segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Feiras

Estaremos todos preparados para o salsifré que está a acontecer na comunicação social?

Saberemos distinguir o que vale a pena ler, ver e ouvir, do que é lixo puro?

Apesar das grandes tiradas analíticas que enxameiam todos os canais, não estaremos a recuar aos tempos do "para cúmulo da chatice, tanto falou e nada disse"?

A informação parece uma feira onde uma grande parte dos responsáveis políticos e dos profissionais da dita vende cobertores e banha da cobra!

domingo, 12 de janeiro de 2025

Cuidados

Maré baixa, ondas medianas, muita espuma e muita areia, "aberta" a contrariar-se e a mostrar-se quase fechada e muito envergonhada, sem vento nem banhistas.

Das Berlengas, nem rasto: talvez escondidas, na procura de discrição e reserva, com receio de que Trump ainda se lembre de também as querer comprar. E se ...

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Eça no Panteão

Era o tempo das Bibliotecas Itinerantes, serviço extraordinário com que a Fundação Gulbenkian levou livros a todos os recantos de Portugal. Já lá vão sessenta anos, ou mais.

Fui "cliente" da carrinha durante bastante tempo e, enquanto isso, foi de lá que trouxe a maior parte dos livros que li. O senhor da carrinha, motorista e bibliotecário, deve ter achado piada ao miúdo que, mensalmente, a ele se dirigia entregando os livros do mês anterior e levando mais dois ou três para o seguinte.

- Já leste tanto que hoje vou dar-te uma surpresa. Lês, não comentas e devolves no próximo mês.

Dobrou-se e, lá de baixo, retirou um livro com uma cinta vermelha. Juntou ao outro que tinha sido escolhido e entregou-me os dois. Não me lembro do que escolhi mas nunca mais me esqueci daquele que o senhor da carrinha elegeu, com um sorriso malandreco.

Devo ter lido "A Relíquia" em dois ou três dias e nunca mais esqueci o livro e a forma como a ele tive acesso. Quando pude, foi dos primeiros (terá sido o primeiro?) que comprei.

Hoje, os restos mortais de Eça de Queiroz foram trasladados para o Panteão Nacional, com a pompa que o grande escritor merece. Fica por lá a fazer companhia a grandes escritores - Sophia, Aquilino - e a outras personalidades portuguesas de relevo.

Por aqui, de vez em quando e sempre com deleite, passo os olhos por alguma das suas grandes obras. E concluo sempre: Eça escreve tão bem!

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"... Estava salvo! Rapidamente, ajoelhei à beira do caixote, cravei o formão na fenda da tampa, alcei o martelo em triunfo ...

- Teodorico! Filho! - berrou a titi, arrepiada, como se eu fosse martelar a carne viva do Senhor.

- Não há receio, titi! Aprendi em Jerusalém a manejar estas coisinhas de Deus! ...

Despregada a tábua fina, alvejou a camada de algodão. Ergui-a com terna reverência: e ante os olhos extáticos surgiu o sacratíssimo embrulho de papel pardo, com o seu nastrinho vermelho.

- Ai que perfume! Ai! ai, que eu morro! - suspirou a titi a esvair-se de gosto beato, com o branco do olho aparecendo por sobre o negro dos óculos.

Ergui-me, rubro de orgulho:

- É à minha querida titi, só a ela, que compete, pela sua muita virtude, desembrulhar o pacotinho! ...

Acordando do seu langor, trémula e pálida, mas com a gravidade de um pontífice, a titi tomou o embrulho, fez mesura aos santos, colocou-o sobre o altar; devotamente desatou o nó do nastro vermelho; depois, com o cuidado de quem teme magoar um corpo divino, foi desfazendo uma a uma as dobras do papel pardo ... Uma brancura de linho apareceu ...

A titi segurou-a nas pontas dos dedos, repuxou-a bruscamente - e sobre a ara, por entre os santos, em cima das camélias, aos pés da cruz - espalhou-se, com laços e rendas, a camisa de dormir da Mary!

