Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
sábado, 10 de setembro de 2022
sexta-feira, 9 de setembro de 2022
Escuridão
Os estores estão sempre corridos, as portas e as janelas fechadas. Vivem enclausurados em casa e passam dias sem dela saírem. Os contactos resumem-se a um meneio de cabeça, com um sussurro de saudação.
O "chefe", logo pela manhã, vai comprar o pão. Rapidamente regressa ao "paraíso", onde tudo se encontra blindado. A porta abre-se. Fecha num instante, não permitindo indiscrições internas. Se o carteiro ou alguém toca a campainha, abre-se uma nesga para ouvir o que o visitante tem para contar ou entregar. Tudo extremamente rápido, que há muito para fazer internamente.
À noite, o "chefe" pega no carro e vai dar uma volta, normalmente sozinho. Não demora muito! As luzes são apagadas ainda antes de o carro estar devidamente arrumado no quintal. Raramente a família sai em conjunto e, quando isso acontece, é uma aventura digna de registo. O chefe instala-se ao volante; uma das filhas traz um saquinho, que coloca na mala; a outra surge daí a pouco, com outro saquinho, que vai para o banco de trás; a mãe é a última a chegar, movendo-se com alguma dificuldade e trazendo mais um saquinho.
Com toda a gente instalada, o "chefe" põe o motor a trabalhar. Alto! Falta qualquer coisa! A mãe sai e o motor continua a fazer barulho. Por pouco tempo. O "chefe" acha a demora muita e a gasolina está cara. Desliga-o. A mãe regressa, sem nada nas mãos. Instala-se no "lugar do morto". Sai a filha mais velha. Não demora quase nada e traz mais um saquinho. Finalmente, estão reunidas as condições para a viagem e a marcha inicia-se.
Regressarão à noite, já no sossego e com a reserva de que tanto gostam.
A conta da luz deve ser enorme ou serão corujas?
quinta-feira, 8 de setembro de 2022
Palavras bonitas
CRUELDADES
Sou da condiçãodo voovivo no gume da facana própria feridada feridase o poema desacataE se as palavras inventovisto-as com os punhaise os espinhos do pensamentoEvito silvas e frestasas crueldades fataisretiro o selo do lacreMisturo o muito e o maisPaixãoMaria Teresa HortaD. Quixote (2021)
quarta-feira, 7 de setembro de 2022
Independência
Mesmo quando o afã do dia deixa pouco tempo para pensar nos rabiscos, há um esforço para alimentar este vício, que começou em 2006 e, desde Abril de 2020, a pandemia permitiu ou obrigou a dar-lhe comida diariamente.
Hoje comemoram-se 200 anos do Grito do Ipiranga, gritado por D. Pedro IV, de Portugal, I do Brasil e o nosso PR foi lá, para assistir às festas. A avaliar pelas notícias e pelas conversas de muitos brasileiros que para cá vieram, a situação naquele país agrava-se todos os dias, com muita gente a passar fome. Bem ou mal contados, são referidos cerca de trinta milhões de brasileiros, três vezes a população de Portugal.
É quase certo que o "caramelo" que por lá manda terá uma explicação para isto. O meu problema é que não consigo ouvi-lo e muito menos entendê-lo, por não perceber patavina do que ele diz, sempre com aquela boca cheia de favas.
terça-feira, 6 de setembro de 2022
Inflação
"Deveria ter sido mais cedo. Receber agora implica receber menos em 2023. É pouco. Para fazerem isto, mais valia estarem quietos. As coisas estão todas a aumentar, até o pão. Sou contra. Acho que podiam pagar muito mais. Já não se aguenta."
"Aguenta, aguenta", afirmou há uns anos um reputado banqueiro, numa outra crise. Aguentou-se mesmo e não houve medidas excepcionais. Cada um fez pela vida e só houve "passos" próprios para ultrapassar os problemas. Memórias curtas ...
Marcelo, sempre atento, aproveitou para transmitir urbi et orbi que o PSD tinha sido fundamental, ao fazer propostas que obrigaram o governo a tomar decisões. O colinho dá sempre jeito e fica para memória futura. O PR sabe bem disso. É importante estar sempre presente e ter protagonismo, tanto mais quando se está de partida para o Brasil e não se sabe como a viagem irá correr.
Os comentadores, barões, marqueses ou duques, puxaram dos seus galões, analisaram, fizeram contas, estudaram ao pormenor, foram ao âmago das questões, ao cerne das coisas, aos interstícios da economia, aos meandros das finanças, aos números do orçamento, às projecções claras e convincentes do que vem aí e, com o brilhantismo do costume, concluíram, sem margem para quaisquer dúvidas:
- Era possível fazer muito mais, como o futuro demonstrará.
Se correr mal e tudo isto ficar mais complicado, os mesmos de agora virão dizer que, afinal, tudo era previsível e só não viu quem não esteve atento.
A guerra continua a todo o gás ... ou sem ele!
segunda-feira, 5 de setembro de 2022
Cabelos
Podia ser à escovinha, uma carecada, à tijela, rente, rapado à navalha ou só tesoura. Era sempre na barbearia e o barbeiro, responsável, dizia umas larachas, contava umas novidades, falava do Benfica e, no final, despedia-se:
- Então até para o mês que vem.
Muito legitimamente foi de férias. Avisou mas a cabeça já não é o que era, e o cabelo continua a crescer. É necessário pô-lo em condições de não se enrolar e de não dar muito trabalho a secar quando se sai do mar.
