domingo, 24 de outubro de 2021

Mercearia e fanqueiro

A loja era enorme, pelo menos aos olhos de quem era pequeno. Vendia tudo e tinha, escrito a letras douradas num vidro preto que encimava os armários, o nome da firma e o seu negócio: mercearia e fanqueiro.

À entrada, do lado esquerdo, as tulhas da aveia, das sêmeas, do milho, e o corredor de lata, utilizado para encher o saco dos clientes. O balcão, de madeira trabalhada e envernizada, ocupava toda a largura da loja. Era altíssimo. Tão alto que os olhos só conseguiam ver o lado de lá se o curioso se pusesse em bicos de pés. O tampo também era de madeira, mas só até mais ou menos ao meio. Mudava para mármore no sítio onde estava a balança Avery, que pesava tudo, do grão ao feijão, da manteiga ao toucinho, dos rebuçados ao sabão, azul e branco, está bem de ver. A seguir, aparecia a medidora do azeite e, mesmo no fim, a faca, enorme, de cortar o bacalhau.

Tudo era embrulhado e nada embalado. Meia quarta de café, num pacotinho de papel pardo, dobrado na perfeição, para não se perder pitada. A mesma meia quarta, mas de banha, era colocada pela espátula de madeira no quadrado de papel vegetal e nele embrulhada, para receber depois uma capa do tal papel pardo e ser acabado o embrulho, dobrado com o requinte de quem sabe e o faz com gosto. O azeite era colocado na garrafa do cliente, e podia ir da meia dúzia de centilitros ao litro, sendo esta medida apenas acessível a quem já tinha uma carteira com alguma dimensão ou uma folha do livro com razoável extensão.

Na parede do fundo, em armários com portas de vidro, estavam guardados os tecidos e o material congénere, do cotim à sarja, da chita à flanela, os vários tipos de ganga, os botões, as meias de "fio de escócia", o elástico a metro e as linhas, em carrinho ou em bobina. Os tecidos eram vendidos a metro e, para isso, lá estava o metro de madeira envernizada, quadrado, com a marcação de cada centímetro a traço gravado e, a cada dez, um traço mais fundo e forte, com a indicação do respectivo número - 10, 20, 30, etc..

Numa outra divisão, contígua, havia a balança decimal, a medidora do petróleo, os sacos de batatas, as sacas de adubo e a tulha do enxofre, tudo convivendo com a recente cabina telefónica pública, que permitia as ligações para fora, pagando o preço dos impulsos registados no marcador instalado no lado de dentro do balcão, claro.

Ainda era assim há pouco mais de cinquenta anos. Já nada disto existe e ainda bem ...

sábado, 23 de outubro de 2021

Calhamaços

Terminei ontem as 511 páginas de "Águas passadas", mais um thriller de João Tordo, do qual não gostei tanto como havia acontecido com "A noite em que o Verão acabou", que tinha mais cerca de 150, concretamente 667, e que li há quase dois anos. Como o tempo passa num instante!

Neste momento, o livro "oficial" é o último de Germano Almeida - A confissão e a culpa -, que tem "apenas" 245 páginas e terá de ser lido, por compromissos que agora não importam, até ao próximo dia 3 de Novembro. Assim acontecerá, nem que, para isso, lhe tenha de dar exclusividade absoluta.

Num qualquer canto da casa, sempre acessíveis, estacionam as 999 páginas das "Memórias", de Francisco Pinto Balsemão e as 623 de "As Crónicas", de António Lobo Antunes. São dois livros que permitem a leitura de momentos, o primeiro por não ser difícil apanhar o ritmo em qualquer altura, o segundo por as crónicas já terem sido lidas em tempos idos e a leitura recordatória ser mais fácil, apesar de escritos por quem escreve de forma única, mesmo cronicando.

E, num salto de despedida do F(o)lio - termina amanhã - lá vieram mais uns quantos, que já se perfilaram na ordem e aguardam, calmamente, a sua vez.

Há gente muito tonta, que não tem mais nada para fazer nem outros sítios onde gastar o dinheirinho ...

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Comportamentos

"(... ) pedimos aos fregueses e visitantes

- que não limpem, mas que não sujem

que não reparem, mas sim que não destruam

- que o civismo e a cidadania sejam um exemplo para todos (...)"

São frases retiradas de uma comunicação pública, feita pelo novo Presidente da minha Junta de Freguesia. Podem parecer lugares comuns, mas tocam no cerne comportamental de todos nós, que somos quem produz, melhores ou piores, os sítios onde vivemos.

Tenho dúvidas que a mensagem chegue e seja entendida por toda a gente e, nomeadamente, pelos porcos que continuam a conspurcar o chão que é de todos, cuspindo, deitando beatas, papéis, garrafas, restos de comida, excrementos do cachorro e tantas outras porcarias, sem o mínimo de respeito por eles próprios.

