quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Mea culpa

"Os peixes ouvem mas não falam; os homens ouvem pouco e falam muito."
Padre António Vieira - Sermão de Santo António aos peixes

Marcelo Rebelo de Sousa, como bom leitor que sempre foi, deve ter lido este livro há muitos, muitos anos, ainda que, com a pressa que lhe é característica, passou pelo acima formulado como cão por vinha vindimada e não fixou a recomendação implícita.

Foi pena e agora já não é fácil mudar. Cumpriu-se o ditado de que "quem muito fala pouco acerta" e teve de fazer mea culpa na forma como comentou essa grande chatice que está na ordem do dia e que a Igreja não consegue digerir e muito menos explicar.

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Lápis

Foi a primeira ferramenta de escrita que usei e isso talvez justifique o gosto que ainda se mantém em escrever a lápis. Sempre que necessito de escrevinhar algo, por curto que seja, a tentação é forte e, bastas vezes, o rascunho a lápis sobrepõe-se à tentação de digitar directamente no computador, ainda que haja alguma habilidade com o teclado (presunção e água benta ...).

Para além disto, o lápis sempre me acompanhou na leitura, servindo, em tempos, para anotações despertadas pelos conteúdos ou para comentários que, um dia, alguém lesse e achasse bem estúpidos. Estão por aí muitas provas, que não deixam esquecer essa fase. Agora já não comento nada, mas o lápis continua a acompanhar-me nas leituras.

A edição dos livros sofreu, julgo, transformações imensas no decorrer dos tempos e, ultimamente, deverá estar entregue aos programas informáticos que, automaticamente, se encarregam de efectuar as tarefas antes desempenhadas por aqueles senhores que liam e reliam as provas tipográficas, buscando a "gralha" que podia deitar um trabalho difícil para o lixo.

E é aqui que entra, de novo, o lápis: raro é o livro que não contém "gralhas" e erros ortográficos grosseiros, como os que detectei no livro cuja leitura está em curso: destinguem e caír.

O lápis, zangado e chato, assinala, corrige e sorri ...

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Ossos

Há já algum tempo que não conversava com ele, entendendo-se, claro, que o bom dia, boa tarde não são sinónimos de conversa, quando por aí nos encontramos.

- Isto não anda nada bem. Agora, com esta idade, rebentei o menisco. Durante o tempo da bola nunca tive nada nos joelhos e agora, toma.

Um olhar, mesmo não muito concentrado, dava para perceber que havia mais qualquer coisa para contar.

- Já foi ao médico?

- Claro que sim. Fui ao ortopedista F...., fiz vários exames ordenados por ele e, no fim, disse-me que era melhor aproveitar e colocar um joelho novo.

Não imaginava ser possível substituir o joelho natural por um artificial, mas parece que é e, de acordo com o médico do meu interlocutor, até é fácil. Sempre a aprender ...

- Torci o nariz e disse-lhe: ó doutor, na minha idade? Porque não, respondeu. Fica como novo e até nem é caro. Aí à volta de 8.000 Eur e a coisa faz-se. 

Estava satisfeito pelo desabafo mas era evidente o desconforto que a situação lhe causou. 

- Disse-lhe que ia pensar e falar com a minha mulher. Quando cheguei à rua, mandei-o à m..... com todas as letras, mas sem som. Vou ao SNS tratar do menisco e o joelho novo fica para quando voltar a jogar à bola!!!

Rimos os dois, ainda que seja difícil compreender o negócio na saúde.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Orçamento

O documento com as previsões orçamentais para 2023 foi hoje entregue na Assembleia da República, cumprindo, à risca, o prazo legalmente fixado para o efeito. Ficou, assim, desvendado o segredo, com a entrega da pen onde se fixa tudo. Longe vão os tempos das inúmeras páginas em papel, que os recepcionistas tinham dificuldade em manusear. Também desaparece a ansiedade do Presidente da República a qual, na sua idade, não é nada recomendável. Evaporam-se as adivinhações que por aí proliferaram e as opiniões sobre o desconhecido que foram sendo emitidas.

