segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Publicidade

Não faço ideia há quanto tempo o telemóvel tocava. O barulho da lixadeira não deixava ouvir e a sua colocação não permitia ver o écran. Quem trabalha sofre destes imponderáveis ...

Uma pausa permitiu ouvir o toque e verificar o aviso de que era um número não conhecido. Apresentava-se orlado a vermelho, indicando-o como potencialmente perigoso. Mesmo assim, atendi.

- Boa tarde. Faça favor.

- O meu nome é Pedro. Estou a falar com o Sr. ...?

- Sim, sou eu. Diga.

- Estou a ligar-lhe de uma empresa de estudos de mercado. A nossa empresa está a elaborar uma análise sobre os anúncios televisivos e queríamos a sua opinião. São 2 ou 3 minutos, não mais.

- Teria todo o gosto em responder, mas a minha opinião é irrelevante. Não vejo anúncios.

- Muito obrigado e desculpe oi incómodo.

- De nada. Boa tarde.

Não menti nem fui mal educado. Apenas disse a verdade, nua e crua. Quando surgem os anúncios, consigo desligar a "antena" e passam-me todos ao lado, tal como nos jornais e revistas que leio.

sábado, 16 de outubro de 2021

F(o)lio 2021

Um salto a Óbidos, para espreitar o F(o)lio 2021, que abriu na passada quinta-feira, apenas para ter uma ideia de como é este ano.

Muita gente, muitos carros, muita ginja, muitas personalidades, livros, autores, exposições, muita coisa que a "balbúrdia" instalada aconselha a deixar para outra ocasião.

Belas fotografias nas paredes, do "ABC" ao "Visto com os pés, escrito com o olhar", a passagem por Lisboa de Jean Moulin, em 1941, um gelado na Rua Direita, põe a máscara, tira a máscara, conversas a esmo,

- Eu não vou lá acima. Já não tenho idade ... São muitas escadas para chegar à muralha.

- Está quase na hora. Temos de ir para o autocarro.

a banda desfila, com as autoridades locais e visitantes a abrir o cortejo. Os transeuntes encolhem-se que "outros valores mais altos se alevantam" e as ruas são estreitas.

É sempre um prazer ir a Óbidos. Ainda voltarei ao F(o)lio, durante a semana, com calma e sem apertos. O programa tem muita coisa interessante para ver e ouvir e vale sempre a pena.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Escolhas

"Para que seja possível informá-la/o da chegada do seu artigo à Loja ou da entrega e instalação, caso aplicável, do seu artigo na data e horário acordados, os dados de contacto e entrega disponibilizados por si devem estar corretos e completos, sendo o único responsável pela eventual dificuldade ou impossibilidade de notificação ou entrega e instalação, se aplicável, devido a incorrecções ou falta nos dados indicados."

Este é o primeiro parágrafo de um longo documento, de sete pontos principais e umas quantas alíneas em cada ponto, que hoje assinei, naturalmente sem ler, porque as letras são tão miudinhas que, mesmo com óculos, é necessário uma lupa para terem um tamanho legível.

- Assine aqui, por favor.

- Mas eu nem li, nem consigo ler isso. 

- Pois ... mas tem de assinar. Leva um igual e lê lá em casa!

O documento refere-se a um electrodoméstico que há-de ser entregue amanhã e intitula-se "Dados de Contacto, Entrega e Instalação, nos casos aplicáveis". Perora sobre tudo, do "Período de entrega" aos "Dados Pessoais", para salvaguardar qualquer eventualidade de correr mal, situação que estará prevenida numa daquelas milhentas frases que me dispensei de ler, se aplicável.

Se amanhã o homem da entrega for enganado pelo GPS, for parar a outra rua ou não conseguir entender-se com as alterações resultantes das obras que por aqui ainda decorrem, a situação estará prevista naquele arrazoado, será por culpa minha, e terei de arcar com 25,00 € pela impossibilidade da efectivação do serviço.

Com isto se obtêm ganhos significativos na produtividade, e se evitam quaisquer litígios entre a empresa e o cliente.

Podia ter optado por fazer o levantamento na loja, adquirindo, e trazendo, um dos que lá estavam. Já não assinaria o papel ...

A escolha, boa ou má, foi minha, claro que foi!

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Orçamento

Passa, não passa, talvez sim, talvez não, pode haver crise ou não. Sim ou não, eis a questão.

Marcelo, avisa, Costa, adverte, Jerónimo, lembra, Catarina, ralha, Francisco, diz não e Rio, nem pensar. Há ainda mais uns quantos actores, mas limitados à esquerda baixa e a umas entradas fugazes na peça. São meros figurantes que ficam em rodapé no cartaz.

Já tínhamos saudades destas cavaqueiras amenas, que nos transmitem segurança e paz de espírito, e nos mobilizam para encarar o futuro com tranquilidade e esperança. Todos temos consciência que o nosso dia a dia depende do acerto das previsões orçamentadas, tal como se tem verificado nos anos passados, e desde sempre.

Se tivesse paciência e tempo, coisas que me vão faltando cada vez mais, talvez um dia destes me desse ao trabalho, ciclópico, de comparar os valores orçamentados e os efectivamente verificados. O mais provável era o resultado dar uma tese de licenciatura, que poderia vir a ser complementada com um doutoramento subordinado ao tema "Causas e consequências dos falhanços verificados".

Há dias em que o cérebro não funciona direito e só divaga. Será do calor?

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Cá vamos indo ...

O céu mantém-se limpo e a temperatura faz inveja a muitos dias de Verão cá do cantinho oestino, que nunca é pródigo em calor intenso e onde não se diz: está cá uma brasa!

