"O livro é um ouvido que encostamos à terra para escutar o mundo."
António Lobo Antunes
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
"O livro é um ouvido que encostamos à terra para escutar o mundo."
António Lobo Antunes
Não é sexta-feira e nem sequer estamos a treze, mas o trabalho nas obras de hoje não correu como se esperava e estava planeado. Quando parece que estão reunidas as condições para ser um "passeio", surge um obstáculo, pequeno, que não se mostrou antes e surge como que a dizer :
- Esqueceram-se de mim, aguentem. Como vêem, sou fundamental e vocês não me valorizaram.
É a vida! Acontece muito. Desvaloriza-se e neglicencia-se a importância de quem não grita, não barafusta, não se põe em bicos de pés e, no fim, por muito que custe a alguns, todos somos importantes.
"Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado vem."
O adágio, como quase todos, é pleno de verdade e metaforiza o enriquecimento ilícito, tão glosado nos últimos tempos que até já vai tirando protagonismo ao coronavírus. Como é normal, lá voltamos a discutir novas leis, constitucionalidades, âmbitos, versões, propostas, textos, palavras, actos, omissões, penalizações, comissões, tudo nessa língua maravilhosa que chamo de "direitez", tão hermética quanto abrangente, onde cada termo tem, pelo menos, duas interpretações e milhentos significados.
Pretende-se, de acordo com o que é dito, criminalizar o enriquecimento ilícito de quem exerce cargos públicos. E os que usufruem de ganhos "pela porta do cavalo", não estando no poder, ficam impunes? O tema poderá ser melindroso, colidir com a liberdade de cada um, dar azo a devassa injustificada, proporcionar parangonas e vinganças, abrir portas aos populismos, mas ... quem não deve, não teme.
Mais importante, antes de legislar sobre tudo e sobre nada, seria tornar a justiça célere, garantindo os meios de defesa a todos por igual e acabando com os subterfúgios que adiam audiências, protelam julgamentos, atiram com as decisões para as calendas, em processos de milhares de páginas carregadas de citações, opiniões, deduções, afirmações, contradições, tudo, menos lições acessíveis ao comum dos mortais, que não teve a graça de aprender a tal língua de "meia dúzia".
Respeitar o outro é, também, cumprir regras, não usufruir sem contribuir, não usar o que é de todos em proveito próprio sem dar alguma coisa de si. E ganhar o euromilhões não é enriquecimento ilícito!
MANIAS
O mundo é velha cena ensanguentada,Coberta de remendos, picaresca;A vida é chula farsa assobiada,Ou selvagem tragédia romanesca.Eu sei um bom rapaz - hoje uma ossada -Que amava certa dama pedantesca,Perversíssima, esquálida e chagada,Mas cheia de jactância quixotesca.Aos domingos a deia já rugosaConcedia-lhe o braço, com preguiçaE o dengue, em atitude receosa,Na sujeição canina mais submissa,Levava na tremente mão nervosaO livro com que a amante ia ouvir missa!(Lisboa1874)O livro de Cesário VerdeCesário VerdeEditorial Minerva
Por vezes parece que estamos mais rudes, menos educados, mais porcos.
O novo MacDonald's da cidade tem sempre clientes, de manhã à noite, até ontem em regime de take-away e, a partir de hoje, em funcionamento normal, com restrições de número, como qualquer outro restaurante. Os clientes são muitos, sinal de que gostam da comida e são bem atendidos. Não posso fazer outra coisa que não seja conjecturar, por ainda lá não ter entrado e, aqui para nós, dificilmente isso irá acontecer. Mas não tenho nenhum preconceito. Não gosto, pronto.
A caminhada da manhã mostrou como há quem permaneça insensível ao espaço que o rodeia e faça lixo para outrem limpar. Em todo o estacionamento eram visíveis os restos de domingo e, num espaço em particular, havia restos de comida, embalagens e até fraldas de bebé.
Na volta, lá andava a empregada do restaurante, vassoura numa mão, pá na outra e saco às costas, a limpar a porcaria que um ou mais energúmenos, clientes da sua entidade patronal, tinham feito.
Nunca mais lá chegamos ...
Já aqui falei dele. É um homem pequenino, tem pouco mais de 50 anos e uma dinâmica e uma agilidade que não é vulgar ver-se. Fala bastante, muitas vezes com ele próprio, tem sempre uma piada na ponta da língua e fuma muito, dizendo que vai deixar os cigarros porque o filho lhe pede.