Lá para Janeiro de 2024 já se terá uma ideia, mais ou menos clara, sobre se a "adivinhação" correspondeu à realidade ou se foram "palpites" que pouco se ajustaram à realidade. Essas eventuais divergências já não preocuparão ninguém e muito menos levarão a extensos comentários ou opiniões. Barco parado não faz viagem e, por essa altura, já estará em vigor o OGE para 2024, que terá dado a celeuma do costume em finais de Setembro, princípios de Outubro de 2023, e nos dias subsequentes. 

Entretanto, as notícias de Leste não são nada animadoras e, aos olhos de quem, pelo menos por enquanto, está bem longe do conflito real, as nuvens adensam-se e a eminência de mais trovoada acentua-se.

Pergunta-se: as despesas que todos os países têm suportado estavam previstas e devidamente orçamentadas? Resposta: não sejas idiota. Podem sempre fazer-se orçamentos rectificativos, que legalizem os erros do prognóstico.

Há sempre um testo para uma panela. Clarinho como água!

domingo, 9 de outubro de 2022

Constatação

A visita de hoje ao Fólio, festival literário que se realiza na linda vila de Óbidos, confirmou a minha insignificância e permitiu verificar que qualquer semelhança entre a minha capacidade de pensar e de me exprimir com a de quem sabe nem sequer é mera coincidência: não existe mesmo.

A conversa do escritor Mia Couto com o psiquiatra José Gameiro, conduzida pela jornalista Sara Figueiredo Costa marcou bem a distância (era o tema) entre quem pensa bem, exterioriza melhor e sintetiza de forma magnífica, e os outros. 

Depois disto, ainda houve tempo para ouvir uma parte de um outro colóquio com a cantora Rita Redshoes, o actor Pedro Lamares e o escritor Afonso Cruz, com a pergunta "Os criadores têm super poderes?" a servir de tema. A parte ouvida foi, também, muito interessante.

Há ainda muito para ver e ouvir no Festival, mas a tarde de hoje será difícil de superar.

sábado, 8 de outubro de 2022

Se ...

Se Jorge de Sena (1919-1978) ainda por cá andasse, não perderia a oportunidade para fazer poemas direccionados a algumas pessoas que, gaguejando, tentam mascarar e justificar o que se vai descobrindo, quando lhes cabe "apenas" a obrigação de fomentar o escrutínio dos factos e a sua punição.

De púrpura andas vestido
Que Roma te concedeu
para que humilde defendas
o direito dos humildes
em Terras de Portugal.
Ai cardeal, cardeal!

Mas a mitra que te cobre
não te dói como os espinhos
na cabeça do teu Mestre.
Doem-te os cornos dos ricos
das terras de Portugal.
Ai cardeal, cardeal

9 de Dezembro de 1956 

Dedicácias
Jorge de Sena
Três Sinais Editores (1999) 

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Espanto

Merecerá um esgar de espanto ou apenas deve ser apelidado de parvoíce, meio estranha quando já está cumprido quase um quarto do século XXI? Talvez seja devido ao desenvolvimento das viagens espaciais, já acessíveis aos mortais bem endinheirados, ou à facilidade de contactos trazida pelos telemóveis e afins. Apesar de tudo, o espanto é generalizado, mesmo até para os incréus.

De acordo com as afirmações do chefe da igreja russa, Putin foi colocado no poder por determinação divina; do lado de lá do Atlântico, Bolsonaro reivindica para si a benção celeste e aqui, neste cantinho à beira mar plantado, Ventura afirma ser inspirado e abençoado por Deus.

Levanta-se a dúvida: chegarão estas notícias lá acima, ao lugar divino, ou de tanto ser invocado o seu nome em vão, Deus já não liga nenhuma e espera que o tempo faça o seu trabalho e liberte a sociedade de tais personagens, confiando no saber resultante da experiência de quem assistiu a tudo.

