quarta-feira, 30 de junho de 2021

Contrato

Até no andar não se fazia notado, apesar de sempre apressado. Mal punha os pés no chão, e mesmo por cima das folhas, o seu caminhar era discreto. Só os mais atentos descortinavam a sua aproximação e nem sempre isso acontecia. Ficava visivelmente satisfeito quando chegava sem ninguém dar por ele.

Era um caçador exímio, senhor de uma pontaria invulgar e conhecia todos os sítios que "cheiravam" a caça, locais de perdizes ou narcejas, galinholas, codornizes ou coelhos. Lebres não, que era espécie que por ali não aparecia. Mesmo trôpego, mantinha a suavidade do andar e o gosto de atirar, no fim já só aos coelhos, que as espécies de penas exigiam mobilidade que já não tinha. Esperava, pacientemente, que o bicho saísse da lura, deixava-o correr alguns metros, disparava um tiro e ... coelho na sacola.

A voz era sussurada e ligeiramente sibilada. Era necessária muita atenção do interlocutor para se perceber o que queria transmitir, mas ninguém se atrevia a pedir-lhe para falar mais alto. Era tempo perdido. Aquele era o seu tom e dele nunca abdicou, quer se dirigisse às gentes mais simples quer à fidalguia.

Contava-se que, quando pediu à noiva que com ele casasse, lhe terá dito:

- Só tem uma condição: não quero que, lá na nossa futura casa, alguém fale mais alto do que eu ...

O contrato foi aceite e permaneceu válido a vida inteira. Naquele lar, nunca ninguém levantou a voz e todos se entendiam sem dificuldade.

terça-feira, 29 de junho de 2021

Vento

Numa manhã de vento, como é costume e já não se estranha, havia poucos pescadores e menos veraneantes. Talvez durante a tarde, uns e outros aumentem, mas não pertenço à "fauna" da tarde. Na ida à aberta, quando o pescador se lamentou do assoreamento da Lagoa que afasta o peixe, por falta de alimento, lembrei-me de Manuel Alegre. Era presença assídua na pescaria e, muitas vezes, a nadar nas águas frias e revoltas que deliciam os que gostam da Foz. Já não aparece. Os anos não perdoam ...

Lembrei-me, também, que Maria Bethânia fez 75 anos em 18 de Junho e que gravou Senhora das Tempestades, belíssimo poema de um excelente livro com o mesmo nome, todo ele dedicado à Foz do Arelho.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Liberdade

O Carlinhos, talvez açoitado pelo vento do Oeste, passou por aqui, numa visita muito rápida, apenas com o intuito de não ser esquecido e por lhe parecer que, de vez em quando, é importante fazer ouvir a sua voz desassombrada e livre.

- Tenho andado a correr mundo, sempre de máscara, claro, a tentar perceber quantos milhões de pessoas ainda não tiveram acesso à vacina Covid. Ninguém sabe ao certo e muito poucos pensam nisso. Desde que haja para mim ... quero lá saber!

Nem me deixou opinar.

- E estou muito preocupado com o teu país, que considero meu e pelo qual nutro muita simpatia e apreço.

E porquê, consegui perguntar.

- Soube, por uma televisão internacional, que há por cá pelo menos uma Câmara que forneceu os dados pessoais dos organizadores de manifestações, às entidades contra quem elas eram dirigidas, incluindo embaixadas de países onde a liberdade não habita ou vive muito mal. Nem quis acreditar, mas confirmei logo depois num outro noticiário.

Pois, parece que sim, disse eu sem grande convicção.

- E vocês não fazem nada? Não protestam, não exigem responsabilidades, encolhem-se?

Está a decorrer um rigoroso inquérito, retorqui.

- Vou-me embora. Tenho mais que fazer. Mas deixa-me que te diga que me desgosta ver o país de Abril tolerar atitudes destas.

