terça-feira, 15 de março de 2022

Racionar / Racionalizar

- Sabes que é muito difícil mandar dinheiro para Moçambique e demora muito tempo ...

A conversa foi ouvida sem querer, numa ida, rápida, a um supermercado, que já tem racionamento de óleo alimentar. Não vende mais de quatro embalagens a cada cliente e refere isso mesmo no aviso, grande, afixado na prateleira, bem à altura dos olhos para que todos o vejam e ninguém o ignore: "informa-mos os nossos clientes...". Tendo em conta que, por aqui, habitam muitos estrangeiros, fiquei com pena que o aviso não estivesse também em língua inglesa. Abrangia mais gente e talvez não tivesse erro tão clamoroso. Embirrações de velho ...

Voltando à conversa telefónica: a senhora justificava-se perante alguém que, estando em Moçambique, deveria estar bem precisado e ainda não tinha recebido o enviado, apesar do tempo decorrido. 

- Tu não fazes ideia. Não é fácil e, disseram-me logo, demora muito tempo.

Moçambique não tem, que se saiba, a rede Swift bloqueada, mas o "carcanhol" ainda deve estar a percorrer o Atlântico, dobrará o Cabo das Tormentas e só depois iniciará a subida do Índico. 

Para quem vive com as transferências imediatas à mão de semear, custa a entender. Mas é assim. O mundo está longe de ser perfeito e ainda mais de ser idêntico em todas as latitudes.

"Tenha-mos" a consciência disso e não "entre-mos" em modo do salve-se quem puder. 

segunda-feira, 14 de março de 2022

Utopia

Tanto que há para fazer e, mal se olha para o lado, o tempo já passou, é quase noite e a luz esmorece tal como acontecia às candeias antigas, quando o azeite se gastava.

Apesar desta velocidade, não há pressa em acabar com o flagelo que estalou no dia 24 do mês passado e não parece ter fim à vista, a não ser para aqueles que já descansam na vala. Será que aquela gentalha conseguiria articular meia dúzia de palavras se fosse colocada frente a frente com todos aqueles que, com filhos ao colo, são forçados a fugir em busca de um pouco de paz e sossego? Certamente que não, até porque, na maioria dos casos, a coragem só existe bem sentada na poltrona e com as costas guardadas, porque quem manda aqui sou eu e eu sei muito bem o que é melhor para todos.

domingo, 13 de março de 2022

Contrariar

O encerramento da ligação do mar à Lagoa já vai na segunda semana. Não aconteceu por decreto governamental, intervenção do Presidente da República, da Câmara ou do Ambiente, e sim por determinação do "Rei Atlântico", cujo reinado acontece, por aquelas bandas, de forma absoluta e autocrática, como alguns humanos ainda persistem em fazer.

O trabalho de desassoreamento, que vem acontecendo desde Setembro do ano passado, era tido como a salvação da Lagoa, que iria garantir não só a vida de todas as espécies que nela habitam ou que a visitam, como também a permanência da ligação ao mar, que garante a renovação das águas e a sua oxigenação permanente.

Tudo isto não sofre qualquer contestação e tinha/tem o apoio de todos os que gostam da zona, única no país, que garante a subsistência de muita gente e satisfaz gastronomicamente muita outra. Foi tudo estudado ao pormenor, das máquinas a usar à época dos trabalhos mas ... não conversaram atempada e cerimoniosamente com o mar. Toda a gente sabe que ele é dos que gostam de contrariar e determina a sua acção sem passar cartão a ninguém. Resultado: a "aberta" está fechada e aguarda-se a chegada das máquinas que a hão-de reabrir.

Era engraçado que o "Rei", do contra, fizesse, ele próprio, esse trabalho antes de as máquinas chegarem!

sábado, 12 de março de 2022

Qualidade

Aprendi cedo que não se pode confundir a beira da estrada com a Estrada da Beira ou o bife à milanesa com o bife em cima da mesa.

O que está a passar-se na Ucrânia e os reflexos que tem sobre pessoas que por lá nasceram, ucranianos ou russos, demonstra como as frases são verdadeiros axiomas: não podemos confundir aquela gentalha que detém o poder na Rússia com a grande maioria dos russos, vivam eles lá ou aqui. Também nem todos os ucranianos serão heróis e alguns haverá que até serão vilões. 

Não se tome a parte pelo todo nem se confunda a árvore com a floresta. Haverá russos que não prestam, mas isso não é determinado por terem nascido russos e sim por serem pessoas, como todos nós, cheias de defeitos e, talvez, algumas qualidades. O mesmo acontece com os ucranianos, os portugueses, os franceses, os americanos, os ganeses, os angolanos, os alemães, os chineses, os coreanos, os vietnamitas e, pasmem, até com os esquimós e, ainda por provar, até com os marcianos.

A cor da pele, a origem, o sexo, o sítio onde se mora, não determinam nada. A qualidade do animal, essa sim, sem qualquer dúvida!

sexta-feira, 11 de março de 2022

Privilégio

Ainda não havia chegado aos 23 anos e estava integrado numa equipa constituída por gente mais velha, cheia de conhecimentos, experiência e vontade de fazer muito, e bem. A ânsia de aprender era igual à de ensinar e as duas juntavam-se sem olhar a horas de saída ou refeição. A busca sistemática da mudança, do melhor para todos, dos novos horizontes abertos no ano anterior, era constante.

