sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Balanço 2014

De forma recorrente e sempre que mais um ano chega ao fim, surge um sem número de "balanços" versando os mais variados temas e formulando os habituais (e muitas vezes cínicos) votos de que o novo seja melhor para todos e traga as venturas que o que parte não repartiu.
Já em 2015, ao som do Concerto de Ano Novo que a RTP 1 transmitiu directamente de Viena, também embarquei e alinhavei meia dúzia de linhas que permanecerão "hibernadas" por aqui e que, espero eu, serão um dia lidas pelos meus vindouros, com um sorriso condescendente para com as limitações que, nessa altura, ainda serão mais evidentes.
O ano de 2014 foi fértil e seria pretensioso querer deixar aqui, mesmo em resumo, referências a tudo o que aconteceu. Ficam apenas as anotações do que vem à lembrança de quem, desde sempre, foi lagartixa na sociedade sem querer ser jacaré e procura, ainda hoje, ser crocodilo no conhecimento.
Ainda não foi em 2014 que se resolveram os grandes problemas do mundo e, ao contrário, muitos deles agravaram-se de tal modo que é difícil prever aonde nos levarão.
A anexação da Crimeia, o conflito na Ucrânia, as guerras religiosas, o novo estado islâmico, a fome e a miséria em África, o desemprego e a frustração na Europa, os desastres aéreos, a mortandade no Mediterrâneo, os "drones", a devassa da privacidade, as negociatas e a lógica dos mercados, os interesses, os meios que justificam os fins, a descida de petróleo para valores que os distintos analistas nunca previram, as taxas de juro ao "preço da chuva", e a economia ... estúpido.
Registe-se, no contraditório, o novo som da Igreja Católica pela voz do Papa Francisco.
Por cá surgiram grandes e inesperadas novidades, com altas figuras a serem condenadas, um ex-primeiro-ministro e vários quadros superiores do Estado detidos e indiciados de um crime que, até aqui, raramente fazia parte da "livraria" judicial. 
Pelo caminho, o Governo preocupa-se por nós e resolve todos os nossos problemas com a autoridade e o saber só ao alcance das mentes escolhidas para esse efeito. Procura vender tudo o que é mal gerido no público e será excelentemente comandado no privado, mesmo que os comandantes sejam os mesmos que sempre tiveram a responsabilidade de dirigir e nunca foram responsabilizados por isso.
Morreu o BES e a Portugal Telecom, a TAP vai seguir o caminho da ANA, da EDP e da REN, entre outras. 
As empresas de trabalho temporário continuam a prosperar, alugando os "escravos" do século XXI por preços cada vez mais competitivos. Os impostos sobem sem dificuldade, as despesas não diminuem nem mesmo de forma simbólica, a saúde e a ciência estão em busca da amargura, seguindo pelas ruas da mesma. 
Existe uma casta de privilegiados que se protege com a mesma manta e um número cada vez maior de pessoas sem emprego, sem esperança mas com futuro garantido ... se abalar daqui.
A Filarmónica de Viena surge, agora, com o início da valsa suprema - Danúbio Azul. Valha-nos isto!
Um esforço contínuo para, tentando estar a par de tudo o que à minha volta se passa, conseguir o isolamento necessário para pensar pela minha cabeça.
Em 2014, para além dos 52 "Expresso", das 52 "Visão" e de igual número das "Gazeta", do JL e do Courrier, li outros jornais e
revistas, incluindo alguns que disso só têm o nome. Ouvi notícias, vi (pouco) cinema, fui ao teatro, a concertos, passeei, deliciei-me com o mar da Foz (já lá fui hoje), trabalhei como sempre (13 horas, pelo menos, entre a partida para e o regresso do), não tive grandes achaques, vi crescer os meus netos e preocupei-me com os meus filhos, mantive comigo pessoas que estão sempre presentes e nunca serão esquecidas.
Conduzi mais de 5 dezenas de milhar de quilómetros, nadei alguns milhares de metros, caminhei umas dezenas largas de quilómetros, vi futebol e alguns outros desportos, reli poesia - Sophia, Torga, Maria Teresa Horta, entre outros. Fiz muitas outras coisas que não recordo e outras que não devo recordar e ainda li 44 novos livros, de acordo com a estatística que os registos informáticos me facultam. 
Tudo isto em 2014! E em 2015, como será?

sábado, 20 de dezembro de 2014

Natal

NATAL

Fiel das horas mortas
desta noite comprida,
pergunto a cada sombra recolhida
que sol figura o lume
que da lareira negra me sorri:
O do calor cristão?
O do calor pagão?
Ou a fogueira é só a combustão
da lenha que acendi?

