quinta-feira, 28 de maio de 2009

Análise


Se fosse convidado para um dos muitos debates que, sobre o caso BPN, se têm realizado nos vários canais televisos, o Zé diria:

- Ao "puxar a brasa à sua sardinha", Oliveira e Costa mostrou que "quem mente nunca acerta".
No Tribunal da opinião pública, Dias Loureiro não consegue demonstrar que "quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado vem" e confirma a Cavaco que "amigos, amigos, negócios à parte".
Cadilhe, entretanto, evita "rir do mal do vizinho, que o seu pode já vir a caminho", embora o seu PPR esteja, em princípio, a bom recato e protegido pela legislação criada por ele próprio, quando era Ministro das Finanças.
Apesar de todas as modernices, parecem não restar dúvidas que, como sempre, "quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão".

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Geni e o Zepelim

Hoje, bem cedo, num apontamento de António Macedo intitulado "as canções da vida" de pessoas que convida para essa escolha, a Antena 1 recordou a Geni, de Chico Buarque.

Composição gravada há cerca de 30 anos no album Ópera do Malandro, faz parte de um espectáculo musical com o mesmo nome, com inúmeras representações no Brasil e que tive a felicidade de ver, há alguns anos, no Coliseu dos Recreios.

Recentemente, no CCC, revisitei a genialidade de Chico Buarque, assistindo ao musical Gota d'Água que, sendo um bom espectáculo, não atinge o esplendor e a beleza da Ópera.

Abreviando e voltando ao início: a Geni é fabulosa e mantém, apesar dos seus mais de 30 anos, toda a actualidade. Estão lá os preconceitos, a ingratidão, os fins a justificarem os meios, "qualidades" que, por cá, se vão mantendo em abundância.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Desemprego

Um contrato que não se renova e mais um a engrossar a longa lista, que pode ter erros, omissões, deficiências informáticas, registos perdidos, mas é cada vez maior.
O posto de trabalho justifica-se e a substituição impõe-se.
A empresa de trabalho temporário resolve o problema: coloca a "mão-de-obra", com contrato mensal, sem férias, sem subsídios, sem perspectivas, sem horizontes, "carne para canhão".
Mais um posto de trabalho criado ... e novo.

domingo, 17 de maio de 2009

Fim de semana

O Museu José Malhoa foi remodelado.
Está mais bonito, arejado, afectuoso, até parece maior!
As ligações ao exterior dão-lhe uma profundidade e uma luz tão cativantes, que as obras expostas adquirem (ainda) mais vida própria.
A Vida de Cristo, de Rafael Bordalo Pinheiro, está agora num local nobre, os quadros sobressaem mais, as esculturas ganham vida nas ilhas que vão aparecendo ao longo do percurso.
A Matilde (posso tratá-la assim) está de parabéns. O trabalho e dedicação de uma vida àquela casa saltam à vista.
Amanhã é (mais um) dia de festa no Museu e hoje, Domingo, toda a gente que lá trabalha (Directora incluída) se afadigava nos preparativos, depois de, ontem, terem organizado uma noite no Parque, recreando o ambiente dos "Loucos anos 20".
Atravessado o Parque, um saltinho ao Centro de Artes e a primeira visita ao novo Espaço da Concas.
Vale a pena, pelos quadros e desenhos de uma artista prematuramente desaparecida e pela dedicatória implícita na única obra exposta que não é da sua autoria.
É bom passear nesta cidade.

Palavras bonitas

FRONTEIRA


De um lado terra, doutro lado terra;
De um lado terra, doutro lado terra;
De um lado gente, doutro lado gente;
Lados e filhos desta mesma serra,
O mesmo céu os olha e os consente.

O mesmo beijo aqui, o mesmo beijo além;
Uivos iguais de cão ou de alcateia,
E a mesma lua lírica que vem
Corar meadas de uma velha teia.

Mas uma força que não tem razão,
Que não tem olhos, que não tem sentido,
Passa e reparte o coração
Do mais pequeno tojo adormecido.

