio, uma cigarrada com a beata bem pisada na bancada, reiterando a responsabilidade ecológica. E mais uma bejeca e outro cigarro, que ainda falta muito para o intervalo. E outra ainda!

Não se correm riscos de falta de mercadoria: a geleira vem bem aprovisionada e o maço também ainda deve ter muitos cigarros. Com estes exemplos dos papás, os jovens atletas irão longe ...

segunda-feira, 26 de junho de 2023

domingo, 25 de junho de 2023

Montras

Passado o Santo António e o São João, confirmada a implosão do Titan, desaparecidas no Mediterrâneo mais umas centenas de pessoas, anónimas, que, em lugar de ficarem sossegadas na pacatez das suas terrinhas, têm o dislate de arriscarem tudo em busca de uma vida um pouco melhor, pagando a alguns algozes que deles se aproveitam, surgiu a bronca na guerra da Ucrânia.

E tudo parou! O mercenário, amigo do peito de Putin, comandante de um exército paralelo com larga experiência em vários países do mundo, revoltou-se contra quem lhe pagava ou lhe tinha deixado de pagar. Desencadeou uma marcha de tanques em direcção a Moscovo e trouxe aos olhos do mundo uma tempestade medonha. Foi um susto. As televisões alteraram programação e convocaram comentadores, os jornais publicaram parangonas e interrogaram-se, preocupados, sobre o amanhã.

Ainda não tinham decorrido vinte e quatro horas e já um "boneco" aliado de Putin chegava a acordo com o insurrecto e garantia-lhe asilo na Bielorússia, talvez arranjando-lhe um T0 com renda económica, para que possa ter uma vida digna, sem sobressaltos de maior e sem ter de ir dormir para debaixo da ponte.

A guerra, afinal, não parou, nem se vislumbram jeitos disso. A produção de munições e armamento garantirá a riqueza de alguns e a desgraça da grande maioria.

Entretanto, em Portugal, há gente muito preocupada com os males que pairam no mundo e tenta arranjar forma de os solucionar. Para isso, trata de trazer, para gozarem o nosso sol, jovens candidatos a futebolistas fora de série, apanhadores de bivalves que irão obter certificados profissionais para lhe abrirem os rios de todo o mundo, trabalhadores rurais que, vivendo em condições miseráveis, garantirão o seu futuro como agrónomos e encherão os bolsos de chulos e senhorios sem escrúpulos.

Como dizia a Professora Deolinda: "ora valha-lhes um burro aos coices e três aos pontapés".  

sábado, 24 de junho de 2023

Capicua especial

Hoje é um dia especial para o avô babado que assumo ser, ainda que tente mascarar a evidência.

O meu neto Duarte - terceiro na hierarquia das idades - completa hoje a sua primeira capicua nos anos de vida, que se esperam sejam muitos e bons. É, naturalmente, um motivo de grande felicidade para todos os que gravitam na sua órbita e o adoram.

Ponderado, prático e assertivo, respondeu de pronto ao elogio fácil de já ser um homem com 11 anos.

- Não, avô. Onze anos só vou fazer às nove e um quarto da noite!

sexta-feira, 23 de junho de 2023

Preocupação

A gaivota, com preocupações ambientais, tenta recarregar as suas baterias, recorrendo à energia solar, que não polui nem aumenta o dióxido de carbono. 

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Tarefas

O tempo, em férias, é sempre escasso. Por mais que se queira folgar, há sempre coisas importantes para fazer, tarefas imprescindíveis, ainda que o dia seja planeado com eficiência e esse planeamento tenha sido, em teoria, mais que perfeito.

No final do dia, como sempre, constata-se o incumprimento, inventam-se as razões, atribuem-se as culpas. Na ponta da língua, a solução miraculosa:

- Paciência, fica para amanhã. Ainda há tempo...

O amanhã ficará, de novo, incompleto. O Variações tinha razão quando cantava que "amanhã, voltas sempre a adiar". Se não foi feito hoje, o mais provável é que, amanhã, surjam novas ideias, melhores desafios, tarefas mais atraentes.

O que custa mais nesta constatação é verificar que já meia dúzia de anos ininterruptos em situação "ferial", não tenha proporcionado o "saber da experiência feito" que permitisse fazer tudo e mais um par de botas sem dificuldades.

Não acontece assim e o lazer está sempre incompatibilizado com o planeamento. 

quarta-feira, 21 de junho de 2023

Surpresa

O mundo é pequeno...

A mais de trezentos quilómetros de casa, numa pequena volta por uma cidade bem movimentada, a última coisa que se espera aconteça é encontrar alguém conhecido. 

Mas aconteceu! E a pessoa encontrada não era apenas conhecida, era familiar. Passeava com uma amiga, fazendo tempo e esperando pelo marido. 

- Conheci-vos logo, mas nem queria acreditar. 

A conversa fluiu é, vejam só, até de doenças se falou. 

Coisa estranha...