quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Ondas

A cada dia que passa somos surpreendidos com o desleixo, a incúria, a falta de educação e a estupidez de muita gente. São lugares comuns, ditos e escritos milhares de vezes, mas dão jeito para começar. Não se trata de convencimento da infalibilidade, longe disso, da perfeição absoluta ou qualquer outra manifestação de egocentrismo, antes a constatação de que continua a haver gente, e muita, que, de forma egoísta, se esquece que estamos a viver um período muito especial,  que teve, tem e terá consequências terríveis para todos, mesmo para aqueles que apregoam a sua (in)capacidade de resistir a tudo, só porque sim. Mantém-se viva a esperança de não ser preciso montar nenhum estado policial, que controle tudo e todos, porque esse estado ainda está na memória de muitos e não se deseja aos que nunca o experimentaram, mesmo aqueles que continuam a agir sem respeito pelos outros seus semelhantes.

De toda a gente que hoje foi ao Sítio da Nazaré para espreitar as ondas da Praia do Norte, quantos, antes de se deslocarem,  cuidaram de pensar em si próprios, nos seus e em todos os que estão ou estarão à sua volta? A julgar pela aparência, não devem ter sido muitos ...

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Escolhas

Enquanto se aguarda que o telefone toque a marcar a hora e o dia da vacina para contrariar a gripe, enquanto se assiste a uma discussão, sobre o Orçamento do Estado, tão agitada que até parece que se analisam certezas, enquanto os números "covidais" não param de subir, liga-se a televisão e ouve-se, a abrir os telejornais, a notícia de que hoje têm lugar as eleições para a direcção do Sport Lisboa e Benfica.

Não há dúvida que sou adepto do maior clube do mundo ... qualquer coisa que por lá aconteça, por mais irrelevante que seja, é notícia de abertura, de meio, de fecho e, sobretudo, de enorme relevo, por dela depender o bem-estar e a felicidade de todos os que por aqui vivem e dos que a diáspora mantém por esse mundo fora.

Se dúvidas houvera, ficaram esclarecidas: o acto eleitoral do Benfica está bem acima das previsões orçamentais, da zanga das "meninas" com o PM, do resultado das eleições dos Açores, ou das restrições que já estão em vigor e das que se aproximam.

Valha-nos S. Luís, S. João ou S. Rui (não sei se existe), porque deles depende o futuro do maravilhoso rectângulo, mais dos que nele vivem.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Livros lidos (ou em vias disso)

Uma língua não tem necessidade de formatação obrigatória e só ganha com a diversidade.

(...) eu sei que muita gente diz que o camarada Jesus vive nos céus e que o paraíso e mesmo o inferno ficam lá em cima, mas para mim, assim de repente a olhar

aquela belezura

como o meu pai gosta de dizer

para mim o paraíso ficava dentro daquela caixa com cheiro de mil chocolates lindos que nem derretiam os formatos de conchas do mar, búzios, caranguejos, cores que imitavam o bolo mármore da tia Maria, creme a fingir que era castanho,  preto a  misturar-se com  um branco cor  de leite com  café e o cheiro também, todos de boca estávamos só com os olhos bem abertos que até o meu pai e a minha mãe riram quando eu a e mana Tchi, a olhar aquela quantidade de cores e cheiros, tivémos que iniciar de bater as palmas como se fosse comício do 1º de maio, e a Yala também nos imitou

- viva os camaradas vizinhos franceses!

eu gritei

- viva! 

todos responderam

- viva essa caixa de chocolate

- viva!

- obrigado, camaradas

eu imitei um camarada que sempre terminava os comícios com essa frase 

quando o pai deu o sinal de largada, depois de brindarmos àquela enorme caixa que tinha aparecido tão bem vinda no nosso natal, eu pensei que fôssemos comer bem rápido até a mãe nos mandar parar para respirar 

aquela caixa era quase de magia, não eram só as cores misturadas e os cheiros lindos; não era só o brilho do laço; o sabor, isso posso já jurar aqui pelo meu avô que tá debaixo da terra, o sabor era uma coisa do outro mundo, mas eu tou a falar de um outro mundo que fica ainda mais em cima do que as alturas do tal paraíso ,(...)

