sábado, 1 de maio de 2021

Lição

Tenho quase a certeza que já foi tema de "conversa" no blogue, mas não me dei ao trabalho de ir procurar em que altura isso aconteceu.

É cego, vive aqui perto e tem um cão-guia que o acompanha sempre. As obras, que decorrem nas ruas e não há meio de terem fim, tornam-lhe as passadas mais difíceis. O seu amigo e companheiro não o larga e condu-lo sempre pelo melhor caminho, sem se atrapalhar.

Como se tudo o que faz não fosse suficiente, hoje deu-me mais uma lição de vida e uma bofetada sem mão a tantos que por aí andam. O cão-guia, como qualquer ser vivo, precisou de fazer as suas necessidades e eu, um vulgar ser sem deficiência, não imagino como ele deu por isso. Mas deu! Esperou pacientemente que o "serviço" fosse executado; do bolso retirou um saco plástico preto e, "às apalpadelas", recolheu todo o produto resultante da função.

Não precisou de olhos. Bastou-lhe a educação e o respeito por si e pelos outros.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Maio, maduro Maio

Termina hoje o estado de emergência na quase totalidade dos concelhos do continente, sendo substituído pelo estado de calamidade. Como disse Salgueiro Maia, a propósito de uma necessidade imperiosa da época, "o estado a que isto chegou". É uma excelente notícia e o indício de que surgirá em breve o regresso à normalidade. E já não é sem tempo. Estamos todos fartos de condicionalismos, de não poder ir aqui ou ali, de viver com condições prévias, sujeitos a sanções, admoestações, recriminações e, por vezes, prepotências de quem, de forma inesperada, viu o seu poder reforçado e disso quer fazer gala.

Pelo que dizem os cientistas, ainda haverá muito caminho a percorrer e muitos cuidados a ter, mas a luzinha parece já tremelicar ao fundo do túnel.

Não vêm (ainda) os abraços, os beijinhos, as grandes festas, os espectáculos sem restrições. Não vamos ter o "prato" cheio, mas a "comiida" já terá mais quantidade e qualidade. Meio a sério, meio a brincar, poder-se-á dizer que posso viajar até Lisboa ou qualquer outro sítio; não posso ir a 120 mas já me deixam deslocar a 60 ...

Veremos o que nos reservará o mês das flores, que se inicia amanhã, com um dia no qual, de acordo com "regras" mais antigas do que eu, é fundamental levantar cedo para que o Maio não entre e, em consequência, se ande amarelo todo o ano ...

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Dia Mundial da Dança

No Dia Mundial da Dança e quando se anseia pelo retorno dos espectáculos, o final sublime de O Lago dos Cisnes, expoente máximo da dança clássica, para manter viva a chama e esperar que, no próximo ano, a "nossa" Escola Vocacional da Dança possa voltar ao palco, com as salas cheias, como é (era) costume.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Filhos da madrugada

O 25 de Abril é uma data que me é muito querida, não por ser o dia do meu aniversário mas porque encerra uma transformação na qual, muito modestamente, participei, e que trouxe um país novo, abrindo portas que, até aí, permaneciam encerradas à grande maioria das gentes.

Decorridos quase cinquenta anos, é com muita alegria que vejo e ouço gente de elevada craveira, discutir com liberdade e participar activamente no desenvolvimento da ciência, da arte, da vida. Muitos dos que, hoje, fazem parte do escol da sociedade, teriam passado ao lado se aquele país fechado, falso moralista e enormemente elitista se tivesse mantido. O "ninho" determinava o destino e poucos "pássaros" conseguiam voar além de um horizonte muito limitado e previamente anunciado. O poder ser e depender apenas do querer não tem preço. Assim se mantenha ...

A RTP-3 transmitiu, durante o mês de Abril, 25 entrevistas de Anabela Mota Ribeiro a outras tantas pessoas, que têm em comum o facto de terem nascido depois de Abril de 1974. Chamou a essas entrevistas "Os filhos da madrugada". São conversas extraordinárias, com personalidades, as mais diversas, com histórias de vida e de antecedentes distintas, demonstrativas de que, ao contrário do que pensam muitos da minha geração, "os filhos da madrugada" são muito melhores do que foram os "pais" da dita. 