Presépios, solstícios, divindades ...                                
A versátil natureza do homem, senhor de tudo!
Cria mitos,
Destrói mitos,
Nega os milagres que fez,
e depois, desesperado,
procura o mundo sagrado
nas cinzas da lucidez.

Miguel Torga
S. Martinho de Anta, 24/12/1972
Diário XI

BOAS FESTAS!


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Música ... doce

O meu amigo ADS faz o favor de partilhar comigo as belezas que lhe chegam por via electrónica. 

Hoje presenteou-me com esta pérola, que alia duas coisas que adoro: a música e ... os doces.
São pouco mais de três minutos. Deliciem-se!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Penamacor - Vila Madeiro


Os meus amigos lá me aturaram uma vez mais em Penamacor, aproveitando o fim de semana prolongado pelo dia santo que ainda se mantém. Muito frio, ao contrário da última vez, em que choveu a "potes". O Portugal profundo, com as tradições, a vida pacata, o sossego, a hospitalidade, a simpatia, o descanso.
A festa do Madeiro deslumbra sempre, pela quantidade de árvores que são arrancadas e transportadas para uma pilha junto à igreja, que se tornará em fogueira de Natal na noite de 23 para 24 de Dezembro. Dezassete tractores e camiões, carregados até mais não poderem, sobem a rua principal e aguardam a sua vez de descarga. Entretanto, o vinho, as filhós, a jeropiga, o queijo, os licores, a música, a alegria e a participação de gente de todas as idades, indescritível. 
E antes, os "borrachões" de S. Miguel de Acha, o queijo de Benquerença, a Sortelha, os Escalos, a Serra da Malcata, a Meimoa e o Meimão, a Idanha, Monsanto e a Espanha ali a dois passos, a feijoada e o caldo verde na Senhora do Incenso, os restos da Igreja Matriz, cujas pedras o padre vendeu há séculos, a paisagem do Castelo, as ruas íngremes, as gentes da Vila Madeiro, em festa feita, como é da tradição, pela "malta" que nasceu há vinte anos!
Na ida, o M.V., condutor distraído pela minha conversa, levava o pé pesado e encontrou um "amigo" de mota que o convidou a sair da auto estrada e a fazer uma pausa, para descanso, tudo isto por uns meros 120,00 Eur e os votos de Bom Natal. Malhas que os radares tecem!
Fica a recordação, que vai fazer companhia a uma outra, em Cerveira, com um vidro partido e um GPS a "escapar-se" do porta luvas e mais de três horas na GNR para fazer a participação.

domingo, 30 de novembro de 2014

Ranking das escolas

As avaliações valem o que valem, dentro da subjectividade que em si próprias encerram e dos parâmetros que lhes servem de base. Apesar disso, é sempre importante e gratificante ver reconhecido aquilo que nos é próximo e que sabemos ser bom.
O Expresso publicou esta semana o ranking das escolas do país e nele a Escola Secundária de Raul Proença é a PRIMEIRA escola pública do país (25ª na classificação geral). Foi a escola dos meus filhos, um deles estagiou e foi lá professor e o genro, que também lá estudou, faz hoje parte do seu corpo docente. O Colégio Rainha D. Leonor (privado) obteve um também brilhante 38º lugar e a "minha" Escola Secundária de Rafael Bordalo Pinheiro figura no lugar 148º. 
Para uma cidade pequena como a nossa, ter três estabelecimentos de ensino nos 150 primeiros, dois deles nos primeiros cinquenta e um em primeiro no respectivo sector é obra!
Esperemos que o trabalho do presente não se perca nos labirintos do futuro.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Palavras bonitas

AVE DA ESPERANÇA 

 

Passo a noite a sonhar o amanhecer.
Sou a ave da esperança.
Pássaro triste que na luz do sol
aquece as alegrias do futuro,
o tempo que há-de vir sem este muro
de silêncio e negrura
a cercá-lo de medo e de espessura
maciça e tumular;
o tempo que há-de vir - esse desejo
com asas, primavera e liberdade;
tempo que ninguém há-de
corromper
com palavras de amor, que são a morte
antes de morrer. 

Penas do Purgatório
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1976)

Torga publicou estes versos em 1954, desabafando o seu desejo de um tempo sem muros de silêncio e de negrura, com asas, luz e liberdade.