Naquela terça-feira, o trabalho desenrolava-se com a normalidade possível, sentindo-se no ar que poderia estar para acontecer alguma coisa a qualquer momento. Os boatos eram constantes e, como toda a gente que foi à tropa sabe, o boato fere como uma lâmina. 

O gabinete ministerial estava instalado no primeiro andar de uma das torres da Praça do Comércio e tinha uma vista linda para o Tejo, com Cacilhas e os estaleiros da Lisnave lá ao fundo. Da primeira vez, ninguém reagiu ao barulho do helicóptero. Daí a pouco, o mesmo ou outro sobrevoou a praça a baixa altitude e chamou definitivamente a atenção. Os olhos deixaram o Tejo e fixaram-se no ar. A concentração saiu da secretária e colocou-se toda no céu, num outro helicóptero que se aproximava e em dois caças que passaram a grande velocidade, rumo ao norte.

A calma era aparente. Havia gente com experiências fortes e bem vividas em situações de guerra que, apesar disso, não conseguia disfarçar a ansiedade.

De repente, a porta abriu-se.

- O Spínola 'tá maluco! Eu nem uma pistola tenho ...

A contenda não se concretizou e o diálogo impôs a paz, felizmente. Os tiros nunca resolveram e, ainda hoje, assim acontece. 

Há 47 anos, foi o diálogo corajoso entre os comandantes das duas forças, com ordens para a confrontação, que resolveu o problema e evitou a guerra. Assim fosse possível hoje, na Ucrânia.

quinta-feira, 10 de março de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) Velho como sou e mais precavido do que qualquer pardal ou abelharuco, não me entusiasmei com a breve trégua do mau tempo. Nem sequer fui ver as estrelas ontem à noite, desconfiado de que o vento que principiava s soprar da serra havia de trazer nuvens escuras e novas bátegas. Deixei-me ficar a dormir sonhos estranhos e a tossir uma bronquite que creio poder atribuir à chuva das semanas anteriores e ao facto de não ter tirado as botas molhadas quando, um destes dias, cheguei a casa para comer foie gras e requeijão de cabra, e sobretudo para beber vinho tinto, que é a melhor forma de esquecer que lá fora há um mundo de coisas inóspitas e com má cara: a chuva, o vento, os governos fascistas, as doenças novas, a ignorância e as raparigas que não sorriem.

Alba seria capaz de interromper este Inverno com uma simples gargalhada.

Diria decerto que lhe faço lembrar, nas minhas deambulações pela vila, o velho actor careca que, na capital, costumava passar sob a nossa varanda no decurso das suas caminhadas matinais. Rir-se-ia ao imaginar que também eu pudesse percorrer as ruas por prescrição médica, usando um fato-de-treino antiquado e sapatilhas de desporto, passeando sem pudor um nariz de abutre e os fiapos do cabelo que me tivesse sobrado na nuca. Eu sorriria também, sinceramente divertido com a possibilidade de me ver transformado num caminhante calvo como um ovo e capaz de procurar compensar a careca deixando crescer os sobejos do cabelo muito para além do razoável. Esqueces que sou professor de Estética, dir-lhe-ia, e que o ridículo é uma forma de arte que nunca me interessou. Também és escritor e não escreves, responderia Alba. (...)

A última curva do caminho
Manuel Jorge Marmelo
Porto Editora (2022)

quarta-feira, 9 de março de 2022

Cegonha

Há quarenta e quatro anos, a chegada dos bébés era ainda, em muitos casos, feita através do bico da cegonha que os trazia de Paris, sem passaporte, carregados do bulício francês e ávidos da serenidade da paz e sossego do nosso país, seguro, belo, e sem grandes oscilações climáticas.

O transporte "cegonhal" estava em decadência e viria a desaparecer completamente daí a pouco tempo, acompanhando a abertura que se foi, finalmente, dando. A cegonha reciclou-se e passou a efectuar outras tarefas, como fazer ninhos no cimo dos postes de electricidade ou vaguear pelos campos, tarefas para as quais estava mais talhada e a faziam mais feliz.

A minha bébé foi produzida em casa e nasceu, com a mãe a dormir e com o auxílio do bisturi do cirurgião e de mais alguns intervenientes de bata branca e estetoscópio ao pescoço. Um deles, que por acaso foi uma ela, veio cá fora e deu a notícia:

- É uma menina, muito bonita, e está tudo bem.

Toda a gente sabe que os bebés são sempre bonitos e, por isso, essa não era a novidade. Notícia era ser uma menina, depois de nove meses a fazer o teste da agulha, a ouvir dizer que o formato da barriga indiciava ser um menino e "olha que eu raramente me engano". E a cara da mãe diz o mesmo. Eram as ecografias da época. À cautela, havia em carteira um nome para cada situação.