A mistura da religião com a política deu sempre mau resultado e originou muitas desgraças que ficaram e ficarão na história para todo o sempre, por mais véus que se tentem colocar. Estão a surgir "iluminados" que conseguem ser ouvidos, soletrando falinhas mansas e olhos doces, e tentando, a pouco e pouco mas de forma convincente, fabricar um futuro que não se afigura nada bom.

E tudo em nome de Deus, que não lhes passou qualquer procuração para o efeito.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Conversa fiada

Esta é uma crónica de um fictício debate, que não ocorreu mas podia ter acontecido numa qualquer televisão onde a actualidade assume o protagonismo, a primazia e a importância. Neste acontecimento não acontecido estão presentes o apresentador, a quem cabe fazer as honras da casa e dirigir a conversa, e três distintas damas que vêm fazendo furor nestes últimos tempos, a saber: a Senhora Doutora Guerra, ilustre gestora de conflitos, com influência conhecida e reconhecida em todos os cantos do mundo e, mais recentemente, na disputa entre a Ucrânia e a Rússia ou vice-versa, ou na invasão da primeira pela segunda, ou o que lhes aprouver; a Professora Doutora Inflação, com excelentes serviços prestados em vários países da América do Sul, e que resolveu regressar à Europa, para que os povos ditos e reditos como os mais bem instalados do planeta possam usufruir da sua larga e valiosa experiência; finalmente, a Desembargadora Taxa de Juro, única com direito à referência ao apelido de família, não apenas pela sua antiguidade mas, fundamentalmente, pela importância que detém na liderança das relações financeiras mundiais.

O apresentador dá as boas-vindas às presentes, agradecendo-lhes a disponibilidade para participarem numa discussão tão importante quanto necessária, e alerta para a necessidade imperiosa de as intervenções serem curtas e claras.

- O tempo, em televisão, é sempre curto e, por isso, partimos de imediato para o que aqui nos trouxe. Doutora Guerra, o que acha da situação que, actualmente, todos vivemos?

Antes de responder à sua pergunta, que agradeço, permita-me que cumprimente as ilustres participantes no painel e bem assim como a si e a todos os espectadores e espectadoras que nos seguem lá em casa, decerto com toda a atenção e interesse. Uma saudação especial para os animais de companhia, que não entenderão o que aqui vai acontecer, mas estarão atentos e deitadinhos no colo ou aos pés dos seus donos e donas. Quanto à situação actual no mundo, é difícil fazer uma avaliação pormenorizada, por ainda não ser possível conhecer todos os dados do problema, quais os interesses em jogo e o que poderá surgir de novo, com a evolução que já aconteceu e a que, por certo, irá surgir a breve trecho.

 - Muito obrigado, Doutora Guerra, pela clareza e pela capacidade de síntese da sua exposição tão clara. Dirijo-me, agora, à Professora Doutora Inflação, a quem questiono sobre se acha que o aumento de todos os bens veio para ficar ou é passageiro?

- Permita-me, em primeiro lugar, que saúde as minhas colegas de painel e faça minhas as doutas palavras proferidas pela Doutora Guerra, enfatizando, também, a saudação a todos os bichos e bichas que, em casa, estarão bem atentos e muito preocupados com o que, infelizmente, não vão ouvir esta noite. Em relação à sua pergunta, é claro para todos e todas que o aumento do custo dos bens, especialmente os essenciais, é preocupante e que o bom senso nos avisa para não se criarem alarmismos, que ainda viriam agravar mais a situação em que vivemos.

- Fico-lhe grato pela clareza e, como o nosso tempo está quase a chegar ao fim, apelo à capacidade de síntese que é, aliás, sempre seu apanágio, da Desembargadora Taxa de Juro, para que esclareça, a mim e principalmente aos nossos telespectadores: é ou não verdade que a Senhora pode vir a atingir valores nunca antes alcançados?

