Aquele professor era famoso pelas estórias que contava nas aulas. Antes da matéria havia sempre alguma nova, que prendia a atenção de toda a plateia e fazia o tempo passar mais depressa. Muitas aulas houve que só foram reais nos últimos cinco minutos ou, se a campainha tocava, apenas por uns instantes, para lembrar os temas que deviam ter sido tratados.
Dizia ser um caçador exímio, um pescador ainda melhor, jogador de xadrez e damas imbatível, imparável com uma raqueta de ténis de mesa nas mãos, tudo isto numa verborreia impecável, clara e sem hipóteses de contestação ou contraditório, palavras que não constavam do vocabulário acessível por aquela época. Falava de música, a sério e não essa coisa eléctrica que vocês ouvem. Desliga-se a ficha, acabou. Na única vez que se disponibilizou para as damas, com o I., perdeu. Nunca mais se sentou frente a um aluno, com o tabuleiro pelo meio. De vez em quando dava umas bolas no ténis de mesa, mas jogar, nem pensar.
- Imaginem que ontem fui à Foz. O dia estava lindo e o mar com a cor maravilhosa do costume. Saí do carro e olhei lá bem para o fundo. O cardume ia a passar. Voltei de imediato a casa, peguei na cana de pesca, fui a S. Martinho e ainda os apanhei quase todos.
Sorrisos escondidos, olhares cúmplices, tudo excitado e alertado pelo toque da campainha.
- Há dúvidas? O ponto (agora diz-se teste) é na próxima aula e não vai ser fácil!




