É uma quantidade de desilusão
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
domingo, 31 de janeiro de 2021
Palavras bonitas
É uma quantidade de desilusão
sábado, 30 de janeiro de 2021
Espertices
Na estação do Metro do Rossio aglomeram-se algumas dezenas de pessoas, a aguardar o comboio que levará cada uma delas à estação de destino e ao regresso a casa, depois de mais um dia de labor. São clientes habituais. Já conhecem o local onde as portas se abrirão e é aí que se juntam mais. Um deles não pára quieto. Anda de um lado para o outro, bem dentro do grupo, de olhos postos no fundo do túnel, onde irá aparecer a luzinha amarela. O aviso electrónico mostra 30 segundos e ele aí está, parado à sua frente. As portas abrem e o irrequieto empurra, afasta e nem deixa sair os que chegam. Entra e, em passo de corrida, chega ao banco vago. Senta-se e olha para o exterior, disfarçando. Não fez nada de errado. Apenas se sentou no lugar vago. Se não fosse ele, seria outro. Mas ele foi mais esperto!
Na fila do supermercado, a senhora empurra o carrinho, preocupada com o que ainda lhe faltará comprar, fazendo esforço para se lembrar porque se esqueceu da lista. Não olha para nenhum dos que estão na fila, aguardando a sua vez de se abeirarem da caixa. De repente, aproveitando uma distracção, ei-la que toma lugar na fila, tão distraída que nem reparou nos que já lá estavam. Se alguém disser alguma coisa, responderá:
- Ah! Como sou tão distraída. Nem reparei que havia fila.
Quase sempre funciona. Quem está na fila não arrisca "peixeirada". Para quê? É apenas mais uma. Quando chegar a casa transmitirá aos filhos, contando a aventura:
- Nunca esqueçam: o mundo é dos espertos!
À porta do restaurante, dois ou três grupos aguardam serenamente que o empregado lhes venha indicar a mesa entretanto vaga. Ei-lo que surge e, de imediato, um casal avança, ainda que acabado de chegar.
- Os senhores chegaram agora, ouve-se de alguém.
- Não, não. Já cá estamos há muito tempo. Fomos ao WC lavar as mãos.
O empregado lá os acompanha, que a fome é muita e os outros podem esperar.
A lista de prioridades para a vacina estabelece uma ordem que contempla, e muito bem, desde os profissionais de saúde aos utentes e trabalhadores dos lares. Mas, como sempre, o seguro morreu de velho. A vacina pode não chegar a todos e eu até sou o responsável máximo do lar, e da associação, e da segurança, e ... a minha família também é fundamental. Se eu adoeço, quem toma conta do barco?
Confirma-se. É esperteza saloia, mas funciona!
E depois admiram-se de chegar um "enviado do céu" e ter audiência.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2021
Passarada
Serão onze milhões, talvez mais, talvez menos, não vale a pena gastar tempo a contar, por falta de dedos ou máquina de calcular que determine o certo resultado, pelo ir e vir (mais o ir) constante que impede a exactidão. Haverá mais alguns milhões, cremos, que chegam, no Verão ou no Natal, e depois regressam às paragens onde a sua actividade se desenrola com menos problemas, por vezes com mais frio. São os de arribação, como as andorinhas e os tordos. Quando as asas começam a perder força, a maior parte deixa de arribar e recolhe-se no ninho.
Pintassilgos, rouxinóis, melros, rolas, cartaxos, pardais e, como diz a canção alentejana, cucos melharucos cada vez há mais. Não se vêem. Estão recolhidos e a paisagem, tristonha, fica mais pobre. Até pode não se gostar do melro e do seu silvo sibilino, não apreciar o vôo ondulante do pintassilgo ou os saltinhos constantes do cartaxo, não prestar atenção ao pisco, que tem o peito ruivo e é descarado. Pode até não se ligar às rolas que cantam, tímidas, lá em cima ou ao grasnar das gaivotas que sobrevoam a cidade e fazem lembrar o mar, não se vislumbrar um verdelhão ou uma alvéloa, não descortinar os pardais que, escondidos, sossegados, nem sequer saltitam ou piam.
