quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Há ...

... mas são verdes!

fruta no Parque, ou melhor, à saída, logo a seguir ao roseiral, no espaço arbóreo que por ali .

Para cumprimento das regras sanitárias, que levar máscara e manter o distanciamento à volta das pessoas, evitando a propagação do vírus que tanto tempo connosco permanece e incomoda a todos, até à Polícia, a quem cabe, muito, a inestimável tarefa de cuidar dos cidadãos.

À entrada para os espectáculos, necessidade de exibir o bilhete electrónico. Quem os tem, chama-lhes seus. Já estão esgotados muito tempo e não sítio nenhum onde ainda estejam à venda. Ah! Olha a admiração, tem gente que não assiste a um espectáculo, de borla, quase dois anos.

Também cinema na Praça da Universidade, da qual só sobrou a Sénior. Um dia, quem sabe, a Universidade voltará à Praça e todos lembrarão que, muitos anos, houve por ali um estabelecimento universitário do ensino privado que lhe deu o nome, houve muitos alunos que lá obtiveram o canudo e de alguns já não se ouve falar muito.

, seguramente, muitas mais notícias da terrinha, que cada vez mais se preocupa com o progresso e a cultura, seguindo de perto os concelhos vizinhos de Óbidos e Alcobaça, nos quais tradição para as coisas que giram à volta do saber.

Em Óbidos, ou mais concretamente na Amoreira, mais um espaço cultural dedicado aos livros e o seu nome faz jus à finalidade de divulgar a Língua Portuguesa. A preocupação deve ter sido tornar o espaço apelativo para a multidão de turistas que, todos os anos, visitam a Amoreira, e também a todos os que por lá residem e não estão familiarizados com as expressões actualmente na moda. À biblioteca, que foi hoje inaugurada, foi dado o nome de Little Free Library, nome que tresanda à inspiração em Aquilino, Eça, Camões, Pessoa, para só citar alguns. 

por aí tanta gente a fazer, a dizer e a escrever asneiras, que mais um não deve fazer diferença às pessoas, poucas, que isto leram até ao fim.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Palavras perdidas

- No rés-do-chão era o consultório de uma parteira que fazia abortos.

- Desmanchos. Nesse tempo eram desmanchos. Abortar era completamente proibido ...

Hoje ninguém utiliza o termo desmancho e o mais provável é haver uma quantidade enorme de pessoas que nem sabe o que significa. A língua é viva, transforma-se, cria, muda, elimina.

O aparo desapareceu, não se usa o apara-lápis e a caneta de tinta permanente pertence a alguns nostálgicos que ainda compram, procurando muito, um frasco de Parker Super Quink. Já ninguém trabalha de sol a sol e, por isso, não cresta, felizmente. A jorna foi promovida a ordenado, mesmo que o trabalho se mantenha em duas ou três jeiras de terra que, agora, produz morangos, beringelas ou courgettes durante todo o ano. Ainda há repolhos, couves-de-cortar, alfaces e feijão-verde, mas a rúcula e os brócolos estão a conquistar espaço.

Acabaram os contínuos e telefonistas também não existem mais. O taberneiro desapareceu e levou consigo o copo-de-três. Só alguns velhos ainda jogam à malha, ao dominó, à sueca e à bisca lambida. O sete-e-meio e a lerpa deram de frosques e nunca mais alguém os viu. Agora toma-se um drink e joga-se na consola e no ipad.

O barbeiro está em vias de extinção, substituído pela barber shop e a brilhantina eclipsou-se. Já ninguém manda pôr meias-solas ou sabe o que é uma galiqueira ou esquentamento. Todos levaram o caminho de nenhures, fazendo companhia ao garrotilho. A nora e os alcatruzes partiram em busca da cegonha, ou picota, deixando os poços à mercê das silvas, por já ninguém regar de pé-posto. Também já não há quem vá ao latoeiro comprar um cabaço para regar a horta e serão excepções os que sabem que o fogareiro tanto podia assar as sardinhas como cozer as batatas. Houvesse petróleo para o manter e álcool desnaturado para o acender ...

Tudo isto acontece porque estas palavras (e muitas outras) deixaram de ser impactantes para a sociedade e não tiveram a resiliência suficiente para se manterem à tona. Quem diria!

