quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Teatro

Apesar de continuar confinado no Oeste profundo, a dois passos do Atlântico e, longe, longe, da civilização que se desenrola pelos lados da capital, sob a supervisão do Marquês lá do seu alto "leonino", ontem fui ao teatro. 

Sem sair de casa, cumpridor que sou da lei e das recomendações, desloquei-me à secretária, liguei o computador - também podia ser no IPad ou no telemóvel, mas o conforto não seria o mesmo -, "abri" o Teatro D. Maria II, comprei o bilhete e assisti a um excelente espectáculo, de mais de três horas, com um pequeno intervalo quando eu o determinei.

A peça chama-se ÚLTIMA HORA, tem texto de Rui Cardoso Martins, encenação de Gonçalo Amorim e interpretação soberba de todos os actores, com destaque para José Neves, Maria Rueff e Miguel Guilherme. Aborda o tema do fim dos jornais "a sério", em época de redes sociais e de notícias de "sangue".

Vale a pena. O bilhete custa apenas 3,00 Euros, sim, não me enganei, 3,00 €, e a peça estará em cena até ao dia 26 deste mês.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Corrupção ou solidariedade

Um homem alto, espadaúdo, bem falante, capaz de manter uma conversa escorreita, quando não estava de serviço. Fardado, era intratável, roçando sempre a arrogância e a malcriadice. Agente da PVT, acrónimo de Polícia de Viação e Trânsito, designação oficial, à época, da autoridade a quem competia a fiscalização do trânsito e a aplicação das multas por excesso de velocidade, por peso a mais, por deficiente arrumação das mercadorias, e por muitas outras infracções, algumas "inventadas" à última da hora, para justificar o serviço e o "papelinho".

O posto dos "Provadores de Vinho Tinto", como eram conhecidos na gíria, funcionava à saída da cidade (ou à entrada, para quem vinha do sul), era dotado de uma balança de pesados e estava quase sempre aberto, mesmo a horas fora do comum. Paralelamente, havia agentes a deslocarem-se de mota, na procura de infracções protagonizadas por condutores que utilizavam outros caminhos que não os que passavam pelo posto. Muitas vezes, os veículos de mercadorias apanhados "por aí", eram obrigados a vir "à balança" por suspeitas de peso a mais, só possível de confirmação no tal equipamento situado nas traseiras do redondo edifício.

As empresas, ou melhor, os patrões, na linguagem comum à época, tinham receio da PVT  e procuravam ter com eles as melhores relações, distribuindo lembranças regularmente, em espécie ou mesmo em dinheiro vivo. Por vezes, eles apareciam, à civil, para cumprimentar e, com esse cumprimento, se fazerem notados e lembrados. Era sinal de que o abastecimento não tinha acontecido ou o gasto havia sido demasiado e era necessário reforçar o stock.

- Não precisa de nada? Uma caixinha branco, ou é melhor tinto?

- Já que insiste, pode ser uma de cada.

Daquela vez, o assunto era complicado, via-se bem, e a conversa tinha de ser com o patrão. Havia algum nervosismo, o que não era nada costume. O encontro foi proporcionado e a conversa deu-se.

- Sabe, decidi construir uma "barraquita" e, como o ordenado é pouco, conto com a ajuda dos amigos.

- E como posso eu ajudar? De que é que precisa mais?

- Tudo. Cimento, areia, madeira, tijolo, fretes, o que lhe for possível. Tudo faz jeito.

A "barraquita" ainda hoje existe, com um jardim frondoso à frente e um terreno extenso, nas traseiras. A "olho", deve ter mais de duzentos metros quadrados e desenvolve-se em dois pisos. Uma "barraquita" ...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Venda directa

- Boa tarde. Estou a falar com o senhor F...?

Sim, sou eu.

- O meu nome é S... e estou a ligar-lhe para lhe dar a conhecer um nosso novo produto de saúde. Antes de continuar, devo dizer-lhe que a chamada irá ser gravada. Autoriza?

- Não percebo a necessidade. Se só me vai dar a conhecer um novo produto para a minha saúde, qual é a necessidade de gravar a chamada?

Alguma atrapalhação, mas recompõe-se de imediato.

- Não somos nós que queremos. É a lei!

- Mas isso só é obrigatório se houver algum contrato, não é verdade?

- Pois, mas eu, para continuar a nossa conversa, tenho de ter a sua autorização para gravar.

- Não vale a pena. Não se incomode. Não estou interessado, obrigado.