Não há meio de os pássaros regressarem ao campo, trazerem o seu trinar de volta, mesmo que ruidoso ou até malcriado. Até dos passarões se nota a falta, quem diria.
Não se canta, não se grita, não se sonha e tudo irrita. Até quando?
quinta-feira, 28 de janeiro de 2021
Actualidade
"Em tempo de guerra não se limpam armas"
Estalou a polémica, como é costume.
De acordo com notícias vindas a público, há, em Portugal, um número considerável de médicos estrangeiros, nomeadamente vindos da Venezuela e do Brasil que não podem exercer as funções para as quais terão sido formados nos seus países de origem. Ainda de acordo com uma reportagem da RTP1, haverá alguns que aguardam há 2/3 anos pelo reconhecimento das suas habilitações e a necessária inscrição na Ordem dos Médicos.
Entretanto, para sobreviver, muitos deles executam tarefas, as mais variadas, mas que nada têm a ver com aquilo para que se prepararam e das quais a saúde muito precisa, de acordo com os apelos quotidianos dos responsáveis de primeira linha. Um dos organismos de cúpula terá proposto que, face à situação que vivemos, lhes fosse concedida uma licença especial, válida por um ano, para exercerem a sua colaboração, naturalmente enquadrada e supervisionada.
A Ordem apressou-se a vir a público, não para dizer que vai apressar a decisão da análise, mas antes para afirmar o seu desacordo à proposta, reiterando que só se é médico se e quando a Ordem o reconhecer.
Continuamos a ter muitos que, vivendo como se nada se passasse, continuam a ser parte do problema, e pouquíssimos à procura da solução.
"Não se pode ser padre numa freguesia destas"
quarta-feira, 27 de janeiro de 2021
Holocausto
Ao ler os jornais, deparei-me com a notícia de que hoje se comemora o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Há 76 anos as tropas aliadas libertaram os que sobreviveram à tragédia vergonhosa, levada a cabo pelos nazis em muitos sítios e sublimada em Auschwitz-Birkenau. Pese embora pensar que as Vítimas do Holocausto devem ser lembradas todos os dias, para que o horror do que aconteceu não caia no esquecimento e não deixe margem para uns quantos que o pretendem limpar da História.
Lembrei-me de um dos vários livros que já li sobre a tragédia e, talvez, o que mais me impressionou. Abri ao "calhas" e surgiu isto:
(...)A Carmen voltou. Depois de se terem certificado de que o campo estava livre, ela e a Viva agarraram-me cada uma por um braço e levaram-me para um canto formado por um lanço de parede e o monte dos arbustos que tínhamos de transportar. "Aqui está!" disse a Carmen, a mostrar-me o balde de água. Era um balde de zinco, dos usados no campo para tirar água de um poço. Um balde grande. Estava cheio. Soltei-me da Carmen e da Viva e atirei-me ao balde de água. Atirei-me, literalmente. Ajoelhei-me junto ao balde e bebi como um cavalo bebe, com o nariz dentro de água, com a cara toda dentro da água. Não sei dizer se a água estava fria - devia estar, acabada de tirar e era no começo de Março - e não sentia nem o frio nem o molhado na cara. Bebia, bebia até ficar sem fôlego e era obrigada a tirar as narinas da água de vez em quando para apanhar ar. Mas sem parar de beber. Bebia sem pensar em nada, sem pensar no risco de ter de parar, de levar pancada, se uma kapo aparecesse. Bebia. A Carmen, que estava de guarda, disse: "Agora chega." Tinha bebido metade do balde. Fiz uma pequena pausa, sem largar o balde que tinha entre os braços. "Anda, disse a Carmen, já chega." Sem responder - podia ter feito um gesto, um movimento -, sem me mexer, voltei a mergulhar a cabeça no balde. Bebi e bebi. Como um cavalo, não como um cão. Um cão lambe, com uma língua ágil. Dobra a língua como uma colher para transportar o líquido. Um cavalo bebe. A água diminuía. Inclinei o balde para beber o fundo. Quase deitada no chão, sorvi até à última gota, sem entornar uma única. Ainda queria ter lambido a borda do balde. A minha língua estava rígida de mais. Também rígida de mais para lamber os lábios. Enxuguei a cara com a mão e enxuguei a mão nos lábios. "Agora tens mesmo de vir", disse a Carmen, "o polaco está a reclamar pelo balde" e fazia sinais para alguém atrás. Não queria largar o meu balde. Não me podia mexer de tão pesada que tinha a barriga. Era como uma coisa independente, um peso ou um embrulho que me tivessem pendurado no esqueleto. Estava muito magra. Há muitos e muitos dias que não comia o pão porque não conseguia engolir nada sem saliva na boca, há dias e dias que não comia a sopa, mesmo quando estava bastante líquida, porque a sopa era salgada e parecia fogo nas aftas que tinha a sangrar na boca.(...)
