terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Rotinas

As idas ao café estão cada vez mais reduzidas e, na maior parte dos dias, resumem-se à bica a seguir ao almoço, bebida ao balcão, sem açúcar, como sempre. Para além dos cumprimentos normais, aos empregados e aos clientes conhecidos (cada vez menos), trocam-se meia dúzia de palavras de circunstância, paga-se a despesa na máquina quando ela acende a luz do "sporting" e ... ala que se faz tarde.

Longe vão os tempos da cavaqueira, dos mexericos, dos comentários, das novidades. O café tem agora as mesas ocupadas pelos clientes de restaurante, onde se emala a comida rápida, "hamburgada", vegetariana, reduzida a dois ou três nomes desconhecidos e inscritos no quadro da entrada. Para quem ainda se revê nas ementas com cozido à portuguesa, bitoque de vaca, sopa de caldo verde, fruta da época, dourada grelhada, pescada cozida com todos, leite creme e pudim de ovos, o melhor é beber o café e dar espaço a quem trabalha e dá rendimento ao dono, para que este possa ir servindo alguns saudosos.

A televisão estava ligada num canal de notícias, com som muito baixo. Na imagem, o debate de ontem entre dois candidatos às eleições para Presidente da República.

- Viste? Que vergonha! Nunca me passou pela cabeça que chegaríamos aqui. Acabaram as tabernas mas os labregos voltaram ...

- Falar nalguns deles é dar-lhes a importância que eles não têm nem nunca virão a ter ... mesmo que, por bambúrrio, viessem a ser eleitos.

- Vira para lá essa boca. Diabo seja surdo! A culpa é nossa, não contámos aos novos ...

Talvez seja culpa nossa, dos que comeram bacalhau com batatas e batatas com bacalhau. Tentámos esquecer e fechamo-nos em copas. Está aí o resultado!

domingo, 14 de dezembro de 2025

Manhãs e caminhadas

A caminhada domingueira, no sítio do costume,  que é, no mínimo, o mais belo da Estremadura, deu-se debaixo de um céu completamente azul e um sol radioso, a fazer lembrar alguns dias do Verão que está quase, quase a chegar.

O "fotógrafo", amador e sem jeito, deixa aqui duas imagens que, se tivessem saído das mãos de um "profissional" que bem conheço, seriam (ainda) mais belas.




sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Palavras bonitas

O risco que se risca e traça,
Em riste traz o risco da ameaça
Em tudo o que por nós passa,
Mesmo que rasteira e rasca a negaça,
Rasante rasa a praça
E rafeira regouga de ranço na nossa taça.
Marcante a marca que deixa
Mesmo no manco que manca e se queixa,
Marcado na marosca que nele se enfeixa,
Pelo mercador no mercado da ameixa,
Marado na marada desta endecha.

Girante o gesto que se gera movente,
Gira girando na gente,
Girafa de gorgomilo pendente
E garganta de gargalo de enchente
Gestor e garante eloquente,
Garboso e grande gerente,
Garantia deste poema displicente.

Meditação Irreverente
Lino Sebastião

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Os Valentes

Clara Pinto Correia escreveu muito, e bem! Foi bióloga interventiva e lutadora, figura pública idolatrada até que a sociedade lhe "fez a folha" e deu-lhe o prémio do esquecimento, limpando tudo o que de bom tinha realizado. Um erro, se aconteceu, bastou para que os virtuosos a condenassem definitivamente, sem apelo nem defesa.

Morreu hoje, com 65 anos. Já recebeu os elogios fúnebres de meio mundo. O costume ...

Por aqui fica um excerto de um conto, de um dos muitos livros que por cá permanecem. Todos os que escreveu tiveram lugar na "estante" mas há vários que acompanharam a filha e já devem ter feito as delícias dos netos. "Adeus, Princesa!"