A Relíquia
Eça de Queiroz
Livros do Brasil

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Premonição

Via-se Peniche lá ao fundo, logo a seguir ao Baleal; as Berlengas estavam no horizonte e mostravam bem a sua silhueta; o mar começava a encher e as ondas já indiciavam o tamanho XL; as nuvens faziam um esforço por esconder o sol. Vingativo, o astro-rei espreitava sem pedir licença e exibia-se aos poucos.

Perante este cenário, a conclusão é clara e simples: amanhã vai chover!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Arrumação

A casa, o escritório, os quartos, qualquer divisão, até a casa de banho, devem estar sempre bem arrumados, para não parecer que há desleixo e para ser fácil encontrar qualquer coisa de que se precise. Tudo tem o seu lugar e o hábito, a repetição, a lógica, facilitam a tarefa e dispensam a necessidade de pensar muito quando se precisa de algo. Desta vez, o que parece impossível aconteceu.

- Onde parará o livro?

Só pode estar aqui, ou ali, ou acolá! Perdido não está. Nem saiu de casa ...

Uma luta incessante, abaixo e acima, aqui e ali, talvez acolá. Tão estranho. Sem resultado! São horas de ir dormir e faz parte da rotina ler qualquer coisa.

- Bom, vou buscar o próximo. Sem ler é que não fico. Pode ser que apareça durante a noite ...

Estará no carro? Não! Caiu e está debaixo de algum móvel? Claro que não! Voltou ao seu lugar na "biblioteca"? Já verifiquei! Na cama não ficou nem no WC, último sítio de leitura, se a memória não atraiçoa. E o sono tardava.

- Parece bruxedo!

Não foi! Só "nabice"!

Era necessário consultar os passaportes e eles estavam na gaveta, cobertos por alguns outros documentos que saíram, para a remoção ser possível. O livro, que ainda estava na mão, foi colocado em cima do móvel e foi tapado pelos documentos retirados, sem sequer ter um queixume que avisasse o distraído.

A rotina e a preocupação em manter a arrumação recolocou os documentos no sítio e nem deu pelo peso e volume aumentados. O livro foi junto e por lá ficou, sossegadinho, tão bem acompanhado que não tugiu nem mugiu quando, depois de um sono em sítio tão desconhecido quanto recôndito, foi apanhado e voltou à sua obrigação: continuar a ser lido! 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Balanço 2024

Procurando não perder o hábito enquanto o tempo, a cabeça e os olhos me forem permitindo, juntei mais umas dezenas de livros ao "inventário", longo, das leituras que constam do meu "arquivo cerebral", arquivando na "pasta" de 2024, para que não haja misturas nem confusões. Para ser completamente claro e verdadeiro, o "arquivo" físico está bem longe de responder como antigamente e, para segurança, é melhor registar cópia real e verdadeira na "nuvem", em vez de confiar na caduca memória.

De pouco servirá, mas é uma forma de recordar o que foi lido, sempre com prazer, mesmo quando a obra não correspondeu à expectativa. E sempre até ao fim! Por vezes, nas últimas páginas surgem surpresas inesperadas.

Ficam as capas, para memória futura.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Diálogo surreal

- Vou-me embora. Estou farto!

- Tem calma. Espera mais um pouco. O tempo que já levas por aqui não te ensinou que "as cadelas apressadas parem os filhos cegos"?

- Lérias. Sempre os ditados populares na ponta da língua para justificar tudo e nada.

- Claro. Há sempre um adequado a cada situação, por mais inverosímil que possa parecer.

- Eu que, como a grande maioria, sou "achista", acho que deves permanecer mais um pouco. Afinal de contas, "assinaste" contrato até à meia-noite de amanhã e, por aqui, os contratos são para cumprir ... pelo menos para alguns.

- Acredito que haja sinceridade nesse pedido e que não te importes de me aturar mais um pouco. Mas olha que há por aí muita gentinha a querer ver-me pelas costas e a desejar ardentemente que o meu substituto traga maravilhas para todos.

- Volto a dizer-te: tem calma e não fiques deprimido. Afinal de contas, sabes bem que "vozes de burro não chegam ao céu" e que, sempre, "atrás de mim virá quem de mim bom fará".

