S. Martinho de Anta, 28 de Junho de 1986
REBATE
Tantas palavras que conheço agoraE malbaratoNo papel,Aqui onde só duas aprendiCom eterno sentido:Pai e Mãe!Mas ninguémFica fiel à infância.CrescemosE perdemosA inocênciaE a sua mágicaSabedoria.Adulto que porfiaNestas solfas de letras alinhadasE paralelas,Chego a ter pejo de as escrever.Que podem dizer elasQue valha a pena ler?Diário XIVMiguel TorgaCoimbra
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
sábado, 28 de junho de 2025
Palavras bonitas
sexta-feira, 27 de junho de 2025
Liberdade
O cartoon de António e a crónica de Miguel Sousa Tavares justificam, como sempre, o valor dispendido na compra da edição semanal do Expresso.
Na sua crónica, após referenciar a frase já aqui reproduzida, Miguel Sousa Tavares escreve:
"(...) Esta frase ficará para a história, lembrem-se dela por muitos anos, pois ela resume na perfeição o papel de cãozinho do dono que tem sido o de Mark Rutte, o infeliz secretário-geral da NATO. O neerlandês não é, por si mesmo, membro da NATO, mas apenas o coordenador de vontades e construtor de consensos entre os 32 membros da organização. Porém, desde o primeiro dia, e certamente também temente pelo futuro do seu cargo, ele fala como se mandasse em todos e a todos pudesse impor livremente a vontade do dono, o seu tão admirado Donald J. Trump - esse tão confiável Presidente americano, que poucas horas antes da cimeira de quarta-feira voltou a pôr em causa o cumprimento do artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte, o próprio fundamento da NATO: um por todos, todos por um. Já sabíamos que Rutte é um serventuário de Trump, ainda mais que o seu antecessor, Stoltenberg. Mas escrevê-lo assim, com estes requintes de subserviência e dando já por decidido o que só no dia seguinte se iria discutir, é suficiente para concluir que o homem não está à altura do cargo. Se houvesse alguma réstia de dignidade e orgulho próprio entre os dirigentes ocidentais de hoje, o ponto nº. 1 da ordem de trabalhos da Cimeira da NATO em Haia teria sido a destituição do seu secretário-geral. (...)"
A crónica acaba assim: "Nunca tantos viveram, indefesos e ignorantes, tamanha hipocrisia".
quarta-feira, 25 de junho de 2025
Cretinos
Aquele figurante que foi Primeiro-Ministro dos Países Baixos e, nessa qualidade, disse que os portugueses só sabiam gastar o dinheiro da UE em p...s e vinho verde, é agora o fantoche que manda na Nato.
Talvez por estar actualizado e viciado nas mensagens rápidas e concisas, resolveu mandar uma ao (seu) Presidente da melena. Ainda bem que não releu o texto e lhe saiu uma pérola que, sem qualquer dúvida, vai merecer o Nobel da parvoíce, da sabugice e da cretinice.
"Parabéns e obrigado pela tua ação decisiva no Irão, que foi verdadeiramente extraordinária, e algo que mais ninguém se atreveu a fazer. Isso torna-nos a todos mais seguros. Estás a viajar para mais um grande sucesso em Haia esta noite. Não foi fácil, mas temo-los todos comprometidos com os 5%!. A Europa vai pagar à GRANDE, como devia, e será uma vitória tua. Donald, tu conduziste-nos a um momento mesmo mesmo importante para a América e para a Europa, e o mundo. Alcançaste algo que NENHUM presidente americano em décadas conseguiu."
Não se conhece a resposta de Donald Trump a Mark Rutte mas, a avaliar pela amostra, as conversas de quem manda no mundo estão, cada vez mais, a descer de nível e a subir de interesse!
terça-feira, 24 de junho de 2025
Tão longe ...
Em menos de trinta dias, a contar de hoje, irão decorrer os aniversários de três dos quatro "rapagões" que nasceram "ontem", com grande alegria dos pais e um orgulho enorme dos avós.
Hoje é a vez do Duarte, terceiro na cronologia, que completa uns maravilhosos treze aninhos. Está longe, com três horas a mais, que obrigam a que a alvorada seja muito cedo e o serão curtinho, quando se tenta comparar com os horários de cá.