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"Era uma aldeia muito pequenina, ao fundo de um caminho de terra muito estreitinho, por onde entrava vida, depois de atravessarmos os eucaliptos acabados de plantar. Não havia nenhuma placa a sinalizar-lhe a existência. Nem sequer havia uma bolinha no mapa. Era ali, pronto. No meio de uma planície com sobreiros dispersos e com restolho malhado de giestas e de estevas estava um rebanho espalhado pela encosta que ficava à nossa direita, e a dois ou três metros desses rebanho estava um pastor em pé, com o cajado fincado no chão, e as mãos fincadas no cajado, com um cão preto sentado ao lado, como nas imagens dos pastores que nós agora vemos nos livros que nos falam de coisas que já não existem.

A aldeia só tinha uma rua. Ao cimo da rua, acabava a estrada de terra, e abria-se um terreiro mais ou menos circular, para onde dava o alpendre do Café Saudade. Nesse dia, o Café Saudade tinha a toda a volta mesas improvisadas por grades de cerveja com portas velhas estendidas por cima, ladeadas por bancos construídos com tijolos e tábuas. E também se tinham posto ali algumas cadeiras de plástico, umas brancas e outras verdes. E estavam várias pessoas atarefadas à volta das grelhas de carvão montadas à frente das casas mais próximas. E toda a gente fazia tudo com muita calma, mas sentia-se no vento do fim da tarde uma excitação difusa, imprecisa, uma antecipação de coisas raras, que ia e vinha, como os voos rasos das andorinhas. Era a excitação de esse dia ser sábado, e de esse sábado ser o sábado da festa anual que aquela aldeia organiza sempre que o Verão começa a desandar para o fim. 

Este ano era ano de pouca sorte, porque este sábado especial estava a ameaçar chuva. Lá mais para a noite, o Duo Fadista ia subir para as traseiras da camioneta estacionada ao lado do terreiro, que já estava toda equipada para o grande momento com dois microfones e um amplificador. E, nessa altura, ia animar-se o baile ao ar livre diante do Café Saudade, debaixo de duas fiadas de lâmpadas suspensas de telheiro a telheiro. E, enquanto durasse o baile, iam beber-se muitas cervejas, e outros tantos bagaços. E haveria frango no churrasco. E também haveria coiratos e torresmos. E, a certa altura, leiloava-se um leitão. E, logo a seguir, era a dança da rosa. (...)"

Contos
Clara Pinto Correia
Relógio d'Água (2005)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Limpeza

Vivemos tempos difíceis! 

Não há nada pior para iniciar qualquer pretenso texto do que escolher um "lugar comum". E, no entanto, tem pleno cabimento utilizá-lo, quando se olha o que vai pelo mundo. Das guerras que permanecem, da Ucrânia a Gaza, da Somália à Venezuela e muitos outros sítios que são esquecidos ou devorados, rapidamente, pela espuma dos dias.

Conversações, reuniões, cimeiras, encontros, telefonemas, mensagens, "bocas", avisos, ameaças, conversas da treta, discursos profundos, opiniões certeiras, "caganeirices" chiquérrimas, falinhas mansas, gritos inflamados, tudo cheio de certezas e ditos para "inglês" ver e "portuga" crer.

Por vezes chega a parecer que regressámos à "outra senhora", com notícias, comentários e análises parciais, que nos despejam tudo e o seu contrário, fazendo-nos sentir mentecaptos e completamente desprovidos de um mínimo de senso ou de inteligência.

Valha-nos o Youtube e a música que nos disponibiliza, à borla, sem comentários e deliciosa. Lufada de ar fresco que distrai, revigora e limpa a cabeça.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Restauração


A pergunta impõe-se: e se, de repente, a areia que o mar levou, for restaurada e voltar ao seu lugar habitual?

A resposta é: estaremos a chegar ao Verão e a preparar-nos para os banhos costumeiros.

domingo, 30 de novembro de 2025

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) AS MENINAS E OS MENINOS

A casa da Avó. A casa dos avós.

Uma recordação que se ia tornando nebulosa. No entanto, não se esbatia totalmente. A casa onde, em pequenos, o irmão e ela passavam parte dos dias de Verão.

