Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Quotidiano
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Palavras bonitas
A tarde trabalhava
sem rumor
no âmbito feliz das suas nuvens,
conjugava
cintilações e frémitos,
rimava
as ténues vibrações
do mundo,
quando vi
o poema organizado nas alturas
reflectir-se aqui,
em ritmos, desenhos, estruturas
duma sintaxe que produz
coisas aéreas como o vento e a luz.
Carlos de Oliveira
Antologia pessoal de Eugénio de Andrade
domingo, 20 de janeiro de 2013
Ventania
Quotidiano
sábado, 5 de janeiro de 2013
Expresso
domingo, 30 de dezembro de 2012
2012 / 2013
sábado, 15 de dezembro de 2012
A URBANA FOME
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem
(Manuel Bandeira - Rio - 25-2-1947)
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Açores
sábado, 1 de dezembro de 2012
Palavras bonitas
PERENIDADE
Nada no mundo se repete.
Nenhuma hora é igual à que passou.
Cada fruto que vem cria e promete
uma doçura que ninguém provou.
Mas a vida deseja
em cada recomeço o mesmo fim.
E a borboleta, mal desperta, adeja
pelas ruas floridas do jardim.
Homem novo que vens, olha a beleza!
Olha a graça que o teu instinto pede.
Tira da natureza
o luxo eterno que ela te concede.
Libertação
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Sopa de cardos
Baixava-se e, com rapidez, cortava uma folha, que escondia no regaço, por debaixo do avental. Percebia-se que não estava à vontade. Não podia ser receio do dono da terra, uma vez que o terreno era baldio, pertença de todos e de ninguém, e não tinha qualquer aproveitamento.
Não havia dúvidas: o que a constrangia era o acto em si, o medo de ser vista. No íntimo, fazia algo que não estava certo, fugia ao padrão, era passível de crítica, tinha vergonha.
Fingindo a distracção própria dos garotos, que todos percebem ser artificial, fui-me aproximando. As felosas saltitavam nas figueiras e os pintassilgos, em coro com os rouxinóis, chilreavam nos salgueiros do riacho. O fingimento obrigava-me a olhar a passarada, tentando que a curiosidade fosse satisfeita sem que parecesse ser esse o único interesse da ronda.
Apanhava cardos. Escolhia as folhas maiores, tirava-lhes a nervura central e escondia-as de imediato.
Não resisti.
- Para que quer os cardos?
- Para a sopa, mas não digas a ninguém.
Sabia que se fazia sopa de feijão, de hortaliça. de grão, de nabos, até de abóbora, mas de cardos?!
- Tirando os picos, fica quase como couve. De manhã apanhei caracóis, grandes, vou assá-los. Com a sopa, ficaremos todos bem ceados.
Já haverá por aí quem tenha voltado à sopa de cardos?