Nem o frio, o vento ou a aba do chapéu da madam conseguiram desmanchar a poupa amarelada, bem penteada que, a partir de hoje, volta a mandar no mundo.
Será a laca usada de fabrico chinês?
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
Nem o frio, o vento ou a aba do chapéu da madam conseguiram desmanchar a poupa amarelada, bem penteada que, a partir de hoje, volta a mandar no mundo.
Será a laca usada de fabrico chinês?
A banda Cara de Espelho proporcionou ontem um excelente concerto a todos os que deixaram o quentinho do borralho e foram passar um bocado da noite ao CCC.
Espectáculo cheio de boa música, com letras críticas, algumas bem mordazes, todas cheias de actualidade.
Quem viu, viu e sentiu. Quem não foi, chuche no dedo e delicie-se com esta:
À BELEZA
Não tens corpo, nem pátria, nem família,Nem te curvas ao jugo dos tiranos.Não tens preço na terra dos humanos,Nem o tempo te rói.És a essência dos anos,O que vem e o que foiÉs a carne dos deuses,O sorriso das pedrasE a candura do instinto.És aquele alimentoDe quem, farto de pão, anda faminto.És a graça da vida em toda a parte,Ou em arte,Ou em simples verdade.És o cravo vermelho,Ou a moça no espelho,Que depois de te ver se persuade.És um verso perfeitoQue traz consigo a força do que diz.És o jeitoQue tem, antes de mestre, o aprendiz.És a beleza, enfim! És o teu nome!Um milagre, uma luz, uma harmonia,Uma linha sem traço ...Mas sem corpo, sem pátria e sem família,Tudo repousa em paz no teu regaço!OdesMiguel TorgaGráfica de CoimbraNota: Miguel Torga faleceu em Coimbra, há exactamente 30 anos
O acordo estava na mesa há oito meses e, segundo Biden, não teve qualquer alteração. Nem uma vírgula.
A poupa do outro, que irá entrar em cena na próxima semana, veio dizer ao mundo, através das redes, que só tinha havido acordo graças à sua sapiente intervenção.
Ao contrário de ontem, as notícias de hoje já não são tão optimistas e parece que o governo de Israel não ratifica o que os seus representantes haviam combinado lá nas profundezas do petróleo, digo, do Catar.
A destruição continua; as mortes prosseguem; o ódio, recíproco, agiganta-se.
Até quando?
Se eu não fosse uma pessoa discreta, descreveria o que vai pelo mundo como um cacharolete de interesses, egos, vaidades, poupas amarelas e lacadas, caras de pau destilando raiva, peneirentos em busca de lacaios, "sabões" que nunca passarão de "sabonetes" e dos bem pequeninos.
A discrição impede-me de fazer uma descrição exaustiva do que por aí vai, a começar nos atentados de guerra, passando pelos da gramática, pelos discursos a justificar o que não tem justificação, os perigos disto e daquilo, com erros ortográficos pelo meio e percepções resilientes que se atropelam continuamente.
Há muita gente à procura de protagonismo, poucos em busca do saber, muitos a necessitarem de "dez réis" de humildade, outros tantos a precisarem de educação e ainda, bastantes, a cuspir para o chão.
Ler, estudar, aprender, para quê?
Está tudo na Net e o que não está, compra-se!
Estaremos todos preparados para o salsifré que está a acontecer na comunicação social?
Saberemos distinguir o que vale a pena ler, ver e ouvir, do que é lixo puro?
Apesar das grandes tiradas analíticas que enxameiam todos os canais, não estaremos a recuar aos tempos do "para cúmulo da chatice, tanto falou e nada disse"?
A informação parece uma feira onde uma grande parte dos responsáveis políticos e dos profissionais da dita vende cobertores e banha da cobra!
Maré baixa, ondas medianas, muita espuma e muita areia, "aberta" a contrariar-se e a mostrar-se quase fechada e muito envergonhada, sem vento nem banhistas.
Das Berlengas, nem rasto: talvez escondidas, na procura de discrição e reserva, com receio de que Trump ainda se lembre de também as querer comprar. E se ...
Era o tempo das Bibliotecas Itinerantes, serviço extraordinário com que a Fundação Gulbenkian levou livros a todos os recantos de Portugal. Já lá vão sessenta anos, ou mais.
Fui "cliente" da carrinha durante bastante tempo e, enquanto isso, foi de lá que trouxe a maior parte dos livros que li. O senhor da carrinha, motorista e bibliotecário, deve ter achado piada ao miúdo que, mensalmente, a ele se dirigia entregando os livros do mês anterior e levando mais dois ou três para o seguinte.
- Já leste tanto que hoje vou dar-te uma surpresa. Lês, não comentas e devolves no próximo mês.
