quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Primeiro dia

Hoje é o primeiro dia de um conjunto deles que hão-de levar-nos até às eleições antecipadas.

O Presidente da República, que divulgou a decisão ainda antes de ela se justificar, terá de cumprir uma série de procedimentos constitucionais até à marcação do dia em que voltaremos às urnas. Nesse dia, a maioria decidirá o que nos reservará o futuro e, goste-se ou não, façamos parte dos vencedores ou dos vencidos, esta é a grande qualidade de vivermos em democracia.

Por vezes, na vida, vale a pena cair para nos levantarmos com mais vigor.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

A arte do possível

O circo é uma actividade cultural e recreativa com largas tradições em Portugal e no mundo, com áreas e formas de estar e de ser as mais diversas. Dos palhaços aos músicos, dos ginastas aos bailarinos, o espectáculo é diversificado, procura chegar a todos na diversidade de propostas, nas diferenças de gosto.

E, com maior ou menor dificuldade, lá vai conseguindo manter a tenda a funcionar, para gáudio de muitos, críticas de alguns e rejeição de outros. Para isso, todos os intervenientes, do mais importante ao mais humilde, tentam contribuir, procurando as melhores soluções para que o espectáculo seja o melhor e agrade à grande maioria.

Todos os artistas têm a convicção de que o óptimo é inimigo do bom e muito difícil de alcançar, principalmente se, no espectáculo, houver quem fuja às responsabilidades ou se balde ao trabalho. Todavia, no circo, o horizonte mantém-se e a força de o conquistar renova-se.

A queda de um equilibrista, a ausência da risada na piada que falhou, não impedem que o esforço continue, se possível se intensifique.

Se os princípios do circo passassem por S. Bento, talvez não tivéssemos espectáculo tão deprimente e conseguíssemos fazer um país melhor.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Lembro-me de que ainda antes de eu propriamente dar entrada nas instalações prisionais, nós ainda no gabinete do juiz que se preparava para me fazer as perguntas da praxe com vista à legalização da minha prisão, tinha entrado um ansioso procurador da República com a novidade de que a rádio acabava de anunciar que, por decisão do Governo, transmitida pelo Ministro da Cultura e das Artes Cénicas, o escritor Lopes Macieira ia ser homenageado com os célebres funerais de Estado, aquela paródia em que, depois de algumas leviandades pelo meio, como, por exemplo, missa de corpo presente, o caixão dirige-se ao cemitério ladeado por tropas de arma aperrada como se estivessem a defender o defunto de algum ataque iminente com vista a impedir que seja enterrado ... Ambos riram dessa maneira pouco canónica e algo descortês de falar, mas eu sequer sorri. No entanto, lembro-me realmente de logo ter pensado, Ele fica a dever-me esta honra! E como se tivesse adivinhado os meus pensamentos, o procurador olhou para mim, sorriu e quase sem transição disse, Olhe, ele fica a dever-lhe essa grande honra, até hoje a muito poucos concedida!

Desta vez fiz uma espécie de um leve sorriso e apeteceu-me comentar que era uma grande verdade o que ele acabava de dizer, o Macieira ficar a dever-me essa honraria sem talvez a merecer, mas considerei que estávamos no meio de uma audiência judicial, ainda que no gabinete do juiz, e não seria de bom tom diminuir ainda mais a pouca solenidade do momento. O jovem que estava sentado ao meu lado, mandado chamar pelo juiz para me servir como meu defensor oficioso embora ainda não tivesse aberto a boca para coisa alguma, sequer para me cumprimentar quando entrou, é que disse quase a medo, O único escritor cabo-verdiano que até hoje teve direito a funerais de Estado foi Eugénio Tavares, que morreu em 1927.(...)

A confissão e a culpa
Germano Almeida
Caminho (2021)

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Aparências

Há despesas que não constam do orçamento familiar e, por isso, não se podem efectuar. A legalidade orçamental tem de ser cumprida, para que não haja surpresas e o défice não aconteça. Estão no grupo das coisas onde não se gasta dinheiro, as recuperações de algumas peças de madeira, que vão escurecendo com o tempo, ao contrário dos cabelos, que vão branqueando.

