terça-feira, 16 de março de 2010

Livros (lidos ou em vias disso)

capítulo dezanove
somos um povo de caminhos salgados

a xanica e a pachi tinham um cão chamado afonso. que eu seja ceguinho se o que digo não é verdade. entraram por aqui duas senhoras perfumadas e chamavam-se xanica uma, e pachi a outra. e traziam um cão. procuravam a dona beatriz, a dos vestidos a arrastar pelo chão. eu pus-me de simpático a fazer companhia e perguntei, e o cão, como se chama este cachorrinho tão bonito. e elas, em estéreo, disseram que era afonso. agora diga-me se isto não está de cara virada para trás. o silva da europa perguntava-o e nós ríamos e ele insistia, então o cão é que tem nome de gente. não há nisto algum preparo, isto não tem preparo nenhum, meus amigos. estas senhoras já não se reconhecem como gente, devem estar à espera que seja o cão a fazer-lhes as festas.(...)

A máquina de fazer espanhóis
valter hugo mãe
Alfaguara (2010)

sexta-feira, 5 de março de 2010

Madeira

Decorrido Algum tempo Sobre a tragédia se abateu Que Sobre uma Ilha da Madeira e com o distanciamento Já daí resultante, Permanece a dúvida se Sobre Não térios Sido Possível evitar o desastre OU minorar, ouvindo aqueles Que estudam, pensam, discorrem e divulgam como opiniões SUAS "Contra a Corrente". A enguia-SE DEVE uma antecipação, hum Quase com ano de antecedência do Veio Que, infelizmente, uma Acontecer.
Na altura choveram Foram OS epítetos de alarmistas, Inimigos Perigosos do Progresso, Profetas da Desgraça, gente sedenta de protagonismo, etc etc
Abril de 2008 - A TEORIA
20 de Fevereiro de 2010 - A DURA REALIDADE

domingo, 28 de fevereiro de 2010

O homem e o mar (III)

Soprava forte, mas bem longe da violência de ontem. Agreste, gelava as bochechas e as orelhas. Era "vento-terra", como se diz na Nazaré. Na pequena caminhada pelo percurso da Lagoa, notou-se na ida, soube bem na vinda.

Apesar de não gostar de caminhar calçado na praia, acompanhei alguns dos "habituées" que deambulavam, tristonhos, à beira-mar. O "espectáculo" que se nos depara, deprime. As pedras, as máquinas, os sacos e ... tudo na mesma.

A "manif" estava marcada para as 16 horas e o S.Pedro resolveu nela participar, exercendo o contraditório e enviando "chuva a cântaros". Dispensava-se perfeitamente ... qual a necessidade de chover no mar?!
Havia muitos carros, que entupiram todos os acessos. O direito do S. Pedro impedia a ida a pé. Vim para casa.














P.S. - Não seria possível, ao menos, limpar a areia que "inunda" a Avenida do Mar? Enchiam-se mais uns sacos e ficava a ideia de que ainda resta alguma sensibilidade para a limpeza.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Sinais de Fogo

Miguel Sousa Tavares iniciou hoje, na SIC, um novo programa de informação.
Vi ... e gostei, dos temas, dos números, da acutilância, da entrevista, da música do genérico e do constante apelo ao verso de sua mãe, Sophia de Mello Breyner Andresen: "vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar."

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Palavras bonitas

A VAGA

Como toiro arremete
mas sacode a crina
como cavalgada
Seu próprio cavalo
como cavaleiro
força e chicoteia
Porém é mulher
deitada na areia
ou é bailarina
que sem pés passeia.

Poesia
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2005)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Talvez

Gosto disto!
Quase todos os dias comentava, no Facebook, Twitter, Hi5, (como já antes o fizera nas tertúlias, nos cafés, no trabalho) os mais variados temas, frases, filmes, músicas. opiniões, jogos, grupos, fotografias, com o "gosto disto".
Um dia, interrogou-se:
- E gosto?
- Talvez!
Talvez sempre foi a palavra mágica, a que não compromete, não fecha portas, não confronta, não magoa, não afirma nem confirma, mantém a frincha, a esperança, a possibilidade, a hipótese.
Mas não presta!
É volúvel, "dobrada", cobarde, "cagarola", atípica, e soa mal.
Será?
Talvez sim ... talvez não!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

O homem e o mar (II)

Uma semana depois, com a Aberta já um pouco mais a Sul e dois esporões de pedra a tentarem "remar contra a maré" ...

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O homem e o mar

















Na semana em que a ETA abandonou Óbidos sem fazer estragos (felizmente e longe vá o agoiro), o mar resolveu concretizar o que, desde há muito, vinha prometendo.
Paradoxalmente, foi a sua Avenida que ficou em perigo e desencadeou o abrir dos estudos que se encontravam bem guardados e à espera de não serem, nunca, necessários.
Agora vão acontecer eruditas análises, reuniões intermináveis com os responsáveis dos diversos Departamentos, para decidir a quem cabe decidir, mais quem deve aparecer na televisão se correr bem ... e quem deve dar a cara, se correr mal.
Lá mais para o Verão dos anos 30 ficar-se-á a saber!
Entretanto, aquilo que talvez pudesse ter sido solucionado com pequenas intervenções pontuais e atempadas, se feitas com tempo, estudo e cuidado, deu lugar a uma luta de afogadilho, com máquinas, pedras, areia, mirones (muitos) e "doutas" opiniões (como esta), à procura da solução que, a ver vamos, há-de surgir por "obra e graça do Divino Espírito Santo".
Com a mão, grande, do homem a mandar, com aquelas toneladas de areia em sacos e de pedras a granel, que pensará o mar?