Desligado o telefone, dou por mim a pensar:

- Como obtiveram o meu número de telefone, identificado com o nome e, quem sabe, pela idade e talvez até com a morada?

- A chamada é gravada e substitui o contrato. Para os dois lados?

A complicação é minha, velho embirrento. As autoridades reguladoras conhecem perfeitamente estas empresas, fiscalizam-nas e conhecem bem as condições de venda de cada uma, verificando as condições contratuais e não permitindo que haja violações das leis em vigor.

Sonhos. A melhor solução é o cliente assinar um contrato de muitas páginas e letras pequeninas, que ninguém lê, ou, melhor ainda, que diga sim a tudo incluindo à gravação da chamada, para memória futura ... da vendedora. 

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Guerra colonial

Pertenço a uma geração que cumpriu o serviço militar obrigatório. No meu caso, entrei no tempo da "outra senhora" e por lá andava no dia 25 de Abril de 1974. Esse privilégio foi e é meu, só meu, egoisticamente meu.  É muito difícil partilhar o sentimento, a alegria, a esperança, que uma luzinha tinha acendido um ano antes, quando, no Regimento da minha cidade, fui "dactilógrafo", ao fim de semana, dos escritos do meu comandante de companhia. Mas, como dizia o outro (ou seria a outra?), isso agora não vem ao caso. Surgiu a talhe de foice e serve apenas para deixar claro que foi esse dia inesquecível, em que "festejei" os meus 22 anos, que evitou a minha ida para a guerra ... ou para outro lado.

A morte de Marcelino da Mata que, ao que parece, é o militar mais condecorado das Forças Armadas, desencadeou escritos, opiniões, artigos, entrevistas, conversas de gente de todos os quadrantes, muita dela sem qualquer autoridade e conhecimento para falar sobre assunto tão melindroso e tão sensível. 

A guerra colonial não é assunto tabu. Pode e deve ser discutido, analisado e compreendido por todos, sem borrachas ou parênteses, todavia apenas no âmbito global, por respeito a todos os que por lá passaram, de um lado e do outro. Os exércitos em confronto eram constituídos por pessoas, que faziam parte de equipas e raramente estavam sós. A atribuição de actos a pessoas concretas e a recordação deles, com pormenores e alguns "pormaiores", pode criar, e cria, problemas à memória de todos os que, contrariados, obrigados ou até voluntariados, por lá passaram durante dois anos (às vezes mais), sem telemóvel, sem internet, sem qualquer contacto com a família e os amigos que não fossem as "epístolas" escritas nos aerogramas, conhecidos como "bate-estradas". 

Ainda há, felizmente, muita gente viva que deu tiros e sofreu emboscadas, rebentou minas ou colocou-as, que talvez tenha matado para não morrer, que cumpriu ordens ou foi obrigada, que contestou ou se submeteu, que desertou ou aguentou até ao fim. Essa gente, anónima, não merece nem precisa de ver e ouvir desenterrar um passado que não se pode nem se deve apagar, mas do qual se dispensa a individualização e muito menos a criminalização. Muitos houve que por lá ficaram, sem direito, sequer, a voltarem às suas origens e com a homenagem, apenas, dos seus camaradas.

Tenho amigos e familiares que, tantos anos passados, ainda preferem o silêncio ao comentário sobre o que sofreram, o que fizeram, o que viveram, o que sentiram e os sonhos que, por vezes, ainda os acordam. Muitos, a grande maioria, saiu do país pela primeira vez, no Santa Maria ou no Niassa, no Príncipe Perfeito ou no Infante D. Henrique, depois de cerca de seis meses de instrução duríssima, durante os quais estava sempre presente o aviso de que o objectivo era rumar a dois anos de "degredo", com "bilhete" garantido de ida e com grandes dúvidas sobre a volta.

Meninos, não brinquem com coisas sérias! No próximo século, a história se encarregará de nomear os "Vasco da Gama", os "Gil Eanes" e os "Afonso de Albuquerque". Por agora, deixem-nos ficar sossegados. Não é preciso activar memórias, que estão frescas em todos os que viveram esses tempos.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Tempo

Parece que o Inverno se está a sentir bem e não quer ir embora. Feitios ...

A chuva cai, persistente, sem respeito por ninguém, nem sequer pelas flores, coitadas, ali no jardim sem amparo ou protecção, nem um pequeno telhado que as abrigue. E, tomando como certo o conteúdo da mensagem da Protecção Civil, ainda vão sofrer mais, por se prever um agravamento do estado do tempo e uma eventual ocorrência de cheias, sempre de acordo com o SMS oficial.