Quatro cadeiras à roda de uma mesa. Às vezes cinco, ou seis. Era o princípio das lembranças.

Mobília velha. Muito. De pinho com caruncho a roer, sempre a roer.

"Não haverá nada capaz de dar cabo desta bicharada?!"

As cadeiras e as mesas dir-se-iam esquecidas, no meio da cozinha. Passavam-nas, às vezes, com um esfregão embebido em azeite. Deixavam-se secar. Era ali que os avós se sentavam a comer. Eles também, quando lá estavam.

Café da manhã, almoço, jantar. Horários incertos porque não se tinha fome ou por se dar prioridade a galinhas, coelhos e porcos. Ou,

"Vou primeiro dar uma volta ao palheiro, a ver se há alguma novidade ..."

"E eu ainda vou lá acima. Tenho um canteiro de alhos-porros para sachar!"

Mais isto. Mais aquilo.

Comia-se, ou não se comia?

Quando lhe parecia que já era tempo, ela chamava o irmão,

"Duarte, vamos pôr a mesa!"

E logo a Avó,

"Deixa-o, que está entretido!..."

Pusesse ela a mesa. Toalha de algodão aos quadrados. Pratos, talheres, os copos.

Preferia as toalhas claras. Brancas. As da Avó, porém, andavam todas por tons escuros. Castanhos, azuis.

"Sujam-se menos ..."

Que ideia! Sujavam-se tanto quanto as outras, só que não se notava.

Pois era, a casa dos avós não tinha idade.

Casa de tectos altos, em madeira. Paredes rugosas feitas de cal, areia e cascalho. Enegreciam com o acender do fogão e dos fumeiros. Embranqueciam com um balde de cal e algumas pinceladas. Outra vez a cal!

Não. A casa não se adiantara, nem mesmo naqueles anos em que todos se batiam contra os atrasos. Em que se levava tudo por diante. Liberdade recente, a do 25 de Abril.

E a Avó, adiantara-se?

Bem ...

Antes e depois de setenta e quatro nunca usou calças nem blusas sem mangas. Continuou a vestir-se e a adornar-se como se vestem e adornam as mulheres no campo. Por dentro, contudo, diferente das outras.

Dizia de si própria

"Sou brava a dormir!"

Mais. Garantiam os conhecidos que também o era acordada.

"Ora! ... Faço o que tem de ser feito."

E dizia o que, na sua opinião, devia ser dito.(...)"

Novelas ao Vento
Filomena Marona Beja
Parsifal (2023)

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Correio

Cada vez mais vai rareando o correio colocado na caixa, obrigatória, que "vive" junto ao portãozinho da entrada da casa há quase meio século. A chave ainda funciona e a cor, verde, mantém-se não já com a tinta inicial na totalidade, mas ainda com alguns resquícios das primeiras pinceladas que obteve.

O ritual de pegar na chave, abrir a portinhola e espreitar para dentro repete-se todos os dias úteis, ainda que, na maior parte deles, os passos se revelem inúteis.

Hoje foi diferente! Três cartas, pasme-se! 

A primeira, da Junta de Freguesia, trazia o convite para o convívio natalício dos fregueses idosos; a segunda avisava que o débito do seguro vai acontecer no próximo mês; a terceira, era visível, trazia importância colada e bem vincada. Tinha como remetente o Ministério da Administração Interna e não era previsível que fosse algum chamamento da Ministra para outro almoço convivial.

A (des)agradável surpresa empertigou-se e ditou a sua lei: comunicava uma infracção acontecida em 03.08.2024, por violação do limite de velocidade estabelecido no local "Xis", bem bonito, por sinal. Na Barquinha, com o Tejo a fazer companhia pela esquerda, estaria, decerto à direita, o aparelhinho que me caçou sem contemplações.

Demorou mais de um ano, mas chegou. A lei é para se cumprir e os infractores (todos?) são penalizados. Já agendei o pagamento para o mês que vem, aproveitando o prazo de 15 dias que, amavelmente, me foi concedido.