- Gostava de recuperar aquelas cadeiras. Torná-las mais claras. Ainda estão muito boas e ficavam mais bonitas.

A tarde estava agradável, sem muito calor nem vento, havia lixa e lixadora em condições, mãos à obra. Calmamente, que não há prazos a cumprir nem se corre o risco de o governo cair. Isso é lá para a capital, para as altas esferas e grandes cabeças. Necessário é que o trabalho fique bem feito e a contento.

Junto às grades do portão estava um dos quatro ou cinco emigrantes da Guiné, que vivem nos anexos da casa do vizinho da frente. Parecem ser gente pacata, bem disposta, sempre com um sorriso na cara e um andar bamboleante que extravasa musicalidade. No grupo há duas crianças que frequentam a escola, embora ainda tenham dificuldade em dominar a língua portuguesa. O rapaz, mais novo, traz sempre a bola para a rua e lá vai chutando e fazendo habilidades sozinho. As crianças que por aqui habitaram, há muito que saíram e, agora, só os netos e apenas de visita breve. A miúda deverá ter 11 ou 12 anos, cumprimenta sempre com um sorriso bem rasgado e lá segue, de viola às costas, a caminho da escola.

- Boa tarde, Não quero incomodar, mas o senhor também arranja portas?

- Não. Isto é só para me entreter. Não é a minha profissão ... 

- Desculpe. É que tenho a fechadura da minha porta avariada ...

- Tenho pena, mas não o consigo ajudar. De fechaduras não percebo mesmo nada.

Lá foi, à procura da solução que quem estava ali e parecia tê-la, afinal não lha deu. E ele que, na sua boa fé, pensou estar na presença de um operário especializado.  As aparências iludem ...

domingo, 24 de outubro de 2021

Mercearia e fanqueiro

A loja era enorme, pelo menos aos olhos de quem era pequeno. Vendia tudo e tinha, escrito a letras douradas num vidro preto que encimava os armários, o nome da firma e o seu negócio: mercearia e fanqueiro.

À entrada, do lado esquerdo, as tulhas da aveia, das sêmeas, do milho, e o corredor de lata, utilizado para encher o saco dos clientes. O balcão, de madeira trabalhada e envernizada, ocupava toda a largura da loja. Era altíssimo. Tão alto que os olhos só conseguiam ver o lado de lá se o curioso se pusesse em bicos de pés. O tampo também era de madeira, mas só até mais ou menos ao meio. Mudava para mármore no sítio onde estava a balança Avery, que pesava tudo, do grão ao feijão, da manteiga ao toucinho, dos rebuçados ao sabão, azul e branco, está bem de ver. A seguir, aparecia a medidora do azeite e, mesmo no fim, a faca, enorme, de cortar o bacalhau.

Tudo era embrulhado e nada embalado. Meia quarta de café, num pacotinho de papel pardo, dobrado na perfeição, para não se perder pitada. A mesma meia quarta, mas de banha, era colocada pela espátula de madeira no quadrado de papel vegetal e nele embrulhada, para receber depois uma capa do tal papel pardo e ser acabado o embrulho, dobrado com o requinte de quem sabe e o faz com gosto. O azeite era colocado na garrafa do cliente, e podia ir da meia dúzia de centilitros ao litro, sendo esta medida apenas acessível a quem já tinha uma carteira com alguma dimensão ou uma folha do livro com razoável extensão.

Na parede do fundo, em armários com portas de vidro, estavam guardados os tecidos e o material congénere, do cotim à sarja, da chita à flanela, os vários tipos de ganga, os botões, as meias de "fio de escócia", o elástico a metro e as linhas, em carrinho ou em bobina. Os tecidos eram vendidos a metro e, para isso, lá estava o metro de madeira envernizada, quadrado, com a marcação de cada centímetro a traço gravado e, a cada dez, um traço mais fundo e forte, com a indicação do respectivo número - 10, 20, 30, etc..