Charlotte Delbo
BCF Editores
terça-feira, 26 de janeiro de 2021
Vá lá
Já tem uns anos mas o meu amigo ADS, que gosta de me manter atento, relembrou-a, partilhando-a ontem comigo, porque a sua actualidade se mantém, oportuna e brincalhona.
Com muitas verdades bem aplicadas a muitos de nós e com vozes bem conhecidas, vale a pena ouvir com atenção. Vá lá! São apenas cerca de quatro minutos de graças, e tempo é o que não nos falta, nesta época vertiginosa do sim e do não, do achar e da certeza, do risco e da ilusão.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2021
Após
Marcelo Rebelo de Sousa foi reeleito Presidente da República e a página está virada. Agora é tempo de pensar e decidir, na procura das melhores soluções para o momento que vivemos e preparar um futuro melhor para os que sobreviverem à crise pandémica, social e económica.
O futuro vai ser doloroso e é preciso coragem para dizer, e convencer, que voltar atrás não é solução. Os indicadores de ontem são apenas isso e já fazem parte do passado. Cabe agora a quem tem as responsabilidades da "nau", indicar a rota, sem peias nem medos, demonstrando que não há lugar para "papagaios" e que, com trabalho sério, claro e persistente, é possível mostrar e demonstrar que o futuro existe e está nas nossas mãos conquistá-lo.
Como dizia Natália Correia :"Senhores jurados, sou um poeta(...)"
domingo, 24 de janeiro de 2021
Votação
Fui votar e, mais uma vez, confirmei que a nossa capacidade de organização é brilhante e imensa, mesmo que o espaço seja amplo e esteja disponível.
A Escola Raúl Proença é enorme e tem três portões de entrada, qual deles o maior. Por isso, nada melhor do que abrir apenas um e concentrar toda a gente em fila única, a confraternizar, que o dia é de festa.
A fila lá vai andando e, finalmente, estou a chegar ao portão de entrada, onde uma senhora, solícita e simpática, me questiona:
- Sabe qual é a sua mesa? (Cá fora não há um cartaz indicativo)
- Mesa 8, respondo.
- Então é a fila da direita. É só seguir as setas e depois, no Bloco, lhe indicarão a sala.
Coloco-me na dita da direita, seguindo as setas mas mantendo a distância. São cerca de 50 metros de fila, medindo a "olhómetro". Quando já só faltariam talvez vinte metros para a porta do bloco, uma outra senhora, de voz esganiçada, questiona:
- Está alguém para a mesa 7?
Levanta-se um braço e a dona dele encaminha-se para a respectiva sala.
- E para a mesa 8?
Saio da fila e, em passo acelerado, entro e dirijo-me à sala identificada com o número 8, cruzando-me com várias pessoas que, do pequeno hall se encaminhavam para as outras mesas ou delas saíam. A sala estava com a disposição usual, apenas com o gel a mais.
Com alguma dificuldade, já habitual, o meu nome foi encontrado. Recebi o boletim, fui "esconder-me" para fazer a cruz, dobrei-o e coloquei-o na urna. Rápido e eficiente. Fiquei muito grato àquela senhora da voz esganiçada, que me retirou da fila e me deu a oportunidade de me despachar antes dos outros, que continuaram, na fila, a aguardar a disponibilidade das suas mesas.