- Vou procurar ser sensível ao apelo para ser sintética, característica por si reconhecida e elogiada, o que muito agradeço, mas não posso nem quero deixar de prestar as minhas homenagens à qualidade científica e pessoal das minhas colegas de debate, de as cumprimentar efusivamente e a todos os telespectadores. Gostaria, ainda, de deixar expresso quanto me honra e apraz a participação neste debate, com assunto tão importante e gente tão ilustre. Quanto à sua pergunta, que agradeço e me permite prestar alguns esclarecimentos providenciais, devo dizer-lhe que ainda é muito cedo para alvitrar hipóteses, que seriam meras suposições carecidas de evidência científica e, por isso, pouco esclarecedoras. Como bem sabe, o mundo sofre alterações de minuto a minuto e a evolução do meu valor nunca foi constante nem linear, desde há muitos anos.

- E foi o debate possível. O nosso tempo chegou ao fim. Agradeço às insignes participantes o incómodo causado pela deslocação a este estúdio e também, e fundamentalmente, os brilhantes e esclarecedores contributos dados sobre temas que tanto nos preocupam hoje. Voltaremos na próxima semana!

E pronto. Com esclarecimentos deste nível, só não dorme quem é tolo!

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

República

 

Comemoram-se hoje 112 anos da implantação da República, embora durante este tempo houvesse uma parte, de quase meio século, em que o comando esteve nas mãos de um "monarca" sem pergaminhos nem sangue azul, e com tormentos que bem marcaram todos e todas, como agora se deve dizer.

Marcelo Rebelo de Sousa entendeu que era um bom momento para dar uma aula de História, assumindo a sua qualidade de conselheiro e de porteiro de portas que se irão abrir daqui a algum tempo, em função da alternância que a democracia encerra. Tem esperança que isso ainda aconteça no seu mandato, o que, decerto, lhe daria grande prazer.

Hoje, ao contrário do que aconteceu há alguns anos, o Presidente da República içou a bandeira nacional na posição correcta, talvez por ter presente o erro do seu antecessor e este não ter por lá aparecido, seguramente por estar preocupado com os bitaites que sente dever mandar, em vez de se deleitar com uns bons banhos na Praia da Coelha, com os cuidados devidos que a idade já aconselha.

VIVA A REPÚBLICA!

terça-feira, 4 de outubro de 2022

Semelhanças

A senhora professora andava preocupada com o comportamento do Carlinhos. Há já muito tempo que não participava nos debates da aula, não emitia opiniões, não contava estórias, não dizia asneiras, e só respondia, apenas por monossílabos, quando directamente questionado. Estava muito diferente do Carlinhos anteriormente interventivo, muitas vezes inconveniente, crítico dos colegas, comentador verrinoso, falador pelos cotovelos.

Por isso, a senhora professora achou que daquele dia não passava e iria directa ao assunto, para resolver o problema de vez.

- O menino Carlinhos tem algum problema que, eu ou os seus colegas, possamos ajudar a resolver?

 - Não, senhora professora, respondeu secamente.

- Então porque não participa nas aulas como fazia antes?

O Carlinhos hesitou durante alguns segundos. Os olhos da professora fitavam os seus, acusadores e acutilantes. Aqueles olhos mantiveram-no quieto e sem hipóteses de fuga à pergunta.

- Cansei-me, senhora professora. A senhora sabe tudo, ensina tudo, tem razão sobre tudo, até sobre a necessidade de usar sobretudo no Inverno, veja lá. Como posso eu participar se a minha ignorância é imensa e, na grande maioria das discussões, qualquer frase que eu diga é mal entendida, gozada pelos meus colegas e por si recriminada.

A professora embatucou e precisou de algum tempo para se recompor. Não lhe ocorria nada que servisse para quebrar aquele ruidoso silêncio que se instalou. Foi o Carlinhos que deu a volta à situação:

- A senhora professora sabe a semelhança entre uma sapataria e o forno da minha avó?

A vontade da professora era calá-lo de imediato mas, depois de tudo o que tinha dito, não seria pedagógico. Rendeu-se.

- Eu não, mas o menino vai ensinar-me, claro.

- Na sapataria, há sapatos. No forno, a minha avó assa patos.

A professora corou e, de imediato, continuou a explicar a gramática, enfatizando que o grito "Não à guerra" é muito diferente da afirmativa "Não há guerra", embora se pronunciem da mesma forma.