sábado, 18 de maio de 2024

Futuro?!

A Assembleia da República está a descer de nível e a subir de interesse ... graças às "brilhantes" intervenções que, todos os dias, fazem lembrar as tabernas de antigamente, quando já muito vinho tinha sido consumido.

O interventor-mor tem as câmaras sempre em cima e a companhia de quase meia centena de seres dotados de sapiência sem limites nem comparação. A maior parte deles faz lembrar o bonequinho chinês a acenar a cabecinha ou, melhor, a cabeçorra.

Já não são apenas os ciganos, os pretos e os homossexuais que precisam de ensinamentos de quem sabe. A preocupação com o "mundo" é tal que até os turcos já são destinatários das loas do predestinado.

Eça de Queiroz referenciava os "deputados de cu"; se fosse vivo, decerto não olvidaria os "deputados-bonecos".

sábado, 11 de maio de 2024

Sapateiro

A habilidade no manuseamento da sovela garantia que a sola das botas ficava bem cozida à parte de cima. Era a garantia de que, por ali, a bota jamais se desfaria, fosse a sola um bocado de pneu de tractor bem aparado ou um naco de couro melhor curtido. As mãos determinavam a excelência do trabalho, por todos reconhecida.

Depois da sovela, e as mãos, terem executado o trabalho, a forma do sapateiro, instalada em cima do banco e bem segura pelos joelhos, e a precisão do martelo de bola, concluíam a peça, apta, a partir daí, para calcorrear léguas ou trabalhar muitas jeiras.

O avental e a proeminência da barriguinha eram os distintivos do velho artesão. O copinho de três que molhava a goela a meio da manhã, garantia a boa disposição e ajudava a actualizar a conversa da coscuvilhice.

O produto final não era barato, mas a qualidade, essa, estava mais que provada e garantida.

- Podes pagar quando quiseres ou ires pagando. Tu é que sabes!

Nem sempre havia botas novas para executar. Colocar meias-solas garantia a sobrevivência do sapateiro, da família ... e dos sapatos.

Tudo no tempo em que as sapatilhas se chamavam alpargatas.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Mãe

Nasceu há 101 anos, partiu há 20 e por cá permanece sempre viva, na lembrança diária.

Foi uma mulher enorme, que conheceu bem cedo as agruras da vida, as sofreu e tentou sempre superar. Dei-lhe muitas preocupações, roubei-lhe muitas noites de sono, fui altivo e rezingão, e nunca lhe senti a mais pequena acrimónia. 

"Roubei" a Torga a carta, simples, que recebi hoje no meu imaginário.

Correio

Carta de minha Mãe.
Quando já nenhum Proust sabe mais enredos,
A sua letra vem
A tremer-lhe nos dedos.

- <<Filho>> ...
E o que a seguir se lê
É de uma tal pureza e de um tal brilho,
Que até da minha escuridão se vê.

Diário II
Miguel Torga
Coimbra (4ª edição-1977)

terça-feira, 7 de maio de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

A traição à pátria pode estar na ordem do dia de alguns mentecaptos, as origens de cada um, orientais ou rurais, e a história antiga (sempre mal contada), também.

Porém, a língua portuguesa, que une milhões de falantes por esse mundo fora, é sempre bela, riquíssima e cheia de novidades.

" (...) Na mesa da cozinha, Saturnino depositou o taleigo com as aves e gesticulou as suas explicações, descrevendo como o Rossio se achava apinhado de gente, cheio de animação, e que havia sido nas tendas dos comes e bebes que encontrara o Bezerra, na galhofa, a emborcar umas ginjinhas com os seus amigos caçadores; após pagar pelas perdizes, no regresso, vira também uma rapariga bonita e que por isso perdera a noção do tempo. Acerca da destemperada altercação com o fidalgote, nem uma palavra.

- Ah, meu magano, que andas de olho nas cachopas - comentou Fátima, com um sorriso maternal. - Vem daí, ajuda-me a depenar estas perdizes, que o trabalho tarda.

