sexta-feira, 19 de junho de 2020

Carlos Ruiz Zafon

Chegou cá a casa nos primeiros anos do século XXI, com A sombra do vento. Vieram depois O jogo do anjo, O príncipe da neblina, O prisioneiro do céu, O palácio da meia-noite, As luzes de Setembro e O labirinto dos espíritos. Marina foi o último que li, mas não pertence ao acervo da "biblioteca".
Já não haverá mais. O grande escritor catalão morreu hoje, aos 55 anos, e, espero eu, que os seus livros não façam parte do Cemitério dos livros esquecidos.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Música popular

Partiu há três meses e, se já pouco era ouvido, desapareceu completamente dos meios de difusão pública.
Para mim continua a ser um dos grandes autores da música portuguesa, a quem ouço há cerca de 50 anos e a quem volto sempre com enorme prazer, como foi o caso de hoje, sugerido pelos automatismos dos meus arquivos digitais. Uma música tradicional, pouco conhecida, do álbum Cantos da borda d'água, de 1984.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Poesia racismo

Uma cabeça contra umas pedras bicudas

O meu patrão era taxeiro 
e eu moleque do seu bebé
chamado Constantino o tal bebé
e o patrão Machado
e ela D. Maria
ele era ateu
e muito vinhateiro
e ainda boxeur com os criados
um dos adversários sou eu
com o vencimento de vinte e cinco
com tanto trabalho que tinha
brincar com o menino branco
e ainda com o patrão em socos
socos só dele
eu sem me defender
sangue pelo nariz
sapatos nas costelas
eu caindo
assim nem vencia o tal Machado
este sou eu?
perguntava-me eu próprio
que recebo socos de um ser humano?
não devo ser, 
quando eu caía
este patrão tinha festa
lá no coração
pois era campião
dum K.O. falso
com este patrão
muito sofri
na avenida J. Serrão
em 1949
tanto levei
e tanto sangue saía
e criou-me um câncro
nas minhas unhas
veneno na língua
das dores dele
vivi doente
sem remédio, sofri
pois preto não precisa de remédio
dizia o senhor
autor do boxe.

terça-feira, 16 de junho de 2020

O jeito para línguas

Eram três jovens alunos da Escola, que todos os dias se deslocavam do Bombarral, onde residiam, para frequentarem as aulas nas Caldas. Eram cerca de dezoito quilómetros percorridos no ronceiro comboio do Oeste, apanhado bem cedo, depois de um périplo pelas ruas da vila até à estação da CP.
Naquele dia, a volta que precedia a chegada à estação foi mais longa e passou pelo Largo principal da urbe, onde se depararam com um casal de franceses, necessitado de ajuda para prosseguir o seu caminho, souberam depois, rumo à Nazaré.
Parado no meio da via, não causando, na época, qualquer estorvo ao diminuto trânsito, mas impressionando os olhos dos da terra, um carro vistoso, enorme e brilhante (seria talvez um "boca-de-sapo", mas nenhum deles conseguiu confirmar). 
Na mão do homem um mapa, onde era apontada a Nazaré e, por gestos, os dois cônjuges procuravam indagar o caminho da saída, perante a ausência de qualquer sinalética que fizesse luz. Os interlocutores eram dois ou três adultos, que não conseguiam entender patavina do que pretendiam aqueles seres vestidos de forma meio estranha e que, ainda por cima, falavam uma língua que nenhum deles entendia.
A aproximação dos três jovens foi a salvação ... c'os diabos, três jovens, ainda por cima estudantes nas Caldas (!), saberiam resolver o problema do entendimento e ajudar os franceses.
E assim aconteceu.
Os três já detinham alguns conhecimentos da língua francesa e, com facilidade, perceberam que o problema era o caminho de saída rumo à Nazaré. O L., mais afoito, conseguiu fazer-se entender e, de imediato e, para espanto dos adultos, os três entraram no belo automóvel, iniciando a viagem que, para eles, terminaria em Caldas de "La Reine", e, para os franceses, à custa das precisas indicações dos jovens, culminaria, por certo, num belo banho de mar na Nazaré ou na deslumbrante paisagem do Sítio.
Na viatura, de luxo, a conversa resumiu-se, diz quem participou, a monocórdicos "oui", "non", "à droite", "à gauche", até à Praça da República, em pleno centro das Caldas.
E aqui surgiu a grande dificuldade!
Era necessário transmitir aos franceses que chegara a hora de parar "la voiture", que a hora das aulas se aproximava e que nenhum dos três estava interessado em prosseguir até à Nazaré e qual o caminho que deveriam seguir.
Em vão, cada um buscava a frase necessária, o "abre-te Sésamo que parasse o carro", "o valor de xis desta difícil equação".
O nervosismo e a falta de conhecimentos entaramelavam a língua e a frase, quando parecia quase, quase a chegar, fugia num ápice.
Até que ... "nous ficarrons ici"!
Os franceses entenderam, pararam "la voiture", esmeraram-se em "merci, merci beaucoup" e "les élèves" encaminharam-se a passos rápidos para a escola, onde fizeram jus à sua capacidade de explanação, para espanto e gáudio dos privilegiados que a ouviram.
A aventura foi de tal maneira glosada e gozada que o pobre coitado, que tinha resolvido o problema, foi durante bastante tempo massacrado com o "ficarrons".

