segunda-feira, 18 de julho de 2022

Formigueiros

Este ano, sem qualquer autorização ou aviso, as formigas tomaram de assalto o jardim e, na labuta que lhes é costumeira e está nas entranhas, devem já ter construído um intrincado labirinto que, espera-se, não irá comprometer a segurança dos alicerces da casa. Os montes de areia que vão aparecendo diariamente fazem ter algumas dúvidas mas a sua capacidade ainda não deve chegar a tanto.

São aos milhares, sempre no carreiro, algumas em sentido contrário como a que o Zeca imortalizou, levando mercadoria para as catacumbas, garantindo a subsistência actual e a futura,  para o inverno que há-de chegar. Esse trabalho árduo irá permitir-lhes gozar com a cigarra da fábula, que não paira por aqui e deverá estar a deliciar-se, cantando sob o sol escaldante as músicas que animam o país a arder e em alerta permanente.

A ocupação, selvagem, que efectuaram, sem qualquer autorização prévia ou posterior, provoca um incómodo terrível em quem já por cá estava e anda com as partes de baixo (não as partes baixas) sem protecção. Mordem que se fartam, causando muita comichão e alguma dor. Ainda mal se chega ao quintal e já uma, mais afoita, subiu pelas pernas ou atingiu os braços, sem dar tempo para que se perceba de onde vem e como conseguiu subir. As restantes seguem-lhe as pisadas e, num ápice, são dezenas. Parece que o seu objectivo é acabar com o direito de andar descalço ou de chinelos no jardim.

Pode ser uma violação dos direitos dos animais, ser até punível por lei mas, aquelas atrevidotas que conseguem macular-me a pele, dificilmente repetirão a façanha, por, na medida do possível, ficarem impedidas de ter segunda oportunidade.

domingo, 17 de julho de 2022

Helicicultura

Na sua velocidade de caracol segue, atento, tudo quanto à sua volta se passa, com atenção precisa e tentando ter rapidez na acção. Os "corninhos" são as antenas de radar, sempre sintonizadas, e que lhe permitem fugir, à velocidade estonteante de caracol, dos obstáculos, encolher-se na casca quando o perigo se aproxima, observar a paisagem com amplitude completa, aproveitando bem as vistas interessantes, o que nem sempre acontece.

O caracol aproveita tudo e tenta usufruir, ao máximo, do que lhe é oferecido à vista, sem encargos nem regras, a não ser a que o obriga a estar atento às pisadelas, às desfeitas, às vinganças, a tudo o que a vida que o rodeia lhe proporciona, por mais que se esforce a ser-lhe indiferente. Não abre portas para atropelar os outros, sejam eles animais esquisitos, caracóis ou lesmas. Todos têm direito à vida que querem, gostam ou podem. As portas podem sempre abrir-se mas as correntes de ar deviam apenas constipar quem as abriu.

Apesar de todo o cuidado, de a pisadela o poder poupar e ser como o totoloto, que só sai aos outros, tem consciência que o mais provável é terminar num qualquer grelhador ou fogueira, ou refogado num tacho bem temperado. Para conseguir passar "por entre os intervalos da chuva" e resistir, tem de ser persistente, cuidadoso, paciente e, sobretudo, afortunado.

Qual a diferença entre a vida do caracol e a de qualquer outro animal? Responda quem souber, que eu não estou para aí virado.

sábado, 16 de julho de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) Zakaly

O homem tem a cara marcada pela varíola. Fala em voz baixa e tem um sotaque esquisito. Mesmo assim, Zakaly entende o que ele quer dizer: eles vão nos comer. Espremido entre os adultos, Zakaly escuta o homem contar o que entreouviu: assim que todos descerem do barco, já estará tudo pronto. Estão preparando uma grande festa para o governador deles. E o prato principal somos nós.

Então é verdade, pensa Zakaly. As histórias correm de boca em boca, com detalhes diferentes, mas as personagens são sempre os mesmos: seres sinistros, de longos cabelos e caras vermelhas, que se deleitam em comer carne humana. Alguns dizem que eles assam a gente na brasa, outros afirmam que eles nos cozinham em um caldeirão. Muitos dizem que eles têm predileção por crianças, por terem a carne mais tenra. Zakaly se apalpa, imaginando que gosto terão seus braços, sua barriga, suas pernas.