O livro do deslembramento
Ondjaki
Caminho (2020)

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

domingo, 25 de outubro de 2020

Técnica de Vendas

O título deste post era a designação de uma disciplina do meu ensino secundário, já lá vão bem mais de 50 anos. Nela se aprendiam conceitos de atendimento e de relações com os clientes, que deviam ser pautadas por uma linguagem de verdade, lisura de processos e tendo sempre em vista a máxima suprema: a razão de existência de qualquer empresa e, já agora, de qualquer serviço, é a satisfação dos seus clientes, sem peias nem jogos escondidos, e sempre com clareza de procedimentos e intenções.

- Recebi esta carta e não percebo bem isto. Pode ajudar-me?

A cena passou-se numa agência do banco onde, na altura, exercia funções. A senhora, viúva, já com alguma idade, era cliente, recebendo a reduzida reforma através de crédito na sua conta. Mantinha uma excelente relação com todos, por ser vizinha de um dos que lá trabalhavam e a quem conhecia desde menino, como não se cansava de referir. Era extrovertida, gostava de dar novidades - Fulano morreu, Sicrana separou-se - sem complexos nem vergonhas.

- Isto é a informação de que não pagou o cartão de crédito e que tem 10 dias para o fazer, sob pena de mandarem a dívida para cobrança coerciva, via Tribunal.

- Eu não tenho nada disso! Só tenho o vosso cartão, para levantar dinheiro na máquina ou pagar na loja, mas raramente o utilizo. Gosto mais de vir aqui visitá-los.

- ???

A minha cara deve ter sido elucidativa e reavivou-lhe a memória.

- Espera lá! Há talvez dois meses, no supermercado, dois senhores muito simpáticos ofereceram-me um cartão e disseram-me que podia gastar até 500 Euros nas lojas. Fiquei toda contente e, logo ali, comprei uma panela de pressão e um ferro eléctrico, que me deram um jeitão. Depois, comprei umas roupinhas para o Inverno. Também substituí o fogão a gás por um maior e mais moderno. Não cheguei aos 500 Euros, mas faltou pouco! Não me diga que agora tenho de pagar?

- Claro, respondi.

- Mas eles disseram que não tinha de pagar nada ... As lágrimas soltaram-se e a face corou. 

O marketing agressivo produz muitas situações destas. E agora nem rosto tem. Surge, inopinadamente, pelo telefone ou pelas redes ditas sociais, sempre com a "cenoura" ao alcance da mão, sem qualquer dificuldade e só para si, que é uma pessoa especial.

A última que soube foi a de um colchão oferecido, por ter sido "cliente eleito" ... apenas tinha de pagar um seguro de 35 Euros mensais, durante 36 meses. Coisa pouca, para um produto de excelência! E a venda concretizou-se e deve ter somado aos objectivos e às comissões do aldrabão que a promoveu. 

sábado, 24 de outubro de 2020

Quotidiano

Já não acontecia há algum tempo, mas hoje houve futebolada conjunta com os quatro netos. O tempo não ajudou, o jogo não durou os noventa minutos, que o corpo não o permite, mas o dia foi enorme.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Dias ...

Está a terminar mais uma semana e a próxima decreta o final do mês, mais um a caminhar velozmente para o final do ano. Sempre foi assim desde que existe calendário, mas agora parece que se acentuou e dá mais nas vistas.

Não faço ideia (se calhar faço) porque acontece, mas, seguramente, não é pela pressão do trabalho, que não existe, nem pela ansiedade do fim de semana, que não deverá trazer grandes novidades, nem pela urgência de receber o ordenado, que já recebi, o que muitos, se calhar, não conseguem dizer.

Será da idade? Não acredito! O cérebro tem muitas mais coisas com que se preocupar e, digo eu, só tem noção de que os dias passam porque gosta de dormir e, por vezes, há sonhos que não o deixam.

Talvez seja a contradição diária a que somos expostos, com gente a afirmar que o branco é preto e, logo a seguir, exactamente o contrário, sem qualquer rigor nem vergonha.

Descobri agora: as semanas passam depressa, os meses correm e o raio da pandemia permanece, enquanto eu tenho pressa de sair, como dizia o Variações, desta penitência.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Arte urbana

A arte urbana tem mais uma obra na cidade e esta, por várias razões, merece um registo especial.

Homenageia Ferreira da Silva, um grande artista que se destacou, principalmente, na área da cerâmica, com obras por todo o país. Na cidade, não terão merecido o destaque devido e, até, o cuidado obrigatório.