Tem mundo, conhece gente de todo o lado, de todas as cores e todos os hábitos. Enriquece todos os dias, o que nunca irá esquecer e lhe irá servir para a vida.
Parabéns, meu DUDU querido. Daqui a dois dias vou dar-te um abraço igual ao último, dado na despedida de Baku. Sem chuva nos olhos, espero.
segunda-feira, 23 de junho de 2025
Teatro ... da vida
Ver e ouvir a declamação deste lindo poema de Ruy Belo, integrado num grande espectáculo de teatro musicado, com encenação de Ricardo Pais e o título de Talvez ... Monsanto, foi um privilégio ao mesmo tempo arrepiante, comovente, excepcional, lindo.
Tudo brilhante! Dos actores aos músicos, da poesia à encenação, dos adufes ao contrabaixo, das vozes às interpretações, com um destaque especial para Luísa Cruz.
QUERO SÓ ISSO NEM ISSO QUERO
Quero uma mesa e pão sobre essa mesana toalha de linho nódoas de vinhoquero só isso nem isso queroQuero a casa de terra à minha voltacães altos na noite a minha mãe mais novaquero só isso nem isso queroQuero a casa do forno onde eu me escondia dos relâmpagose trovões quando um ferro no cesto garantia uma feliz cria à galinha chocadeiraquero só isso nem isso queroQuero de novo fundir ao lume os soldados de chumbo que no natal me punham no sapatinhoe tirar chouriço e toucinho do guarda-comidasquero só isso nem isso queroQuero fazer pequeninos adobes e construir casas pelo quintalver chegar o verão e comermos todos lá fora na varanda de tijoloquero só isso nem isso queroQuero uma aldeia umas pedras um rioumas quantas mulheres de joelhos brancos esfregando a roupa nas pedrasquero só isso nem isso queroQuero escrever fatais cartas de amor à rapariga dos meus oito anosrasgar essas cartas deixá-las pra sempre dentro do tronco oco da oliveiraquero só isso nem isso queroQuero umas cabras um pastor rico um pastor pobreo leite quente na teta o cabrito morto soprado e esfoladoquero só isso nem isso queroQuero a courela as perdizes no ovo a baba do cucolaranjas de orvalho no ano novo colhidas na árvorequero só isso nem isso queroQuero dois montes e um paul de malmequeres a cheia na primaveraa asma o ruído dos ralos as pernas sombrias das raparigasquero só isso nem isso queroQuero que voltem os que morreram os que emigrarammatar com eles o bicho com aguardente pela manhã antes da pegaquero só isso nem isso queroQuero ver ao vento o véu das noivas apanhar os confeitos nos casamentossaber pelos papéis dos registos o tempo da prenhez palavra misteriosaquero só isso nem isso queroQuero um pátio meu e da sombra e galinhas pedreses e árvoresuma mina de avencas uma horta uma sebe de cana umas casas caídasquero só isso nem isso queroQuero ajudar na rega do fim de tarde calcar os buracos das toupeirase dirigir com o sacho a água morna nos pés até aos regos do feijãoquero só isso nem isso queroQuero em dezembro o varejo final da azeitona o búzio a tocara azeitona a cair dos ramos nos panos de serapilheiraquero só isso nem isso queroQuero o meu pai de chapéu de chuva aberto nos dias de solo meu pai de manhãzinha a lavar-se e a explicar-nos latim e históriaquero só isso nem isso queroQuero nu em pelota entre todos tomar os banhos no marachãoos ninhos dos pássaros as andorinhas de asas escuras no céu azulquero só isso nem isso queroQuero o pátio da escola a roda das raparigas a cantar à volta do plátanoo primeiro sonho de amor as primeiras palavras gaguejadas trocadas com uma raparigaquero só isso nem isso queroQuero as feridas nos pés para poder sair à rua descalçoo pão com conduto entre os meninos pobres no recreioquero só isso nem isso queroQuero ir ao vale barco a malaquejo à marmeleiraroubar melões jogar ao murro ver nas festas o fogo presoquero só isso nem isso queroQue quero tanto que quero um mundo ou nem tanto só agora reparoquero morder para sempre a almofada quente e densa da terraquero só isso nem isso queroTodos os poemasRuy BeloAssírio & Alvim (2000)
domingo, 22 de junho de 2025
Guerra
Ainda não era suficiente e havia (há) muito material para esgotar. Um regresso aos Açores para ver a paisagem e dar de beber a quem tem sede, em terra ou no ar.