Estamos todos à espera que 2025 traga paz na Ucrânia e na Palestina, no Sudão, em Moçambique, e em todos os sítios onde a "lei da bala" impera. E que, no seu bornal, o Novo Ano traga o remédio para acabar com a miséria e a fome e termine com a exibição do luxo e da riqueza da forma ofensiva que tem vindo a verificar-se.

Lérias! Sabemos todos que nada disto acontecerá em 2025. Mas ... "a fé é a última coisa que se perde" e, bem lá no fundo, todos desejamos que o Novo Ano seja ... o melhor possível.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Martelos

O telhado ia sendo feito, a pouco e pouco, devagar, com todo o cuidado. Estar lá em cima sem qualquer protecção (o tempo dos capacetes e dos outros cuidados ainda não tinha chegado), exigia todas as cautelas, apesar da experiência ser grande e de ser "apenas" o sótão de uma casa térrea.

As vigas principais já tinham sido colocadas e a tarefa, agora, era pregar as ripas que viriam a ser o suporte principal das telhas. Trabalho delicado, exigente e rigoroso. Não podia haver falhas, que as telhas não eram maleáveis.

O servente tinha pavor do mestre pedreiro, mas tentava não o demonstrar. Procurava cumprir todas as ordens, sem manifestar qualquer desagrado, muito menos fazer comentários. Podia sair-lhe caro e manter o emprego era essencial para a sobrevivência.

- O "Jaquim" é o servente que eu gosto. Faz o que lhe digo e nunca abre a boca. Respeitinho.

Os pregos utilizados nas ripas eram bem mais pequenos do que aqueles que tinham servido para pregar as vigas. Os martelos utilizados por pedreiro e servente eram os mesmos e bem grandes. O cuidado para acertar na cabeça do prego e não na dos dedos era mais do que necessário, era imperioso. A cabeça dos dedos sofria e a dos pregos torcia-se, impedindo que eles cumprissem a função.

- Ó "Jaquim", tem tento no trabalho. Mais vale acertares nos dedos do que torceres os pregos. Olha que são caros!

A observação do mestre não teve qualquer resposta, como era uso mas, apesar da atenção, primeiro prego martelado, primeiro torcido.

- Eu avisei-te, "Jaquim". Dá atenção ao trabalho, com a cabeça bem assente e sem pensares no resto.

O segundo teve a mesma sorte e o mestre pedreiro não resistiu:

- Vai buscar uma pá ...

O "Jaquim", cumpridor, desceu a escada e dirigiu-se à arrecadação. Agarrou na primeira pá que encontrou e subiu a escada.

- Aqui tem, senhor João.

- És mesmo parvo. Então tu achas que se pode martelar um prego com uma pá?

Lá poder não pode mas, às vezes, até dava um jeitão e os dedos não se queixavam.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Palavras bonitas

Venha o sol que vier, é uma promessa
O que a manhã nos traz na sua alvura. 
É outra vez a vida que começa 
Aberta de inocência e de frescura. 

Cipreste frio, a noite! Cor impura.
Triste alegria a tinta negra impressa. 
Venha o sol que vier, tem mais altura
O sonho que se veja e que se meça. 

Claro como a verdade - diz o povo.
Doce como um começo, o fruto novo
Onde reluz o laivo que o pintou. 

Venha o sol que vier, é um outro dia
No límpido país da fantasia
Que a nossa escuridão iluminou. 

Libertação 
Miguel Torga
Gráfica Coimbra 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Ilusões

Se Fernando Pessoa escreveu que

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente

seria interessante perceber as Berlengas que, no dia de Natal, fingiram aproximar-se da costa e dar a ilusão de que estavam mesmo ali, não à mão de semear, mas a meia dúzia de braçadas, a nadar.

São apenas ilusões e, amanhã, o mais provável é que as velhas ilhas e os seus companheiros Farilhões já só apareçam no horizonte de quem sabe que, por detrás da neblina, lá bem longe, elas permanecem descansadas.

Malhas que o império tece ou a confirmação de que o hoje só determina que o amanhã se verá.