E tudo isto é o concretizar do sonho da grande maioria dos que viveram intensamente a madrugada do "dia inicial, inteiro e limpo", com tão bem o definiu Sophia.

terça-feira, 27 de abril de 2021

Fábula de trazer por casa

Era uma vez uma colmeia que existia há muitos anos nos campos da região. Destacava-se pela qualidade da sua edificação, pelos propósitos com que havia sido construída e pela qualidade do mel que produzia. A sua história era de todos conhecida e tinha tido a participação de muitas obreiras, lideradas por rainhas que iam mudando com o decorrer dos tempos. Todos juntos procuravam criar as melhores condições para quem frequentava a colmeia e tentavam produzir um mel da melhor qualidade.

Durante muitos anos assim foi acontecendo mas "não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe".

A construção, modelar em tempos idos, foi-se degradando; descuidou-se a manutenção, a produção baixou de qualidade. E quando tudo apontava e exigia a necessidade imperiosa de unir esforços, a rainha deixou de olhar para a colmeia como um património colectivo e começou a procurar os seus interesses específicos, tomando decisões autocráticas e contraditórias, fomentando que os interesses das partes se sobrepusessem aos do todo, criando uma situação insustentável na vida das obreiras e dos destinatários do mel.

As condições climatéricas do reino não têm permitido a realização do plenário de todos os interessados, aos quais cabe a decisão sobre o futuro da colmeia e a forma de o atingir.

Anseia-se que a decisão aponte para que o bom senso prevaleça e que a qualidade da colmeia possa melhorar, continuando a servir o bem de todos e não os interesses de alguns.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Não conhecia e nunca tinha ouvido falar do autor, William Melvin Kelley, nascido em 1937, em Nova Iorque, e falecido em Fevereiro de 2017. Fui sensível à publicidade do "gigante perdido da literatura americana" e comprei. Vou a meio de uma história sobre escravos e senhores, racismo e exploração, que me tem entusiasmado pela história em si e pela escrita escorreita. Deliciei-me com a descrição da "aula" do menino para aprender a andar de bicicleta. O regresso a casa do senhor e do servo trouxe o costume, nada agradável para o "professor". Fica aqui uma parte da aula ...

(...) O crepúsculo já pendia sobre as colinas e a força do vento era cada vez maior. Tinham tentado vezes sem conta.
- Será melhor que regressemos a casa, Dewey. 
- Só mais uma vez, Tucker, se fazes favor. Vá lá.  
- Vamos embora, Dewey, já sabe que o seu pai não ficaria contente se lhe atrasássemos o jantar. 
- Mas TENHO de aprender, Tucker. 
Sentiu lágrimas quentes no fundo dos olhos que talvez já brotassem, queimando-lhe a cara, porque Tucker olhou para ele e assentiu. Depois ajudou-o a montar, segurou com força o selim para que a bicicleta não tombasse e começou a empurrar. Dewey tentou sentir a máquina e, quando lhe pareceu que tinha conseguido, voltou-se para dizer a Tucker que o soltasse.
Tucker já não estava ali. Tinha deixado de correr sem aviso prévio e Dewey seguia sozinho, rolando, cavalgando, deslizando, navegando, voando sozinho, e sentiu a bicicleta em equilíbrio sobre estreitas rodas brancas e o orgulho que o inundava. E subitamente o medo surgiu do nada, um pânico escuro vitrificou-lhe os olhos e tapou-lhe os ouvidos, quase o impedindo de ouvir o que Tucker gritava:
- Siga a direito! Vire agora! Siga a direito!
Mas a confiança já o tinha abandonado em pequenas gotas oleosas; estava a perder o combate contra o insubmisso guiador. O pavimento escuro veio ao encontro dele, esfolando-lhe os joelhos, mas desmontado da bicicleta, de novo a salvo em terra firme, não sentiu dor e estava mais orgulhoso que nunca de si mesmo.
- Conseguiu! Conseguiu! Conseguiu!
Tucker correu até ele, levantou-o e deu-lhe uma palmada no ombro; dançaram em largos círculos ao redor da bicicleta. Tucker apertou-lhe a mão, abraçou-o, chegou mesmo a beijá-lo, e gritaram e vociferaram até ficarem cansados e roucos.
Depois empreenderam o regresso a casa pela estrada direita às escuras, com as caras iluminadas pelos faróis dos poucos veículos que passavam.
- Tucker, ensinas-me a arrancar sozinho?
- Quando tiver aprendido a parar sem cair.
- Tucker, ensinas ...? 
(...)
Quando pensou mais tarde nesse dia, Dewey apercebeu-se de que Tucker já devia saber o que aconteceria quando aceitara ficar. Foi a ele que atribuíram a responsabilidade, era ele que devia ter em conta as horas e não o tinha feito, ou assim parecera ao pai de Dewey, que falou a esse respeito com John, que por sua vez deu instruções à nora para que administrasse um castigo memorável. E por isso nessa noite, enquanto jantava, Dewey ouviu os estalidos da correia contra as nádegas do Tucker.
Mais tarde, Dewey contou ao pai que tinha aprendido a andar de bicicleta.(...)