Numa outra divisão, contígua, havia a balança decimal, a medidora do petróleo, os sacos de batatas, as sacas de adubo e a tulha do enxofre, tudo convivendo com a recente cabina telefónica pública, que permitia as ligações para fora, pagando o preço dos impulsos registados no marcador instalado no lado de dentro do balcão, claro.

Ainda era assim há pouco mais de cinquenta anos. Já nada disto existe e ainda bem ...

sábado, 23 de outubro de 2021

Calhamaços

Terminei ontem as 511 páginas de "Águas passadas", mais um thriller de João Tordo, do qual não gostei tanto como havia acontecido com "A noite em que o Verão acabou", que tinha mais cerca de 150, concretamente 667, e que li há quase dois anos. Como o tempo passa num instante!

Neste momento, o livro "oficial" é o último de Germano Almeida - A confissão e a culpa -, que tem "apenas" 245 páginas e terá de ser lido, por compromissos que agora não importam, até ao próximo dia 3 de Novembro. Assim acontecerá, nem que, para isso, lhe tenha de dar exclusividade absoluta.

Num qualquer canto da casa, sempre acessíveis, estacionam as 999 páginas das "Memórias", de Francisco Pinto Balsemão e as 623 de "As Crónicas", de António Lobo Antunes. São dois livros que permitem a leitura de momentos, o primeiro por não ser difícil apanhar o ritmo em qualquer altura, o segundo por as crónicas já terem sido lidas em tempos idos e a leitura recordatória ser mais fácil, apesar de escritos por quem escreve de forma única, mesmo cronicando.

E, num salto de despedida do F(o)lio - termina amanhã - lá vieram mais uns quantos, que já se perfilaram na ordem e aguardam, calmamente, a sua vez.

Há gente muito tonta, que não tem mais nada para fazer nem outros sítios onde gastar o dinheirinho ...

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Comportamentos

"(... ) pedimos aos fregueses e visitantes

- que não limpem, mas que não sujem

que não reparem, mas sim que não destruam

- que o civismo e a cidadania sejam um exemplo para todos (...)"

São frases retiradas de uma comunicação pública, feita pelo novo Presidente da minha Junta de Freguesia. Podem parecer lugares comuns, mas tocam no cerne comportamental de todos nós, que somos quem produz, melhores ou piores, os sítios onde vivemos.

Tenho dúvidas que a mensagem chegue e seja entendida por toda a gente e, nomeadamente, pelos porcos que continuam a conspurcar o chão que é de todos, cuspindo, deitando beatas, papéis, garrafas, restos de comida, excrementos do cachorro e tantas outras porcarias, sem o mínimo de respeito por eles próprios.

Verificar que alguém com responsabilidades tem coragem de falar sobre estes assuntos, tentando exercer uma acção pedagógica sobre a vivência em comum, é agradável e parece indiciar que, efectivamente, algo mudou. 

Esperemos que seja apenas o início de uma nova era, para o bem de todos. 

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Dignidade

Havia necessidade de contratar um novo elemento para a limpeza diária da agência e, nesse tempo, não havia empresas de trabalho temporário nem os concursos que, muito depois, vieram a ditar que a empresa deste ano faz melhor preço que a do ano passado e por isso foi a escolhida. A empregada continuava a mesma ... a ganhar menos, claro.

O anúncio foi divulgado para um posto de trabalhos de limpeza, em part-time, contemplando quatro horas diárias, duas de manhã e outras tantas à tarde. Apareceram cinco ou seis candidatas e todas foram submetidas a uma entrevista com três intervenientes, um dos quais o Director dos Recursos Humanos do Banco. 

Para além das perguntas sacramentais sobre a experiência profissional, as razões da candidatura, a ideia sobre o trabalho a desenvolver, o Director, a meio da conversa e sem, ainda, ter participado nela, perguntava, de chofre:

- Imagine que, no final de um dia, a senhora está sozinha no Banco e eu toco à campainha, digo que sou o Director e quero que me abra a porta. O que faz?