Libertação
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1978)

terça-feira, 5 de maio de 2009

4' 52''

No interior de um mail parco em palavras, o endereço.
A curiosidade tinha sido aguçada por SMS, com um singelo "vai ao mail", sem quaisquer pistas sobre o enigma.
No assunto, um Ai, Jesus, que criou algum alvoroço e uma ligeira descompensação da máquina.
Pouco antes do contacto de rotina com os "frutos da Ginja", as novas tecnologias levaram-me ao cinema, no pequeno ecran do computador da secretária.
E vi, vi de novo, tornei a rever hoje; um pequeno documentário, um "thriller" de uma grande metragem que está a ser realizada e vai dar um grande filme!
E que belo é o cinema ...

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Aniversário

Comemoro o meu aniversário natalício no Dia da Liberdade, que o não era quando vim ao mundo.

A casualidade faz com que as pessoas das minhas relações se lembrem, num dia tão importante, desta coisa comezinha que é o meu dia de anos.

Uma vez mais, neste ano, foram inúmeros os contactos que recebi, pelas mais variadas vias.

De entre eles, destaco o do meu amigo Artur G., com quem não estou, pessoalmente, há mais de 40 anos. Utilizando o correio electrónico que serve de ligação regular entre o Oeste (onde eu estou) e o Algarve (para onde ele "emigrou"), enviou um vídeo que me trouxe à lembrança muitas coisas que nos foram comuns, nos anos idos da juventude: a música francesa, a procura do saber (o Artur foi bem mais persistente e hoje é distinto professor universitário), o "sei tudo", sem quaisquer dúvidas, o desejo do futuro (melhor), a compreensão de que, afinal, ainda hoje "faz um tempo muito bonito" e todos os dias se aprende.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Palavras bonitas

TROVA DO VENTO QUE PASSA (Incompleta)
 
Pergunto ao vento que passa
Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu país
E o vento cala a desgraça
E o vento nada me diz

Pergunto aos rios que levam
Tanto sonho à flor das águas
E os rios não me sossegam
Levam sonhos deixam mágoas. … 

Pergunto à gente que passa
Por que vai de olhos no chão.
Silêncio – é tudo o que tem
Quem vive na servidão. …

E a noite cresce por dentro
Dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
E o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
Dentro da própria desgraça
Há sempre alguém que semeia
Canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não.

30 Anos de Poesia
Manuel Alegre
D. Quixote (1995)

terça-feira, 21 de abril de 2009

Livros (lidos ou em vias disso)

Numa época em que tão maltratada é a nossa língua, um pequeno exemplo de como é possível, com a arte de quem sabe, pintar um retrato com o óleo das palavras:

"... Era o nosso mesmo quartel-mestre da véspera, com o seu quê de sargento e de arrais, brutamontes quando imóvel, desengonçado a andar, olhos pequenos e muito negros inseridos à verruma no rosto de largos planos, descerrando uma acuidade suspeitosa quando fitavam. Tinha uma larga e peluda manápula, dedos grossos, patorra comprida e achatada, quase barbatana, como é próprio dum lobo do mar. Primava pela barba turca, tão retinta que, depois de escanhoado, quedava a salpicar-lhe a tez uma escumilha de azeviche que nem vaporizada à pistola. Pois que fora marítimo quando moço, resultara daí conservar maneiras assimétricas e a brusquidão de quem medrara sobre o balancé dos saveiros e ao encontrão dos homens das companhas. Por outra, nada mais natural que a forma mal esfalcada do tronco e toda a sua rudeza primitiva espirrassem dos alinhavos brancos do latim e das letras que assimilara tão de afogadilho..."

Um escritor confessa-se
Aquilino Ribeiro
Bertrand (2008)

sábado, 11 de abril de 2009

Palavras bonitas

MÁQUINA DO MUNDO

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta da nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975)

P.S. - No rescaldo da visita à Turquia, a constatação, de novo, de que somos todos iguais, com as diferenças de cada um.