Valha-nos a nossa capacidade de organizar e de aproveitar espaços, quanto mais apertadinhos melhor. E agradeça-se ao S. Pedro, que se aliou à festa e não mandou chuva!
sábado, 23 de janeiro de 2021
Reflexão
Na véspera das eleições presidenciais que ficarão na história por serem as menos concorridas de sempre e as únicas (espera-se) que violaram o confinamento com o apoio das autoridades, acontece o dia de reflexão, no qual, de acordo com a lei, é expressamente proibido fazer campanha.
Com a obrigatoriedade de estar em casa, a reflexão torna-se mais fácil e, ao mesmo tempo, mais ponderada. De tal forma isto é verdade que, no meu caso particular, levantei-me cedo, comecei logo a reflectir e, até ao momento, ainda não decidi se vou votar de manhã ou de tarde. Continuo a analisar os prós e os contras e não há meio de surgir a solução para este grande dilema. E apenas coloco duas hipóteses em equação, quando poderia dificultar ainda mais, ponderando o meio da manhã, a hora de abertura, o meio da tarde ou uns momentos antes da hora de fecho.
Os dados estão na mesa, a análise é cuidada e já fui procurar na Net uma aplicação que me ajude no cálculo de probabilidades, dispensando-me o regresso à análise matemática que já está lá bem no fundo do poço das matérias meio esquecidas. Não encontrei nada e, por isso, a reflexão continua, em contínuo. Até durante o almoço não parei de pensar. Reflectir sempre, que a campanha eleitoral decorreu de forma tão esclarecedora e tão geradora de dúvidas que o mais provável é haver muita gente, sem capacidade de análise e de síntese, que acabe por não comparecer por não ter tomado a decisão atempadamente.
O grande dilema é descobrir não o melhor dia para casar mas a melhor hora para votar, apanhando as filas idênticas às que aconteceram no passado domingo àqueles que, felicíssimos, se inscreveram para votar antecipadamente e assim participaram na grande festa. Causaram inveja a todos os outros, conservadores, que irão amanhã às urnas. Todavia, e como não há felicidade completa, não tiveram direito ao dia de reflexão, imprescindível para o acto. Ficaram apenas com os elogios do Cabrita ...
Na segunda-feira vamos ter muita gente a dizer que, se lá tivesse ido, era em quem ganhou que votava. E outros a concluir que nem sequer valia a pena ir porque já se sabia quem ganhava! Com esta clareza de pensamento, para quê o dia de reflexão?
Há uma razão, descobri agora: para que os candidatos possam dormir descansados e amanhã estarem frescos para as entrevistas.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2021
Actualidade
Apesar de todos os avisos, de os números não pararem de subir, de qualquer leigo, como eu, perceber que não há sistema que aguente, que não se fabricam médicos e enfermeiros no Diário da República, continuam a aparecer melros, cegos e surdos, voando sobre um ninho de cucos.
O egoísmo, que todos transportamos mais ou menos escondido, surge de onde menos se espera e vai acentuar-se com o decorrer dos dias, elegendo-se o "eu" como figura principal de um filme onde somos todos actores. As TV's agitam e ampliam o drama, elevando-o à potência superior, abrilhantado pelas agulhas espetadas nos braços, ainda que essa mostra seja perfeitamente dispensável e nada adiante ao acontecido. Também as ambulâncias, que aguardam vez nos hospitais mantendo os "pirilampos" a assinalar a marcha de urgência, apesar de estarem, infelizmente, paradas, são imagem repetida incessantemente.
Informa-se que a polícia foi chamada para dispersar um grupo de melros que se encontravam na rua, dando-se voz e rosto ao delator e incentivando-se o aparecimento de um "queixinhas" em cada um de nós. A polícia, que devia fazer patrulhamento activo e, por iniciativa própria, aparecer de surpresa junto dos relapsos, aguarda no sossego das esquadras que alguém lhe telefone, dando-lhe as indicações para efectuar o seu trabalho.
Ainda bem que moro numa rua sossegada, que mantém pouco trânsito mesmo com as obras em volta. Os meus vizinhos não telefonarão para as autoridades a denunciarem os meus passeios higiénicos pelo jardim, que é meu, note-se.