Perante isto, não há nada a fazer a não ser o confinamento total. Nem caminhada higiénica, nem ida ao supermercado ou à mercearia, quando muito um saltinho lá fora, resguardado pelo alpendre.

Vai pr'á barraca, Mimoso ... segue o conselho que Martinho da Vila deu em 1974 e se mantém actual e intergeracional. A minha filha mandou-mo hoje, por uma das vias de contacto possíveis para confinados.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Egoísmo

Nas notícias que abundam sobre o coronavírus, normalmente "abrilhantadas" com grandes filmes de agulhas e seringas e/ou fotografias do acto de inocular o antídoto para o malfadado bicho, soube-se que haverá um clube, lá para o distante Dubai, que garante aos seus associados(?) as duas doses da vacina em troca de uma estadia de, pelo menos, três semanas em ambiente de lazer e de luxo. Para pertencer ao dito clube é necessário pagar uma quota anual, quase simbólica, de cerca de 20.000 € por ano, a que acrescerá o custo das férias paradisíacas. Face a um custo tão irrelevante, a procura deve ser imensa, da Europa aos Estados Unidos, do Brasil ao Quénia, do México às Filipinas, do Iraque a Moçambique, das favelas aos bairros de lata, de novos ou velhos, doentes ou saudáveis.

O ser humano no seu melhor, no sublimar do egoísmo, na ideia confirmada de que o dinheiro tudo consegue, que os princípios são coisas da ralé, que o desrespeito só existe quando sou eu a vítima, e que só sendo parvo não se consegue usufruir disto. A esperteza é uma qualidade adquirida com grandes sacrifícios, que poucos conseguem cultivar e menos ainda colher ...

Nesta época de guerra, quando a solidariedade e a colaboração deveriam ser presença assídua nas relações entre pessoas e países, a sociedade do "safe-se quem puder" cavalga, cultiva e colhe frutos muito rapidamente. Deve ser do adubo a que se acede desde pequeno ...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Servos

Telefonava sempre a dizer quando vinha, a que horas vinha e ao que vinha. Era uma cliente antiga, solteira, obesa, já entrada na idade, e com óculos "fundo de garrafa". Tinha propriedades agrícolas na região, que explorava directamente e uma pequena parte que arrendava a pequenos produtores. Fazia questão de se afirmar agricultora e os olhos riam-se por debaixo dos óculos sempre que alguém manifestava apreço pela actividade.

Chegava de táxi, entrava e dirigia-se de imediato ao gabinete, sabendo que a "sala" lhe estava reservada. Era pontualíssima. O motorista acompanhava-a até à entrada, depois de lhe abrir a porta, de seguida ia arrumar o carro e voltava, ficando no balcão até receber o recado de algum de nós, transmitindo que a senhora estava despachada e podia ir buscar a viatura.

Vinha ao banco, normalmente, de quinze em quinze dias. Fazia depósitos, controlava as contas a prazo e os movimentos à ordem, levantava dinheiro quando necessitava e sempre a quantia que tinha referido na véspera. Tratava toda a gente por "tu", com excepção do gerente.

O cheque para levantar já vinha preenchido, mas a assinatura era feita no momento.

- Diz lá ao caixa que quero notas pequenas, de 50 e de 100, e um pacote de moedas de 5$00. E olha que não quero notas novas. É para pagar aos servos ...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

A voar

"Quarta passada, semana acabada".

Frase muito dita e ouvida nos tempos do trabalho, para transmitir que a não concretização das tarefas, em tempo útil, traz como consequência o atraso, e que a preocupação deve ser sempre o "não guardes para amanhã o que podes fazer hoje".

Agora, o significado da frase alterou-se radicalmente:

- Já é quarta-feira. Mais uma semana a acabar ...

O tempo voa, propulsionado por motores potentíssimos e sem dar oportunidade de escolha do itinerário. Ainda ontem começou o ano e já estamos quase na Páscoa. Daqui a pouco é noite, o escuro entorpece os músculos, a televisão cansa o cérebro, os livros não resolvem tudo ... mas ajudam muito. Está na hora de fechar os estores, desligar do mundo da rua e ligar o alarme. As mesmas notícias, as mesmas rotinas e, mal se fecham os olhos, já é quinta-feira, o mês está a chegar ao fim e tudo fica na mesma: "nem o pai vem nem a gente almoça".