Executa várias tarefas e, quando eu chego, brinca, dizendo:
- Hoje está cá o estucador ...
ou
- O pedreiro chegou agora. À tarde, vem o ladrilhador. Carpinteiro só na semana que vem. Tem muito trabalho.
Um dia desta semana, questionou-me, com um olhar malandro, como quem sabe a resposta que vai obter.
- Conhece a Igreja de S. Domingos, em Lisboa?
- Por acaso conheço bem.
- Sabe que a igreja, há muitos anos, foi destruída por um fogo?
- Tenho ideia disso, sim. Acho que ouvi ou li sobre o incêndio. (aconteceu em 13.08.1959)
- E sabe porquê?
- Não faço ideia ...
- Havia lá um padre que deitava as beatas no chão ...
Riu-se ... e acendeu um cigarro.
Há dias assim. Plenos de actividade, sem tempo para pausas, ocupação ininterrupta e, no fim, afinal que fiz eu?
No tempo do trabalho (já lá vão quatro longos anos ociosos), havia um tableau de bord, escrito ou mental, que ia servindo de orientação e de lembrança. Assuntos urgentes, tarefas importantes, temas prioritários, tudo pensado de véspera para que o dia fosse o mais produtivo possível. Uma grande parte das vezes, o planeado ficava no tableau, adiado (se eu fosse moderno diria procrastinado) para o dia seguinte ou eliminado por, entretanto, ter perdido actualidade. O desconforto surgia com a vontade de mandar o planeamento "às malvas", deixar que tudo acontecesse e depois se veria.
Agora é muito mais fácil! Não fiz nada do que tinha pensado para hoje? E depois? Qual é o problema? E, como diria o outro, qual é a pressa?
Não há nenhuma urgência que não possa esperar 24 horas e só há dois tipos de problemas: aqueles que o tempo resolve e os outros que nem o tempo consegue resolver.
O Oeste não vai à capital há "séculos", mas Lisboa desce à província e, atempadamente, graças ao serviço de entregas dos CTT, faz-me chegar o último álbum de Carlos do Carmo, posto à venda exactamente hoje. Sem pagamento nem filas, chegou, completo, numa caixa bem bonita e já foi ouvido na totalidade. Falta apenas ver o DVD que acompanha os dois CD's, mas isso acontecerá mais tarde, talvez à noite.
Para que a sua voz fique gravada na nossa memória e o seu gosto eternizado, Carlos do Carmo deixa-nos no seu último disco as palavras de Vasco Graça Moura, Hélia Correia, Jorge Palma, Herberto Helder, Júlio Pomar, José Saramago e Sophia de Mello Breyner Andresen. Se outras razões não houvera, e há, bastavam estes nomes para se justificar a audição.
Um grande trabalho e uma grande recordação, para ficar em lugar de destaque, como é devido.
Faz parte do álbum "Com as minhas tamanquinhas", gravado em 1976 pelo grande Zeca.
Tantos anos depois, surgem acontecimentos e ocasiões há em que as palavras são tão assertivas que parecem ter sido escolhidas propositadamente para esses momentos.
Mais de um ano decorrido, vamos entrar num novo período de "estado de emergência", que os responsáveis querem e têm esperança que seja o último. Eu também ...
Há um ano, quando ainda se estava no princípio e se esperava que fosse "sol de pouca dura", divaguei aqui sobre o jardim e coloquei uma fotografia de um arbusto, que estava a evidenciar-se e a exibir-se, fanfarrão, com a esperança de ter toda a gente a apreciar a sua beleza. O tempo passou, as pessoas rarearam na rua, caíram as flores, mudou de tom, encolheu-se, perdeu as abelhas, deixou a exibição e de vedeta passou a ignorado.
Mas eis que a mãe natureza, prestimosa, não o deixou cair na amargura e trouxe-o de volta. Em dois dias, as flores surgiram, brilhantes, vaporosas, e chamaram as abelhinhas, para se deliciarem com o seu néctar. E o escovilhão, ou escova de garrafa, ou limpa-garrafas ou Callistenon voltou a exibir todo o seu esplendor e a despertar a curiosidade de quem passa na rua e o espreita, fascinado.