As respostas foram variadas, nervosas, gaguejadas, mas uma delas respondeu, convicta:

- Peço-lhe que aguarde, telefono ao Gerente e faço o que ele me disser.

Foi a escolhida. Todos os trabalhos são dignos e cabe a quem lidera fomentar essa dignidade.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Limpeza

Os livros cada vez ocupam mais espaço e carecem de mais atenção. As estantes ganham pó. Podiam ganhar dinheiro mas não têm discernimento para tal. Exigem limpeza e, por mais atento que se esteja, é quase certo que o alojamento preferido é o topo das folhas, para além da finíssima película que escolhe as capas para se refastelar.

Hoje tocou à limpeza e a "procissão ainda vai no adro". Com alguma dose de optimismo, talvez estejam atingidos os cinquenta por cento da tarefa, com a música de fundo que o Mezzo transmite e que ajuda o trabalho.

Retira livros, põe na mesa, pega no pano, limpa a divisória, faz o mesmo ao volume, volta a colocá-lo no sítio. Espera. Está muito apertado aqui. É melhor mudar. Fica melhor e mais acessível. Custa tanto retirar os da frente para ir buscar aquele que interessa e, claro, está mesmo na fila do fundo.

Mas há mais: é preciso registar a mudança, na primeira página do livro, a lápis, claro, o novo local que agora lhe pertence. Isso implica pegar na borracha, apagar o anterior e escrever o novo. E agora, fazer a alteração devida no computador, para que não sejamos induzidos em erro quando se procura algum.

Que trabalheira! E tudo sozinho que, nesta área, ninguém se oferece para ajudar. Ainda bem. Teria que dispensar a ajuda. Os livros são muito esquisitos e só a mim obedecem.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Espólio

Cada um tinha a sua secretária, num rés-do-chão enorme, ali mesmo, no Largo do Calhariz de boas memórias. As secretárias estavam colocadas frente a frente ou formando um quadrado, com excepção da secretária do chefe, única isolada e colocada num ponto estratégico. Quem manda deve ter uma visão ampla sobre todos os "artistas". O balcão era assegurado em rotação diária, com a ajuda de todos, sempre que a afluência o justificava. 

O departamento tinha várias secções, cada uma com tarefas específicas e independentes, exceptuando a que assegurava o economato. A essa, todos iam requisitar as fitas para as máquinas de escrever, as folhas de papel químico, as réguas, as esferográficas, os lápis, as borrachas, em suma, todo o material necessário à burocracia do dia a dia.

O chefe do economato era um homem já de idade (um velho, para um jovem ainda longe dos trinta), com um sotaque açoriano bem carregado e um nome pouco habitual - Herlander.

- Bom dia, Sr. Herlander. O Sr. Correia disse-me para vir ter consigo, para me dar as "ferramentas" habituais.

Foi lá atrás dos armários e voltou pouco depois com uma mão cheia de material.

- Aqui tens: uma esferográfica azul, outra vermelha, um lápis, uma borracha e ... fumas?

- Fumo, sim, Sr. Herlander, respondi sem problemas. Naquela altura, toda a gente fumava e eu era apenas mais um.

Voltou-se e retirou da prateleira um cinzeiro enorme, de vidro, pesadíssimo, verifiquei depois.

- Assina aqui e, já sabes, esferográficas só são substituídas com a entrega da vazia. E poupa nos lápis. Temos poucos ...

Tinha acabado, poucos dias antes, de desembolsar vinte escudos no espólio da tropa, por me faltar o quico, que desapareceu ou foi perdido nos últimos dias. Não me apetecia assinar nada e a irreverência falou mais alto.

- Desculpe, Sr, Herlander, mas levo só o cinzeiro. Não preciso do resto.

- Tu é que sabes, mas não me venhas pedir amanhã ...

Nos mais de quarenta anos seguintes, utilizei sempre as minhas "ferramentas" e até o cinzeiro foi dispensado, quando me "curei" do vício.