Como é diferente hoje. Sabe-se se é menino ou menina ainda a barriga mal evidencia a gestação e há tempo de sobra para escolher o nome e divulgar o nascimento, com o ser nascido já devidamente identificado e não um qualquer cidadão sem nome.

A minha menina aí está, feliz, cumprindo a quarta capicua da sua vida!

terça-feira, 8 de março de 2022

Dia Internacional da Mulher

CLAUSURA

Maria olha
a vida
trancada à sua frente

sem uma ranhura
ou fresta ou fenda
sem nenhuma abertura

- Eis a minha clausura ...
pensa

CRUELDADE

Mesmo na sombra
que toldou a sua vida
Maria nunca se turva

Frente à crueldade
- está ciente -
não se curva

Anunciações
Maria Teresa Horta
D. Quixote (2016)

segunda-feira, 7 de março de 2022

Marquesinhas

O casal não era longe, talvez dois ou três quilómetros que, na época, se faziam com pouco mais de três corridas, dois saltos e "uma perna às costas".

- Vão pela bordinha, por causa dos carros.

A recomendação era desnecessária, mas sempre feita. Ao tempo, naquela estrada, aparecia um carro quando "o rei fazia anos", a uma velocidade tão estonteante que se via "à légua". A missão era levar qualquer coisa aos avós, servia para as crianças se distraírem e "desampararem a loja" por um bocado.

A casa, térrea, tinha um grande quintal, uma eira, e ficava no topo de uma fazenda que se estendia até ao rio. Havia sempre, na pocilga, pelo menos dois porcos, por vezes acompanhados de bacorinhos nascidos recentemente e que se deleitavam nas tetas da mãe porca, deitada para facilitar a tarefa. À esquerda de quem entrava ficava a adega, com duas pipas enormes e meia dúzia de outras, mais pequenas, para além do pequeno lagar onde se pisavam as uvas e se fazia o vinho para garantir o consumo da casa e dos que lá iam trabalhar. A seguir, separado por uma "parede" de madeira e caniços, um estábulo amplo, limpo e arrumado. Era aí que "morava" a vaca leiteira, preta e branca, acompanhada, à noite, de dois bois de trabalho, de pele amarela e cornos bem grandes. A burra tinha um estábulo individual, longe dos outros animais. Pelo quintal, à vontade, passeavam galinhas, galos, coquichos, perus e patos, sem preocupação alguma com a presença humana, debicando tudo o que mexia e o que não o fazia.

Na fazenda havia muitas árvores de fruto, mas estava longe de ser um pomar. Duas figueiras, várias pereiras, cada uma de sua variedade, macieiras, ameixieiras e outras que a memória já não desenterra. E no meio destas árvores todas, semeava-se o milho, plantavam-se as couves, as favas e as ervilhas, algumas batatas. No cômoro que delimitava a propriedade, os loureiros, vários, garantiam a existência das folhas tão úteis na culinária. Existia, ainda, uma boa dúzia de cepas de uva de mesa, moscatel. Davam cachos enormes e de sabor delicioso. As vinhas que garantiam a produção vinícola eram em outras duas fazendas, afastadas e situadas a norte do casal.

A única pereira marquesinha que existia dava pouco, mas as peras eram soberbas.

- No saquinho vão quatro peras marquesinhas, uma para cada um. Este ano deu muito pouco ...

Eram horas de regressar, que o sol já se encaminhava para o mar.

- Vou comer a minha!

Estava madurinha e, com meia dúzia de dentadas, desapareceu.

- O pai nunca quer. Vou comer a dele.

A mão mergulhou no saco e, apesar da resistência, a segunda saiu e os dentes deram-lhe o tratamento devido.

 - A mãe também nunca quer ...

E marchou a terceira. Restava uma.

- Nem penses. Esta é para mim e só a vou comer quando chegarmos a casa, depois de a mostrar à mãe e de lhe contar o que fizeste.

As peras marquesinhas estão em extinção. Na praça, na época, ainda aparece uma vendedora com algumas, não muitas. Tem sempre cliente garantido.

domingo, 6 de março de 2022

Ligações

E se o trigo não vem? Não há farinha e, sem farinha, não há pão: todos ralham e ninguém tem razão.

Trocadilhos, brincadeiras, palavras para ocupar espaço, mas pode acontecer. Estaremos preparados? Habituados, há quanto tempo, a ir às grandes superfícies e ter lá tudo à mão de semear. Haja dinheiro ou cartões, de preferência estes. Tornam as despesas mais fáceis, limpam a culpa e a noção do valor gasto. Já só usam notas os "botas de elástico". 

Quantos tipos de pão? Este, cozido em forno a lenha, aquele com sementes; o outro é de alfarroba, ali tem leitão dentro e lá em cima, bolinhas de aveia. Fartura, felizmente. Escolha e experimente. Vai ver que gosta e é uma experiência nova. Há para todos os gostos e pode levar a quantidade que quiser ou aquela que o "anão" do cartão permitir. 

E se o trigo ucraniano deixa de vir? Isso não vai acontecer ...

No Alentejo há oliveiras, vinhas, sobreiros, curgetes e pouco mais ... em Trás-os-Montes, há muito que o centeio se foi embora.

Come-se broa! Assim haja milho ....