Numa altura em que tudo é posto em causa e se ouvem arautos clamando pelo regresso ao "ontem", é bom deixar claro que "uma andorinha não faz a primavera" e que a sociedade livre e justa passará, sempre, pelo castigo dos que prevaricam e pela absolvição dos inocentes, sem condenações prévias nem absolvições de casta, sejam ou tenham sido os indiciados banqueiros, primeiros-ministros, chefes da polícia, juristas, altos quadros ou simples cidadãos desconhecidos.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Quotidiano

O meu neto Gil está cada vez mais personalizado, criativo, afirmativo, meigo e a refinar um sentido de humor fascinante.
Tem um discurso fluente, sarcástico quando lhe parece adequado, simples ou mais elaborado, consoante a ocasião e a disposição.

- És o meu neto "mais grande".
- Ó avô, isso é que é português "bem dezido". Fico com a boca "abrida".

E lá foi para a ginástica, ao som de uma boa gargalhada conjunta.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Quotidiano e ... Palavras bonitas

Na última ida à piscina, numa pausa entre braçadas, diz uma:

- Vamos lá, há ir e voltar ...
- Há mar e mar, há ir e voltar, acrescenta outro.
- Sabe de quem é, pergunto eu.
- ???
- Alexandre O'Neill
- Não sabia. E olhe que até gosto, embora conheça pouco.
- Quinta-feira trago-lhe um livro, velhinho, que lá tenho e tem um nome engraçado: "Tomai lá do O'Neill!". Tenho mais dois ou três mas este é uma antologia, vai gostar, espero.

Fui à "secção" da poesia e lá estava ele, numa edição de 1986, do Círculo de Leitores.
Folheei e, antes de ele ir passear ... tomai lá, para aperitivo:

PELO ALTO ALENTEJO/2

Meto butes à inteira planura.
Esboroa-se a terra. Lá pra trás
sobraram o paleio e a literatura.
Aqui, na aparência, só a paz.

Mas que paz se desdobra a toda a anchura
do horizonte a que olhar se faz?
Esta página em branco (ou sem leitura)
não terá uma chave por detrás?

Eu sei ler a cidade, mas, aqui,
sou um dedo parado em letra morta.
Uma guerra haverá, com o alibi
da paisagem que a outras me transporta.

Hei-de voltar a ler e a presumir,
quando Alentejo se puser a rir ...

AUTO-RETRATO

O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui uma pequena frase censurada ...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
      Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
      do que neste soneto sobre si mesmo disse ...

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Palavras bonitas

LUTA

O que eu sonho!
A fé que ponho
na imaginação!
Digo à razão
que sim, que desvario
nesta humana aventura,
e ergo mais a lança em desafio
e desço mais o elmo da loucura.
Nada conquisto, porque são moinhos
os gigantes que encontro nos caminhos
das minhas digressões.
Mas combato,
combato
e desbarato
as próprias ilusões.
 
Diário XIII
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1983)

domingo, 2 de novembro de 2014

Livros (lidos ou em vias disso)

A minha filha foi esta semana falar à escola dos meus netos sobre discriminação e teve uma grande receptividade da parte das crianças que a ouviram e que com ela partilharam os sentimentos e as experiências que, sobre o tema, já tinham tido ou sentido. Por mera coincidência, hoje li mais uma história dos habitantes do prédio que Lobo Antunes descreve no seu novo livro, esta a dos que moram  no rés do chão direito.

(...) 
    que curioso o tempo, volta e meia marcha ao contrário recuperando cenas perdidas, tardes na praia, uma girafa do carrossel que se escapou da feira, a prega de apreensão do meu pai enquanto afasta o jornal
     - O que vai ser de nós?
    as lojas dos judeus despejados, os colegas da escola sem falarem connosco, meninas que puxavam o cabelo à minha irmã, um rapaz que me bateu, o director
     - Não os tragam mais são judeus
     e a pena na cara dele, não o frenesim dos restantes, um aluno mais adiantado ameaçou-o com a régua
     - É amigo dos judeus?
     e o director sem o castigar, baralhando as mãos, mais alunos em torno
     a primeira bofetada, a primeira rasteira, o primeiro soco nas costas, uma súplica aflita
     - Perdão
     o casaco rasgado, o vizinho que nos visitava às vezes
     - Não me falem
   a vidraça da varanda quebrada, as floreiras do muro no chão, os pneus do nosso automóvel furados e o mecânico baixinho
     - Não me deixam vender-lhes
     e alto a seguir para um freguês que entrava
     - Não vendo a judeus
(...)
Caminho como uma casa em chamas
António Lobo Antunes
D. Quixote (2014)

sábado, 25 de outubro de 2014

Quotidiano

O primeiro caderno do Expresso de hoje foi lido junto ao mar, na Foz do Arelho, numa manhã com um sol a lembrar Julho e as férias, uma água com temperatura de Verão e uma calmaria que permitiu meia dúzia de mergulhos saborosos e revigorantes, com a sensação que Sophia tão bem descreve:

