segunda-feira, 17 de maio de 2021

Paciência (ou a falta dela)

Por muito que me custe, tenho de admitir que a idade me refinou a refilice e me subtraiu a falta de paciência para coisas comezinhas, às quais, noutro tempo, não ligava patavina.

Hoje, fazem-me confusão os erros ortográficos, as frases mal construídas, a mistura de palavras noutras línguas para "armar ao pingarelho", o uso sistemático de adjectivos muitas vezes redundantes, as exposições pomposas vazias de senso e de conteúdo, as palavras da moda e as conversas para "encher chouriços".

Tenho de meditar muito bem sobre este problema e procurar acertar o passo, sob pena de, um dia destes, dar comigo isolado e sem me conseguir fazer entender. Corro o risco de, se não alinhar, procrastinar a minha integração na sociedade, perder a resiliência e ainda me surgir alguma comorbilidade que me apague para sempre.

Não há pachorra! 

Mas não é nada que um sunset à beira-mar não ajude a resolver!!!

domingo, 16 de maio de 2021

Palavras bonitas

Em 1923, a poesia era rimada e a ortografia tinha diferenças substanciais para aquela que eu viria a aprender e mais ainda para a que, resultante do Acordo Ortográfico de 1990 e que não pratico, é hoje utilizada pelas novas gerações. 

O PALHAÇO

Anda-se a rir, a rir dentro de mim,
com as lividas faces desbotadas
um estranho palhaço de setim,
rasgando em dôr meu peito ás gargalhadas!

Sóbe aos meus olhos sempre a rir assim ...
espreitando as figuras malsinadas
que se não vestem nunca de arlequim,
mas que andam pela vida disfarçadas.

Na sombra dos meus cilios, embuscado,
ri, no meu olhar frio e desolado,
escondendo-se atonito e surpreso ...

E quando desce á triste moradia,
vem mais louco e soberbo de ironia
na irrisão dum sarcastico despreso!

Castelo de Sombras
Judith Teixeira
Imp. Libanio da Silva (MCMXXIII)

sábado, 15 de maio de 2021

Tempo

Há 15 anos, longe de ser sexagenário, e mais perto, ainda, dos cinquenta do que dos sessenta, iniciei aqui uma tentativa de deixar qualquer coisa que pudesse servir para um dia, alguém, tentar perceber o que me ia indo na alma, o que me tinha alegrado e o que me entristeceu, os bons e os maus momentos, a beleza das coisas e a fealdade de (algumas) pessoas, os meus gostos e desgostos, a fauna e a flora de uma vida que, desde sempre, se pautou por exigência e verticalidade, atitudes das quais não guardo o mínimo arrependimento, que me orgulham muito e procurarei manter.

No último ano, não falhei um dia, postando sempre qualquer coisa, às vezes não com dificuldade em encontrar assunto mas em conseguir colocá-lo de forma perceptível, sem lamechas nem convencimentos, claro e não enfadonho. Não sei se consegui, mas não fico preocupado com isso. 

Enquanto me der prazer e para isso tiver força, vou continuar "contra a corrente", seguindo sempre a máxima de José Régio: "Não sei para onde vou, não sei por onde vou. - Sei que não vou por aí" e tendo bem visível o querer de Cesário Verde:"Se eu não morresse nunca! E eternamente buscasse, e conseguisse, a perfeição das cousas!".

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Eleições

Estão, finalmente, a decorrer as eleições para os Orgãos Sociais da mais antiga Associação da cidade e uma das mais antigas do país. Todos os Associados estão ansiosos para que acabe uma "disputa" que já leva quase seis meses e que tem desgastado uma instituição com mais de 161 anos de vida. Toda a gente espera um final feliz, numas atribuladas eleições contaminadas pela pandemia e por "habilidades" que não deveriam ter existido.

A participação dos sócios tem sido enorme e espera-se que a lista vencedora agregue e prestigie o Montepio Rainha D. Leonor, trabalhando em prol dos interesses colectivos, que sempre foram a pedra de toque, e combatendo os aproveitamentos individuais e o jogo de interesses. 

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Aula de condução

A estrada era de terra, utilizada apenas, e pouco, pelos tractores agrícolas. Não parecia oferecer qualquer perigo. O carro entrou, sem quaisquer problemas, e internou-se no pinhal, percorrendo talvez uns duzentos metros. O sossego era total. Os pássaros já dormiam há muito e talvez se tivesse ouvido o pio de uma qualquer coruja assustada com a invasão de um objecto para ela muito estranho. Deve ter-se afastado e matutado no que viriam para ali fazer dois intrusos, ainda por cima instalados numa carripana metálica, com um barulho ensurdecedor para os ouvidos duma ave tão discreta. As dúvidas da coruja ainda hoje devem permanecer por esclarecer e assim vão ficar, não vá ela ter acesso à internet e ler estas palavras mal amanhadas.

Cumpridas as tarefas que justificaram a deslocação, houve necessidade de regressar e era imperioso voltar a viatura, por o percurso ser muito difícil de fazer em marcha-atrás. A manobra parecia fácil. Havia espaço entre os pinheiros que dava perfeitamente para, em três ou quatro viragens, conseguir a inversão necessária para o regresso. Com o que não se contou foi com a cobardia do piso, que cedeu ao peso das rodas traseiras ou ao incómodo da visita. E, de cada vez que se acelerava, as rodas mais se enterravam.