Há sempre uma primeira vez para tudo!
Hoje é dia de experimentar uma nova sensação, que terá início às 19 horas, hora tão estranha para cortar o cabelo que, mesmo puxando a memória, não me lembro de alguma vez ter acontecido.
Depois de muitos anos a caminhar para a mesma barbearia, o cabelo vai ser cortado por um técnico a sério, devidamente habilitado, moderno, actualizado, instalado numa barber shop. Imagino que será bué da fixe, tipo festa, durará uma beca e não será uma coisa tipo xata.
Não deverá ter larachas, nem conversas da treta e muito menos do Glorioso. Vamos ver se saio de lá tipo bué satisfeito.
Sempre a aprender!
domingo, 4 de setembro de 2022
Ânsias
Tropeçou num calhau, caiu desamparado, fez um galo na testa. A mãe, ao apalpar a saliência, calou o choramingas, dizendo:
- Vai cantar à meia-noite.
Não cantou. No dia seguinte ainda estava negro. Devia ter posto gelo. O frigorífico tinha ido de férias. Dois dias depois o galo já não existia. O aviso surgiu, solene, como convém a qualquer aviso que se preze.
- Tens de ter cuidado. Não podes andar sempre a correr, a escaravelhar, a saltar como as cabrinhas. Só me dás fezes!
Nunca parava quieto e a mãe, como todas as mães, preocupava-se.
- Parece que tens bicho carpinteiro.
Não tinha bicho. Era a curiosidade que o movia. A ânsia de ver, de perceber, de saber. Ouvia, perguntava, muitas vezes obtinha como resposta um esclarecedor
- Cala-te!
e continuava a cuscar, a espreitar com receio de que algo escapasse à sua reduzida sagacidade e à dificuldade de entender os adultos. Esforçava-se, mas era difícil, muito difícil.
A concentração era pouca ou nenhuma. A atenção dispersava-se de um lado para o outro, com a elasticidade da gazela e a velocidade da chita. Os olhos percorriam tudo e acabavam por nada reter. Tudo era novo, aliciante, provocador, interessante, estimulante. E tinha "pressa de saber, que a vida é água a correr".
Cresceu. Manteve a curiosidade, a pressa, a ânsia, o estímulo do desconhecido.
Se tivesse crescido hoje, era hiperactivo e talvez fosse medicado com Ritalina ...
sábado, 3 de setembro de 2022
Sonhos
Li, ouvi, ou sonhei que Mário Laginha e Pedro Burmester estão a preparar um espectáculo a dois, apenas com músicas de Bernardo Sassetti.
Vou estar atento e tentar não perder. Infelizmente, a três nunca mais será possível. Ficam os registos para recordar sempre.
sexta-feira, 2 de setembro de 2022
Comboios
Caminhamos a alta velocidade para o final do ano e nem sequer utilizamos o TGV de que tanto se fala e nunca mais cá chega.
Continuamos a ter as ronceiras automotoras como as que, há quase meio século, me serviam de meio de transporte daqui para a capital e de lá para cá, só aos fins de semana e não em todos. As viagens, num e noutro sentido, eram agradáveis. Permitiam sempre pôr um pouco do sono em dia (ou em noite), sentado ou deitado, consoante a disponibilidade do banco. O "pica" surgia na carruagem após uma das muitas paragens, em todas as estações e apeadeiros, e, se era simpático, seguia em frente e não perturbava o sonho do dorminhoco. Se não o era ... abanava com força o ombro e o bocadinho de papel era subtraído ao bolso e entregue quase sem que os olhos se abrissem. Depois, era aguardar pelo túnel do Rossio ou pela chegada às Caldas. Na época, duas horas de sono, mesmo que solto, eram muito importantes.
Ouve-se dizer que é desta! A linha do Oeste irá ser completamente remodelada, electrificada e, dentro de dois anos, permitirá que uma ida a Lisboa se faça em pouco mais de uma hora, confortavelmente sentado e sem as pernas encolhidas. Nessa altura, a procura deverá impedir que haja gente deitada no banco, mas compensará.
A ver vamos!
quinta-feira, 1 de setembro de 2022
Espelho
Pela manhã, quando o dia ainda nem tinha percorrido um terço do que lhe estava destinado, já o "homem do espelho" ali se instalava, preparado para, como é costume, me questionar acerca da barba, dos cabelos brancos, das rugas, da cara de caso em razão da noite mal dormida, dos planos para as tarefas do dia, tudo o que lhe vem à cabeça e despeja sobre mim, sem preceito nem respeito, enquanto a cara é ensaboada e antes de a lâmina começar a (des)fazer a barba.
Surpresa! Hoje não foi assim, porque toda a regra tem excepção, sabe-se há tempos infinitos.
- Não vale a pena gastar "latim" a dizer-te que estás velho. Toda a gente vê e tu melhor que ninguém. Lembro-te apenas, para a eventualidade de te teres esquecido, que o teu filho faz hoje anos e que, até para ele, o tempo passou num instante.
Estava eu, meio aparvalhado às voltas com a espuma de barbear, à espera que surgisse do lado de lá alguma coisa nova, uma ideia genial, uma descoberta providencial, qualquer coisa que me diminuísse a santa ignorância e ele sai-se com aquela vulgaridade.
- Que novidade ... Isso sei eu há quarenta e um anos e não preciso que me lembres!