Os adultos, nervosos, perguntam ao homem: mas você tem certeza? O homem balança a cabeça, gravemente. É escravo dos brancos há quase dois anos, entende a língua deles. Viu duas vezes os brancos comendo gente em grandes banquetes, e nem que vivesse dez mil anos se esqueceria disso. Não sabe por que os brancos o pouparam até agora, mas sabe que não vai durar muito e não quer morrer devorado. Diz que há poucos brancos no barco e que, se atacarmos de surpresa e tivermos sorte, conseguiremos matar todos. (...)

Alguns humanos
Gustavo Pacheco

sexta-feira, 15 de julho de 2022

A arder

Os incêndios têm assolado todo o país. Fazem primeiras páginas, abrem e fecham telejornais, dão protagonismo a gente que, se preciso for, se coloca em bicos de pés apenas para trinta segundos de fama e exibição. Surgem soluções miraculosas, apontam-se caminhos, replicam-se estratégias, tudo igualzinho ao que se ouve há vários anos.

"Acabou" a guerra, a esperada inflação foi subtraída, os fundos da "bazuca" resguardados no cofre, as tricas políticas perderam protagonismo, cessa "tudo que a antiga musa canta / que outro valor mais alto se alevanta".

É o fogo, a lavrar por sítios de acessos dificílimos, escassez de tudo, com operacionais cansados, ausência de meios aéreos, pânico entre os que sentem as chamas incontroláveis a chegar e o repórter a incomodar, rescaldos, o fumo vê-se bem daqui como mostra o nosso operador, a chama está a consumir esta acácia que tem mais de quatro metros de altura, o vento mudou de direcção e obrigou ao reposicionamento das forças em presença, os números, a linguagem, o mesmo do ano passado e do outro e do outro... As câmaras registam, o repórter relata, os "sabões" comentam no estúdio, os responsáveis pelo comando do teatro das operações divulgam números e indicam que novas estratégias estão a ser equacionadas.

Vão sobrando alguns, poucos, bocados de floresta que o fogo não consome, graças, na maioria dos casos, à sorte, porque ingredientes não lhes faltam, do mato aos caniços, dos fetos amarelos às ervas enormes e bem sequinhas, tudo à espera que um fósforo os coloque a arder, em conjunto com muitos milhões de euros que, anualmente, se consomem nos combates.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

quarta-feira, 13 de julho de 2022

Rapidez

Quarta passada, semana acabada!

Julgo que já coloquei por aqui esta frase, mas não me dei ao trabalho de ir verificar. Afinal, blogue já por aqui anda desde 2006 o que, convenhamos, é obra. Presunção e água benta, cada um toma a que quer ...

Voltando à frase: acompanha-me há muitos anos e hoje foi objecto de chamada à colação da conversa.

- O tempo passa a correr. Está tudo a andar muito depressa e agora precisávamos era que andasse devagar ...

Pois ... mas não anda. Por mais esforços que façamos a pensar, e a dizer, o contrário, os segundos continuam a fazer minutos, estes perfazem horas e estas, teimosas como alguém que conheço bem mas não digo quem é (tentem adivinhar), rapidamente contam vinte e quatro e mudam a folha da agenda,

- O Verão está quase no fim e ainda agora começou ... daqui a pouco é Natal e, mal reparas, já passou mais um ano!

Conversa de velhos, depois de um bom banho, que retempera forças e talvez atrase o tempo.

Nunca se sabe! 

terça-feira, 12 de julho de 2022

Caloraça

Está um calor de "ananases" por todo o país, de tal maneira forte que assa canas ao sol e obriga a que até os homónimos da cacafonia se resguardem e vão bebendo muita água, para estarem sempre hidratados. É a sobrevivência de todos, mesmo os tais, que está em causa e, principalmente, a  dos mais vulneráveis. (Quer queira, quer não, a influência da linguagem mais ouvida faz-se sentir)

O Oeste está quentinho. Ainda assim, bem longe do que evidencia o mapa das temperaturas nas outras regiões do país. Por aqui, é verdade que não há a humidade do costume, mas o sol permanece escondidinho atrás das nuvens, talvez para perguntar à lua "quando a verá amanhecer", convencido que um dia isso acontecerá. Não terá sorte nenhuma, porque a lua não está disponível para com ele se encontrar e muito menos para lhe aturar as madurezas. São razões bem conhecidas e objecto da devida divulgação em tempos idos, que, como é óbvio, não cabem neste espaço.