Apesar de alguns sinais de abrandamento, o malfadado bicho parece sentir-se bem com o clima e com as pessoas. Se fosse educado e compincha, podia apanhar uma boleia de uma qualquer sonda das que por aí navegam e ia para Marte, de férias ... definitivas.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Carnaval

A ideia era ir a Veneza, depois planeou-se Rio de Janeiro, a seguir ponderou-se Sesimbra e, à cautela, pensou-se também na Mealhada, ou Ovar, ou Estarreja. E um salto ao Algarve? O tempo estará melhor e o Carnaval também é muito divertido por lá. Não, Carnaval a sério é em Torres Vedras e até é perto e bom caminho. Tantas hipóteses e, afinal, todo o planeamento foi por água abaixo. Não há Carnaval ... em lado nenhum.

A Foz é sempre uma caixinha de surpresas, de Verão ou de Inverno, com sol ou nevoeiro, com vírus ou sem ele (para quando?). Violando um pouco as regras, a voltinha higiénica foi até lá, com máscara, pela borda da Lagoa, sem encontros pessoais ou policiais, mas com uma descoberta: o dono do barco será, pelo menos, sexagenário. Não lhe perguntei por não o ter visto, mas é fácil adivinhar. Só gente dessa idade se lembrará da artista, alguns ainda dela recordarão canções e poucos se lembrarão das sardas. Hoje, septuagenária, talvez já as não tenha, que a maquilhagem faz milagres e os anos, acentuando muitas coisas, disfarçam outras. A música, essa, já quase ninguém ouve, mas o nome ainda domina a pesca na Lagoa.




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Sonhos

Cada vez convivo mais com sonhos. Não aqueles que se têm acordado - esses são de tempos passados - mas os que fazem companhia ao descanso, criando cenários inverosímeis, tarefas incongruentes, viagens fantasmagóricas. Quando acordo, normalmente lembro-me do que aconteceu, verifico o que a mente me mostra e fico perante uma chusma de disparates, sem qualquer nexo, ordem ou razoabilidade. Fui procurar saber os contactos e a morada de Sigmund Freud mas, até ao momento, nem Google, nem Facebook nem Instagram me deram quaisquer notícias  de como lhe chegar, muito embora todos o conheçam e sobre ele falem muito. Vou persistindo e talvez a sorte um dia me chegue, mesmo que aconteça daqui a muitos anos. É sempre tempo de aprender e de ouvir explicações, por mais irracional que pareça o tema.

Nesta noite sonhei que tinha ido à Medicina no Trabalho. Que coisa mais estúpida! A Medicina está toda dedicada ao Corona e o Trabalho já não me perturba nem me tira o sono. Estava a trabalhar , vejam bem, na Baixa de Lisboa e a consulta era no Largo do Calhariz. Dei por mim no carro, a subir a Rua do Alecrim. Em branco ficou o sítio onde a viatura estaria estacionada e o percurso feito até ali. Não cortei à esquerda, para a Rua do Loreto, nem olhei para o Camões e muito menos para o Chiado, vi de relance o cauteleiro da Misericórdia, e cheguei ao Príncipe Real. Parei junto ao pequeno mercado que por lá se faz aos sábados, de manhã, mas não consegui lugar para estacionar.  Os legumes biológicos ficaram para os clientes reais, até porque só era sábado no sonho. Percorri a Rua da Escola Politécnica, devagar e com alguns sobressaltos, e cheguei ao Rato. Virei à esquerda e, num abrir e fechar de olhos, já estava no Jardim da Estrela. 

De novo uma branca no caminho e eis que me apanho estacionado no Largo do Calhariz, onde é proibido parar, quanto mais estacionar. Mas foi lá que estacionei o carrinho, fechei a porta e depois me dirigi ao edifício alaranjado, enorme, onde iniciei, há muitos, muitos anos, a minha actividade na banca. As grandes portas estavam abertas e havia um segurança sentado à secretária, com um computador virado de costas para mim. Identifiquei-me, disse ao que vinha, aguardei o tempo da consulta no computador e ouvi:

- Tem aqui 250,00 € de multa para pagar. Devia ter vindo de manhã, para fazer o electrocardiograma e as análises.

- Mas ninguém me disse ...

- E era preciso? Não está farto de fazer isto? Tem de pagar e pronto!

- Olhe, vá receber ao Totta, retorqui de imediato e ... acordei!