Nem me deu tempo de esboçar uma "cotovelada". Correu, desenfreado, gritando à despedida:

- Tem cuidado. Chega sempre alguém que se aproveita e, quando derem por isso, já está instalado. O último durou quase meio século.

domingo, 27 de junho de 2021

Euro 2020

 

Portugal - 0 / Bélgica - 1

No futebol, como na vida, nem sempre ganha quem é melhor.

sábado, 26 de junho de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) - E quem devo anunciar? - Arqueou a sobrancelha esquerda, para olhar de cima aquele despojo endomingado.

   - Mestre Perramon ... Diga-lhe que fui ajudante do maestro da capela da Catedral. E da igreja del Pi ... 

Enquanto falava, ia pensando que mais vale ser cão de casa rica que herdeiro de casa pobre. O lacaio, que também pensava o mesmo, abandonou-o no amplo vestíbulo iluminado pelas janelas que davam para a rua Ample. A vista engasgava-se-lhe com tantas cadeiras, consolas, cornucópias, candeeiros, bibelôs, estatuetas, relógios, cortinas, penas de pavão real, bengaleiros, jarrões de Manises e de cristal de Murano, tapeçarias, quadros cujas molduras eram maiores do que a própria pintura, janelas, escadas, parapeitos de mármore branco com balaústres dourados, bustos de imperadores romanos, do rei Carlos, o outro, o do próprio marquês quando era jovem, esperto, inteligente, simpático e um pouco menos rico, cadeirões forrados com um listado muito elegante e aparente, azulejos que reproduziam arabescos infinitamente complicados, escrivaninhas inúteis com gavetas fechadas, uma armadura solitária e misteriosa, relógios de parede, relógios de mesa, relógios de bolso ... Nunca tinha visto tantas coisas numa só divisão. Sentiu uma tontura ao pensar que aquilo era só o vestíbulo. Então ocorreu-lhe que, talvez, vá-se lá saber porquê, teria sido mais razoável ter batido à porta de serviço. Mas já não havia remédio. Torceu o tricórnio entre as mãos nervosas. Porque é que demorava tanto?

    - Faça o favor de me seguir.

Não se tinha dado conta de que estava diante do lacaio de sobrancelha arrebitada. Mas, pelos vistos, tinha-lhe desaparecido a expressão de desprezo e agora fazia cara de pau. Isto é, o marquês vai  receber-
-me (...)

Sua Senhoria
Jaume Cabré

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Verão

Com atraso, mas chegou!

Finalmente, o Verão arribou à Foz e ofereceu uma manhã de sonho. Sem vento, céu azul e um mar, verde, lindíssimo. A água estava igual a sempre, naturalmente fria, como convém para refrescar as ideias e (re)lembrar que estamos no Oeste e não no Algarve ou nas Caraíbas.

Notava-se o efeito da nova máquina que garante a limpeza do areal e que os trabalhos para a dragagem da Lagoa prosseguem em bom ritmo. Vamos ver o que trará de novo e se resolverá, de forma clara, o problema que, há tantos anos, assola a Lagoa. Não convém esquecer que o mar trabalha sem descanso, sem projectos nem adjudicações e altera completamente a orla de um dia para o outro.

Soube bem! Venham mais dias assim, mas poucos, para não enjoar. Pelas previsões, amanhã volta o "capacete".

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Netos

A festa ainda não pôde ser aberta, sem máscaras nem constrangimentos e, para cúmulo, o pai só esteve presente graças às novas tecnologias, e por pouco tempo, que o trabalho em terras húngaras é exigente e o tempo urge.

O meu neto Duarte faz hoje NOVE anos e, precisando bem, parece que nasceu "ontem". Está um homenzinho, a marcar a sua presença, os seus gostos, a sua vontade, a sua personalidade, o seu futuro que, claro, se deseja risonho e feliz.

E é tão bom vê-los crescer e sentir que, em cada dia que passa, há mais um "tijolo" na construção da sua vida.

