Hoje partiu uma mulher que teve uma vida cheia e a quem uns meros 8 dias negaram um século.
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
sábado, 17 de outubro de 2020
sexta-feira, 16 de outubro de 2020
Livros lidos (ou em vias disso)
(dava-me um piparote, melhorava num soslaio agudo para nós e recomeçava a tremer, que vida difícil têm as coisas sem uma alma caridosa que as ajude)
enquanto um cão ladrava num beco às escuras e calava-se sei lá onde num suspiro comprido em que agonizavam fogareiros, no fim da sopa a senhoria lavava os pratos com uma esponja sumária e fechava-se na salita porque de quando em quando lhe escutava a tosse, puxando pedaços de si mesma até à garganta de modo que os chinelos solitários lá em baixo e ela na alegria aflita de me saber por ali enquanto as acácias das redondezas se calavam uma a uma, mais longe do que os comboios no escuro, dava-me ideia que nas Pedralvas nós apenas, presos um ao outro por um fio de silêncio que apesar de tudo sempre diminuía a solidão, quase apostava que de tempos a tempos vinha espreitar-me a dormir, cobrindo-me um tornozelo com o fim do lençol a reprimir uma festa desajeitada com demasiados dedos que me tropeçavam na pele, deixando-me, depois de se ir embora, mais abandonado ainda, a lembrar-me da minha mãe nas Caldas da Rainha, debruçada para mim a apontar o queixo ao meu pai (...)
quinta-feira, 15 de outubro de 2020
Calamidade
Face à evolução, preocupante, do número de infectados e de óbitos resultantes desse vírus que nos bateu à porta e entrou sem ser convidado, o Governo decidiu que o país passasse ao estado de calamidade, a partir das zero horas de hoje, com todas as restrições que isso implica e que já por cá passaram há uns meses.
Decidiu, também, propôr à Assembleia da República, a discussão de um diploma que torne obrigatório o uso de máscara em locais públicos e a instalação e utilização da aplicação Stayaway Covid.
Estalou a polémica e com toda a razão. Porque "carga de água" se tem de recorrer à obrigação legal, com coimas e polícias a aplicar as ditas, se toda a população portuguesa é dotada de um civismo respeitador das liberdades, dos outros e das regras. Todos aprenderam em pequeninos como se deviam comportar e isso fica para toda a vida ...
Surgiu logo uma infinidade de gente preocupada com a violação da liberdade que o uso obrigatório de máscara pode causar, esquecendo-se que, em primeiro lugar estão as pessoas e a sua saúde, e que a minha liberdade termina quando colide (ou pode colidir) com a dos outros.
Tendo sempre presente o alto grau de civismo que constatamos todos os dias por este país fora, talvez seja de acrescentar à Lei a proibição de cuspir para o chão, de passear o cãozinho e deixar os excrementos para alguém limpar, ou de deitar lixo pela rua fora, incluindo as máscaras.
Lembrei-me destes exemplos mas, se procurar bem, encontrarei outros que poderiam dar excelentes spots televisivos bem mais interessantes do que o lixo de linguagem que, muitas vezes, por lá se ouve com grande destaque.
quarta-feira, 14 de outubro de 2020
FALU
A arte de rua chegou às Caldas e Bordalo II encerrou o festival de arte urbana denominado FALU. O conjunto de obras feitas no âmbito do festival passou a fazer parte do património cultural da cidade e a contribuir, de forma positiva, para a sua imagem.
Poder-se-á dizer que Bordalo voltou à cidade onde ainda tem uma grande e prestigiada fábrica de cerâmica - a Bordalo Pinheiro - , mas desta vez para utilizar materiais reciclados e muita imaginação.
A obra de Bordalo II é, de dia, espectacular. À noite, não me parece tão interessante, com cedências à luz artificial que talvez se dispensassem.
Ao final da manhã de hoje tentei perguntar a opinião ao lobo do "velho" Bordallo, que "vigia" a Praça 5 de Outubro. Irónico, foi lesto na resposta:
- Opinião é coisa que não tenho. O homónimo do meu criador colocou a obra tão longe e tão escondida que, daqui, nem a consigo ver quanto mais apreciar. Se me deixassem dar uma voltinha por aí, mas não, confinaram-me e não me autorizam sequer que desça daqui.
terça-feira, 13 de outubro de 2020
Coronavírus
Escrever para quê? E porquê? E sobre?
segunda-feira, 12 de outubro de 2020
Mais de mil
Sempre tive uma relação ambivalente com o número mil, talvez por três zeros, mesmo à direita, trazerem à lembrança os "zeros à esquerda" que por aí pululam.
Recordo, na minha infância, um caderno de problemas de matemática chamado 1111. Continha, como o próprio nome indica, 1111 problemas para resolver, os quais, na opinião de quem mo emprestou, eram essenciais para enfrentar o exame de admissão. Lembro-me, também, da Lenda de El-Rei D. Sebastião, criada pelo Quarteto 1111, cantada por todos os jovens daquela época e algumas vezes com letra adaptada a circunstâncias outras, que não vêm agora à colação. A memória também me diz que, no início da vida laboral, ganhar mais de mil escudos mensais não era para todos, quando a grande maioria ainda ganhava à semana e muitos só nos dias em que o tempo deixava trabalhar. Mais tarde, quando chegou o Euro, ter um ordenado superior a mil dos ditos também não estava ao alcance de qualquer um.
Os carros iam à primeira revisão quando atingiam os mil quilómetros, sabendo-se que só a partir dessa ida ao mecânico se podia acelerar, sem limites que não os policiais. Percorrer mais de mil quilómetros era quase como ir ao infinito, quando para ir ao Porto era preciso um dia bem comprido e a distância eram só duzentos e cinquenta. E o mil-folhas era um bolo de que eu gostava muito, mas que o estômago hoje detesta.
