domingo, 19 de julho de 2020

Quotidiano

E quando tudo indicava que a manhã fosse cinzenta e que a ida à Foz não passasse de um passeio à "Senhora da Asneira", eis que surge um dia de sol radioso, sem vento, um mar calmo e a temperatura da água excelente.
Que bela manhã! A Foz é sempre uma caixinha de surpresas!

sábado, 18 de julho de 2020

Livros (lidos ou em vias disso)

Mantenho com o meu amigo ADS uma regular correspondência electrónica sobre variadíssimos temas, entre os quais os livros que estamos a ler, que já lemos, que ainda não lemos ou nem sequer conhecemos. 
Verdade seja dita que esta correspondência é muito mais vezes alimentada por ele do que por mim.
Há algum tempo - talvez Maio, já não consigo precisar - fui surpreendido por um portador que trouxe da capital um saco, verde, pois claro, carregado de livros, qual "biblioteca itinerante" de boas recordações. 
Eram 11 livros que eu, nas "epístolas" trocadas, havia referenciado como não lidos. 
Coloquei-os no lado direito da secretária e vou intercalando a leitura com os que vão aguardando vez no lado esquerdo e na mesa de cabeceira.
Da "biblioteca itinerante" faltam ler quatro. Do que hoje regressou ao saco, fica um pequeno registo, provando que o que tem qualidade fica para sempre e permanece actual.

"(...) Se tal operação tivesse êxito, ninguém veria senão a habilidade com que fora urdida, esquecendo-se tudo o resto. E se alguém se aproveitasse de um pormenor esquecido por eles, seria isso imoral, desonrável? Na minha opinião, também desta vez tudo dependeria do sucesso ou do insucesso. Para a maior parte das pessoas, o sucesso nunca merece censura. Quando Hitler triunfava, apareceu muita gente que nele encontrou virtudes. De Mussolini dizia-se que fazia partir os comboios à hora. Vichy, se colaborou, foi para bem da França. Quanto a Estaline, uma só coisa interessava: era poderoso. Poder e sucesso estão acima da moralidade e da crítica. O que se faz não é nada, mas a maneira como se age e o nome que se dá aos nossos actos é que é tudo. Os homens estão munidos de um dispositivo interno que os faz parar e os castiga? Parece que não. O único castigo é o insucesso. Não há crime se o criminoso não é apanhado. (...)

O inverno do nosso descontentamento
John Steinbeck

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Quotidiano

O mar estava Salgado,  Mexia muito e até tinha um Cavaco a boiar, mas podia-se andar tranquilo. Tal como no Banco de Portugal, na Foz há sempre um Governador a garantir o bem de todos. Talvez a filosofia de Sócrates explique isto com facilidade, mas a minha parca inteligência não consegue atingir tal desiderato.
Ainda assim, a minha imaginação concluiu, enquanto o físico se debatia com as ondas, que isto anda tudo ligado e que o mundo é apenas um conjunto de peças "Lego", que todos manipulam mas cujo produto final está antecipadamente definido.
A minha curiosidade acentua-se e a esperança de ver concluída a peça final é muita, embora com a consciência de que, para isso acontecer, será necessário que a vida seja superior à esperança total da dita.
A premissa de que todos são inocentes até prova em contrário não retira a convicção de que quem acusa desta forma terá reunido provas irrefutáveis, difíceis de contrariar pelos "ronaldos" da advocacia que vão sempre a jogo, provavelmente pro bono, uma vez que dificilmente os acusados terão economias para fazerem face à remuneração justa de tantos e tão bons profissionais.
O calor, por vezes, provoca delírios e parece-me que hoje isso aconteceu.
Cá estaremos para ver ...