Teremos Foz neste Verão?!










segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Misto

As novas tecnologias permitem (quase) tudo.

Vi a primeira parte do jogo (e o golo que deu a vitória) pela Net. O aluimento na CREL não me deixou ver o resto ... Agora, vejo o filho a sair do aeroporto, por entre uma multidão entusiasmada e delirante, situação que provoca sentimentos contraditórios, onde alegria se mistura com preocupação, num batido enorme, que o fermento da distância ainda torna maior. Mas, no futebol como no resto, nem sempre se ganha ... e, quando se perde, a memória das grandes vitórias esfuma-se!

domingo, 24 de janeiro de 2010

Aniversário

Dia especial!
Apesar de republicana, a Casa tem uma Rainha, que a mantém, coordena, gere e cuida, exercendo um poder por vezes autocrático, senão mesmo ditatorial. É a vidinha ... não se pode ter tudo! Hoje a Rainha faz anos. Bem menos do que os que já leva Placido Domingo, que comemorou as suas 69 primaveras há três dias. Como a imaginação vai faltando e a capacidade não abunda, o melhor é copiar o belo que outros fazem para o darmos a quem merece. E a minha Ginja merece!!!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Escultura ...




A Foz é sempre uma caixinha de surpresas ...

Para além das grandes alterações que o mar tem provocado e que tantas preocupações (?) vêm trazendo às altas cabeças pensantes e responsáveis, a chuva lembrou-se de esculpir um elemento natural certificando que estamos na terra das malandrices!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Começar de novo ...

No final de mais um "primeiro dia do resto da minha vida" apeteceu-me procurar isto ... e encontrei.
Valeu a pena pela música, pela letra, pelas vozes de Simone e Ivan Lins e ... pelo resto!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

ANO VELHO, ANO NOVO

Está a chegar ao fim, mas foi duro ...
No fundo, talvez igual a tantos outros; as gavetas da memória estão acamadas de passado e apenas surgem as "roupas de cima".
Depois do virar que acontece, com duas horas de avanço, lá longe, no berço da civilização, onde está uma parte de nós, contam-se os últimos segundos cá no cantinho...
Surge o Novo, prenhe de desejos, expectativas, efabulações, esperanças, que o futuro começa sempre amanhã e ... vai ser melhor.
Viva 2010!
Bom Ano para todos!

sábado, 26 de dezembro de 2009

Livros (lidos ou em vias disso)

Começa assim:

Toda a vida, antes da doença e durante a doença, a minha mãe contou-nos e contou-nos

- Oiçam isto

que em pequena a minha avó acompanhava a minha bisavó de visita a senhoras que moravam em andares antigos na parte antiga de Lisboa, salas e corredores numa penumbra perpétua onde as pratas e as loiças a seguiam e a minha avó com dez ou onze anos a pensar

- Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde (...)

E acaba, como verifiquei hoje ao chegar ao fim:

(...) a ouvir e não são as ondas que oiço, é o silêncio no interior das ondas e as vozes que me acompanham desde sempre e mal as vozes se calarem levanto-me e regresso a casa. Quer dizer não sei se tenho casa mas é a casa que regresso.

Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?
António Lobo Antunes
D. Quixote (2009)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Palavras bonitas

NATAL, E NÃO DEZEMBRO

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido ...

Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave ...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

Obra Poética 1948-1988
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Natal

Estamos quase lá, num ano em que muita coisa aconteceu, incluindo a avaria, costumada cá na casa, de um electrodoméstico. Calhou em sorte a máquina de lavar louça, cuja substituição deverá acontecer daqui a 2 dias, com a entrega da nova, entretanto adquirida.

Neste ano, para além de não poderem comprar electrodomésticos novos, haverá muitos que não terão bacalhau, cabrito, filhós, prendinhas e tantas outras coisas. Para esses a voz, grande, de Zeca Afonso, porque o difícil é fazer simples.

Feliz Natal para todos !!!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Dança o cão, dança o gato, dança o feijão carrapato

Cheguei há pouco.
Cumprido o ritual da ida à caixa do correio, do telefonema para saber novas do meu antigo, da libertação do casaco, da gravata e dos sapatos, a pausa, merecida e necessária, folheando a Visão.
Hoje é dia de António Lobo Antunes e mergulho na crónica, sem hesitações ou cautelas.
Tem a ver comigo?! Disparate, só possível pelo cansaço do final do dia. Pensando melhor, talvez por sermos quase da mesma idade, a escrita contenha temas que eu poderia (?!) escrever ... "mas não era a mesma coisa".
Como é possível escrever tão simples ... e tão bem:
" (...) Diziam-me isto, em criança, e eu adorava. Voltou-me hoje à ideia, passado tanto tempo. Tanto tempo, uma ova: era menino, limitei-me a piscar os olhos e fiquei como agora.
Entende-se a maldade? Eu não entendo. Piscar os olhos é um instantinho, que raio de merda aconteceu? Mascararam-me com rugas, cabelos brancos, vontade de ir mais cedo para casa. Brincadeira de mau gosto, a idade. (...)

domingo, 15 de novembro de 2009

Adágios

Quando o mar bate na rocha ... quem se lixa é o mexilhão!

Foz do Arelho - 15.11.2009

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Palavras bonitas

IMPRESSÃO DIGITAL

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns. 

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
 
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
 
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975)