Agora há mil razões para estar preocupado por, há cinco dias seguidos, (e mais virão), o número de infectados com este malfadado vírus, que nos veio visitar sem convite, ultrapassar (e muito) os mil ... e pôr o velho no covil.
domingo, 11 de outubro de 2020
Quotidiano
- Sinto-me bem. Não lhes faço a vontade. E depois, o que vou fazer?
(R)Encontrei-o hoje, com algumas dificuldades de locomoção, um olhar meio triste apesar de a paisagem estar belíssima. De máscara colocada, tivemos um breve diálogo, que a caminhada era para ser feita.
- Então como vai? Dá-se bem com a nova situação?
- Eu ainda trabalho, replicou de pronto. Não lá, é óbvio. Dedico-me à consultoria, de segunda a quinta. Só regresso ao casal à sexta-feira.
Mudei de assunto. O tempo está óptimo, a lagoa uma maravilha, não há vento, nem parece Outono, está com um excelente aspecto, e mais uma série de lugares comuns, trocados para "encher chouriços".
- Bom, vou andando. Os meus companheiros de caminhada já vão longe e não esperam pelo "velho". Prazer em vê-lo e até um domingo destes. Ao domingo de manhã, ando sempre por aqui.
E lá fui fazer a caminhada, que também posso fazer de segunda a sábado, "consultando" os astros para ver se chove ...
sábado, 10 de outubro de 2020
sexta-feira, 9 de outubro de 2020
Aprender sempre
Quase todos os dias me lembro de uma frase que ouvi, várias vezes, a um professor de há muitos anos, chamado Dragomir Knapic, natural da ex-Jugoslávia e refugiado em Portugal desde a 2ª. Guerra Mundial. Já deve ter partido há muito, porque, há mais de 40 anos, já não era jovem. Já por aqui falei nele e cada dia que passa vou confirmando quão verdadeira é a frase "quanto mais sei, maior é a minha ignorância".
O meu amigo ADS presenteia-me, muitas vezes, utilizando esse novo modelo de carta sem envelope que se chama mail, com curiosidades, fotos, filmes, músicas. novidades, etc.. Hoje enviou-me um vídeo de uma canção napolitana, que ouvi pela primeira vez num "cartucho" na voz de Mário Lanza e que Luciano Pavarotti levou aos quatro cantos do mundo. Até aqui, nada de novo. Ó Sole Mio deve ser das músicas mais conhecidas em todo o mundo. Todavia, esta trazia um instrumento para mim novo e que, afinal, já é centenário.
Chama-se THEREMIN e é tocado sem ser tocado!
Fui à "central do esclarecimento" chamada Google e encontrei muitos tópicos para esclarecer a minha ignorância e uma "aula" oferecida pela Antena 3, que pode ser vista e ouvida aqui. Procurei, também, saber alguma coisa sobre a intérprete do Theremin que o vídeo mostrava e a "central" do costume esclareceu-me que KATICA ILLÉNYI é uma violinista, cantora, bailarina e tocadora de Theremin, nascida na Hungria em 1968.
Deixo o acesso ao Ó Sole Mio, que pode ser ouvido utilizando este link e, para demonstrar que há Theremin em muitos sítios (agora já sei!), a área da ópera cómica Gianni Schicci, de Puccini, O Mio Babbino Caro.
quinta-feira, 8 de outubro de 2020
Memória
As memórias da infância e juventude são hoje bem mais claras do que aquilo que fiz de manhã. De acordo com o que dizem os estudiosos, é normal que o "computador" pessoal despreze o que aconteceu há pouco e privilegie aquilo que tem anos esquecidos, já não tem jeito nenhum, poucos se lembram e, para a grande maioria, é uma estucha perfeitamente dispensável. Também diz quem sabe que é comum fazer ligações entre o que acontece no momento e coisas passadas e arrumadas.
O Prémio Nobel da Literatura de 2020 foi hoje atribuído a uma poeta americana - LOUISE GLUCK - que não conhecia e continuo a não conhecer, por nunca ter lido nada por ela escrito. Talvez por ter sido escolhida a poesia, veio-me à memória, não a frase batida do Sérgio Godinho, mas a Balada da Neve, de Augusto Gil, que decorei há muitos, muitos anos e ainda permanece, vejam só, na primeira "gaveta do arquivo" memorial. E, diga-se de passagem, nesse tempo eu mal sabia o que era nevar e nunca tinha visto sequer uns farrapitos ...
BALADA DA NEVE
Batem leve, levemente,Como quem chama por mim.Será chuva? Será gente?Gente não é, certamentee a chuva não bate assim.
É talvez a ventania:mas há pouco, há poucochinho,nem uma agulha buliana quieta melancoliados pinheiros do caminho ...
Quem bate, assim, levemente,com tão estranha leveza,que mal se ouve, mal se sente?Não é chuva, nem é gente,nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caíado azul cinzento do céu,branca e leve, branca e fria ...- Há quanto tempo a não via!E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.Pôs tudo da cor do linho.Passa gente e, quando passa,os passos imprime e traçana brancura do caminho ...
Fico olhando esses sinaisda pobre gente que avança,e noto, por entre os mais,os traços miniaturaisduns pezitos de criança ...
E descalcinhos, doridos ...a neve deixa ainda vê-los,primeiro, bem definidos,depois, em sulcos compridos,porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecadorsofra tormentos, enfim!Mas as crianças, Senhor,porque lhes dais tanta dor?!Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza,uma funda turbaçãoentra em mim, fica em mim presa.Cai neve na naturezae cai no meu coração.
Augusto Gil (1873-1929)