Mais uns bombardeamentos, para que todos se (re)coloquem no carril do comboio comandado pelo homem da melena amarelada e segura pela boa laca, talvez de fabrico chinês, com tarifas.
Onde e quando irá acabar?
domingo, 15 de junho de 2025
Livros (lidos ou em vias disso)
"(...) Quando me mudei para Higienópolis, minha mãe me deu dois presentes: um enorme vaso de murano e uma coleção de pratos Vista Alegre. Disse que seria impossível pertencer àquela nova realidade sem esses objetos.
Fui trocar o vaso, e descobri que com o mesmo valor eu poderia adquirir na loja uns vinte itens desnecessários para minha casa. Minha mãe me disse que ter vinte objetos meio baratos era coisa de pobre. Rico tinha uma coisa única e cara. Mas o que eu faria com um imenso vaso de murano? Minha mãe quis saber então o que eu faria com vinte coisas das quais não precisava. Argumentei que eu também não precisava de um vaso de murano. Ela então respondeu: <<Você que pensa que não precisa, isso vai mudar.>>
Ao me visitar em Higienópolis, minha mãe reparou que eu ainda estava do lado mais barato do bairro. O legal era depois da avenida Angélica, e não antes dela. Argumentei que para quem vinha do outro lado da Angélica eu morava exatamente depois da Angélica.
Estava perto do Natal e resolvi dar um almoço em casa. Exibi minha coleção de pratos Vista Alegre e uma amiga, com um casaco imenso, levantou da mesa para cumprimentar um casal e lançou um dos pratos para longe, quebrando-o ao meio. Comecei a chorar e a rir, <<eu choro à toa, não liguem!>>. A amiga me abraçou <<é só um prato>>.
Não era o prato. Eu estava chorando porque quando vem a pontada intensa de amor pela minha mãe, o raio do amor absoluto e infinito, a descarga elétrica do amor mais intenso, eu choro. O prato quebrado me lembrou de como eu amava a minha mãe e minha vida seria insuportável quando ela morresse. Como eu veria para sempre aqueles pratos em minha casa, depois que ela morresse (...)"
sábado, 14 de junho de 2025
Percepções
Por muito que se tente assobiar para o lado, sentir o vento norte a refrescar o corpo que se deslocou à praia, pela manhã, em busca do sossego contido no marulhar das ondas; ir lendo algumas páginas do livro actual, adivinhar o que é o almoço, estender o olhar em busca da Berlenga enevoada, as notícias surgem sempre em primeiro plano e sem compreensão possível, para quem não é dotado da capacidade explicativa de tanta gente que vai debitando razões que a razão desconhece.
Está (re)aberto mais um conflito, com Israel a dizer que vai destruir a capacidade nuclear do Irão e este a invocar Deus para o ajudar a eliminar do mapa os israelitas, num jogo de mísseis e drones sem contemplações nem olhos.
Parece ser lá longe, mas a distância é pouco mais que um tirinho, quando uma parte de nós está lá, a fazer fronteira com um dos beligerantes.
Vai passar ... Quando e como?
quinta-feira, 12 de junho de 2025
Zé Povinho
Passam hoje 150 anos da primeira "notícia" que o Zé Povinho, nascido das mãos de Raphael Bordalo Pinheiro, produziu e publicou. Seguiram-se muitas outras, sempre em cima da actualidade e bem mordazes.
Se ainda por cá andasse, o "Zé" teria muito papagaio com que se entreter diariamente.
quarta-feira, 11 de junho de 2025
A Barraca
Não tenho pena de Maria do Céu Guerra, porque ela é uma guerreira e lutará, como sempre fez, contra os energúmenos que querem o regresso a um passado reles e de má memória.
A minha solidariedade com os actores d'A Barraca pouco vale, mas eu quero continuar a ir lá ver teatro de qualidade indiscutível e, sobretudo, com a liberdade criativa que é apanágio daquela casa há meio século.

