quinta-feira, 19 de maio de 2022

Ligeireza

A casa era, na aldeia, a única que tinha uma grande escadaria em mármore, acedendo à porta principal. Era no patamar dessa escadaria que a senhora aguardava a serviçal. Vinda lá dos fundos destinados à criadagem, ir-lhe-ia prestar ajuda na descida dos degraus e acompanhá-la-ia à missa dominical, com alguma distância, é certo, mas sempre muito atenta a tudo, como lhe tinha sido ensinado quando, bem novinha, entrou para a casa.

Todos os domingos se repetia a cena e o trajecto até à capela era feito com alguma pompa de pose e acenos aos moradores. Eram quase todos servos da quinta e habitavam pequenas casas situadas na beira do caminho que levava até à capela. Ao contrário do que acontecia na maioria das aldeias que as tinham, a capela não ficava no alto de nenhum outeiro. Fora edificada num largo junto ao rio e, para lá chegar, era necessário caminhar por uma calçada bem inclinada e já desgastada e desconjuntada pelo uso. 

A senhora ia sempre trajada a rigor, exibindo um longo vestido de cerimónia que mostrava, no fim, a renda da saia de baixo, realçando ainda mais a categoria das vestes. O peito era comprimido pelo aperto do corpete, que fazia parecer que os seios ainda conservavam a rijeza de tempos idos há muito. O prior tinha ordens, que cumpria, para não deixar entrar nenhum dos fiéis sem que a senhora se instalasse. Toda a gente conhecia a regra e não a contestava, longe disso. Era a senhora que arcava com todas as despesas que permitiam manter a capela e a função.

Naquele domingo, por uma qualquer razão a que não deve ser alheia a polidez da pedra da calçada e as solas novas dos sapatos altos da senhora, o tropeção aconteceu, a queda deu-se e a inclinação da rua fez o resto. Uma dama de eleição a cair como qualquer vulgar, com o espectáculo de a queda ter feito a exibição de uma mulher com a cabeça tapada pelo vestido e pela saia de baixo e um corpo nu, evidenciando o desgaste dos anos já passados. A senhora levantou-se com a pressa que a atrapalhação permitiu. Compôs a indumentária e, de faces bem coradas, questionou a serviçal:

- Viste a minha ligeireza?

- Vi, sim, minha senhora. Não sabia é que também tinha esse nome.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Melros

São dois e nasceram aqui, escondidos no conforto da cameleira. O terceiro não resistiu à queda do ninho e ao aventureirismo de explorar o quintal por conta própria. Deve ter-lhe faltado o conforto dos "lençóis" do lar e apareceu, sem vida, na calçada, junto ao portão. Os outros dois abandonaram o ninho e agora fazem do hibisco a sua casa nova. Saltitam de ramo em ramo, com muito cuidado e por pouco tempo. Escolhido o poiso, sossegam, de olhos semicerrados, atentos à chegada dos pais e ao seu silvo indicativo. A refeição é servida, com o transporte rápido de novas iguarias, apanhadas na relva ou nos sítios próximos. 

Parecem não estranhar a presença dos humanos que, curiosos e preocupados, tentam não os perder de vista e evitar que os gatinhos lhes possam causar danos. Os cuidados nunca são de mais, sempre com a preocupação de não assustar os pais, prejudicando as refeições.

Os dois melros que, este ano, fizeram a surpresa de nascer no jardim, já têm todo o corpo coberto pelas penas pretas. Ainda não se aventuram no voo, mas não deverão tardar a fazê-lo, com a segurança que a presença e o ensinamento dos pais lhes darão.

A Casa fica com a esperança que não percam o sentido de orientação, que voltem sempre às origens e, quem sabe, façam por aqui o seu primeiro ninho.

terça-feira, 17 de maio de 2022

Palpite

A guerra na Ucrânia continua sem dar sinais de se aproximar do fim. As imagens que, todos os dias, nos massacram, mostram a selvajaria que se abateu sobre aquele povo, ainda que o mais provável seja só termos acesso a uma pequena parte do horror.

Auxílios e sanções têm divulgação diária e pouco ou nenhum efeito no cerne.

Visto cá de longe, no sossego e no conforto do sofá, uma conclusão tão valiosa e tão fundamentada quanto são os mais variados comentários que nos chegam diariamente: a Ucrânia vai ser cortada a meio, com a parte que dá acesso ao mar a ser integrada na Rússia, ficando a outra metade para os ucranianos que sobrarem. Em contrapartida, a Finlândia e a Suécia farão a sua adesão à Nato sem grande contestação de Putin e seus acólitos. 

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Evolução

A música flui do aparelho, sem necessidade de qualquer intervenção, nem para colocar o disco, muito menos a agulha. O cuidado, antigo, para não riscar o vinil esteve ausente durante a ascensão e o apogeu do CD, e voltou, venerado por uma nova geração que adora o som mais grave e mais claro por ele transmitido. Já me desabituei. Ainda existem por aí uns quantos exemplares, apenas como recordação ou para que outros lhes dêem o carinho que merecem.

