sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Nos últimos dias de Outubro, ainda fazia calor: o ar sabia a algas e a flores; e as senhoras que passavam sob o balcão de Anania vestiam de musseline e de tecidos leves. Afigurava-se-lhe encontrar-se num país encantado, e o ar balsâmico e enervante, e as comodidades novas do seu quarto, e as doçuras da nova vida, davam-lhe uma sensação de moleza e languidez. Foi invadido por uma espécie de sonolência voluptuosa: tudo lhe parecia belo e grande, e, ao recordar o lagar e as sujas figuras que nele se juntavam, perguntava a si próprio como pudera viver lá durante tanto tempo. A vida humilde dos seus próprios vizinhos continuava decerto o seu curso melancólico, enquanto aqui, nos cafés, resplandecente e, nas ruas luminosas, nas altas casas batidas pelo sol, pelo vento e pelo reflexo do mar, tudo era luz, alegria, poesia.

A chegada da primeira carta de Margherita aumentou a sua alegria de viver: era uma cartinha simples e terna, escrita numa grande folha de papel branco, numa letra redonda, quase masculina. Na verdade, Anania esperava uma carta azul, com uma flor metida num envelope; no primeiro instante, pareceu-lhe que Margherita quisera fazer-lhe sentir a sua superioridade e mostrar o desejo de o dominar; mas depois, pelas expressões simples e afectuosas da rapariga, que parecia continuar com aquela carta uma longa e ininterrupta correspondência, apercebeu-se de que ela o amava sinceramente, com ingenuidade e com força, e experimentou uma doçura inexprimível.

Ela escrevia:

Todas as noites fico longas horas à janela, e parece-me que tu vais passar de um momento para o outro, como costumavas fazer antes da tua partida. Entristece-me muito esta separação, mas consolo-me pensando que tu estudas e preparas o nosso futuro.

Depois indicava-lhe para onde deveria dirigir a resposta, e pedia-lhe o maior segredo, porque era natural que a família dela, se viesse a ter conhecimento do seu amor, o contrariasse.(...)" 

Cinzas
Grazia Deledda
Sibila Publicações (2018)

Nota: Excerto de um romance escrito em 1904, pela primeira escritora italiana galardoada com o Prémio Nobel da Literatura, em 1926.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Peixe-aranha

Há três dias seguidos que a Foz nos brinda com mar calmo, ausência de vento e água quentinha, a rondar os dezasseis graus, de acordo com as entidades que disso sabem. Parece o Algarve ... para quem está habituado a senti-la "cortar" os artelhos.

Começa-se a estranhar e a comentar que deve haver lapso do S. Pedro e que, "amanhã", já deveremos saudar o regresso ao velho normal do vento, nevoeiro, pouco sol e mar bruto. A ver vamos ...

Com esta situação meteorológica, até o peixe-aranha resolveu dar um ar da sua graça e passar por aqui, para que nos lembremos dele. Cobarde como é, estava escondido na areia, sem ninguém dar por ele, nem sequer a dona da Casa, que costuma estar atenta a tudo e ter um sexto sentido para os perigos.

- Ai que já fui mordida por um peixe-aranha.

Havia médico e enfermeira no grupo, o que garantia a eficácia do socorro, se tal fosse necessário.

- Tens de ir ao banheiro. Eles têm um spray e, depois, mergulhas o pé em água quente durante quinze minutos e passa.

Até o médico tem o vocabulário desactualizado. Agora banheiro só no português do Brasil, para designar o local onde se escrevem as "cartas ao António". Os técnicos que garantem a vigilância nas praias são nadadores-salvadores.

O Posto de Socorros fica longe das rochas e o caminho foi feito, com a pressa possível e o esgar próprio de quem tem dores agudas. Simpático, o nadador-salvador pôs em prática tudo o que tinha sido antecipado por quem "sabe da poda". O pé ficou novo ...

O peixe-aranha, entretanto, já deve ter tomado o caminho do Algarve, prevenindo o esperado arrefecimento da água na Foz.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Evidências

O creme de barbear é verde, perguntou o meu interlocutor de todas as manhãs, olhando-me de frente, bem nos olhos e com um ar de dúvida sobre o que estava a ver. Verbalizou o pensamento e o espanto que me assaltavam, eu que tinha ido à prateleira do supermercado e trazido aquela embalagem sem me preocupar sequer em ler o que ela tinha escrito. As letras não eram muito grandes e os óculos estavam em casa, onde são absolutamente necessários para ler as pequeninas. 