segunda-feira, 15 de junho de 2020

FALU

Sendo importante fazer aquilo que se gosta, mais importante ainda é gostar daquilo que se faz.



domingo, 14 de junho de 2020

Quotidiano

Hoje é dia de descanso, cansado que estou dos feriados e da ponte que aconteceram nesta semana e me deixaram de rastos. O que vale é que, para a semana, estou de férias e posso recuperar.
Ironias à parte, já passei uma grande manhã de praia, com duas idas à aberta, o céu azul, sem vento e um mar à temperatura da ... Foz.
De tarde fui ver um artista a pintar, em cima de uma enorme grua, a primeira obra do FALU - Festival Artístico de Linguagens Urbanas. Amanhã espero dar um salto para, aqui bem perto de casa, na Rua Augusto Gil, ver começar a surgir a segunda obra.
Convenhamos que, com tanta coisa feita e a fazer, não há perigo de tédio, o cansaço tira a vontade de escrever e aponta que é melhor ir ler. É melhor para todos, eu incluído. 
Como dizia o outro: "para cúmulo da chatice, tanto falou e ... nada disse".

sábado, 13 de junho de 2020

Santo António

Porque a história também se aprende tentando interpretar os factos à luz da época e não com os olhos de hoje. 
Se assim não for, corremos o risco de sermos apenas ignorantes, que pretendem conduzir o automóvel puxando pelas rédeas.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Santa Maria

No tempo da "outra senhora" as anedotas eram uma forma de o povo, à boca pequena, manifestar a sua crítica à política, aos costumes, à moral vigentes, uma vez que a televisão, ainda a dar os primeiros passos, a rádio e os jornais, eram formalistas e sujeitos a censura prévia e férrea.
Em Janeiro de 1961, o paquete Santa Maria foi tomado por um grupo de resistentes comandado pelo capitão Henrique Galvão que, durante cerca de 8 dias, conseguiu fazer tremer o regime e colocar Portugal e a sua política nas primeiras páginas dos jornais estrangeiros.
O Santa Maria dedicava-se a fazer cruzeiros com destino à América, dirigia-se a Miami, nos Estados Unidos e foi tomado em Curaçau, nas Antilhas, no dia 22 de Janeiro. Permaneceu em mãos rebeldes, navegando pelo Atlântico, até ao dia 2 de Fevereiro, data em que aportou no Recife, onde o Brasil concedeu asilo político aos intervenientes na aventura. 
De seguida, o Santa Maria voltou a Portugal e os portugueses ouviram de Salazar:
- Já temos o Santa Maria. Obrigado portugueses!
Pouco tempo depois, surgiu a anedota:

- Sabes quem é o homem que mais conviveu com santos?
- Não!?
- Henrique Galvão
- Porquê?
- Assaltou o Santa Maria, baptizou-o de Santa Liberdade por causa de um Santo António que é de Santa Comba e mora em São Bento.  

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Conversas de café

- Já foste hoje ao WhatsApp?
- Não tenho lá nada ...
 - Tens, tens, não viste a minha página? Já lá "postei" uma foto hoje.
 - Ah! isso foi no Face ... vi antes de sair de casa e até pus um "like".
- Faço sempre confusão. WhatsApp, Facebook, Instagram, para mim é tudo a mesma coisa, mas vou lá sempre.
- Eu todos os dias "posto" e faço comentários em tudo o que aparece.
- Aparecem coisas muit'a giras! 

Valha-nos isto. Como é que viveríamos sem estas publicações! Cá por mim, acho que até o Covid, se soubesse ler e tivesse telemóvel, se assustava e desaparecia.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Tempos

A idade, diz-se, faz-nos rezingões, rouba-nos a paciência, tira-nos o filtro, dá-nos certezas onde antes hesitávamos, leva-nos na senda do "nunca me engano e raramente tenho dúvidas" de triste memória.
Porém, quem vai estando atento ao que se diz e escreve por aí, chega à conclusão que a pandemia fez luz numa grande parte das mentes que grassam nos jornais, nas televisões, nas redes sociais, e formou "especialistas" em catadupa, talvez resultado de um trabalho profundo e de um estudo pormenorizado efectuados durante o confinamento.
E por aqui nos vemos a ouvir os ditos "especialistas" a perorarem sobre o vírus, a crise na TAP, o orçamento suplementar, o valor do PIB, a percentagem da dívida, o aumento do desemprego, os desafios que se colocam às empresas, a solução para eles, o futuro do teletrabalho, a melena do Trump. as baboseiras do Bolsonaro, o tempo que já fez e o que irá fazer, o buraco do ozono e as alterações climáticas, o TGV e a bitola europeia, os melros que cantam e os que grunhem, os passarinhos e os passarões, os loucos e os deprimidos, o fora de jogo e o penalty, a solução da Suécia e a decisão da Nova Zelândia, a fome e a fartura, o gasóleo e os eléctricos, o Camões e o Bocage, a ponte e os santos populares, o arraial e as sardinhas, a polícia e o ladrão.
E eu, pobre mortal, escondo-me no quadradinho da minha ignorância e fico quase deprimido. 
Estarei velho? Vou perguntar aos "achistas" e eles, provavelmente, dirão que velho é um vocábulo fora de moda, que já ninguém usa, mas idoso, é certo e sabido que sim. Acham eles!