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Consulta

O Carlinhos teve, desde criança, o Manelinho como o seu melhor e dedicado amigo. Cresceram na mesma rua, brincaram juntos às escondidas, jogaram à bola e ao berlinde, subiram as mesmas árvores, espreitaram os mesmos ninhos, frequentaram a mesma turma na primária e tiveram igual sorte no liceu.

No final do sétimo ano, fizeram as suas escolhas e, enquanto o Carlinhos optou pela Medicina, no Porto, o Manelinho preferiu a Veterinária, em Lisboa. A amizade permaneceu intocável, ainda que os encontros fossem rareando e se limitassem a alguns fins de semana e às férias. À medida que os estudos evoluíam, as discussões aumentavam e nunca havia acordo.

- Eu estudo para salvar vidas humanas, tarefa dificílima mas de uma nobreza enorme, argumentava o Carlinhos.

- Sem comparação com a minha. Os animais não se queixam. É preciso entender, estudar, analisar, perceber o que se passa, sem ouvir sequer uma palavra, devolvia o Manelinho.

As diferenças e a valia de um ou do outro curso mantiveram-se durante os anos de formatura e prosseguiram quando ambos iniciaram as respectivas actividades profissionais. Discutiam a utilidade e a dificuldade sem nunca chegarem a acordo, preservando sempre a amizade como bem acima de qualquer discordância.

Um dia (há sempre um dia), Manelinho sentiu-se mal, com dores no corpo, náuseas, cansaço, suores frios, dificuldades na respiração. Resolveu telefonar ao amigo.

- Preciso de uma consulta, com urgência.

- Dentro de 10 minutos, no meu consultório. 

Ainda não tinham passado os 10 minutos e o Carlinhos já tinha a bata vestida, o estetoscópio ao pescoço,  o medidor da tensão arterial a postos e o Manelinho sentado à sua frente.

- Conta lá o que se passa.

- Não, isso não. Não te vou dizer nada. Examina, analisa, faz o que quiseres, mas vais descobrir por ti, sem uma palavra minha. É assim que eu faço com os meus doentes, que não sabem falar.

Carlinhos não se fez rogado. Auscultou, examinou, apalpou, mediu, espreitou, numa consulta longa, dedicada e atenta. No fim, pesaroso, decidiu:

- Nada a fazer. Abate-se! 

domingo, 15 de agosto de 2021

Melhores dias

Cumprida que está a primeira quinzena de Agosto, resta esperar que o calor diminua no interior, de forma a que possamos sentir melhorias no tempo oestino.

É forçoso que assim aconteça, para que não haja (ou haja poucos) fogos - ignições, como referem sempre os responsáveis - e para que se possa usufruir da praia, com pouco vento e algum sol. A água fria não preocupa nada, tão habitual se tornou.

Entretanto, nos últimos dias temos tido notícias do avanço dos "talibãs" no Afeganistão (ao que parece já estarão a entrar em Cabul), de (mais) um violento sismo no Haiti e, cá por este cantinho, ontem à noite, meia dúzia de malcriados quiseram enxovalhar o homem responsável pela vacinação, Almirante Gouveia e Melo, pessoa que eu não conheço nem me passou procuração para o defender.  Valeu-lhes, na minha opinião, que o homem, para além da competência, tem muita paciência. Se assim não fosse, aquela gentinha teria experimentado uma boa palmada, apesar de nem cara terem para a saborear.

sábado, 14 de agosto de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Como sou um "garfo" de eleição e um chef de cuisine de primeira água, fiquei fascinado com a descrição de um banquete no qual participou a protagonista do livro. Julgo que seria da mais elementar justiça uma dedicatória especial para a minha pessoa, pelas características referidas no início e por conhecer a maior parte das iguarias sem sequer ir ao dicionário (para quê?).