A caminhada na manhã de hoje trouxe o suor à testa, evidenciando não a dureza do ritmo, antes a temperatura alta e ausência do vento habitual, que conhecemos tão bem e que adoramos. Apesar disso, as conversas fluíram e resolveram-se muitos assuntos, com as certezas do costume. 

A vida de quem já não está de férias vai voltando à correria normal e a casa deixou de ser, felizmente para uns e o contrário para outros, o local de trabalho que a pandemia implantou; os autarcas eleitos vão tomando posse e espera-se muito da sua prometida genica e empenhamento; a selecção de Portugal deu ontem cinco ao Luxemburgo, em jogo que nem deu para sentir os nervos costumeiros; os números da pandemia diminuem mas os mais pessimistas, entre os quais me incluo, ainda se mantêm preocupados; o vulcão das Canárias já não abre telejornais mas continua a semear desgraça na ilha; o orçamento do Estado foi apresentado, abre todos os noticiários e dá o mote para todos os cenários, apesar de a grande maioria não entender nada daqueles números enormes e complexos que, afinal, não passam de previsões. E se?

Paulatinamente, tudo regressa ao ramerrame e o Natal já está aí à porta. A empresa das iluminações já levanta tubos, estende arames, monta arcos na cidade, para lembrar o consumo e a tão necessária recuperação da economia.

Preocupante, apenas um pequeno facto: parece que os quadros de Rendeiro, dos quais a "Rendeira" é fiel depositária, podem afinal ser falsos e não valerem nada. É uma grande chatice para o homem, que fez a compra e foi enganado, para o falsário, que incorre num crime muito grave e para os credores, que contavam com aquela fortuna e, afinal, a pólvora deu mijarete. 

Com tantos problemas, como há-de a justiça ser célere.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Palavras bonitas

DESOBEDIÊNCIA

Por vezes vejo
Lilith
com sua saia de lã

e casaco de retrós

ou um vestido de noite
todo coberto de nós
que desata um por um

Por vezes vejo
Lilith
pé ante pé no porvir

desobedecendo
... a sorrir

Maria Teresa Horta
Estranhezas
D. Quixote(2018)

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Tarefas

- Os carros precisam de ser lavados ...

Antes que o calor aperte (parece Agosto), balde na mão, cheio de água misturada com o material indicado para fazer espuma, esponja e demais apetrechos necessários, tocou à limpeza.

- Mas porque se sujam os carros? E qual a necessidade de serem lavados? 

- Lá estás tu com desculpas e argumentações da treta. O branco está quase preto e o cinzento para lá caminha.

Ficam sempre na garagem, cada vez andam menos, já era tempo de se bastarem a si próprios e se lavarem sozinhos. É o que eu faço todos os dias e sou muito mais velho. Por mais alto que pense, eles não ouvem nem querem saber.

Aqueles mosquitos que são "atropelados" e ficam no capot e na chapa de matrícula são difíceis de tirar. E as jantes, principalmente as da frente, estão negras daquele pó que os calços de travão vão soltando e a elas se cola. 

Que trabalheira! Com tantos sítios para lavar carros espalhados pela cidade, estes tinham de escolher o meu quintal para o banho imprescindível.

No final da tarefa, o sol já apertava e ajudava a secar aquelas duas viaturas que, de imundas, passaram a duas "beldades" limpinhas. Já "ganhei" vinte euros, pelo menos!

domingo, 10 de outubro de 2021

Multibanco

Parece estar provado que os sonhos fazem parte das noites de cada um e que, na maior parte das vezes, as pessoas têm uma vaga ideia de terem sonhado, faltam pormenores à descrição lembrada, não há jeito nem lógica no que se recorda.

Fico contente por não fugir à regra e de sonhar e também não me recordar, com um mínimo de consistência, da composição elaborada durante a noite bem dormida.

Desta vez não foi assim: estava junto a uma ATM e nem tinha sido preciso colocar o cartão, quanto mais digitar o código e aguardar vendo o boneco; a máquina despejava-me um montão de notas, todas de 10 Euros, e não havia mãos a medir nem velocidade para acompanhar aquele ritmo incessante. Desisti. As notas eram tantas, tantas, que os bolsos não chegavam para as guardar e havia pessoas a aguardar que me despachasse.

Um lampejo de inteligência, difuso, lembrou-me: estou a correr riscos sem necessidade. São notas de 10, muita parra e pouca uva, ainda aparece um polícia e, ou me deixo prender, ou fujo para o Belize, para acompanhar o Rendeiro. Não quero ... e abandonei o local, deixando lá as notas, sem verificar se o "anão" da máquina as tinha recolhido.

Já bem acordado, disse para mim: sonho mais estúpido, como são todos, afinal. Ainda para mais, eu já nem uso cartão multibanco para levantar a massa. O telemóvel trata disso e é muito mais simples.

sábado, 9 de outubro de 2021

Outono

O Outono a chegar.

Conclusão tirada não porque o tempo esteja agreste, a ventania se não suporte ou as bátegas nos encharquem, mesmo de gabardina e umbrela.

Nada disso! A um sábado de manhã, com o sol meio envergonhado mas uma temperatura bem agradável, não havia ninguém a passear no areal da Foz, apesar da maré vazia, enorme, e com altura inferior a um metro, nada comum neste mar.

Os pescadores do costume, uns a dar banho à minhoca, outros "catando" polvos nas rochas, com um equilíbrio instável de fazer inveja a quem já tem tremeliques. A água, quase morna, também contrariando o que é hábito, a nortada ausente e pessoas a desfrutarem de toda esta beleza, népia.

Os "cãezinhos-rocha" espreitavam e devem ter ficado desiludidos por não terem público a apreciá-los, eles a quem este mar raramente dá a oportunidade de aparecerem tão fogosos aos olhos de quem por ali passa.