quinta-feira, 16 de julho de 2020

Ontem, hoje e amanhã

Hoje acordei eram sete e picos e dei por mim a recordar coisas antigas - porque será? - que caíram em desuso e às quais a malta nova, para além de não passar cartão, muitas vezes nem sequer conhece. E ainda bem! 
Já ninguém dança o twist e muito menos vai ao baile da Dona Ester. Para ser mais preciso, julgo até que  ninguém é chamado de Dona e muito menos Ester. Agora é você por tudo e por nada, palavrão que eu aprendi dever ser só dito depois de existir muita confiança com a pessoa em questão e apenas para aquelas a quem o tu não era aplicável. Você é estrebaria, diga lá senhor ou senhora ou, melhor ainda, senhora dona.
A criada morreu e surgiu em seu lugar a empregada doméstica, tal como já não há contínuos mas antes assistentes operacionais. 
Como se isto não bastasse, a manhã de praia, espectacular, levou a conversa também para coisas antigas - porque será? - e, da contabilização manual às chapas dadas nos bancos, das máquinas de somar às somas de cabeça, do cálculo de juros ao dia ao tempo perdido para levantar um cheque, houve de tudo. 
A água estava boa, a manhã passou depressa e havia muita gente a dar a coxa não à Caparica mas ao mar da Foz, zangado como sempre.
Sentado agora à secretária, dou por mim a aceder à grande enciclopédia virtual, que tem tudo e mais um par de botas, e não é que encontrei o Conjunto António Mafra a tocar e a cantar tal como há sessenta anos ou mais e, pasme-se, igualzinho ao que me tinha surgido logo pela manhã.
Estes velhos estão cada vez mais chatos e a recordar coisas que não lembram ao diabo.
E repetem, repetem, como se não houvesse amanhã e o mundo tivesse parado quando eles ainda mexiam!
Valha-lhes um burro aos coices e três aos pontapés, e acenda-se-lhes um castiçal, para que vejam bem o hoje, sem as lunetas do ontem.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Alcunhas

Eram poucos os conhecidos pelo seu nome próprio. Menos ainda os que se conheciam os apelidos e raríssimos aqueles que a sociedade reconhecia pelo nome completo.
O "direito" a ser conhecido e tratado pelo nome registado era privilégio de uns poucos, normalmente provenientes de famílias abastadas, bem conhecidas e consideradas.
As crianças eram identificadas como filhos deste ou daquela, sendo os progenitores referenciados pela alcunha de todos conhecida. 
A alcunha resultava, normalmente, da profissão desempenhada, dos antepassados, de assinalar qualquer defeito físico ou ter "nascido" por acto público menos considerado ou mais ousado.
Quando ainda rareavam os nomes das ruas e os, hoje imprescindíveis, números de porta, não era raro o carteiro andar de carta na mão, indagando por um fulano que ninguém sabia dizer quem era. Depois de muito questionar e de muitas negativas, aparecia alguém, normalmente familiar ou muito próximo do procurado, e dizia:
- É o ...!
A alcunha identificava-o e, afinal, toda a gente o conhecia, até o carteiro.
A ironia e a capacidade de, numa simples palavra, fazer uma identificação completa ainda hoje nos fazem sorrir quando são recordadas.
Aqui ficam alguns exemplos de muitos conhecidos, para memória futura: Bola, Bufa-Pum, Caracoleiro, Casaleiro, Cavete, Cebola, Chato Miúdo, Chumbinho, Espanhol, Estica, Fandoca, Foge-ó-vento, Guarda-a-burra, Índio, Lagancha, Laparra, Larau, Lavarinto, Loca, Marmelo, Mau, Minhas, Minhoca, Moleiro, Nopla, Pajeca, Palhaço, Pexeca, Pepino, Pernicas, Pica-milho, Piranga, Pivete, Preto, Roto, Sola, Tarata, Tijela, Tonico, Trigueiro, Valente, Viajante, Zézico, etc. etc..

terça-feira, 14 de julho de 2020

Novas tecnologias

O telemóvel toca, para uma chamada de vídeo, que não se concretiza.
Surgem, de imediato, várias mensagens de voz, que ouço com alguma dificuldade, por a gravação ter sido, julgo, efectuada em voz baixa e não por eu já estar um pouco surdo.

- Adoro-te, avô, adoro-te, avó, são os melhores avós de mim e do mano.
- Desligo já, não atendas o telemóvel.
- Não mandes mensagens, ok, não mandes mensagens.

Chega uma fotografia, risonha, acompanhada de uma legenda nominal e de vários corações. 
Mal tenho tempo de responder com corações e caretas de alegria.

- Sabes porque é que mandei um coração rosa? É para a avó. Tu tens o verde e o azul. És um avô lindo e também tenho uma avó linda.
- Olha, não mandes mais mensagens. Já tenho pouca bateria. 