Vivia Domingos Rodrigues com desafogo numa residência de dois sobrados, provida de um pequeno horto murado e um poço de onde retirava água fresca e agradável. No quintal, com terra fácil de amanhar, cultivava-se toda a sorte de legumes de horta e ervas de cheiro a que tanto o mestre como Fátima amiúde recorriam para uso nas suas confecções. Por todo o lado renques de limoeiros e laranjeiras pejados de frutos proporcionavam sombra e uma aprazível fragância pelos ares. Contígua ao edifício principal, achava-se uma antiga estrebaria que em tempos o mestre de cozinha havia transformado para usufruto como oficina e laboratório, não somente para as suas experimentações alimentícias mas também a fim de promover as outras mais secretas, aquelas dedicadas à ciência da alquimia. Apresentava-se a oficina apetrechada com tudo o que fosse necessário para o bom ofício da cozinha, não faltando também o athanor ou forno dos alquimistas, um alambique, cadinhos, cantimploras e diversas retortas de formas variadas e feitios para cumprimento das funções da Arte Magna.

Não obstante as anteriores e infrutíferas tentativas de transmutar os metais, Domingos Rodrigues e João Curvo Semedo haviam compreendido que, através das propriedades e virtudes prodigiosas do ouro, poderiam almejar a prosseguir as suas experiências na fabricação do elixir da vida eterna. Sabiam que não seria tarefa fácil, antes árdua e espinhosa, com inúmeros contratempos, avanços e recuos, mas o caminho  encontrava-se traçado e seria construído com esforço, perseverança e paciência. Os dois amigos não aspiravam apenas à vida eterna, como também ambicionavam alcançar a cura das imperfeições do corpo, provocadas pela erosão dos tempos, aperfeiçoando-o, aprimorando-o, como algo puro, ligando-se assim de maneira inequívoca à Natureza, em comunhão com o Universo que tudo encerra.

Entendiam ambos, e de acordo com os seus herméticos estudos, que o corpo era somente e tão só um vaso de sangue, linfa, carne e ossos, um microcosmos, e que a eternidade seria o macrocosmos, a unidade perfeita de todos os átomos e partículas e a origem de todas as coisas do mundo. Através do elixir, aspiravam a conseguir o ígneo e primordial vínculo à matéria e à energia do divino, como um cordão umbilical, entre o corpo do homem e o Cosmos.(...) "

Os dias de Saturno
Paulo Moreiras

domingo, 5 de maio de 2024

Impertinência

A Lagoa, contrariando o país e dando largas à sua irreverência, virou à esquerda, ou melhor, passou a correr para sul, talvez motivada para ir espreitar o novo Museu da Resistência, em Peniche.

Sem eleições nem respeito pelos que a estudam e pretendem domar, faz o que quer e sobra-lhe tempo!


sexta-feira, 3 de maio de 2024

Aparelhinho

Os tempos vão de molde a todos sermos enciclopédias de saber e de fazer, quase sempre bem melhor do que qualquer outro que, ele sim, fica sempre aquém e a léguas de distância. O "eu" sabe sempre mais do que o "nós" e muito, mas muito mesmo, mais do que os outros.

"Presunção e água benta ... cada um toma a que quer."

Passámos a ser todos fotógrafos, sem necessidade de saber revelar, conhecer lentes, ter perspectiva e sensibilidade, sequer usar uma máquina fotográfica. O aparelhinho faz tudo ... e bem!

Descobrimos que podemos dar (e fazer) notícias bem melhor do que os ditos jornalistas, que chegam sempre atrasados e, muitas vezes, já com o assunto ultrapassado. O aparelhinho divulgou tudo na hora e obteve milhares de likes num abrir e fechar de olhos.

Tudo indica que esta coisa de escrever também se encaminha para a gaveta das memórias, nas profundezas do edifício mais antigo e em ruínas. A "Inteligência Artificial" já está disponível vinte e quatro horas. Sem trabalho e num instante, pode produzir "calhamaços" com o tamanho desejado, sobre os assuntos que tenham mais interesse para serem consumidos sem causar problemas de digestão. De igual modo, neste tema, o desempenho do aparelhinho é fantástico.