(...) "América limitou-se a amostrar ao acaso a panóplia exposta à sua frente. Havia peixinhos da horta com bechamel, rodelas de enchido catalão em pão de centeio, salada de endívias, croquetes de javali e cominhos, puré de lentilhas e pimentão, queijo de Serpa com broa, queijo de Azeitão, queijo Brie de Meaux, queijo Camembert da Normandia, queijo Cheddar, queijo Caerphilly, morcela com pêra Williams cozida com leite, boqueirões em vinagre, mexilhões com abacate, salada de cuscuz e cavala, ostras de Oléron, salada de tofu com brócolos, arenque fumado com sumo de lima e bagas de pimenta vermelha, papadums com chutney de tamarindo, bola de Sanfins, cascas de batata com manteiga salgada da Bretanha, um gazpacho branco com amêndoas e alho de Málaga, sopa de rabo de boi com vinho da Madeira, vichyssoise com batatas novas, polenta à moda da Lombardia, com cogumelos porcini, meloa com iogurte e vagem de baunilha, gambas fritas com chalotas, favas com torresmos, tâmaras com presunto fumado da Baviera, crepes de legumes e açafrão, rúcula selvagem com ricotta e gomos de toranja, folhados de trufas e alho francês, lascas de presunto de Chaves, húmus e ovas de carpa; havia bacalhau com natas, bacalhau à Brás, bacalhau à lagareiro, bacalhau com broa, bacalhau com molho aioli e feijão verde, aspic de camarão de Moçambique, truta salmonada no forno com cajus e vinho branco, empadas de caranguejo, postas de espadarte grelhadas, bifes de atum com funcho, arroz de tamboril, pataniscas com arroz de feijão, sashimi de lula e salmão com sopa de miso, enguias salteadas com mostarda e cherne estufado em vinagre balsâmico; havia vol-au-vent de perdiz com gratin de batata-doce perfumado com anis, feijoada à transmontana, leitão da Bairrada, arroz de capão, pernas de pato caramelizadas, coq au vin, muamba de galinha, porco assado com líchias, língua de vitela com esparregado de grelos, penne all'arrabiata, ganso com recheio de avelãs, lombo frio lardeado com pancetta, vindaloo de borrego, coelho à caçadora, fricassé de galinhola, espetada de moelas de galinha e manga, ovos de codorniz escalfados com farinheira, risoto de peru, chanfana de cabrito, medalhões de porco com rosmaninho, alheira de caça com batata-palha, salsichas de porco e alho francês, migas à alentejana, paella à valenciana, choucroute à alsaciana, sela de veado com molho de hortelã, bife à Marrare; havia bavaroise de alperce com pepitas de noz-pecã, bolo de mel de cana da Madeira, pastéis de Tentúgal, pastéis de Belém, barrigas de freira, farófias, leite-creme queimado, arroz-doce, aletria, sericaia, arrepiados de amêndoa, Sachertorte, tiramisu, melancia recheada com gelado de baunilha, sorvete de ginja e lima, panna cotta com coulis de medronhos, bolo de bolacha, semifrio com calda de rum, mousse de chocolate branco, mousse de caramelo,  mousse de banana, dom-rodrigos, fatias de Tomar, maçapão colorido e moldado em forma de coleópteros e lepidópteros, bolo-rei, tarte de abóbora-menina, tarte de figo pingo-de-mel, suspiros, tigeladas, turrón de Alicante, profiteroles, Paris-Brest, peras cozidas em leite de coco e bolo brigadeiro; havia maçãs bravo-esmolfe, maçãs Pink Lady, maçãs Golden, maçãs Granny Smith, peras Rocha, peras Williams, uvas moscatéis, cerejas Burlat, cerejas Griotte, morangos, framboesas, groselhas, arandos, amoras, tamarindos, tangerinas, toranjas rosas, kiwis, mangas, papaias, ananases, abacaxis, anonas, acerolas, damascos, romãs, maracujás, líchias, melões, meloas, figos e dióspiros. Havia, dispostos em mesas compridas encostadas às paredes, garrafas e jarros contendo água mineral com e sem gás, água tónica, chá gelado, guaraná, ginger ale, sumos de fruta, salsaparrilha, cerveja pilsner, cerveja preta, sangria, vinho do Alentejo, do Dão, do Douro, do Ribatejo, clarete, lambrusco, amontillado, vinho de Borgonha, vinho Tokaj, vinho Riesling, chianti, aguardente, licor de amora, licor de menta, licor Beirão, licor de café, vodka, whisky, gin e anis escarchado. Copos de margarita, com grossas camadas de sal esmagado coladas ao bordo, preenchiam os espaços vazios.

Com o seu prato cheio cuidadosamente equilibrado na mão esquerda, América retirou-se com intenção de encontrar um canto tranquilo onde pudesse comer sem ser chamada a qualquer interacção social."(...)