Um tambor diferente
William Melvin Kelley
Quetzal (2021)

domingo, 25 de abril de 2021

25 de Abril

A liberdade, minha companheira de aniversário, comemora hoje 47 anos de uma vida difícil, com altos e baixos, com alegrias e tristezas, aberta a todos, mesmo aos que a não merecem.

E assim irá continuar, por muito que custe a alguns, que a não prestigiam nem defendem, mas a quem ela, superior a tudo isso, não liga e continua a permitir-lhes ter opinião, mesmo feita de barbaridades, aleivosias e estupidezes.

Viva, sempre, o 25 de Abril.

sábado, 24 de abril de 2021

Liberdade

Aquela "coisa" que mantinha a ordem em todo o país e que, em boa hora, sucumbiu em 25 de Abril de 1974, cuidava de todo o mundo com um desvelo e uma dedicação "louvável", controlando o que se dizia, escrevia ou lia, pretendendo determinar comportamentos e bons costumes, fomentando a denúncia e o afastamento, ostracizando ou perseguindo quem ousasse agir ou pensar de forma diferente.

No ano em que nasci, a Direcção dos Serviços de Censura "despachava" o livro de contos de José Cardoso Pires intitulado Histórias de Amor desta forma "brilhante e eloquente":

Imoral. Contos de misérias sociais e em que o aspecto sexual se revela indecorosamente. De proibir.

O Subdirector 
a) José da Silva Dias
Cap.

Em Janeiro de 1960, a Delegação de Angola da PIDE enviava à sede da mesma sinistra polícia em Lisboa, o ofício nº. 169/60, que dizia o seguinte:

A seguir tenho a honra de transcrever a V. Exª. parte da escuta feita pela Rádio Costeira ao noticiário da "Radio Brazaville", na sua emissão em língua portuguêsa: 
 
"Em Lisboa a polícia apreendeu todos os exemplares do último livro de Miguel Torga "O Tomo oito do seu diário" publicado há dias. Supõe-se que o motivo de tal atitude são as depreciações dadas pelo autor sobre alguns episódios da vida política portuguesa. Miguel Torga é um dos mais brilhantes escritores portugueses contemporâneos e a sociedade dos homens de letras portuguesas apresentou a candidatura do escritor ao Prémio Nobel de Literatura Portuguesa.
Foi levantada a apreensão que a polícia fêz em todas as Livrarias de Lisboa da última obra do célebre escritor português Miguel Torga. O próprio autor do livro tinha sido detido pela Polícia na véspera da confiscação do livro mas posto em liberdade pouco depois. Miguel Torga é candidato ao Prémio Nobel da Literatura de 1960. A sua candidatura foi apresentada pela Sociedade Portuguesa dos homens de letras. Julga-se que a atitude que a Polícia tomou foi devida a algumas apreciações contidas no livro sobre certos episódios da vida política portuguesa."
A Bem da Nação
O Subdirector, Intº
Aníbal de São José Lopes
Inspector-Adjunto

Muitos outros exemplos se poderiam dar do país que tínhamos e que, parece. alguns por aí querem fazer regressar.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Dias

Não é sexta-feira e nem sequer estamos a treze, mas o trabalho nas obras de hoje não correu como se esperava e estava planeado. Quando parece que estão reunidas as condições para ser um "passeio", surge um obstáculo, pequeno, que não se mostrou antes e surge como que a dizer :

- Esqueceram-se de mim, aguentem. Como vêem, sou fundamental e vocês não me valorizaram.

É a vida! Acontece muito. Desvaloriza-se e neglicencia-se a importância de quem não grita, não barafusta, não se põe em bicos de pés e, no fim, por muito que custe a alguns, todos somos importantes.