Os CD's estão guardados na "biblioteca" electrónica e permitem ouvir todas as músicas, de forma aleatória ou escolhendo o álbum pretendido. Os originais permanecem guardados, em gavetas e armários, num sossego divino e com rara utilização. Sem qualquer trabalho, a música passa. Da nova à antiga, da clássica ao rock, da popular ao fado, da bossa à coladera, sem qualquer intervenção humana que não seja carregar no botão. Quando o "palco" é abandonado, o botão do ratinho carrega na setinha e determina o silêncio. A inversa é verdadeira (como na matemática) quando se volta ao local do "crime", para continuar a usufruir do prazer interrompido. As colunas de som que fizeram o percurso do gira-discos até ao computador com toda a naturalidade e adaptação, continuam a proporcionar um som tranquilo e nítido. Espero que continuem assim.

Na música, estou rendido. Nos livros ainda não e ponho dúvidas que venha a ceder. Vou ouvindo grandes elogios aos novos métodos de leitura, sempre com destaque para a facilidade e para a simplicidade de trazer um "calhamaço" de mil páginas numa "janela" de fácil arrumação e de peso pouco mais que ridículo.

Modernices, dirão uns. Actualizações do progresso, responderão, lestos, outros. E, reconheça-se, os livros assim não ganham humidade e não ocupam espaço nas estantes. Nem se tornam velhos ...

Recordei-me agora mesmo do comentário de um professor de História, a propósito dos Beatles, nos anos sessenta do século passado:

"Músicos eléctricos. Desliga-se a ficha, acabam!"

domingo, 15 de maio de 2022

Estilos

As comemorações oficiais do Dia da Cidade, que ainda vão prosseguir até ao final do dia, ficaram marcadas, na manhã de hoje, por dois acontecimentos que envaidecem esta Casa.

A filha recebeu a Medalha de Mérito Educativo pelo trabalho de investigação, no seu todo, na área dos peixes de água doce, e pelo labor desenvolvido no projecto Peixes Nativos, dedicado à monitorização e educação ambiental, centrado, não unicamente mas com especial enfoque, nos jovens alunos das escolas do 1º. ciclo da Região Oeste.

Ao mesmo tempo que a mãe era agraciada, o neto Grande disputava, nas Piscinas Municipais da cidade, o Torneio de Fundo de Natação, onde venceu a prova de 400 metros estilos.

Grande estilo, sem dúvida, mas discreto, como convém. A Casa agradece muito, e babada.

sábado, 14 de maio de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

Já há muito que perdi a conta aos livros que li e, de muitos deles, recordo pouco ou nada mesmo. Isso não invalida que, presunçoso, por vezes me convença de que sou um grande leitor. Falso, como a seguir se demonstra sem margem para dúvidas.

Acabei de ler "Um diário de leituras - treze livros para treze meses", de Alberto Manguel, escritor argentino que recentemente se instalou em Portugal, doando a sua biblioteca à cidade de Lisboa. Dos treze autores mencionados, e comentados, no livro, conheço sete. Dos livros referidos, li três, dois deles em língua portuguesa directa: Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis e Viagens na minha terra, de Almeida Garrett. O terceiro é Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, que li, numa tradução antiga, quando o Acordo Ortográfico ainda estava arredio, bem longe, talvez na Patagónia ou no Alasca, onde deveria ter permanecido.

Uma vez mais provei a mim mesmo que presunção e água benta, cada um toma a que quer, e que quanto mais sei, maior é a minha ignorância.

"(...) Estendido na cama com pontadas de dor nos ombros e nas pernas, penso que a velhice pode ser medida em pequenos inconvenientes irritantes como este. Quando eu era novo, o meu corpo estava simplesmente presente e não chamava a atenção para si mesmo. Agora, parece uma criança choramingas, constantemente a puxar-me pela manga, a exigir atenção. (...)"

Um diário de leituras
(Treze livros para treze meses)
Alberto Manguel

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Ondas

A Foz é sempre uma caixinha de surpresas e, talvez por isso, ou se adora ou se odeia. O céu, por aqui, estava bem azul, o vento tinha falta de comparência, indiciando a possibilidade de uma bela manhã de praia, com a maré vazia a abrir caminho a uma ida até às rochas. Estas eram as premissas, pressionadas ou alimentadas pela vontade de abrir a época, que Junho já está quase à porta.

- Está muito carregado lá ao fundo. Deve estar nevoeiro.

Sem tirar nem pôr. A chegada ao alto mostrou um nevoeiro cerrado, que não deixava ver o mar. Lá em baixo, a situação era convidativa a voltar para casa: tudo escuro, uma brisa salpicada, desagradável, fria, até.

- Na Lagoa parece já estar aberto.