LIBERDADE

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 19 de outubro de 2014

O presente e o futuro

Afinal, o futuro é hoje e urgente.
"Quem sente não consente"
Apesar de nos quererem mentecaptos, de nos massacrarem com o défice, a dívida, a crise e mais alguns "palavrões" de um vocabulário cada vez mais redutor, ainda há quem pense, e diga, bem alto, o que lhe vai na alma e onde devemos colocar as fichas para que a aposta do futuro possa ser ganha.
Vale a pena ouvir, e registar, a lição de Sampaio da Nóvoa ...

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Escola Rafael Bordalo Pinheiro

Hoje, nas notícias sobre o "caso BES" foi mostrada, uma vez mais, a fachada da sede do Banco em Lisboa, na Avenida da Liberdade.
Hoje passam 50 anos da abertura da "minha" Escola Rafael Bordalo Pinheiro e a associação de ideias que os "velhos" tanto gostam de ter trouxe-me à memória que, em 1965 ou 1966 (já não consigo precisar) estive naquele edifício, sede do então Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa, integrado numa visita de estudo organizada pela Escola e que nos levou também ao Instituto Nacional de Estatística e à Casa da Moeda. Um dos professores era Jorge Amaro, que nos extasiou com as "modernices" do BESCL e nos explicou como funcionavam os cartões perfurados do computador do INE, que ocupava toda a cave e onde trabalhava um antigo aluno da Escola - o Queirós. Na Casa da Moeda, apenas vimos como eram cunhados os dez tostões, os vinte cinco tostões e os cinco paus.
Mal sabia eu, naquela altura, que um dia haveria de ser bancário (que nunca mais se reforma) e que o BES dava o "estoiro" que deu.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Palavras simples

Acabei de ler Alabardas, o único romance que, se não houver "arca", Saramago iniciou e não teve tempo de terminar. Vem acompanhado de alguns apontamentos dos Cadernos e de dois textos da autoria de Fernando Gómez Aguilera e Roberto Saviano, para além de ilustrações de Gunter Grass.
Descontando a clara estratégia comercial da nova editora da obra do Prémio Nobel, é sempre saboroso mesmo sabendo a pouco, ler Saramago "novo".
Como ele dizia e Saviano relembra no texto "É o que as palavras simples têm de simpático, não sabem enganar".
Uma pequena amostra, com o respeito integral da grafia publicada:
"(...) Estou a ouvir, Li em tempos, não recordo onde nem exactamente quando, que um caso idêntico sucedeu na mesma guerra de espanha, um obus que não explodiu tinha dentro um papel escrito em português que dizia Esta bomba não rebentará, Isso deve ter sido obra do pessoal da fábrica de braço de prata, eram todos mais ou menos comunistas, Nessa altura parece que havia poucos comunistas, E algum que não o fosse, seria anarquista, Também pode ter sido gente da tua fábrica, Não temos cá disso, Braço de prata ou braço de ouro, o gesto é idêntico, com a diferença importante de que neste caso ninguém terá sido fuzilado, ao menos que se tivesse sabido, Ao contrário do que pareces pensar, não reclamo fuzilamento para os culpados de crimes como esse, mas apelo para o sentido de responsabilidade das pessoas que trabalham nas fábricas de armas, aqui ou em qualquer outro lugar, disse artur paz semedo, Sim, o mesmo tipo de responsabilidade que fez com que nunca tivesse havido uma greve nessas fábricas,(...)
José Saramago
Alabardas
Porto Editora  2014

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Quotidiano

Mudanças profissionais em perspectiva: para melhor, para pior, para tudo ficar na mesma?
Veremos!
Parafraseando o CEO do meu Banco:
- Não me peçam para ser adivinho nem perguntem o que vai acontecer no futuro. Nas condições actuais, três meses já é médio prazo.