Quem tiver curiosidade em conhecer as razões "lunares" aduzidas, pesquise na Internet. Está lá tudo ... ou talvez não!

segunda-feira, 11 de julho de 2022

Regresso

A última edição do Cistermúsica aconteceu em 2019. Como a tantos outros festivais, espectáculos, concertos e que tais, o coronavírus mandou-o esconder-se e impôs a sua ditadura, obrigando uma pausa de duas edições que, bem feitas as contas, dão três anos de ausência.

Voltou e isso é que é importante. Vai ter espectáculos até 6 de Agosto, com a qualidade a que sempre nos habituou.

Ontem foi uma noite deliciosa, a ver e ouvir um quarteto de cordas da Coreia do Sul - Quarteto Esmé -, com quatro intérpretes de luxo, que encheram a noite no recato do celeiro do Mosteiro.

Até ao final, ainda lá voltaremos pelo menos mais duas vezes, mas o concerto de ontem ficará a fazer parte da memória em lugar especial.

domingo, 10 de julho de 2022

Clima

Contado ninguém acredita ... após três dias de calor intenso e mar encapelado, a Foz apresentou-se hoje de "capacete", ventinho norte e mar chão. No seu melhor, só surpreendendo quem a não conhece.

Pelo resto do país continua o calor abrasador, com o fogo a destruir a floresta e a ameaçar habitações, como sempre. As reportagens surgem fortes, com números de viaturas e de operacionais a ilustrarem a gravidade da situação e a demonstrar quão insuficientes se mantêm os meios postos à disposição dos actores nos teatros de operações, sempre colocados em prontidão atempada e chegando aos locais de forma atrasada. Abrem-se telejornais, com conferências de imprensa constantes, culpando a negligência de todos e de cada um, ilustradas em meio écran por populações em pânico agarradas a manguerinhas de jardim. São constantes os lamentos da impossibilidade de combate por dificuldades de acesso e  ausência de meios aéreos. "Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes".

No final do Verão terão ardido mais uns milhares largos de hectares de floresta, nomeadamente de eucaliptal, far-se-á um balanço onde serão registadas algumas melhorias em relação ao ano transacto, ilustradas por percentagens elucidativas do progresso conseguido e pela necessidade, imperiosa, de reforçar os meios de combate disponíveis e a coordenação efectiva de todas as forças, para que a situação não se repita. Será equacionada, uma vez mais, a reflorestação com espécies autóctones e a criação de estradões que facilitem o acesso e o combate. Também se dará ênfase à vigilância, fundamental para que os meios em prontidão cheguem rapidamente aos locais onde são necessários.

A preocupação com o calor e as suas consequências é notória e, por isso, o Primeiro-Ministro cancelou a viagem prevista a Moçambique. Ficou claro que a sua presença no nosso país é não só fundamental com essencial para que não haja descoordenação na "guerra" e muito menos no Governo.

Atento, como sempre, o Presidente da República seguiu-lhe as pisadas e já não vai aos Estados Unidos. Não porque não tivesse lá almoço, mas apenas por ser imprescindível na "guerra" dos fogos que está em marcha, e que, infelizmente, parece, tal como a outra, não ter fim à vista. A presença do PR é essencial para dar as notícias, estabelecer a táctica e garantir resultados.

Não será por falta de atenção de quem governa que o país arderá.

sábado, 9 de julho de 2022

À tardinha

Num final de tarde quentinho, uma visita ao Museu José Malhoa para ver a exposição temporária e assistir a um excelente espectáculo musical, com o Coral das Caldas da Rainha, Júlia Valentim e Fernando Lopes, numa miscelânea de música que atingiu grandes momentos. As adaptações de músicas conhecidas ao estilo jazístico de Júlia Valentim, acompanhada de forma excelente por Fernando Lopes souberam a pouco, depois de o Coral das Caldas ter apresentado também um conjunto de peças muito bonitas e com interpretações de alto nível.

O Coral terminou a sua actuação com o recado de José Mário Branco, adaptado ao conjunto de vozes e fora do comum. Muito bom.