Parabéns DUDU, meu querido neto!

quarta-feira, 23 de junho de 2021

EURO 2020

 


PORTUGAL - 2 / França - 2

E agora os oitavos, para tentarmos ganhar à Bélgica!

terça-feira, 22 de junho de 2021

Lógica

Não tem idade, pátria ou morada conhecidas. Nem sequer tem pais e muito menos se conhece a região de onde surgiu. É conhecido em todo o mundo, variando o nome em função da língua que é falada.

Por cá é o Carlinhos. Percebe de tudo, tem opinião fundamentada sobre todas as matérias, domina perfeitamente todos os problemas e tem sempre as soluções na ponta da língua. Poderia, facilmente, ser comentador televisivo e seria disputado a peso de ouro, elevando as audiências a níveis estratosféricos.

Em tempos idos e numa das suas primeiras intervenções, demonstrou a inexistência de lógica, sem recorrer a quaisquer fórmulas matemáticas e utilizando apenas o saber empírico, de tal forma claro que toda a gente entendeu, incluindo a professora que lhe colocou a questão.

- Carlinhos, o que acha da lógica?

- Nada. Eu acho que não há lógica, senhora professora.

- O menino não está bem, Concentre-se, pense, deixe-se de parvoíces e responda.

- Mas eu posso demonstrar, senhora professora. Quando venho para a escola e quando regresso, toco nas campainhas de todos os prédios. Lógico seria que me chamassem o "toca campainhas".

- Claro!

- Não, senhora professora. Gritam "lá vem o malandreco do quinto andar".

A professora nunca mais falou sobre lógica, nem se deve ter esquecido da demonstração.

O Carlinhos manteve a sua pertinácia até aos dias de hoje e há-de voltar com outras, das muitas demonstrações de sapiência que guarda no seu "cofre-forte".

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Verão

Se consultarem o calendário, verão que chegou o Verão; se ouvirem as rádios, virem as televisões e lerem os jornais, verão que chegou o Verão. Verão ainda que hoje, por força do solstício, é o maior dia do ano. 

Se forem à Foz do Arelho verão que o Verão não veio. Terá perdido o comboio? É possível. Se forem à estação, verão que, mesmo no Verão, os comboios são cada vez mais raros e demorados. E, se olharem bem, verão que, mesmo conseguindo um comboio que chegasse às Caldas, o Verão ainda tinha de apanhar um autocarro o que, verão, não é tarefa fácil nesta cidade nem tem nada a ver com o que se passa noutras. Verão, ainda, que o autocarro suportado pela Autarquia para transportar os admiradores do Verão, apenas funciona diariamente no mês de Agosto. Se consultarem o horário, verão que inicia os seus trajectos apenas às 11 horas, porque antes, como verão, nem vale a pena descer ao mar.

Mas voltando à Foz, se lá forem verão que o vento se mantém e verão, também, as bandeiras vermelhas desfraldadas (são 3), numa clara manifestação de gozo pelo que o Benfica (não) fez esta época. Verão ainda que a praia está mais limpa graças à nova máquina adquirida pela Autarquia, que irá trabalhar, a máquina, claro, durante todo o Verão, mesmo que ele não chegue, por estar assim determinado numa lei já bastante antiga, aceite por todos, sempre com a esperança de que o calendário se cumpra.

E verão meia dúzia de pescadores desportivos, a lançarem o isco para o mar revolto. E verão ainda um casal de velhos que, teimosamente, foram à procura do Verão e, talvez por dificuldades naturais da visão, não o encontraram.

Sejam resilientes, como agora se diz a propósito de tudo e de nada. De Verão ou de Inverno, vão sempre à Foz. Verão que vale sempre a pena e, algumas vezes, verão o Sol aparecer por entre o nevoeiro e verão, se levarem um termómetro, que a água, por vezes, quase atinge os 16 graus.

Não haja qualquer dúvida que a Foz vale sempre a pena. Não retenham do que ficou dito qualquer desistência. Nem pensar!

Se lá forem amanhã, verão que é Verão também na Foz.

Hoje era segunda-feira ...