Peguei na embalagem e lá estava a explicação: gel de barbear e não creme nem espuma. Experimentei espalhar pela cara o bocadinho de massa verde que permanecia no dedo e, milagre, passou de imediato a espuma branca, explodindo por todo o lado e deixando a mão com uma quantidade enorme. Amanhã vou ter mais cuidado a carregar, para não haver desperdício. É feio.

O interlocutor do espelho ainda não tinha recuperado da surpresa. Ele, que se lembrava bem dos primórdios, do pincel sobre o sabão, da lâmina larga que exigia muito cuidado ao ser colocada na gillette, do salto para a bisnaga de creme mantendo a actividade do pincel, via agora este gel verdinho e fresco a espalhar-se pela cara toda com grande facilidade.

Matreiro e com o segundo sentido sempre na ponta da língua, não resistiu:

- Não percebo para que guardas aí o pincel. Podes deitá-lo fora. Já não serve para nada ...

Claro que ele tem razão, mas prefiro manter aquilo que me foi útil durante tantos anos. E o tubo do creme Palmolive ainda tem algum. Nunca se sabe se o gel não acaba de repente. 

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

domingo, 22 de agosto de 2021

Repetição

O esplêndido dia de praia de ontem terminou com uma combinação de grupo, para executar na manhã de hoje.

- O primeiro banho de amanhã vai ser nas rochas. É maré vazia por volta das nove e meia e vai dar.

Cada um foi à sua vida, ainda a digerir a beleza do mar, a doçura das ondas, a ausência do vento, o calor abençoado do sol. Ninguém se lembrou de ligar ao S. Pedro, participando-lhe a decisão, obtendo a sua anuência e a necessária e fundamental colaboração. Resultado desta má programação: não houve passeio na praia, muito menos banho (o mar não se via) e nem sequer a areia foi pisada.

O Sol não apareceu, o vento regressou, o nevoeiro "poisou" e tapou o mar, houve pinguinhos para molhar o cabelo. Como sempre na Foz, não há planos que resistam vinte e quatro horas. Dois dias seguidos bons é quase tão raro como ganhar o Euromilhões.

Mas não se perdeu tudo. Abrigados da nortada pela parede da antiga discoteca, que foi depois restaurante e agora só tem no interior as mesas e as cadeiras, permanecendo fechada há anos, discorreu-se sobre o antigamente, as figuras e os figurões da cidade, o como e o porquê de quando éramos novos, com apelos à memória a cada momento.

- Lembras-te? Como é que ele se chamava? Era jeitoso ...

A conclusão, brilhante, foi de que tudo desse tempo teve muita piada e agora já não há nada disso!

Porque será que os velhos não conseguem manter uma conversa que não descambe, inevitavelmente, no "nosso tempo"? 

Valeram as anedotas, algumas bem picantes, sempre antecedidas das desculpas devidas às senhoras presentes, porque nenhum dos participantes é malcriado e há "estórias" que têm mesmo de ser contadas com pormenor ... 

sábado, 21 de agosto de 2021

Raridade

Espectacular.

Céu azul, vento de férias, mar chão, calor quanto baste, água aí pelos quinze graus, para não escaldar.

Não acontece muitas vezes mas, nestes dias, a Foz é única. Até a "aberta" estava diferente. O "empreiteiro" da areia trabalhou a noite toda e deu nova aparência à paisagem, para surpreender quem visita.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Loja

Decidida, vestida de forma fresca, como convém estar para o calor que ainda faz quase no final da tarde, não deverá ser quarentona, mas andará perto. Ao seu lado, com algumas dificuldades em acompanhar o ritmo da passada, um marido, namorado, amigo colorido ou similar, seguramente sexagenário. Leva os medicamentos que foram adquirir na farmácia de onde saíram.

Ela determina, alto e sem admissão de réplica, naquele sotaque açucarado que só há no português do Brasil:

- Agora vou na loja. "'cê" espera no carro. Não devo "demorá".

- Não pode ficar para amanhã?

O comando abriu o carro. Ela sentou-se ao volante e ele "pendurou-se". O motor ouviu-se e o Renault seguiu viagem.

