quarta-feira, 29 de maio de 2024

Celebrações

Ontem, Zelensky visitou Portugal, com brevidade mas com tempo suficiente para uma assinatura com Montenegro e um jantarinho com Marcelo. Todos exprimiram a nossa solidariedade para com o povo ucraniano, flagelado por uma guerra injusta, como são sempre as guerras, aqui, na Ucrânia, em Gaza ou na Cochinchina.

À noite, a solidariedade foi transformada em euforia pelo candidato Bugalho, que exprimiu a opinião clara e inequívoca de que essa visita era motivo de festa e de celebração. Será possível erguer taça à continuação das guerras?

segunda-feira, 27 de maio de 2024

Fácil ... ou não!

O objectivo era pintar o móvel. 

Definir as tarefas e o caminho crítico para as executar, era prioritário; reunir os materiais e as ferramentas necessárias, fundamental; estudar meticulosamente a estratégia a seguir, obviamente imperioso.

Plano teórico traçado, reunido o material, definido o local, colocado o cartão para salvaguardar o soalho, procedeu-se à desmontagem necessária para que a obra fosse realizada a contento e não houvesse espaços que não adquirissem a nova cor.

- Vai ser fácil e vai ficar bonito!

As portas foram desmontadas, as prateleiras e as gavetas retiradas, e colocadas nos cavaletes que iriam facilitar o trabalho, poupar as "cruzes" e ajudar a que tudo corresse bem.

E correu! Dado o primário, tudo parecia encaminhar-se para a beleza pretendida e as duas demãos da tinta acetinada indicada pelo homem da loja culminaram a maquilhagem. O móvel parecia novo, qual boneca saída da "recauchutagem" ou boneco objecto de um lifting.

A secagem decorreu dentro da normalidade e no tempo previsto, aproveitando o dia solarengo e a ausência de humidade. Era chegada a hora de remontar tudo e dar ao móvel condições para brilhar na sua função, com uma nova cara, linda, diga-se.

As prateleiras e as gavetas não ofereceram qualquer dificuldade para se reajustarem ao local que sempre fora o delas. Com duas das três portas aconteceu o mesmo e tudo parecia encaminhar-se para um final em beleza. Mas ...

A terceira porta, teimosa, resistiu, resistiu, resistiu ainda mais uma vez e outra, outra ainda. Nova estratégia de abordar a introdução nas peças e o aparafusamento. Nada! Sempre torta! 

- Está quase!

Não estava nem esteve. A teimosia de uns leva à desistência de outros. Foi o que aconteceu. Já foi pedida a ajuda de quem sabe da "poda" e que, na certa, coloca a teimosa porta em "menos de um fósforo"

"Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?" 

domingo, 26 de maio de 2024

Trabalho

Hoje é Domingo.

Para uns, a faina está prestes a terminar ...

enquanto que, para outros, a coluna vertebral ainda se continuará a dobrar!

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

Quanto mais sei, maior é a minha ignorância, "gritava" um professor que tive no ISCAL, há muitos, muitos anos. Quase todos os dias (para não dizer todos) confirmo esta grande verdade. E, neste livro de Martim Sousa Tavares, confirmei-o uma vez mais, como se isso fosse necessário.

"(...) Para analisar a cultura e aprender sobre ela, é preciso fazer como fazem os cientistas: colher uma amostra, isolá-la e estudá-la separadamente, avaliando depois o ambiente de onde foi retirada e integrando o mosaico do seu contexto alargado.

Aos jovens é frequentemente dito que são uma geração desprovida de cultura, quando na verdade não há nada de mais errado. Nunca existiu uma geração sem cultura e, se alguma houvesse, não seria certamente a de quem é jovem nos dias de hoje. Aquilo que há são portas por abrir e pontes por construir. Existem, de facto, muitos jovens que são alheios a aspectos da cultura que as gerações mais velhas consideram fundamentais, tal como existem cada vez mais pessoas envelhecidas que não compreendem nem se relacionam com a cultura dos jovens. A equação funciona para os dois lados e nenhum tem maior culpa. Simplesmente é como é. A vertigem de um mundo em permanente digitalização vai fazendo com que, mais do que nunca, se rompam laços entre quem fica dentro e quem fica de fora, quem vai à frente e quem fica para trás.

No fundo, o que importa é não perder o ânimo: aproximar e misturar culturas, e promover a permeabilidade da nossa superfície social. Não negar a ninguém o direito à auto-representação, mas também não esconder que seria bom que mais pessoas tivessem a capacidade de ler com sentido crítico, ouvir com uma escuta atenta e respeitar o silêncio nos momentos certos. Todos temos cultura, sim, mas melhor do que isso é sair de casa e ser participante activo na vida cultural da nossa comunidade. Todos temos cultura, sim, mas ninguém a tem em quantidades tais que se possa dar por satisfeito e fechar as portas ao mundo. (...)"