Acresce que, nesta altura da vida, todos sabemos muito de finanças, economia, sociologia, carpintaria, construção, cálculos de estabilidade, comboios e aviões, peixes e lebres, culinária e medicina, clima e futebol, tudo sapiências ao alcance de todos, apenas com o clic no aparelhinho e sem necessidade de perder tempo com "marranços".

Depois admiram-se de, nos 50 anos de Abril, as sondagens mostrarem que mais de 80% da população gostava de ter um líder forte. Alguém que mandasse na democracia, digo eu! 

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Espectáculo

O espectáculo começou cinco minutos depois da hora prevista. Do meu lado direito, o telemóvel permanecia numa das mãos do dono, enquanto a outra (um dedo apenas) ia dedilhando uma mensagem longuíssima, talvez a contar o que se estava a passar em palco e a beleza das músicas de há meio século, com "vestes" actuais. A lentidão da escrita era confrangedora. Vieram-me à ideia as recentes definições de Marcelo e concluí que, afinal, a sua sapiência é infinita: uma personagem que tão mal dedilha no aparelho e tão pouco liga ao que se passa no palco, só pode ser alguém pouco habituado à cidade, talvez até rural, lá das berças, das entranhas do Portugal profundo. Tinha descido à civilização e só poderia estar a contar o seu deslumbramento.

Do lado esquerdo, dois lugares vazios. Alguém que tinha comprado bilhetes - a sala estava esgotada - e, à última da hora e por algum imponderável, não tinha podido comparecer. Conclusão apressada: cerca de uma hora depois, surgem dois personagens, com os papelinhos bem visíveis nas mãos, caminhando com dificuldade, prejudicando a visibilidade de quem chegou a horas, e ocupam os dois lugares até aí livres. Devagarinho, um deles "saca" do aparelho que também serve para telefonar, e inicia o registo, para a posteridade, para os amigos e para as redes, do que se passa no palco. A lentidão com que movimenta a "câmara" e o atraso na chegada levam-me a concluir, talvez de forma apressada, que o "filmador" só pode ser oriental ou com raízes desses lados, tal como o nosso Presidente descreveu.

Acabou! Enquanto aplaudo os artistas que me proporcionaram um grande espectáculo, dou por mim a pensar que cada vez sei menos e me acho mais deslocado.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

25 de Abril

Cinquenta anos passados, a emoção continua quando se (re)vêem imagens que não desaparecem nunca, e se ouvem músicas inesquecíveis, muitas com novas e excelentes "roupagens", cantadas e tocadas por gente nova, que não se quer alhear nem ceder.

Que os meus netos possam comemorar o centenário do dia inicial inteiro e limpo, com total liberdade, uma maior igualdade, a fraternidade devida e o respeito a que todos temos direito.

O 25 de Abril trouxe-nos a paz, a abertura, a esperança, o horizonte, a mudança, valores que só descortinamos quando se perdem.

terça-feira, 23 de abril de 2024

Dia Mundial do Livro

No Dia Mundial do Livro, depois de ter lido meia dúzia de mails anunciando "descontos fenomenais na compra de obras fundamentais", decidi que era dia de ser imperturbável e não adquirir nada.

Peguei em A Relíquia, por me ter vindo à memória um dos livros que mais me marcou na adolescência, e dele retirar alguma coisa para deixar por aqui. Depressa o voltei a colocar no seu discreto compartimento. Se Eça ainda por cá andasse, não teria mãos a medir nem veneno suficiente para distribuir.

Talvez nem o Bugalho escapasse, esse que, tão novo, descobriu o difícil caminho que o vai levar à Europa das grandes decisões. Aí pugnará, com o brilhantismo que todos reconhecem, pelo seu bem-estar e futuro a contento, proporcionando a Montenegro continuar com o sorriso que exibiu ontem, ao anunciar a sua inclusão como cabeça de lista da AD às eleições europeias.