Não soube onde era a loja, mas fiquei curioso ...

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Há ...

... mas são verdes!

fruta no Parque, ou melhor, à saída, logo a seguir ao roseiral, no espaço arbóreo que por ali .

Para cumprimento das regras sanitárias, que levar máscara e manter o distanciamento à volta das pessoas, evitando a propagação do vírus que tanto tempo connosco permanece e incomoda a todos, até à Polícia, a quem cabe, muito, a inestimável tarefa de cuidar dos cidadãos.

À entrada para os espectáculos, necessidade de exibir o bilhete electrónico. Quem os tem, chama-lhes seus. Já estão esgotados muito tempo e não sítio nenhum onde ainda estejam à venda. Ah! Olha a admiração, tem gente que não assiste a um espectáculo, de borla, quase dois anos.

Também cinema na Praça da Universidade, da qual só sobrou a Sénior. Um dia, quem sabe, a Universidade voltará à Praça e todos lembrarão que, muitos anos, houve por ali um estabelecimento universitário do ensino privado que lhe deu o nome, houve muitos alunos que lá obtiveram o canudo e de alguns já não se ouve falar muito.

, seguramente, muitas mais notícias da terrinha, que cada vez mais se preocupa com o progresso e a cultura, seguindo de perto os concelhos vizinhos de Óbidos e Alcobaça, nos quais tradição para as coisas que giram à volta do saber.

Em Óbidos, ou mais concretamente na Amoreira, mais um espaço cultural dedicado aos livros e o seu nome faz jus à finalidade de divulgar a Língua Portuguesa. A preocupação deve ter sido tornar o espaço apelativo para a multidão de turistas que, todos os anos, visitam a Amoreira, e também a todos os que por lá residem e não estão familiarizados com as expressões actualmente na moda. À biblioteca, que foi hoje inaugurada, foi dado o nome de Little Free Library, nome que tresanda à inspiração em Aquilino, Eça, Camões, Pessoa, para só citar alguns. 

por aí tanta gente a fazer, a dizer e a escrever asneiras, que mais um não deve fazer diferença às pessoas, poucas, que isto leram até ao fim.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Palavras perdidas

- No rés-do-chão era o consultório de uma parteira que fazia abortos.

- Desmanchos. Nesse tempo eram desmanchos. Abortar era completamente proibido ...

Hoje ninguém utiliza o termo desmancho e o mais provável é haver uma quantidade enorme de pessoas que nem sabe o que significa. A língua é viva, transforma-se, cria, muda, elimina.

O aparo desapareceu, não se usa o apara-lápis e a caneta de tinta permanente pertence a alguns nostálgicos que ainda compram, procurando muito, um frasco de Parker Super Quink. Já ninguém trabalha de sol a sol e, por isso, não cresta, felizmente. A jorna foi promovida a ordenado, mesmo que o trabalho se mantenha em duas ou três jeiras de terra que, agora, produz morangos, beringelas ou courgettes durante todo o ano. Ainda há repolhos, couves-de-cortar, alfaces e feijão-verde, mas a rúcula e os brócolos estão a conquistar espaço.

Acabaram os contínuos e telefonistas também não existem mais. O taberneiro desapareceu e levou consigo o copo-de-três. Só alguns velhos ainda jogam à malha, ao dominó, à sueca e à bisca lambida. O sete-e-meio e a lerpa deram de frosques e nunca mais alguém os viu. Agora toma-se um drink e joga-se na consola e no ipad.

O barbeiro está em vias de extinção, substituído pela barber shop e a brilhantina eclipsou-se. Já ninguém manda pôr meias-solas ou sabe o que é uma galiqueira ou esquentamento. Todos levaram o caminho de nenhures, fazendo companhia ao garrotilho. A nora e os alcatruzes partiram em busca da cegonha, ou picota, deixando os poços à mercê das silvas, por já ninguém regar de pé-posto. Também já não há quem vá ao latoeiro comprar um cabaço para regar a horta e serão excepções os que sabem que o fogareiro tanto podia assar as sardinhas como cozer as batatas. Houvesse petróleo para o manter e álcool desnaturado para o acender ...

Tudo isto acontece porque estas palavras (e muitas outras) deixaram de ser impactantes para a sociedade e não tiveram a resiliência suficiente para se manterem à tona. Quem diria!