segunda-feira, 27 de julho de 2020

Quotidiano

Chegou o Outono ao Oeste.
Não deve ter vindo de comboio. A linha que o serve permanece há cinquenta anos a aguardar actualização e não permitiria tal rapidez e antecipação ao calendário.
De avião também não era possível. O Covid cancelou quase todos os voos e não há aeroporto onde aterrar.
Mas chegou! Talvez de burro ou de caleche, a cavalo ou mesmo a pé, quem sabe.
Enquanto o resto do país está em alerta máximo para tentar diminuir o flagelo dos fogos florestais, por aqui o dia está cinzento, com uma humidade acentuada, uma morrinha para refrescar a cabeça e a nortada do costume, embora nos limites de velocidade estabelecidos para os aglomerados urbanos. Não excede os 30 Km/hora.
A praia ficou adiada para amanhã.
Qual é a pressa? Hoje ainda é só segunda-feira.

domingo, 26 de julho de 2020

Dia dos avós

Premissa: uma imagem vale mais que mil palavras.

Conclusão: Para duas imagens como estas é matematicamente impossível quantificar o número de palavras que elas valem.




















sábado, 25 de julho de 2020

Futuro

"Somos um país de muitos eus e poucos nós. E temos eus muito insuflados."
António Costa Silva
Entrevista ao Expresso

E não se pode exterminá-los?
Foram sempre meia dúzia de "eus" que determinaram o rumo, organizaram o barco e, no fim, se locupletaram com a mais-valia resultante. E os exemplos são muitos e bem conhecidos.
A opinião pública é condicionada por uns poucos, velhos na idade e na opinião. São sempre os mesmos que aparecem nas televisões e nos jornais, com as mesmas ideias sobre tudo e sobre nada, comentadores do óbvio, críticos de tudo o que aparece e não tenha sido por eles parido, da erva daninha à vivência no céu, enxameando a comunicação social, saltando de um  jornal para outro, de uma televisão para a seguinte e desta para a outra e ainda mais outra. São advogados célebres, economistas fecundos, gestores infalíveis, capazes de prever tudo e o seu contrário, do crescimento do PIB à taxa de desemprego, das exportações à capacidade industrial, do tempo ao vento que soprará, da cor das calças à sola dos sapatos, da vírgula do decreto ao decreto da vírgula.
E mantêm-se no ar, falando de cátedra, sem contraditório e "apenas" como opinadores.
Raro é ouvir-se a opinião de quem é novo, tem o futuro à frente e a genica para o enfrentar. Apesar de haver tanta sapiência sobre futebol, continua a haver muita gente que quer, a todo o custo, manter-se na equipa principal, mesmo que as pernas já impeçam ou, pelo menos, dificultem a corrida.
O futuro passa pelos novos talentos, pelos que não têm o "eu" insuflado, que têm a humildade de estudar antes de afirmar, dos que se colocam em dúvida sistemática, dos que têm capacidade para entender que estão longe de saber tudo e que só o reconhecimento da ignorância permite dar passos em frente.
O plano de António Costa Silva até pode saber a pouco, ser redutor, mas, como o ovo de Colombo, foi escrito e divulgado, mexendo com os egos instalados e com os que estão a preparar as espingardas para a abertura da caça ao "cacau".

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Rotina

A rotina não se altera!
Claro. Se é rotina não tem alteração. Por isso é que é rotina. Se assim não fosse, seria qualquer outra coisa, mas rotina não era pela certa.
E não se alterando, a rotina é inalterável e, em consequência, não se altera.
Com alguma imaginação, talvez se conseguisse alterá-la mas, mal isso acontecesse, a rotina deixava de o ser e passava a ser outra coisa.
Quem diria: tão simples e tão complicado, tão rotineiro.
Hoje fiz a barba. Não escapei à rotina.
Mas ouvi esta bela interpretação e, imaginem, fugi com ela à rotina.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Salpas

De acordo com a informação da Capitania de Peniche, da Net e do meu amigo ADS, foram as salpas que deram à costa ontem na Foz do Arelho. A minha filha confirmou.
Não vi nenhuma!


Apenas a água parecia estar turva e à superfície tinha uns "quadrados" boiando, meio estranhos e não habituais.
Hoje, a transparência tinha regressado e a única coisa que recordava o ontem eram estas "gelatinas", em pouca quantidade, que ficavam na areia quando a onda se ia embora.