Falar piano e tocar francês
Martim Sousa Tavares
ZigurateZigurate (2024)

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Dureza

Pesa quase quarenta quilos, de acordo com as especificações técnicas que o acompanham, num panfleto em várias línguas, para servir toda a gente. A embalagem deve dar-lhe, pelo menos, mais cinco quilitos. O destino é um primeiro andar, alto, cujo acesso se faz subindo quatro lances de escada ou utilizando um dos elevadores.

A campainha toca. 

- Venho entrêgá o forno!

O trinco eléctrico cumpre a sua função e abre a porta. O vídeo mostra um homem maduro - talvez quarentão - a colocar qualquer coisa que a impeça de fechar. Sai do ângulo de visão. Regressa daí a pouco, alcachinado, com uma caixa, enorme, às costas. Não ouço o elevador e desconfio. Será que vem pelas escadas, penso. E veio mesmo. Sem qualquer ajuda. Chega exausto.

- Me ajude só a equilibrar o forno. Vou-me abaixando, divagar. Lhe agradeço.

- Podia ter vindo no elevador.

- Pois ... mas era difícil tirar o forno das costas sozinho. E pensava ser um só lance ... custou pra caramba!

Forno colocado no sítio, a assinatura e a despedida, com pressa, que há muitas entregas e a tarde só agora começou. Simpático, como são (quase) todos os brasileiros, desejou saúde e agradeceu.

Se tivesse um ordenado proporcional ao esforço, ganharia uma fortuna ... Talvez seja um daqueles que ainda não conseguiu obter o papel da AIMA. Não perguntei. Não deu tempo para conversa de "chacha". Ainda assim, estava lá bem claro "um sorriso de orelha a orelha"!

sábado, 18 de maio de 2024

Futuro?!

A Assembleia da República está a descer de nível e a subir de interesse ... graças às "brilhantes" intervenções que, todos os dias, fazem lembrar as tabernas de antigamente, quando já muito vinho tinha sido consumido.

O interventor-mor tem as câmaras sempre em cima e a companhia de quase meia centena de seres dotados de sapiência sem limites nem comparação. A maior parte deles faz lembrar o bonequinho chinês a acenar a cabecinha ou, melhor, a cabeçorra.

Já não são apenas os ciganos, os pretos e os homossexuais que precisam de ensinamentos de quem sabe. A preocupação com o "mundo" é tal que até os turcos já são destinatários das loas do predestinado.

Eça de Queiroz referenciava os "deputados de cu"; se fosse vivo, decerto não olvidaria os "deputados-bonecos".

sábado, 11 de maio de 2024

Sapateiro

A habilidade no manuseamento da sovela garantia que a sola das botas ficava bem cozida à parte de cima. Era a garantia de que, por ali, a bota jamais se desfaria, fosse a sola um bocado de pneu de tractor bem aparado ou um naco de couro melhor curtido. As mãos determinavam a excelência do trabalho, por todos reconhecida.

Depois da sovela, e as mãos, terem executado o trabalho, a forma do sapateiro, instalada em cima do banco e bem segura pelos joelhos, e a precisão do martelo de bola, concluíam a peça, apta, a partir daí, para calcorrear léguas ou trabalhar muitas jeiras.

O avental e a proeminência da barriguinha eram os distintivos do velho artesão. O copinho de três que molhava a goela a meio da manhã, garantia a boa disposição e ajudava a actualizar a conversa da coscuvilhice.

O produto final não era barato, mas a qualidade, essa, estava mais que provada e garantida.

- Podes pagar quando quiseres ou ires pagando. Tu é que sabes!

Nem sempre havia botas novas para executar. Colocar meias-solas garantia a sobrevivência do sapateiro, da família ... e dos sapatos.

Tudo no tempo em que as sapatilhas se chamavam alpargatas.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Mãe

Nasceu há 101 anos, partiu há 20 e por cá permanece sempre viva, na lembrança diária.

Foi uma mulher enorme, que conheceu bem cedo as agruras da vida, as sofreu e tentou sempre superar. Dei-lhe muitas preocupações, roubei-lhe muitas noites de sono, fui altivo e rezingão, e nunca lhe senti a mais pequena acrimónia. 

"Roubei" a Torga a carta, simples, que recebi hoje no meu imaginário.

Correio

Carta de minha Mãe.
Quando já nenhum Proust sabe mais enredos,
A sua letra vem
A tremer-lhe nos dedos.

- <<Filho>> ...
E o que a seguir se lê
É de uma tal pureza e de um tal brilho,
Que até da minha escuridão se vê.

Diário II
Miguel Torga
Coimbra (4ª edição-1977)

terça-feira, 7 de maio de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

A traição à pátria pode estar na ordem do dia de alguns mentecaptos, as origens de cada um, orientais ou rurais, e a história antiga (sempre mal contada), também.

Porém, a língua portuguesa, que une milhões de falantes por esse mundo fora, é sempre bela, riquíssima e cheia de novidades.

" (...) Na mesa da cozinha, Saturnino depositou o taleigo com as aves e gesticulou as suas explicações, descrevendo como o Rossio se achava apinhado de gente, cheio de animação, e que havia sido nas tendas dos comes e bebes que encontrara o Bezerra, na galhofa, a emborcar umas ginjinhas com os seus amigos caçadores; após pagar pelas perdizes, no regresso, vira também uma rapariga bonita e que por isso perdera a noção do tempo. Acerca da destemperada altercação com o fidalgote, nem uma palavra.