A prima do campo e a coisa pública
Alexandre Andrade

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Viagem solar

Nasceu lá no Este europeu e mandou avisar toda a gente de que traria calor para esturricar os corpos, mesmo aqueles que já são castanhos de natureza. Os serviços de meteorologia e os orgãos de comunicação social, sempre muito atentos, difundiram a boa nova e os avisos com cores, alertando todos os veraneantes para os inconvenientes da exposição solar e os trabalhadores agrícolas para as proibições que estão em vigor, nos trabalhos e nas queimadas.

O Sol veio no TGV até Vilar Formoso, tomou lugar no Intercidades e desceu a Santarém num instante. Estava convencido que aí poderia apanhar uma outra composição com destino ao Oeste e que seria um pulinho até chegar à praia. Consultou os avisos, espreitou os mapas e nada, não encontrou nada. Ficou perplexo. Procurou o Chefe da Estação e indagou como poderia prosseguir a viagem.

- Só na Rodoviária e não vai ser fácil. Mas tente!

Conseguiu lugar num autocarro até Rio Maior e, cansado da viagem e dos transbordos, ficou por ali. Afinal de contas, a cidade é pacata e engraçada, até tem minas de sal, e os tipos lá do Oeste, que não se preocupam em arranjar comboios em condições, que esperem sentados.

Talvez amanhã ... ou na próxima semana! Tudo vai depender de as nuvens chegarem (ou não) a Rio Maior.

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Palavras bonitas

Buarcos, 20 de Agosto de 1937

Um pinheiro.
Olho esta vida aqui no areal, 
Serena, ao vento, ao sol e ao cheiro
Deste mar animal;
 
Meço-lhe o pé seguro,
A largura dos braços e a certeza
Que tem de cima abaixo de ser duro
Conforme lhe mandou a natureza; 
 
E deito-me à sombra dele, no chão, 
- No mesmo chão onde eu não pude ser
Nada mais que um bicho anão
A gemer. 

Diário I
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1989)

(Nota: Miguel Torga, pseudónimo do médico Adolfo Correia da Rocha, nasceu a 12 de Agosto de 1907)

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Ciclismo

A Volta a Portugal em Bicicleta está a decorrer desde 4 deste mês e, de acordo com o calendário fixado, deverá terminar em Viseu, no próximo domingo, dia 15. Todavia, o malfadado "bicho" que nos acompanha há quase dois anos, poderá fazer mais estragos do que os já feitos e impedir, até, que a corrida chegue ao fim,

De acordo com as regras, como dizia hoje, bastante emocionado, o director da equipa Rádio Popular/Boavista, vamos para casa porque temos mais um caso positivo e, ao segundo caso, a equipa tem de abandonar a prova.

E, com esta, já lá vão três equipas das dezoito que iniciaram. Esperemos que fique por aqui, para que a competição, já fortemente afectada, chegue pelo menos ao fim. 

Conseguiremos, um dia, vermo-nos livres desta maldição? O meu médico de família disse-me hoje que, na próxima consulta, marcada para daqui a seis meses, ainda ambos usaremos máscara. Perspectiva animadora ...

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Actualidade

Vivemos tempos difíceis e bem diferentes.

Logo pela manhã, a notícia de que a PSP inicia uma operação para detectar casos de fragilidade social e uma outra para controlar os excessos de velocidade. Pergunta inocente: mas isto não faz parte da actividade policial durante o ano inteiro?

Uma espreitadela pelas primeiras páginas dos jornais e salta à vista a foto em bikini da Ministra da Saúde, passeando numa praia algarvia com o marido. Notícia assim e na primeira página só poderia ser nesse arremedo de jornal que se chama a si próprio de Correio do tempo em que sai. Pergunta inocente: adianta alguma coisa à governação, aos governados ou à melhoria "covidiana"?.

Ainda de manhã, um diálogo curioso:

- Já não somos vizinhos. Fomos ontem para a casa nova.

- Então agora vêm as criancinhas ...

- Nem pensar! Temos o cão e chega. Já ladra muito ...

Uns "caramelos" de Vila Real deram notícia, pelas redes sociais, de que um tal André "está doente" mas que "A Nossa Senhora de Fátima está com ele e não vai permitir que um dos seus escolhidos sucumba a uma doença criada na China para destruir o (...)". Quem lhes espetasse um pano encharcado nas trombas ou, como diria uma antiga professora minha, "valha-lhes um burro aos coices e três aos pontapés."