Verificar que alguém com responsabilidades tem coragem de falar sobre estes assuntos, tentando exercer uma acção pedagógica sobre a vivência em comum, é agradável e parece indiciar que, efectivamente, algo mudou. 

Esperemos que seja apenas o início de uma nova era, para o bem de todos. 

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Dignidade

Havia necessidade de contratar um novo elemento para a limpeza diária da agência e, nesse tempo, não havia empresas de trabalho temporário nem os concursos que, muito depois, vieram a ditar que a empresa deste ano faz melhor preço que a do ano passado e por isso foi a escolhida. A empregada continuava a mesma ... a ganhar menos, claro.

O anúncio foi divulgado para um posto de trabalhos de limpeza, em part-time, contemplando quatro horas diárias, duas de manhã e outras tantas à tarde. Apareceram cinco ou seis candidatas e todas foram submetidas a uma entrevista com três intervenientes, um dos quais o Director dos Recursos Humanos do Banco. 

Para além das perguntas sacramentais sobre a experiência profissional, as razões da candidatura, a ideia sobre o trabalho a desenvolver, o Director, a meio da conversa e sem, ainda, ter participado nela, perguntava, de chofre:

- Imagine que, no final de um dia, a senhora está sozinha no Banco e eu toco à campainha, digo que sou o Director e quero que me abra a porta. O que faz?

As respostas foram variadas, nervosas, gaguejadas, mas uma delas respondeu, convicta:

- Peço-lhe que aguarde, telefono ao Gerente e faço o que ele me disser.

Foi a escolhida. Todos os trabalhos são dignos e cabe a quem lidera fomentar essa dignidade.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Limpeza

Os livros cada vez ocupam mais espaço e carecem de mais atenção. As estantes ganham pó. Podiam ganhar dinheiro mas não têm discernimento para tal. Exigem limpeza e, por mais atento que se esteja, é quase certo que o alojamento preferido é o topo das folhas, para além da finíssima película que escolhe as capas para se refastelar.

Hoje tocou à limpeza e a "procissão ainda vai no adro". Com alguma dose de optimismo, talvez estejam atingidos os cinquenta por cento da tarefa, com a música de fundo que o Mezzo transmite e que ajuda o trabalho.

Retira livros, põe na mesa, pega no pano, limpa a divisória, faz o mesmo ao volume, volta a colocá-lo no sítio. Espera. Está muito apertado aqui. É melhor mudar. Fica melhor e mais acessível. Custa tanto retirar os da frente para ir buscar aquele que interessa e, claro, está mesmo na fila do fundo.

Mas há mais: é preciso registar a mudança, na primeira página do livro, a lápis, claro, o novo local que agora lhe pertence. Isso implica pegar na borracha, apagar o anterior e escrever o novo. E agora, fazer a alteração devida no computador, para que não sejamos induzidos em erro quando se procura algum.

Que trabalheira! E tudo sozinho que, nesta área, ninguém se oferece para ajudar. Ainda bem. Teria que dispensar a ajuda. Os livros são muito esquisitos e só a mim obedecem.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Espólio

Cada um tinha a sua secretária, num rés-do-chão enorme, ali mesmo, no Largo do Calhariz de boas memórias. As secretárias estavam colocadas frente a frente ou formando um quadrado, com excepção da secretária do chefe, única isolada e colocada num ponto estratégico. Quem manda deve ter uma visão ampla sobre todos os "artistas". O balcão era assegurado em rotação diária, com a ajuda de todos, sempre que a afluência o justificava. 

O departamento tinha várias secções, cada uma com tarefas específicas e independentes, exceptuando a que assegurava o economato. A essa, todos iam requisitar as fitas para as máquinas de escrever, as folhas de papel químico, as réguas, as esferográficas, os lápis, as borrachas, em suma, todo o material necessário à burocracia do dia a dia.

O chefe do economato era um homem já de idade (um velho, para um jovem ainda longe dos trinta), com um sotaque açoriano bem carregado e um nome pouco habitual - Herlander.

- Bom dia, Sr. Herlander. O Sr. Correia disse-me para vir ter consigo, para me dar as "ferramentas" habituais.

Foi lá atrás dos armários e voltou pouco depois com uma mão cheia de material.

- Aqui tens: uma esferográfica azul, outra vermelha, um lápis, uma borracha e ... fumas?

- Fumo, sim, Sr. Herlander, respondi sem problemas. Naquela altura, toda a gente fumava e eu era apenas mais um.

Voltou-se e retirou da prateleira um cinzeiro enorme, de vidro, pesadíssimo, verifiquei depois.

- Assina aqui e, já sabes, esferográficas só são substituídas com a entrega da vazia. E poupa nos lápis. Temos poucos ...