- Ah, meu magano, que andas de olho nas cachopas - comentou Fátima, com um sorriso maternal. - Vem daí, ajuda-me a depenar estas perdizes, que o trabalho tarda.

Vivia Domingos Rodrigues com desafogo numa residência de dois sobrados, provida de um pequeno horto murado e um poço de onde retirava água fresca e agradável. No quintal, com terra fácil de amanhar, cultivava-se toda a sorte de legumes de horta e ervas de cheiro a que tanto o mestre como Fátima amiúde recorriam para uso nas suas confecções. Por todo o lado renques de limoeiros e laranjeiras pejados de frutos proporcionavam sombra e uma aprazível fragância pelos ares. Contígua ao edifício principal, achava-se uma antiga estrebaria que em tempos o mestre de cozinha havia transformado para usufruto como oficina e laboratório, não somente para as suas experimentações alimentícias mas também a fim de promover as outras mais secretas, aquelas dedicadas à ciência da alquimia. Apresentava-se a oficina apetrechada com tudo o que fosse necessário para o bom ofício da cozinha, não faltando também o athanor ou forno dos alquimistas, um alambique, cadinhos, cantimploras e diversas retortas de formas variadas e feitios para cumprimento das funções da Arte Magna.

Não obstante as anteriores e infrutíferas tentativas de transmutar os metais, Domingos Rodrigues e João Curvo Semedo haviam compreendido que, através das propriedades e virtudes prodigiosas do ouro, poderiam almejar a prosseguir as suas experiências na fabricação do elixir da vida eterna. Sabiam que não seria tarefa fácil, antes árdua e espinhosa, com inúmeros contratempos, avanços e recuos, mas o caminho  encontrava-se traçado e seria construído com esforço, perseverança e paciência. Os dois amigos não aspiravam apenas à vida eterna, como também ambicionavam alcançar a cura das imperfeições do corpo, provocadas pela erosão dos tempos, aperfeiçoando-o, aprimorando-o, como algo puro, ligando-se assim de maneira inequívoca à Natureza, em comunhão com o Universo que tudo encerra.

Entendiam ambos, e de acordo com os seus herméticos estudos, que o corpo era somente e tão só um vaso de sangue, linfa, carne e ossos, um microcosmos, e que a eternidade seria o macrocosmos, a unidade perfeita de todos os átomos e partículas e a origem de todas as coisas do mundo. Através do elixir, aspiravam a conseguir o ígneo e primordial vínculo à matéria e à energia do divino, como um cordão umbilical, entre o corpo do homem e o Cosmos.(...) "

Os dias de Saturno
Paulo Moreiras

domingo, 5 de maio de 2024

Impertinência

A Lagoa, contrariando o país e dando largas à sua irreverência, virou à esquerda, ou melhor, passou a correr para sul, talvez motivada para ir espreitar o novo Museu da Resistência, em Peniche.

Sem eleições nem respeito pelos que a estudam e pretendem domar, faz o que quer e sobra-lhe tempo!


sexta-feira, 3 de maio de 2024

Aparelhinho

Os tempos vão de molde a todos sermos enciclopédias de saber e de fazer, quase sempre bem melhor do que qualquer outro que, ele sim, fica sempre aquém e a léguas de distância. O "eu" sabe sempre mais do que o "nós" e muito, mas muito mesmo, mais do que os outros.

"Presunção e água benta ... cada um toma a que quer."

Passámos a ser todos fotógrafos, sem necessidade de saber revelar, conhecer lentes, ter perspectiva e sensibilidade, sequer usar uma máquina fotográfica. O aparelhinho faz tudo ... e bem!

Descobrimos que podemos dar (e fazer) notícias bem melhor do que os ditos jornalistas, que chegam sempre atrasados e, muitas vezes, já com o assunto ultrapassado. O aparelhinho divulgou tudo na hora e obteve milhares de likes num abrir e fechar de olhos.

Tudo indica que esta coisa de escrever também se encaminha para a gaveta das memórias, nas profundezas do edifício mais antigo e em ruínas. A "Inteligência Artificial" já está disponível vinte e quatro horas. Sem trabalho e num instante, pode produzir "calhamaços" com o tamanho desejado, sobre os assuntos que tenham mais interesse para serem consumidos sem causar problemas de digestão. De igual modo, neste tema, o desempenho do aparelhinho é fantástico.

Acresce que, nesta altura da vida, todos sabemos muito de finanças, economia, sociologia, carpintaria, construção, cálculos de estabilidade, comboios e aviões, peixes e lebres, culinária e medicina, clima e futebol, tudo sapiências ao alcance de todos, apenas com o clic no aparelhinho e sem necessidade de perder tempo com "marranços".

Depois admiram-se de, nos 50 anos de Abril, as sondagens mostrarem que mais de 80% da população gostava de ter um líder forte. Alguém que mandasse na democracia, digo eu!