E o tempo passava ... Afinal, era Primavera, tinha chovido bem no dia anterior e, por debaixo da caruma, a terra não colaborava em aventuras de gente pouco cuidadosa e precavida. Partir troncos e colocá-los debaixo das rodas, empurrar com toda a força existente, ajudando o motor a conseguir safar a enrascada, era a solução. Dilema: empurras ou guias? As duas coisas ao mesmo tempo são impossíveis e inconciliáveis. 

O carro tinha um botão do ar, que ajudava a pegar em tempo frio e permitia acelerar o motor de forma permanente e sem recorrer ao pedal. 

- Carregas o pedal da embraiagem até lá abaixo e seguras o volante. Quando eu gritar, vais levantando o pé, devagar, e carregas outra vez assim que eu gritar de novo. Percebeste?

A aula de condução não resultou em pleno, mas o salto dado pela viatura com o levantamento brusco do pedal da embraiagem, aliado à muito força feita apesar da lama, permitiu que as rodas ficassem em terra firme.

O tempo prega-nos cada partida ...

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Campeões

Ainda faltam duas jornadas e o campeonato nacional de futebol já terminou para o primeiro classificado. Os jogos que faltam - um deles é um Benfica-Sporting - já não contam para o primeiro lugar e a taça já foi levantada no final da noite passada. 

Após um jejum prolongado, de 19 anos, o Sporting voltou a ser campeão. E foi-o com toda a justiça e todo o mérito. Praticou quase sempre bom futebol, foi humilde, lutou e uniu-se, provando que um conjunto de bons jogadores pode não fazer uma equipa.

O "meu" Benfica jogou mal na grande maioria dos jogos e teve sempre uma desculpa estranha para a causa desse mau desempenho. O Porto foi fantástico na liga dos campeões e, talvez por isso, não foi tão eficaz internamente. Confirmou aquilo que um homem do futebol dizia há longos anos: por cá, é muito difícil ter "cu" para duas cadeiras.

Este campeonato e a forma como decorreu deixou claro que, na maioria das vezes, vale mais querer que poder. Parabéns ao Sporting e aos sportinguistas, apenas com um senão para a "festa", que não foi digna nem dos "verdes" que a fizeram nem dos "cinzentos" que a planearam e vigiaram.

terça-feira, 11 de maio de 2021

Televisão

A RTP 1 transmite, quinzenalmente, um programa de Fátima Campos Ferreira denominado "Primeira Pessoa". Ainda não perdi um, mesmo que seja necessário recorrer ao "volta atrás", que hoje a técnica permite com a maior facilidade. É bom ver o que nos interessa, à hora que temos disponibilidade ou paciência.

Ontem, saboreei a visita de um "rapaz" da minha geração, de uma qualidade ímpar e que manteve uma conversa gostosa, calma, sem presunção nem "bicos de pés", ao contrário dos muitos que por aí aparecem a gesticular e a vedetar.

Grande Fausto! Lembra-me um sonho lindo, quase acabado ...

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Dúvida primaveril

A Primavera está ensombrada, confinada, envergonhada, embalada, acinzentada e muito pouco azulada. Que estopada!

O chapéu-de-chuva riu-se, fez birrinha, não se abriu de imediato, criou algum nervosismo e deixou que os grossos pingos caíssem, com estrondo e desconforto, sobre os brancos cabelos cuja proprietária cabeça já se tinha convencido que o tempo da chuva era passado ou teria feito a emigração costumeira para o outro hemisfério.

- Está tão negro! Parece Inverno! Que inferno!

O vento sopra, não com a intensidade de Dezembro mas, ainda assim, criando desconforto nos braços e no peito, zonas desprotegidas por ausência do "capote invernal".

A dúvida, metódica, instala-se: Estará o Verão com receio do coronavírus?

domingo, 9 de maio de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Foi-me oferecido por um amigo, comemorando o meu recente aniversário. É um livro para quem tem "o vício dos livros" e, lido, vai juntar-se aos restantes do mesmo autor, escritor da "nova vaga" de quem já li vários e de quem gosto muito.

LIBERDADE

Num jardim público, na cidade do Kuwait, algumas mulheres completamente cobertas, vestidas de negro (de niqab) faziam jogging com uma pequena carteira a tiracolo e umas sapatilhas coloridas de marca (a única coisa visível, além da carteira). Habitualmente, o clima não é propício a qualquer actividade ao ar livre: no Verão chegam a estar sessenta graus. Estávamos em Dezembro, por isso, era possível correr nos jardins.

Ali, o ar livre é, durante uma boa parte do ano, uma miragem no deserto, e as pessoas vivem cercadas de ar condicionado, dentro de edifícios de escritórios, arranha-céus, centros comerciais, automóveis, por isso, andar pelas ruas é uma espécie de luxo confinado a uma temporada curta, tão curta que não é capaz de cimentar rotinas, apesar das tentativas.

Caminhei pelo centro da cidade com uma escritora, bastante famosa no mundo árabe, que havia conhecido dias antes e que, ao contrário da esmagadora maioria das mulheres suas conterrâneas, usava calças e os cabelos destapados. No souq, passamos por uma loja que tinha roupas penduradas à porta. Ela apontou para essas roupas, daquelas que tapam, todo o corpo, e disse: "já fui uma mulher destas".

Tinha sido casada, durante mais de uma década, com um homem de uma família muito conservadora, teve dois filhos e depois divorciou-se. O que aconteceu? perguntei eu, e ela respondeu que se libertou. Como? Insisti.

- Comecei a ler e libertei-me.

Afonso Cruz
O vício dos livros
Companhia das Letras (2021)