Amanhã a Foz já deverá ser a mesma de sempre ... nevoeiro, vento, mar revolto, com temperatura a condizer com a tradição.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

O novo "normal"

A manhã estava "fozeira", com o nevoeiro quase a impedir de se ver o mar. 
Maré baixa, sem vento, permitiu acabar o livro do momento e, de seguida, uma caminhada até às rochas, onde se esperava que o sol já desse um ar da sua graça e trouxesse a vontade de um bom mergulho.
Falso! A água tinha uns "quadrados" gelatinosos, que eliminavam a habitual transparência e lhe davam um aspecto sujo. Não ao banho!
Mal tinha iniciado o regresso, surge o nadador-salvador.
- Não vá à água. Não sabemos o que é isso e deram-nos ordem para, à cautela, interditarmos a praia.
Acabou-se, por hoje. "Trouxa" arrumada e regresso a casa mais cedo do que o previsto. 
Mas havia mais para acontecer.
No último degrau do primeiro lanço da escada, um homem cai. Dou um salto para tentar ajudá-lo.
- Não mexa nem se chegue, murmura uma voz avisada.
Mantida a distância, colaboro no diálogo com o homem.
- Sente-se bem? Está sozinho?
- A família está na praia, lá em baixo. E indica a Lagoa, lá ao longe. 
- E tem telemóvel?
- É melhor chamar o 112, diz alguém. 
Conseguiu sentar-se, sem ajuda mas com muita dificuldade. O braço esfolado, o joelho em sangue, uma aflição patente.
- Já tive cinco enfartes ... mas estou bem!
Consegue tirar o telemóvel do bolso e liga.
- Foi para a caixa postal.
Alguém chamou o nadador-salvador. Viu a tensão arterial, desinfectou as feridas, com todos os cuidados, das luvas à máscara, e com a distância possível. 
A Polícia Marítima foi para a praia da Lagoa, à procura dos familiares do homem que apenas queria conhecer mais um pouco da praia onde tinha vindo em passeio, ele que era do Porto.
Vim para casa, a pensar que já nem se pode auxiliar quem dá uma quedazita ...  
 

terça-feira, 21 de julho de 2020

Juan Marsé

Descobri-o em 2012, após uma visita à Feira do Livro de Lisboa (este ano foi-se) e deixei aqui as razões da descoberta e as impressões do primeiro livro lido.
Depois de Rabos de Lagartixa, comprei e li todos os que já se encontravam ou foram sendo editados em Portugal.
Já não lerei mais, a não ser que apareça alguma obra póstuma.
Juan Marsé faleceu no sábado, dia 18 de Julho, na cidade de Barcelona, onde havia nascido em 8 de Janeiro de 1933.
Foi, é e continuará a ser um grande escritor e um dos espanhóis meus preferidos.


segunda-feira, 20 de julho de 2020

Netos

Encerra hoje o ciclo anual dos aniversários dos netos.
O Vasco, segundo na hierarquia da antiguidade, faz nove anos e já usa a ironia com subtileza e graça, causando sempre surpresa e espanto. Talvez o ser esquerdino contribua e ajude a sua capacidade de teatralizar as situações e surgir sempre diferente.
É um doce de meiguice, singeleza e modéstia.

          - Amanhã fazes nove anos. Estás quase um homem!
          - Pois. Quando fizer outros nove, já posso tirar a carta!

Apesar das restrições "covidianas", das dificuldades que não há meio de serem removidas, os meus netos dão-me anos de vida.
Por hoje, parabéns ao Vasco!

domingo, 19 de julho de 2020

Quotidiano

E quando tudo indicava que a manhã fosse cinzenta e que a ida à Foz não passasse de um passeio à "Senhora da Asneira", eis que surge um dia de sol radioso, sem vento, um mar calmo e a temperatura da água excelente.
Que bela manhã! A Foz é sempre uma caixinha de surpresas!

sábado, 18 de julho de 2020

Livros (lidos ou em vias disso)

Mantenho com o meu amigo ADS uma regular correspondência electrónica sobre variadíssimos temas, entre os quais os livros que estamos a ler, que já lemos, que ainda não lemos ou nem sequer conhecemos. 
Verdade seja dita que esta correspondência é muito mais vezes alimentada por ele do que por mim.
Há algum tempo - talvez Maio, já não consigo precisar - fui surpreendido por um portador que trouxe da capital um saco, verde, pois claro, carregado de livros, qual "biblioteca itinerante" de boas recordações. 
Eram 11 livros que eu, nas "epístolas" trocadas, havia referenciado como não lidos. 
Coloquei-os no lado direito da secretária e vou intercalando a leitura com os que vão aguardando vez no lado esquerdo e na mesa de cabeceira.
Da "biblioteca itinerante" faltam ler quatro. Do que hoje regressou ao saco, fica um pequeno registo, provando que o que tem qualidade fica para sempre e permanece actual.

"(...) Se tal operação tivesse êxito, ninguém veria senão a habilidade com que fora urdida, esquecendo-se tudo o resto. E se alguém se aproveitasse de um pormenor esquecido por eles, seria isso imoral, desonrável? Na minha opinião, também desta vez tudo dependeria do sucesso ou do insucesso. Para a maior parte das pessoas, o sucesso nunca merece censura. Quando Hitler triunfava, apareceu muita gente que nele encontrou virtudes. De Mussolini dizia-se que fazia partir os comboios à hora. Vichy, se colaborou, foi para bem da França. Quanto a Estaline, uma só coisa interessava: era poderoso. Poder e sucesso estão acima da moralidade e da crítica. O que se faz não é nada, mas a maneira como se age e o nome que se dá aos nossos actos é que é tudo. Os homens estão munidos de um dispositivo interno que os faz parar e os castiga? Parece que não. O único castigo é o insucesso. Não há crime se o criminoso não é apanhado. (...)

O inverno do nosso descontentamento
John Steinbeck