Tinha acabado, poucos dias antes, de desembolsar vinte escudos no espólio da tropa, por me faltar o quico, que desapareceu ou foi perdido nos últimos dias. Não me apetecia assinar nada e a irreverência falou mais alto.

- Desculpe, Sr, Herlander, mas levo só o cinzeiro. Não preciso do resto.

- Tu é que sabes, mas não me venhas pedir amanhã ...

Nos mais de quarenta anos seguintes, utilizei sempre as minhas "ferramentas" e até o cinzeiro foi dispensado, quando me "curei" do vício.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Publicidade

Não faço ideia há quanto tempo o telemóvel tocava. O barulho da lixadeira não deixava ouvir e a sua colocação não permitia ver o écran. Quem trabalha sofre destes imponderáveis ...

Uma pausa permitiu ouvir o toque e verificar o aviso de que era um número não conhecido. Apresentava-se orlado a vermelho, indicando-o como potencialmente perigoso. Mesmo assim, atendi.

- Boa tarde. Faça favor.

- O meu nome é Pedro. Estou a falar com o Sr. ...?

- Sim, sou eu. Diga.

- Estou a ligar-lhe de uma empresa de estudos de mercado. A nossa empresa está a elaborar uma análise sobre os anúncios televisivos e queríamos a sua opinião. São 2 ou 3 minutos, não mais.

- Teria todo o gosto em responder, mas a minha opinião é irrelevante. Não vejo anúncios.

- Muito obrigado e desculpe oi incómodo.

- De nada. Boa tarde.

Não menti nem fui mal educado. Apenas disse a verdade, nua e crua. Quando surgem os anúncios, consigo desligar a "antena" e passam-me todos ao lado, tal como nos jornais e revistas que leio.

sábado, 16 de outubro de 2021

F(o)lio 2021

Um salto a Óbidos, para espreitar o F(o)lio 2021, que abriu na passada quinta-feira, apenas para ter uma ideia de como é este ano.

Muita gente, muitos carros, muita ginja, muitas personalidades, livros, autores, exposições, muita coisa que a "balbúrdia" instalada aconselha a deixar para outra ocasião.

Belas fotografias nas paredes, do "ABC" ao "Visto com os pés, escrito com o olhar", a passagem por Lisboa de Jean Moulin, em 1941, um gelado na Rua Direita, põe a máscara, tira a máscara, conversas a esmo,

- Eu não vou lá acima. Já não tenho idade ... São muitas escadas para chegar à muralha.

- Está quase na hora. Temos de ir para o autocarro.

a banda desfila, com as autoridades locais e visitantes a abrir o cortejo. Os transeuntes encolhem-se que "outros valores mais altos se alevantam" e as ruas são estreitas.

É sempre um prazer ir a Óbidos. Ainda voltarei ao F(o)lio, durante a semana, com calma e sem apertos. O programa tem muita coisa interessante para ver e ouvir e vale sempre a pena.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Escolhas

"Para que seja possível informá-la/o da chegada do seu artigo à Loja ou da entrega e instalação, caso aplicável, do seu artigo na data e horário acordados, os dados de contacto e entrega disponibilizados por si devem estar corretos e completos, sendo o único responsável pela eventual dificuldade ou impossibilidade de notificação ou entrega e instalação, se aplicável, devido a incorrecções ou falta nos dados indicados."

Este é o primeiro parágrafo de um longo documento, de sete pontos principais e umas quantas alíneas em cada ponto, que hoje assinei, naturalmente sem ler, porque as letras são tão miudinhas que, mesmo com óculos, é necessário uma lupa para terem um tamanho legível.

- Assine aqui, por favor.

- Mas eu nem li, nem consigo ler isso. 

- Pois ... mas tem de assinar. Leva um igual e lê lá em casa!

O documento refere-se a um electrodoméstico que há-de ser entregue amanhã e intitula-se "Dados de Contacto, Entrega e Instalação, nos casos aplicáveis". Perora sobre tudo, do "Período de entrega" aos "Dados Pessoais", para salvaguardar qualquer eventualidade de correr mal, situação que estará prevenida numa daquelas milhentas frases que me dispensei de ler, se aplicável.

Se amanhã o homem da entrega for enganado pelo GPS, for parar a outra rua ou não conseguir entender-se com as alterações resultantes das obras que por aqui ainda decorrem, a situação estará prevista naquele arrazoado, será por culpa minha, e terei de arcar com 25,00 € pela impossibilidade da efectivação do serviço.

Com isto se obtêm ganhos significativos na produtividade, e se evitam quaisquer litígios entre a empresa e o cliente.

Podia ter optado por fazer o levantamento na loja, adquirindo, e trazendo, um dos que lá estavam. Já não assinaria o papel ...

A escolha, boa ou má, foi minha, claro que foi!