Vai "melhorá", só pode, diz o povão brasileiro, com a visão optimista da vida, que eu corroboro.
Amanhã é outro dia, positivo pela certa.
Hoje foi o Dia Mundial da Música e o Dia Internacional do Idoso.
Coincidências ...

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Pois é, nem mais, se fosse só isso

Ler a Visão é um ritual das quintas-feiras, com o prazer acrescido na semana da crónica de António Lobo Antunes, que nela escreve (apenas) quinzenalmente. É pena, porque as suas crónicas são sempre uma delícia pelo tema, pela forma, pela beleza da escrita. 

"Pois é!"
(...) e porque me horroriza a ideia de gramar audiências semanais com o Presidente da República, que também só diz
          - Pois é
mas de maneiras compridíssimas, que é para isso que lhes pagam. Aliás pode lidar-se com as pessoas só com estas três frases e garanto, a quem as usar, um futuro de perpétua paz e permanente concórdia. Tive um tio que levou uma vida difícil por desconhecimento destes princípios simples. O que lhe saía da boca, em vez de 
          - Pois é
          - Nem mais
e
          - Se fosse só isso
era um fatal
          - O problema não é bem esse
que é a expressão ideal para uma existência atormentada.
          - O problema não é bem esse
até é capaz de ser verdade, mas os humanos, que detestam a verdade, preferem o que consideram ter razão, que é uma coisa que não existe porque ninguém tem razão e, aqui entre nós, o que custa dar-lhes essa prenda inestimável e útil? A mim não me custa nada, ter razão não me interessa um pito, quero lá saber da razão. No fundo gosto muito mais de não ter razão nenhuma, adoro enganar-me, estar errado, passar ao lado das coisas, porque, no fundo, ter ou não ter razão que importância tem?(...?

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Palavras bonitas

20-1-1933

Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quando a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?

Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.

As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, 'star em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há ou não há o mesmo resta.
(...)
Fernando Pessoa
Novas Poesias Inéditas
Edições Ática - 1973

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Palavras ... sábias

(...)
- Quando a juventude sai de ti, tu sais dela. Quero dizer, sais da vida. Até esse momento, limitas-te a viver, depois disso, ficas consciente do que é viver e viver torna-se um processo consciente. Tal como o acto de pensar também se torna consciente com o tempo, sabes. Tornas-te consciente do que pensas, e depois começas a pensar em palavras. É assim que te apercebes, não tens pensamento nenhum na cabeça, só tens palavras. Mas quando és jovem, limitas-te a ser. Depois chegas a uma fase onde fazes. Depois a uma fase onde pensas e, por fim, onde te lembras. Ou tentas fazê-lo. (...)
William Faulkner
Mosquitos

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Férias (final)

Acabaram!

Depois do fim de semana, prolongado, que já está em curso, eis-me de volta às madrugadas, às gravatas, à estrada e ... estamos quase no fim de mais um ano!

Foram muitos banhos, muitos livros, muita música, encontros de amigos, conversa em dia e ... os netos.

Um quer a mão para o levar aos carrinhos, que adora, outro já joga matraquilhos e quer experimentar o sabor da vitória sobre o avô e o do meio, observador, a constatar:

- Tens a ba'iga gande! Pa'ece bébé!

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Férias

Há alguns anos passei oito dias de férias num "resort" da República Dominicana, com praia de águas calmas e tépidas, piscina com bar aberto, comida e bebida "à grande e à francesa". Não fiquei cliente e não conto voltar a repetir. Num dos dias resolvi passear pela orla da praia e, percorridos cerca de 200 metros, fui abordado por um soldado, de metralhadora em punho, que me advertiu não poder garantir a minha segurança a partir daquele ponto. Agradeci, voltei ao ponto de partida, e não voltei a infringir as regras.
Hoje, contrariando o hábito e o gosto, voltei à Foz no final da tarde. A maré estava vazia, o mar continuava óptimo, a bandeira mantinha-se "sportinguista", o tempo convidava a mais um mergulho e a um bom passeio até às rochas.
A meio caminho da passeata, fui interpelado não por um soldado de metralhadora aperrada mas por um jovem de walkie-talkie na mão que, com toda a delicadeza, me pediu que não avançasse mais, por estarem a decorrer as gravações da telenovela "Água de Mar". Ainda argumentei que estava na "minha" praia (pública), que não me parecia justo, que não queria fazer parte do elenco nem aparecer na televisão, que iria pelo mar sem interferir nas gravações mas ... voltei para trás.
Tomei mais um grande banho em mar aberto e às rochas, talvez amanhã, se não houver gravações!