Distarão quinhentos metros, pouco mais, do mar até ao cais da Lagoa. A diferença entre um local e o outro era abissal. As chaves do céu agem muito mais depressa na Lagoa do que no mar. Preferências que não se entendem. Esquisitices. Mas, por lá, havia sol quente, céu azul, ausência de vento, muita gente a apanhar berbigão, alguma outra a trabalhar o bronze, o parque das autocaravanas cheio de turistas, nacionais e estrangeiros, alguns operários a proceder a reparações pontuais, a senhora dos petiscos já deveria estar a aprontá-los, tal era o cheirinho que vinha da cozinha.

É sempre agradável ir até à Lagoa. A paisagem é linda, o espelho de água, inigualável. Faltam as ondas ...

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Festas da Cidade

As Festas da Cidade deste ano são muito diferentes das anteriores e já não por culpa do coronavírus. Houve mudança e, ao que parece, há gente com muitas saudades do concerto e do fogo de artifício, e que tem manifestado a sua discordância nos orgãos de comunicação electrónica que estão na moda.

Este ano, para além de não haver concerto na Avenida, também não haverá as habituais inaugurações e, julgo, a largada de pombos.

É bom mudar, ainda que tudo possa continuar na mesma! Vamos ver.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Nuvens

Pelo céu vai uma nuvem,
Todos dizem - bem na vi.
Todos falam e murmuram,
Ninguém olha para si.

Uma quadra popular que, teimosamente, permanece na minha memória, lá na gaveta do lado esquerdo, bem no fundo mas sempre disponível para emergir. Desde a infância. Era utilizada lá em casa para obstar à tentação de falar sobre a vida alheia, a coscuvilhice, o que acontecia na casa dos outros e que não nos devia causar regozijo ou inveja.

- Todos temos defeitos ... não digas mal do teu vizinho, que o teu pode vir a caminho.

Até hoje! Não digo que, por vezes, não apareçam indivíduos, coisas, situações, que me chocam, causam alguma incomodidade, se mostram incompreensíveis para o olhar que, curioso, não perde pitada. Outras vezes, olho para mim e concluo que haverá gente que me acha estranho, alguns que não vão com a minha cara, outros que adoram ver-me ... pelas costas.

Sou mau garfo, péssimo copo, gosto de ler e ouvir música não por estar na moda, não vejo telenovelas, dispenso os programas televisivos de "encher chouriços", sou crítico, por vezes em excesso, tenho uma personalidade forte ou melhor, numa expressão mais prosaica, sou teimoso que nem um burro.

Convivo bem com todas estas minhas "qualidades" e tento sempre olhar para mim, com a expectativa de me compreender, e entender o que fiz de mal ou o que motivou que esteja a mais, que não possa jogar ali, naquele campo que até parecia acessível e gostoso. 

Quando acontece, não muitas vezes, felizmente, aguardo calmamente que o tempo se encarregue de limpar a sujidade e lembro-me do Engº. Sousa Veloso e da forma como se despedia da sua TV Rural: "Até ao próximo programa. Despeço-me com amizade."

terça-feira, 10 de maio de 2022

Ninho

O azul celeste poisa no jardim e dá vida nova às flores, aos arbustos, à relva, a tudo quanto por lá habita e mesmo aos visitantes diários que vão, depois, dormir noutros hotéis.

A escova-de-garrafa é visitada, diariamente, por centenas (milhares?) de abelhas. Sem se preocuparem com o que se passa à sua volta, exercem o seu labor e cumprem a sua missão de retirar o pólen que hão-de transportar para a fábrica destinatária. A colmeia receberá a matéria-prima e produzirá o mel, para satisfação dos gulosos e daqueles que, não o sendo, beneficiarão das qualidades salutares do produto.

Os pardais circulam sem receios, embora com o olhito atento a qualquer aproximação que considerem potencialmente perigosa. Os melros, também sempre vigilantes, vão-se encolhendo, andando devagar por entre os arbustos e, mal se sentem com o mínimo de segurança, voam soltando o grito de liberdade que lhes é característico.

Os humanos observam tudo isto sem qualquer intervenção. Contudo, uma aproximação mais atenta e surge a constatação de que a cameleira está demasiado crescida, quase a galgar o muro para o quintal do vizinho.

- Vou cortar um pouco. Está enorme ...

O trabalho não chegou ao fim. Lá no meio, bem escondido, o ninho surgiu com os melrinhos ainda bem pequeninos e de olhos fechados. Nem o melro nem a "melra" andavam por ali, decerto ocupados com o trabalho que garantirá o sustento do lar. Não deram pela invasão, embora, talvez, tivessem estranhado a diminuição da segurança.

Para grandes males, grandes remédios: nem mais um corte! Ficará para quando os pequeninos abandonarem o lar e se dedicarem a percorrer o espaço por conta própria, com o silvo característico e a beleza do seu voo picado.