Dobrou-se e, lá de baixo, retirou um livro com uma cinta vermelha. Juntou ao outro que tinha sido escolhido e entregou-me os dois. Não me lembro do que escolhi mas nunca mais me esqueci daquele que o senhor da carrinha elegeu, com um sorriso malandreco.
Devo ter lido "A Relíquia" em dois ou três dias e nunca mais esqueci o livro e a forma como a ele tive acesso. Quando pude, foi dos primeiros (terá sido o primeiro?) que comprei.
Hoje, os restos mortais de Eça de Queiroz foram trasladados para o Panteão Nacional, com a pompa que o grande escritor merece. Fica por lá a fazer companhia a grandes escritores - Sophia, Aquilino - e a outras personalidades portuguesas de relevo.
Por aqui, de vez em quando e sempre com deleite, passo os olhos por alguma das suas grandes obras. E concluo sempre: Eça escreve tão bem!
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"... Estava salvo! Rapidamente, ajoelhei à beira do caixote, cravei o formão na fenda da tampa, alcei o martelo em triunfo ...
- Teodorico! Filho! - berrou a titi, arrepiada, como se eu fosse martelar a carne viva do Senhor.
- Não há receio, titi! Aprendi em Jerusalém a manejar estas coisinhas de Deus! ...
Despregada a tábua fina, alvejou a camada de algodão. Ergui-a com terna reverência: e ante os olhos extáticos surgiu o sacratíssimo embrulho de papel pardo, com o seu nastrinho vermelho.
- Ai que perfume! Ai! ai, que eu morro! - suspirou a titi a esvair-se de gosto beato, com o branco do olho aparecendo por sobre o negro dos óculos.
Ergui-me, rubro de orgulho:
- É à minha querida titi, só a ela, que compete, pela sua muita virtude, desembrulhar o pacotinho! ...
Acordando do seu langor, trémula e pálida, mas com a gravidade de um pontífice, a titi tomou o embrulho, fez mesura aos santos, colocou-o sobre o altar; devotamente desatou o nó do nastro vermelho; depois, com o cuidado de quem teme magoar um corpo divino, foi desfazendo uma a uma as dobras do papel pardo ... Uma brancura de linho apareceu ...
A titi segurou-a nas pontas dos dedos, repuxou-a bruscamente - e sobre a ara, por entre os santos, em cima das camélias, aos pés da cruz - espalhou-se, com laços e rendas, a camisa de dormir da Mary!
Via-se Peniche lá ao fundo, logo a seguir ao Baleal; as Berlengas estavam no horizonte e mostravam bem a sua silhueta; o mar começava a encher e as ondas já indiciavam o tamanho XL; as nuvens faziam um esforço por esconder o sol. Vingativo, o astro-rei espreitava sem pedir licença e exibia-se aos poucos.
Perante este cenário, a conclusão é clara e simples: amanhã vai chover!
A casa, o escritório, os quartos, qualquer divisão, até a casa de banho, devem estar sempre bem arrumados, para não parecer que há desleixo e para ser fácil encontrar qualquer coisa de que se precise. Tudo tem o seu lugar e o hábito, a repetição, a lógica, facilitam a tarefa e dispensam a necessidade de pensar muito quando se precisa de algo. Desta vez, o que parece impossível aconteceu.
- Onde parará o livro?
Só pode estar aqui, ou ali, ou acolá! Perdido não está. Nem saiu de casa ...
Uma luta incessante, abaixo e acima, aqui e ali, talvez acolá. Tão estranho. Sem resultado! São horas de ir dormir e faz parte da rotina ler qualquer coisa.
- Bom, vou buscar o próximo. Sem ler é que não fico. Pode ser que apareça durante a noite ...
Estará no carro? Não! Caiu e está debaixo de algum móvel? Claro que não! Voltou ao seu lugar na "biblioteca"? Já verifiquei! Na cama não ficou nem no WC, último sítio de leitura, se a memória não atraiçoa. E o sono tardava.
- Parece bruxedo!
Não foi! Só "nabice"!
Era necessário consultar os passaportes e eles estavam na gaveta, cobertos por alguns outros documentos que saíram, para a remoção ser possível. O livro, que ainda estava na mão, foi colocado em cima do móvel e foi tapado pelos documentos retirados, sem sequer ter um queixume que avisasse o distraído.
A rotina e a preocupação em manter a arrumação recolocou os documentos no sítio e nem deu pelo peso e volume aumentados. O livro foi junto e por lá ficou, sossegadinho, tão bem acompanhado que não tugiu nem mugiu quando, depois de um sono em sítio tão desconhecido quanto recôndito, foi apanhado e voltou à sua obrigação: continuar a ser lido!