A obra foi concebida e executada por Filipa Morgado, filha do meu amigo Tó Morgado, na parede da que foi a "nossa" Escola, ali bem junto de uma obra monumental do Mestre.

O Mestre Ferreira da Silva, do alto daquela empena, está a olhar, pensativo, para o seu Jardim da Água, que tem muita erva, nenhuma água e pouca atenção de quem dele devia cuidar.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Livros lidos (ou em vias disso)

Está quase no fim o Diccionario da Linguagem das Flores e, como sempre, é o melhor livro de António Lobo Antunes ... até chegar o próximo. 

A forma única de escrever está sempre presente e, neste, cada capítulo é dedicado à descrição de cada uma das personagens em toda a sua vida, com as contradições próprias, o trabalho e os sonhos, os amores e os pensamentos, os caminhos percorridos ou ambicionados, as diferenças, o vestir, as comidas, um retrato claro das diversas etapas, misturadas sempre, clarificadas no fim e sempre com ligação entre cada uma. Até os cisnes do parque têm direito a referência e participação assim como as folhas castanhas que, no chão, anunciam o Outono.  

14. O afinador do piano
(...) o médico a apontar-me análises que eu não entendia

- Ninguém fica cá para semente o que não falta são mortos

descrevendo círculos preocupados em torno de números

- Sobretudo isto aqui e isto aqui

a alojar-me o indicador no peito

- A partir dos sessenta cautela e caldos de galinha mulheres e maratonas nem sonhe

porque cá por dentro a traça não pára de roer, glândulas que coxeiam a custo atrás da saúde, olhando a vida cada vez mais distante

- Respirar meu amigo é um exercício que ajuda

com dificuldade em caminhar atrás do calendário porque este joelho coitado, porque o ar já não entra, só sai, enquanto o irmão da doutora, sem me ver ainda, raspava com a unha molhada na língua não sei quê no casaco, espreitando obliquamente a lapela para a verificar melhor, nunca entendi o motivo de se mirar o universo de esquina quando se quer dar por ele, o irmão da doutora apontou-me com o queixo o lugar ao seu lado continuando a observar a unha numa atenção de prestamista, como a vida é feita de pormenores, senhores, um dente, sempre tão pequeno, afinal gigantesco, um dedo subalterno maior que o pé todo, a casa da sala de música de repente ali mais as estátuas de loiça e os seus sorrisos herméticos, a doutora que caminhava à minha frente puxando a bagagem do próprio corpo cujas rodinhas tremiam, vamos arrastando o que éramos na direcção de nada até nos sumirmos nos bastidores e adeuzinho, o irmão da doutora para mim, a limpar a unha nas calças

- Muito bem muito bem (...)

Diccionario da linguagem das flores
António Lobo Antunes
D. Quixote (2020)

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Todos falam ...

Por o céu vai uma nuvem,
Todos dizem bem na vi,
Todos falam e murmuram,
Ninguém olha para si.
Cancioneiro tradicional de 
S. Jorge - Açores

As polémicas sobre a forma de agir perante a pandemia têm aumentado, nos últimos tempos, tanto ou mais que a própria doença.

De gente a fazer-se ouvir com a veemência de quem sabe, e divulga, o resultado depois do jogo realizado, de outros muito preocupados com a sua privacidade e a sua liberdade mas pouco com a dos outros, de alguns, com responsabilidades no sector da saúde, que gritam e avisam que vai tudo sucumbir por falta de recursos humanos e financeiros, somos inundados a toda a hora, correndo o risco de nos afogarem sem sequer vermos a onda.

Quem sabe, de ciência certa, refere com humildade que ainda se está longe de ter certezas, que os esforços são muitos e os resultados ainda poucos.

Entretanto, os cidadãos interventivos continuam a utilizar as redes ditas sociais para veicular as suas "verdades" e os seus "conhecimentos" profundos sobre o tema, sem cuidar de saber se, com as suas afirmações, não estarão a contribuir para a depressão de muitos, para quem tudo o que aparece é verdade, mesmo as asneiras.

Hoje, para além da máscara, teremos de usar chapéu de chuva ou não sair da casinha. A Protecção Civil manda mensagens a recomendar cuidado, que a depressão é Bárbara.