O meu neto Miguel tem 4 anos, não pára de nos surpreender e a cada dia que passa se revela cada vez melhor! 
 
 
 

Evidências

Nem sempre a ostra tem pérola ... mas vale a pena teimar!

segunda-feira, 13 de julho de 2020

O lenço

As rotinas faziam parte do seu dia a dia, tal como o Sol acordava todas as manhãs. 
Fato cinzento, camisa branca, gravata azul, um dia escuro, no outro claro, sapatos pretos, de atacador, sempre bem engraxados. Depois da bica, tomada na leitaria da esquina, então sim, ficava bem acordado.

- Bom dia, menina Alice. Já chegaram os jornais de hoje?

Invariavelmente deitava os olhos para a primeira página d'O Século e comprava o Diário de Notícias, deixando quinze tostões no balcão.

- Até logo, menina Alice. Ainda não lhe disse mas traz hoje uma blusa muito bonita. Quem me dera ser blusa...

O "28" chegava ao Largo, vindo dos Prazeres. Enquanto o guarda-freio mudava a manivela, inox e bem grande, para a, até ali, traseira, o pica alterava as cancelas de entrada e saída, e informava os passageiros que aguardavam, que partiriam daí a cinco minutos.
Acomodava-se num banco duplo para ter espaço e abria o jornal, enorme. Começava assim o dia deste funcionário da Fazenda, que entrava na repartição da Baixa às nove horas. Eram sempre oito e vinte cinco nesta altura.
À hora, como sempre, o eléctrico partiu, descendo a íngreme rampa que os levaria até S. Vicente, à Sé e, finalmente, à Rua da Conceição. A partir daí já ele pouco conhecia. Só tinha ido até aos Prazeres uma vez e verificou, uma vez mais, que prazeres não era muito o seu género. 
A meio da rampa, junto à Voz do Operário,  a primeira paragem.
Calças e casaco de cotim cinzento, alpargatas azuis desbotadas, camisa de popeline aos quadrados, não mais de onze anos. Só podia ser marçano numa das retrosarias da Rua da Conceição.
Ladino, viu o jornal aberto e não deixou fugir a oportunidade.
Sentou-se.
O funcionário, zeloso e rotineiro, encostou-se mais à janela, sem sequer o olhar.
O puto espreitou as notícias e fungou ruidosamente.
Mais um pequeno encosto e nova espreitadela, acompanhada de nova fungadela.
Visivelmente incomodado, o zeloso funcionário encostou-se ainda mais e murmurou, para dentro, um impropério dirigido a "esta mocidade".
Já tinham descido S. Vicente e a Sé estava à vista. 
A página do desporto era apelativa. Benfica-Sporting no dia anterior com vitória, claro, das águias, o puto queria ler tudo antes da paragem onde sairia e ela já estava mesmo ali.
Encostou-se ainda mais, debruçou-se para ler em baixo, quase cavalgou o homem, fungou, espreitou, fungou de novo.
Não resistiu.
- Ó menino, não tem um lenço?
- Tenho ... mas não empresto! 

domingo, 12 de julho de 2020

Carro entediado

E se ...
O carro utilizado para as viagens mais longas permanece na garagem há mais de três meses.
Utiliza-se o "micro-ondas" (como lhe chama o meu neto mais novo) para as idas à praia e para as pequenas voltas na cidade, e o coitado do maior já deve estar a "chocar" alguma depressão por força do confinamento.
A garagem tem espaço, até tem luz solar, mas isso não deve ser suficiente para que o tédio de não sair à rua, não acelerar, não ver companheiros, não pisar alcatrão, não apanhar sol na "moleirinha" nem vento nas janelas, não lhe tome conta dos pensamentos e das amarguras vivenciais. Pobre coitado!
Por vezes deve ouvir as conversas e criar expectativas, até porque tem o depósito cheio e ele sente-o.
Será desta, pensa. E logo ouve as duas palavras mágicas:
          - E se ...
Não, não é ainda!

sábado, 11 de julho de 2020

A idade dos porquês

Dum disco todo ele uma maravilha, o relembrar de tempos idos, com música e palavras lindas.